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O Clima Extremo É a Nossa Nova Realidade. Temos que Aceitá-la e Começar a Planejar

Conforme demonstraram os incêndios, as secas e as temperaturas que quebraram recordes, a era da pós-mudança climática chegou. Agora precisamos de franqueza e de ação da parte de nossos líderes

Gaia Vince1

Nem bem se passou um quarto deste século e as temperaturas médias globais já estão 1,75°C acima da média do período pré-industrial. O mês de janeiro de 2025 foi o mais quente já registrado e também atingiu o nível mais alto de temperatura mínima anual da superfície terrestre – e provavelmente a mínima mais alta nos últimos 120.000 anos. Isso tudo faz parte de um padrão muito claro. No ano passado, a temperatura média global foi de 1,6°C acima do período pré-industrial – um preocupante choque de realidade, uma vez que, passados apenas três meses da cúpula da COP29 em Baku, no Azerbaijão, os líderes mundiais ainda diziam que era possível limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C.

Agora definitivamente estamos no mundo pós-mudança climática, e as graves implicações disso demandam um franco reconhecimento. O fato é que agora estamos vivendo em um período de desastres incessantes que se desencadeiam juntamente com nosso desastre mais lento em escala planetária. Nesses tempos mais arriscados, precisamos estar preparados.

O janeiro mais quente começou com cenas literalmente saídas de Hollywood: incêndios furiosos engolindo algumas das propriedades mais valiosas do mundo, em Los Angeles, em um dos países mais ricos do planeta. Entre as cenas de devastação apocalíptica que invadiram nossas telas estavam dezenas de milhares de cidadãos atordoados forçados a evacuar, alguns deles os refugiados climáticos mais ricos do nosso planeta.

Enquanto os 200.000 residentes de Los Angeles retornam para suas casas, nestes tempos fadados ao desastre decisões difíceis terão que ser tomadas acerca de onde reconstruir e de quais lugares devem ser abandonados para se escapar do risco. Está claro que precisaremos de uma proteção melhor, às vezes adaptando as construções, mas também está claro que alguns lugares não serão mais capazes de abrigar grandes populações.

É uma situação difícil que é encarada, com menos alarde, por milhões de outras pessoas desalojadas pelo clima ao redor do mundo, das Filipinas a Somerset, do Quênia à Espanha. Em lugares mais pobres, quando forçados a abandonar suas casas inabitáveis, as pessoas podem acabar na prisão. Tomemos como exemplo o campo de refugiados de Dadaab, localizado no que hoje é um deserto no Quênia. Ele é o lar de mais de 300.000 refugiados aprisionados, a maioria composta de mulheres e crianças somalis fugindo da seca crônica e da fome, assim como das enchentes devastadoras. Os conflitos existentes na região são agravados por essas condições extremas, que tornam o Chifre da África cada vez mais inabitável.

As pessoas pobres que vivem nos desertos da região equatorial são as primeiras e mais gravemente afetadas. Mas o nosso planeta está agora mais perigoso para os humanos independentemente de onde eles habitam. Incêndios, enchentes, ondas de calor e secas estão matando e prejudicando as pessoas, as propriedades e a infraestrutura. O estrago social e psicológico é devastador para as comunidades afetadas. E também o são os custos econômicos. O seguro já é impagável – quando não, indisponível – em lugares de mais risco, o que eleva outros custos, muda a cara da vizinhança e aprofunda outras desigualdades. Todos nós temos que levar em consideração o risco climático ao escolher nossa moradia, nosso negócio ou o destino de nossas férias.

O impacto dos desastres naturais pode muito bem ser internacional. Por exemplo, a seca prolongada que atingiu o Canal do Panamá nos dois anos anteriores elevou os custos dos fretes e atrasou o mercado global em um momento em que as rotas marítimas alternativas estavam impedidas.

Desastres agrícolas podem ser devastadores tanto local, quanto globalmente. Eu conheci parentes de fazendeiros afetados pela seca que foram levados ao suicídio e outros que foram forçados a migrar de país. Ouvi falar de fazendeiros britânicos atingidos por enchentes e que perderam colheitas inteiras e foram assolados pela dívida. O impacto no preço dos alimentos pode se espalhar. A inflação dos alimentos no Reino Unido subiu 19,1% em 2023, elevando significativamente o custo de vida e arrastando para a desnutrição algumas pessoas que estavam na linha de pobreza. O preço do suco de laranja mais que dobrou depois que o cinturão da laranja na Flórida foi atingido por furacões no final de 2024; o preço do azeite de oliva disparou após o calor e a seca terem atingido as oliveiras, tornando-se o item mais furtado na Espanha.

Os desastres empobrecem as pessoas e são custosos para as nações, especialmente quando múltiplos desastres atingem o mesmo país. Em 2024, o Brasil sofreu com enchentes catastróficas na região Sul, que desabrigou mais de meio milhão de pessoas. No mesmo ano, a seca prolongada e o calor desencadearam incêndios devastadores ao longo da região da Amazônia e do Pantanal. Muitas vezes, um desastre atropela outros, por exemplo quando o Paquistão foi atingido por um calor insuportável e uma seca em 2022, antes que enchentes relâmpago devastadoras desabrigassem 33 milhões de pessoas em uma semana, seguidas por deslizamentos de terra que destruíram infraestruturas cruciais.

Na era pós-aquecimento global, podemos esperar eventos extremos mais graves e mais frequentes. Os desastres afetarão você e as pessoas que você ama nas próximas décadas. Temos que aceitar essa nova realidade e incluí-la em nossos planos.

A adaptação implica mudar a linguagem que usamos e ajustar nossas expectativas e estratégias. Ela demanda franqueza da parte de nossos líderes. Não podemos mais aceitar falar do aquecimento global como se ele fosse uma possibilidade futura que pode ser evitada. As pessoas estão morrendo e tendo suas vidas destruídas hoje; precisamos de uma resposta muito mais prática. Planejar casas em áreas de grande risco de enchente é negacionismo climático. E quanto àqueles que já vivem sob risco?

O planejamento adaptativo pode fazer uma enorme diferença. A Holanda é bastante adaptada ao risco de enchente – ela vem fazendo isso há anos. Isso inclui abrir mão de terras para dar “espaço para o rio” e a incrível barreira contra tempestade Maeslant, um prodígio da engenharia que protege áreas vulneráveis, incluindo Roterdã. A tempestade Pía, que causou danos substanciais na Alemanha, na Suíça e na Bélgica em dezembro de 2023, deixou incólumes os holandeses bem protegidos.

Os desastres vão sobrecarregar os países e muitos deles, incluindo o Reino Unido, não estão gastando o suficiente na preparação. As organizações de proteção civil precisam agora reagir a múltiplos desastres dentro do mesmo país, bem como ajudar seus vizinhos e, às vezes, continentes inteiros. A Austrália, por exemplo, conta com a ajuda do uso de aviões-tanque da América do Norte para extinguir seus incêndios de verão durante o inverno no hemisfério Norte. Porém, os incêndios em Los Angeles ocorreram em janeiro, enquanto Victoria também estava combatendo labaredas extremas. Agora que incêndios estão ocorrendo ao longo de todo o ano em ambos os continentes, isso se torna um problema, e a Austrália, os Estados Unidos e o Canadá terão que ampliar suas capacidades.

A proteção adaptativa não necessariamente significa grandes obras de engenharia. Eu visitei vilarejos em Bangladesh – um país sujeito a desastres – onde as pessoas flexivelmente mudam de emprego durante as cheias, as construções são mais seguras e, mais importante, todos sabem o que fazer quando soam os alarmes. A preparação para o desastre resultou que, nas décadas recentes, as mortes causadas por ciclones na Baía de Bengala despencaram, mesmo que os ciclones tenham se tornado mais graves e frequentes nesse período.

Você tem um plano para o caso de enchente na sua casa? Você ao menos receberia um alerta? Onde você se hospedaria e o que você levaria consigo se as chamas tomassem conta do seu prédio ou se você fosse evacuada do seu resort de férias? Viver nessa nova realidade significa estar preparado, desde preparar uma mochila de emergência até adquirir um sensor de enchente.

A resiliência tecnológica tem que ser combinada com a resiliência social, e isso se consegue investindo na sociedade. A mudança é desconfortável, principalmente quando você não a decidiu ou a planejou, mas as relações que você tem, as conexões que você fez, permitem que os elos mais fortes compensem os elos mais fracos – eles são o que vai nos dar apoio quando formos atingidos por desastres. Garantir que as comunidades sejam respaldadas por serviços confiáveis, que os jovens vejam sentido e anseiem pelo futuro, é algo crucial nisso.

Onde quer que você more, as condições estão mudando e as pessoas estão sentindo fisicamente, financeiramente e socialmente o impacto do clima extremo. Somos todos refugiados de um clima mais ameno, mas alguns de nós conseguiram se manter em suas casas. Nosso novo mundo está sendo construído sobre fundações mais instáveis, mas, com a franqueza de nossos líderes acerca da nossa realidade climática, nós todos podemos aprender a conviver com a incerteza. Os desastres climáticos são inevitáveis; mas eles não têm que ser catastróficos.

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(Este texto foi originalmente publicado no site do jornal The Guardian, em 15 de fevereiro de 2025. Agradecemos encarecidamente à autora por ceder os direitos da tradução. Para ler o original, clique aqui. Tradução de Antonio Barros.)

  1. Escritora, jornalista e apresentadora. Publicou o livro O século nômade e contribuiu para vários periódicos internacionais. ↩︎

Carbono, vol. 16 – março de 2026.
ISSN: 3085-7066

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