Bogna Konior1
“Aonde vamos?” perguntou Shi Qiang.
“Para o lugar mais escuro.”2
“Existe um enigma na língua quíchua: El que me nombra, me rompe. Aquilo que me nomeia, me quebra. A solução é, obviamente, o ‘silêncio’. Mas a verdade é que qualquer pessoa que saiba o seu nome pode lhe partir ao meio.”3
A internet é uma floresta sombria. Suas raízes crescem para cima, a copa se estende para baixo: envolvendo o planeta, a internet circula entre satélites e cabos submarinos. A internet é um espaço tangível, sim, mas também é uma extensão mental. Feita para o sonambulismo, para o delírio mundano. Para rituais de sacrifício. Pessoas se perdem nela ao emitirem luz nos lugares errados, expondo demais de si mesmas, comunicando-se impulsiva e imprudentemente.
Você pode acessá-la através de uma interface, mas também pelo seu próprio bolso. Você pode entrar por meio de uma tela, mas você precisa exibir algo de si próprio em troca. Uma viajante que adentra a floresta nunca está só; olhos envolvem-na como fita isolante.
Existe somente um simples enigma a se responder na entrada para a internet: O que você está pensando?
É um enigma que precisamos responder de novo e de novo.
Uma simples pergunta. O que você está pensando?
Um convite para se comunicar.
* * *
Nos anos 1990, a abordagem filosófica do romance cyberpunk de Mark Fisher nos proporcionou uma teoria persuasiva do ciberespaço como uma prótese da humanidade, uma natureza cibernética, uma extensão do sistema nervoso humano. Para Fisher, assim como os personagens no intoxicante clássico de William Gibson, Neuromancer, nós somos possuídos pela internet; tão vivos quanto a corrente digital que circula em nossas veias.
Somos destituídos de vontade e inertes como as máquinas com as quais nos tornamos neurologicamente íntimos, permitindo que invadam nossos canais de endorfina e impulsos sociais, viciados em seus estimulantes.4 Nossas neuroses, emoções e atenção são reguladas por nossos computadores. Como se estivéssemos em transe, seguimos o padrão coletivo de sentimentos que nos é transmitido – hipnose coletiva, um sentimento de indignação compartilhada, medo, raiva, alegria, catarse, justiça, vingança, prazer. Online, todos os impessoais eventos mundanos são vivenciados como intensamente pessoais, mesmo que não tenhamos parte alguma neles. Internalizamos tudo, lutamos para ver além de nós mesmos, para ver os mecanismos que não estão centrados em nós. A internet é uma claustrofobia de interioridade que apenas parece ser nossa. Ela “não funciona por supressão ou repressão, mas por meio de um processo participativo… [Ela] não representa, nem mesmo ‘manipula’, a opinião pública, mas a substitui”.5 Todas as ações são reações, reações previsíveis, infinitos sistemas nervosos oscilando no mesmo ritmo.
A maior parte do sofrimento humano vem de uma crença exagerada na capacidade de ação e no propósito, uma crença que o aspecto personalizado da Web 2.0 acentua. “O que deve ser feito e quem sou eu?” é a pergunta que ela repetidamente nos apresenta, como se a resposta fosse importante. O que estou pensando? Onde está minha mente? O que vejo na tela é uma expressão da minha mente? A filosofia da cultura digital está perpetuamente dividida entre dois extremos: declarar a internet um lugar abençoado de esquizofrenia produtiva, onde perdemos nossa própria autoimportância para nos comunicarmos com o mundo, ou, ao contrário, condená-la como um delírio narcisista, onde tudo que fazemos fortalece nossa autoimportância.6 Benjamin Bratton resume esse paradoxo contemporâneo ao observar que “paranoia e narcisismo são… duas funções da mesma máscara”.7 O que deve ser feito e quem sou eu?
Por um lado, nos sentimos pluralizados, misturados, coletivos, constantemente impactados pela diversidade das naturezas humanas expostas em nossas telas, nos sentimos implicados no destino dos outros. Porém há simplesmente muita diversidade, e decidimos não confiar nela. Esse caos ameaçador estreita as barreiras ao redor do eu, em vez de dissolvê-lo em um encontro com o outro. Instala-se a paranoia epistemológica: o que é verdade? Quem está do meu lado? Onde está o meu lado?
Por outro lado, nos é vendida a integridade ilusória do mundo e do eu: livre arbítrio, poder de ação, causalidade e ética. Tudo parece pessoal, até mesmo o destino do mundo, o qual aparece para nós como um mundo único e comum, simplificado em nossos individualizados feeds de notícia. Parece não haver nada fora dessa narrativa que abarque tudo, mas que, ainda assim, concentre-se em nós. Cada um dos milhões de usuários é injetado diariamente com cósmicas tarefas globais através de feeds supostamente individualizados e únicos que comunicam todos a mesma informação.
Cada novo meio de comunicação simultaneamente expande e destrói o ego humano, nos mostrando mais do universo e, em seguida, reduzindo tudo a nós mesmos. Fadado a descobrir que não pode inserir-se numa rede social ativa e esperar por um exercício franco de escolha e ética, “cada geração é obrigada a constatar novamente o horror por si própria, e descobrir que é impotente”.8 Quanto mais o mundo pode ser descrito através da teoria da complexidade e do comportamento emergente extra-humano, mais a ciência nos diz que noções como livre arbítrio e causalidade podem ser instáveis, e, como uma solução desesperada, mais dogmaticamente os humanos reafirmam descrições textuais detalhadas de pensamento e moral individuais. Na prisão da interioridade que é a internet, tudo depende de nós, mas nenhum entre nós consegue concretizar a mudança que deseja. Não é de se admirar a neurose subjacente a esse paradoxo: tudo é internalizado, até o clima e o destino do planeta dependem de nós, porém só podemos fazer o que o veículo nos permite: externalizar, comunicar.
* * *
“Eu poderia decidir me comunicar com você.”
“Se fizer isso, precisa saber o preço que vai pagar: assim você revelará sua existência para mim.”9
A teoria da floresta sombria da internet trata da tragédia da comunicação, sua compulsão, necessidade, futilidade e risco. É um experimento com o “severo hiper-niilismo sobrevivencialista”,10 com sci-fi metafísico, em vez do cyberpunk, como modelo para o ciberespaço. Enquanto Mark Fisher pretendia destilar a singularidade da internet, meu objetivo é descrever sua natureza genérica em um nível cósmico. Quero capturar a brutalidade de nossa situação: a comunicação é uma compulsão e, ao mesmo tempo, a fonte dos conflitos.
O escritor de ficção científica, Cixin Liu, desenvolve sua teoria da floresta sombria na trilogia Memórias do Passado da Terra como resposta ao paradoxo de Fermi: se estamos rodeados por vida, por que o universo é tão silencioso? O universo inteiro não deveria ser como um feed barulhento de rede social, com todos disputando a atenção uns dos outros? A teoria da floresta sombria inverte essa suposição, explicando que a comunicação, por revelar nossa existência aos outros, é um sinal de estupidez, não de inteligência. Isso não se deve ao fato de todas as civilizações alienígenas serem hostis, mas porque as leis do universo exigem um conflito mortal entre todas as civilizações que compartilham a mesma dimensão.
A sobrevivência é a necessidade primordial de todas as civilizações. Elas se expandem e sua necessidade de recursos cresce, mas a matéria total no cosmos permanece constante. “Exponenciais são os demônios na matemática”.11 Se a vida continua crescendo e lutando por sua própria existência enquanto os recursos não se expandem, é preciso lutar por eles. “O universo inteiro recebeu essa mão morta”.12 O universo é um campo de batalha. A existência é uma guerra. Na escuridão do universo existem muitas civilizações, todas caçadoras e presas. Na escuridão, é melhor permanecer em silêncio. A comunicação pode atrair a atenção de outra civilização. Quando duas se percebem, irrevogavelmente uma delas deve morrer pelas mãos da outra. A mais inteligente permanece em silêncio ou ataca primeiro. Por que uma solução tão brutal? Dada a limitada disponibilidade de recursos, presumir a benevolência do outro é uma aposta muito arriscada dentro da “cadeia cósmica de desconfiança”, onde a comunicação intercósmica é necessariamente arriscada. Alienígenas podem ter uma definição muito diferente de verdade, ética ou bem comum. Claro, você pode ser “benevolente”, como eu entendo, mas eu arriscaria toda uma sociedade planetária com base nessa suposição? E você arriscaria a sua, dando-me a oportunidade de explicar para você minha ideia de “benevolência”? E se um de nós mentir? Comportamentos interdependentes tornam-se complexos rapidamente, mas o resultado é impiedosamente constante: um de nós morrerá. Essa trilogia considera vários cenários que poderiam impedir esse resultado, acabando por refutar todos eles. A humanidade faz essa descoberta científica monumental tardiamente, porém, para as civilizações cósmicas, a teoria da floresta sombria é tão fundamental quanto qualquer outra da física. É automatizada, irrefletida, independente de emoção, vontade ou ética. “A entropia no universo aumenta, a ordem diminui… No que diz respeito a um significado mais elevado, é inútil pensar sobre isso”.13
Alguns podem se opor à fria análise da teoria da floresta sombria de Liu. No entanto, ela nada mais faz do que generalizar as leis da física para chegar a uma cósmica teoria dos jogos do desenvolvimento civilizacional. A suposição de que toda a existência está suspensa entre conatus e entropia reforça as leis às quais a humanidade está subordinada, assim como qualquer outra forma de complexidade (poderíamos desejar um mundo diferente, mas é o que temos). Na concepção de entropia fornecida pela mecânica estatística, muitos sistemas, sejam eles biológicos ou sociais, podem ser compreendidos com as mesmas ferramentas que usamos para entender a entropia na Física. Todo sistema isolado tende a progredir em direção à desordem – a opção de alta entropia. De uma forma ou de outra, o conflito e a dissipação de energia estão entrelaçados na estrutura da existência. É uma questão de “como” e “quando”, não de “se”. Uma análise recente de mais de seiscentos anos de história humana confirma que cada “sistema humano” deve se livrar do seu próprio excesso; com o aumento da complexidade, há também o aumento da entropia. “A guerra é simplesmente um dos métodos que o sistema tem para dissipar a entropia na maior velocidade possível”.14 A dissipação de energia não é simplesmente um resultado de “más escolhas” ou “ações antiéticas”, mas uma probabilidade estatística inevitável ligada à complexidade. Quanto mais complexa e inteligente a vida se torna, maior é o preço que ela pode vir a ter que pagar em conflitos.
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“A desconfiança em cadeia não tem qualquer relação com a moralidade nem com a estrutura social de cada civilização. Basta pensar em cada civilização como pontos nas extremidades de um segmento. Mesmo se, internamente, as civilizações forem benevolentes ou maliciosas, são todas idênticas quando entram na trama formada pela desconfiança em cadeia… Resumindo: tanto deixar você saber que eu existo quanto deixar que você continue existindo são situações perigosas para mim.”15
A Teoria da Floresta sombria da internet trata do risco associado ao próprio passaporte de que precisamos para entrar no nosso ciberespaço cotidiano: comunicação, filtragem do eu, falar a verdade sobre nós mesmos, e revelação ou ocultação de nossas coordenadas. Não se trata um plano de jogo vencedor ou um projeto para a “mudança”, mas sim de uma descrição (as teorias normativas sobre como o mundo deveria ser em seu estado ideal devem ser deixadas para padres e utopistas). A Web 2.0 se baseia em dois axiomas. Primeiro, a sociabilidade é uma necessidade humana primária, a comunicação é necessária para a sobrevivência. Segundo, a sociabilidade é a portadora de todos os conflitos humanos. Quanto mais sociabilidade, mais entropia. Nossos sistemas nervosos não conseguem distinguir entre sociabilidade e sobrevivência, e por isso estamos condenados uns aos outros. Toda a internet recebeu essa mão morta.
Dado que comunicação é tudo, os pensamentos, expressos na linguagem, são dotados de um poder único. Nós os desenhamos como mapas que devem levar os outros às nossas mentes e corações. Mas pensamentos são realmente representações verdadeiras de nossas crenças ou de nós mesmos? Pensamentos são experiências cerebrais.
Eles são o que nos levam de um momento ao próximo, o que nos fazem vivenciar o passar do tempo. Não precisam ser gravados em nós, mesmo quando cada um deles é imortalizado no brilho inerte do ciberespaço. Ainda assim, congelados, eles fortalecem a alucinação do eu – uma “prova concreta” de que ele “existe”, acredita em coisas, tem convicções e coisas a fazer. Uma alucinação transcendental comum a todos nós, sustentada pela interface comunicativa através da qual vivemos nossas vidas. Ao prestarmos indevida atenção aos pensamentos, especialmente àqueles que acreditamos ser nossos, “não só nos enganamos; mas estamos enganados quanto a possuir um eu”.16
A teoria da floresta sombria da internet contorna essa falácia e, em vez disso, descreve dinâmicas automatizadas ligadas à comunicação. Como um sistema isolado, ela tende para a opção de alta entropia. Conexão produz conflito. Intenção, hostilidade ou benevolência interna não importam quando um de nós é reduzido a um elo na desconfiança em cadeia cibernética. Para sinalizar uma socialidade “segura”, cada usuário precisa ser legível em sua prática de autorrepresentação; todos precisam se apresentar. O sistema-floresta precisa ser capaz de nos ler, assim como os outros usuários. O que você está pensando? Descrevemos nossos pensamentos incessante e detalhadamente. Mas essa legibilidade significa que nossas coordenadas estão expostas. Podemos ser vistos, atacados e governados. Quanto mais detalhadas forem as nossas descrições, mais fáceis seremos de governar. Quanto mais somos vistos, mais facilmente nos tornamos alvo.
Na floresta sombria cósmica, aqueles que se manifestam apostam contra a entropia, atraem olhares, provocam ataques. Outros se concentram em ataques preventivos: ataque antes que eles ataquem você. Liu, de forma otimista, crê que, para os humanos, em contraste com sociedades alienígenas que são metafisicamente distantes demais para se comunicarem efetivamente, a desconfiança em cadeia “se estenderá apenas por um ou dois níveis até ser resolvida pela comunicação”.17 Mas isso pressupõe que a comunicação entre humanos é verdadeira. É por isso que determinar a verdade é a paranoia que guia a internet – o que ela realmente pensa; mas quem são eles, realmente, lá no fundo, que sequer eles mesmos conhecem –, bem como fazer infindáveis interpretações, autoexposições e declarações para que não haja dúvida sobre as intenções do outro, ou das nossas próprias. Se ao menos descrevêssemos as coisas de forma suficientemente clara, se ao menos nos comunicássemos incansavelmente, excessivamente, então certamente poderíamos provar nossa benevolência e nos libertar da desconfiança em cadeia. E, assim, cada troca é projetada para obter o máximo de clareza, a fim de antecipar questionamentos; porém, mesmo assim, ela requer inúmeras ressalvas. Conexão produz complexidade, complexidade produz conflito: um mecanismo autossustentável.
Mas a entropia também flui através de nós. A desintegração é insípida, previsível, nos abate suavemente. Todo sistema oscila entre a ordem e o caos. Na prisão da interioridade que é a internet, alguém sempre tem que ser descartado: direcionando a entropia para longe do eu, em direção ao outro. A complexidade (de argumentos, de grupos humanos) aumenta até se torne excessiva, e algum sacrifício precisa ser feito para retornar ao efêmero equilíbrio, onde a ilusão de uma comunicação benevolente ainda pode ser mantida. O que é uma “comunidade” online senão uma forma sofisticada de destruição mútua assegurada, suspensa entre a neurose e o narcisismo, ligadas à inegociável necessidade de se comunicar?
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“Loucura, caos, vandalismo erótico, devastação de inúmeras almas – enquanto gritamos e perecemos, a História lambe o dedo e vira a página.”18
Simbólica e materialmente, a existência é um conflito, uma discórdia que produz complexidade. A teoria da floresta sombria generaliza, em nível cósmico, a natureza entrópica da comunicação. Suas árvores se enraízam por toda parte. Patrulhamos a floresta, ouvindo os passos uns dos outros, todos nós somos caçadores e presas.
Em algumas ontologias ameríndias, a predação, a guerra e o canibalismo estão na base das relações entre os seres humanos e outras espécies. “Na Amazônia, o xamanismo é violento tanto quanto a guerra é sobrenatural. Ambos guardam uma referência à caça enquanto modelo de agonismo […], marcado por uma convicção profunda de que toda atividade vital é uma forma de expansão predatória”.19 Existir como planta ou animal é estar em um conflito definido pelo consumo, pela guerra material e espiritual, onde uma espécie pode possuir o corpo e a mente da outra. Caçador e presa. A entropia reside no consumo necessário de outras almas. No “outro” lado do espectro espiritual, o teólogo cristão Pierre Teilhard de Chardin admite que o conflito é metafisicamente necessário para a natureza humana; ele é “um fenômeno de antropogênese orgânico”, onde a humanidade se eleva apenas em conflito com outros.20Humanos caçam uns aos outros.
O atrito produz significado em um ciclo contínuo, assim como opiniões muitas vezes se formam em negação da realidade existente, tornando-nos, de forma interdependente, quem somos. A solidariedade e benevolência existem, mas geralmente em defesa de um grupo contra outro, e, dessa forma, mesmo as melhores partes da natureza são pagas com entropia e o conflito que resulta na eliminação (simbólica ou real) do outro.
Alguns filósofos, como Georges Bataille, acreditavam que podemos nos livrar desse excesso de outra maneira, que poderíamos utilizar esse conflito subjacente. Seu conceito bacanal e anárquico de dispêndio “pode ser definido como o impulso ilógico e irresistível à rejeição dos bens materiais ou morais que teria sido possível utilizar racionalmente”, de modo que o que é permitido na ordem social ganha significado e valor “somente quando as forças ordenadas e reservadas se liberam e se perdem para fins que não podem ser sujeitados a nada de que seja possível prestar contas.”21A destruição de bens materiais e a submissão ao caos desumano são formas de entropia que, segundo ele, poderiam liberar parte da energia que circula em uma rede social complexa. Mas alguma forma de destruição seguia sendo necessária, mesmo para Bataille.
A humanidade é uma forma de energia – como todas as formas de energia – que responde à entropia. A escritura da floresta sombria é tão adequada à teoria dos jogos intergalácticos quanto à comunicação personalizada na Web 2.0. Nós alucinamos o eu dentro de seu mecanismo, mas o processo pouco se importa com o eu. A interface da floresta pode nos ler bem, com suas plantas liberando o gás estimulante e alucinógeno da subjetividade. Cada elemento na desconfiança em cadeia no meio cibernético, sustentado pela interface comunicativa, se pergunta: o que deve ser feito e quem sou eu? Respondemos, repetidamente, por meio de interfaces cada vez mais sofisticadas. Uma vez que a floresta sombria é posta em movimento, podemos perder o que está por trás da espessa névoa da subjetividade – um processo de extração automatizado que reduz cada um de nós – à complexidade que geramos, medindo nosso potencial de entropia, colocando um elemento contra o outro, projetando padrões de desordem. Nessa floresta, é melhor ficar em silêncio ou se preparar para o conflito.
O que você está pensando?
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(Este texto foi originalmente publicado em e-book pela FlugSchrifiten, em 2020. Agradecemos encarecidamente à autora por ceder os direitos da tradução. Para ler o original, clique aqui. Tradução de Roger Gregory Silveira.)
- Pós-doutoranda no Departamento de Mídia Interativa na NYU Shangai. Autora do livro The Dark Forest Theory of the Internet. ↩︎
- Cixin Liu. A floresta sombria. Tradução: Leonardo Alves. São Paulo: Suma, 2017. ↩︎
- Carmen Maria Machado. Na casa dos sonhos. Tradução: Ana Guadalupe. São Paulo: Companhia das Letras, 2021. ↩︎
- Mark Fisher. Flatline Constructs: Gothic Materialism and Cybernetic Theory-Fiction. Nova York: Exmilitary Press, 2018. ↩︎
- Este é o Fisher discutindo o exemplo da pesquisa de opinião, dado por Jean Baudrillard, mas eu acredito que ele diria que o exemplo é aplicável ao ciberespaço como um todo. Ver: Mark Fisher, op. cit., p. 24. ↩︎
- Um exemplo desse debate em curso é a condenação heideggeriana que Byung-Chul Han faz do otimismo digital de Vilém Flusser. Ver: Byung-Chul Han. No enxame: perspectivas do digital. Editora Vozes, 2018. ↩︎
- Benjamin Bratton. “The Black Stack”, e-flux journal, n. 53, 2014, p. 9. ↩︎
- Elena Ferrante. Frantumaglia: os caminhos de uma escritora. Tradução: Marcello Lino. São Paulo: Editora Intrinseca, 2017. ↩︎
- Cixin Liu, op. cit. ↩︎
- Mark Fisher, op. cit., p. 17. ↩︎
- Cixin Liu, op. cit. Além disso, “no começo dos anos 1990, Cixin Liu escreveu um programa de computador no qual cada civilização inteligente no universo era reduzida e um único ponto. Naquela altura, ele havia programado 350.000 civilizações em um raio de cem mil anos-luz e tinha colocado o seu computador 286 para trabalhar durante horas a fim de calcular a evolução dessas civilizações. Embora a conclusão final do programa fosse algo ingênua, ela formou a base e deu forma à sua visão de mundo”. Este é um excerto da revista Peregrine, citado em: Ann Vandermeer; Jeff Vandermeer (orgs.). The Big Book of Science Fiction. Nova York: Vintage Books, Penguin Random House LLC, 2016. (e-book). ↩︎
- Idem, ibidem. ↩︎
- Cixin Liu. Death’s End. Tradução: Ken Liu. Nova York: Tor Books, 2016. (e-book) ↩︎
- Gianluca Martelloni; Francesca Di Patti; Ugo Bardi. “Pattern Analysis of World Conflicts over the past 600 Years”. arXiv, e-prints, 2018. ↩︎
- Cixin Liu. A Floresta sombria. ↩︎
- Mark Fisher. Fantasmas da minha vida. Tradução: Guilherme Ziggy.Autonomia Literária, 2023. ↩︎
- Cixin Liu. A Floresta sombria. ↩︎
- Thomas Ligotti. “Professor Nobody’s Little Lectures on Supernatural Horror”. In: Thomas Ligotti. Song of a Dead Dreamer and Grimscribe. Nova York: Penguin Classics, 2011. (e-book) ↩︎
- Eduardo Viveiros de Castro. Metafísicas canibais: elementos para uma antropologia pós-estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2015. Ver também: Rane Willerslev. Soul Hunters: Hunting, Animism, and Personhood among the Siberian Yukaghirs. Berkley: University of California Press, 2007. ↩︎
- Paul Virilio. Speed and Politics. Tradução: Marc Polizzotti. Los Angeles: Semiotext(e), 2007, p. 130. ↩︎
- Georges Bataille. A parte maldita: Precedida de “A noção de dispêndio”. Tradução: Júlio Castañón Guimarães. São Paulo: Autêntica, 2014. ↩︎
Carbono, vol. 16 – março de 2026.
ISSN: 3085-7066
