Surekha Davies1
Insights de (quando eu me forcei a ir ao) subsolo
Eu comecei o meu doutorado em 2002, no início da era digital da pesquisa: as câmeras digitais, os dispositivos de armazenamento remotos que você podia guardar no bolso e principalmente os laptops, mas ainda não os smartphones. Eu adotei cedo a tecnologia na pesquisa, embora não a internet recreativa com suas tocas-de-coelho, que desde sempre pareciam chatas. Mas sempre me pareceu óbvio que os computadores e os softwares eram somente ferramentas entre outras.
Minha experiência direta com fontes históricas e repositórios revelaria coisas que eu nunca imaginaria se eu só usasse esses intermediários. E o processo de se sentar com as fontes – mesmo na forma digitalizada (se fiel e completa) e certamente com artefatos originais – foi o que me ajudou a dizer algo novo.
Durante os primeiros quatro anos do doutorado, eu trabalhei meio-período como curadora na Biblioteca de Mapas da Biblioteca Britânica.2 Eu estava pesquisando imagens e descrições de pessoas das Américas na cartografia europeia, nos escritos de viagem e nas obras geográficas entre 1492 e cerca de 1650.
Eu queria entender como e por quê os cartógrafos inventavam e colocavam em seus mapas imagens características e descrições de pessoas e sociedades nas Américas – imagens como os canibais brasileiros, os gigantes da Patagônia e as cidades mexicanas –, e o que isso nos dizia a respeito da experiência europeia ao encontrar (diretamente ou no papel) pessoas naquilo que elas chamavam de Novo Mundo.
Primeiro passo: ver todos os mapas. Eu vasculhei o catálogo de mapas da Biblioteca Britânica, curiosamente armazenado, naquele momento, em um CR-Rom. Havia provavelmente 1.500 mapas e atlas que recobriam o mundo, a América do Norte ou do Sul, ou grandes porções das Américas, como o Brasil, entre o fim do século XV e meados do século XVII. Esses mapas seriam meu principal conjunto de evidências. Eu adicionaria a eles mapas e atlas de que a Biblioteca Britânica não dispunha, mas que eu poderia acessar através de outras importantes bibliotecas de mapas.
Eu não queria solicitar 1.500 coisas na Sala de Leitura de Mapas – cujo limite era de quinze itens por dia – só para devolver 90% em segundos, vendo que eles não continham nada relevante. Eu achava que os funcionários da Biblioteca de Mapas iam querer buscar esses mapas bem menos do que eu gostaria de solicitá-los. Então, eu negociei uma autorização para eu mesma ir ao repositório no subsolo.
A Biblioteca Britânica tem quatro andares acima do nível do solo, mas OITO andares no subsolo. No subsolo existem quatro andares com pé-direito duplo. O subsolo dos mapas fica no andar mais abaixo. A temperatura dos subsolos é configurada para o frio, por motivo de preservação, mas eles não são tão frios como o subsolo da Biblioteca Folger Shakespeare (antes da reforma de 2024), que uma vez um amigo chamou de frigorífico.
Antes que me deixassem descer aos subsolos da Biblioteca Britânica, eu tive que declarar que eu poderia subir oito lances de escada em cinco minutos. Em outras palavras, se houvesse uma simulação de emergência, eu seria capaz de picar a mula do Hades rapidinho.
Com a declaração preenchida, eu me encaminhava para as entranhas da biblioteca para passar a maior parte do dia, alguns dias da semana, um mês inteiro. Eu levava impressa comigo a lista diária das etiquetas das estantes – sequências de itens que eu ia conferir aquele dia. A maioria dos mapas estava guardada em bandejas largas e grandes. Eu puxava uma bandeja, tirava os itens, prendia-os em uma superfície plana e conferia se eles continham anotações escritas ou desenhadas. Se eles tivessem, eu gravava as etiquetas da estante. Depois eu pedia os itens na Sala de Leitura, a fim de estudá-los.
Livros e atlas são guardados no que são conhecidas como estantes móveis: estantes de livros sobre trilhos, comprimidas umas nas outras. Há uma roda grande na extremidade de cada estante de livros. Girar a roda faz mover a estante de livros, que então esbarra contra a estante vizinha; continue girando, e várias estantes abrem caminho. Assim, um monte de estantes compartilha um mesmo espaço de circulação. Ao girar as rodas, você pode separar um par de estante de livros a fim de criar espaço o bastante para entrar.
Isso parecia perigoso? É porque mais ou menos era. Incutiram em mim a importância de levar um banquinho ao entrar em um corredor com estantes. Isso impediria que as estantes se fechassem sobre mim caso alguém girasse a roda sem antes averiguar se havia alguém entre as estantes e eu ficasse petrificada de medo e não conseguisse gritar.
Essa experiência foi memorável, e não por causa do risco de virar panqueca. Lidar com centenas de mapas para encontrar aqueles que continham informações sobre as pessoas das Américas tinha muitas vantagens em relação a depender de outras fontes – livros existentes e catálogos de biblioteca – que podiam me dar essa informação.
Em primeiro lugar, quase ninguém nos anos 2000 parecia acreditar que imagens em mapas do século XVI poderiam ser outra coisa além de “decoração”, “propaganda” ou, no melhor dos casos, evidência de nada mais do que uma “cópia” – outra palavra devastadora que torna superficiais as escolhas humanas e as tomadas de decisão, enquadrando-as como irrefletidas. São incontáveis as vezes que curadores, negociantes, colecionadores e estudiosos de mapas me disseram ao saber do meu projeto “ah, não tem nada para estudar aqui, é só decoração”, ou algo do tipo.3
Eles fizeram o estudo? Eles analisaram? Nada disso. Então por que eu deveria presumir que os mapas ilustrados presentes nos livros existentes constituem a soma total dos mapas que poderiam ser relevantes para o meu projeto de pesquisa?
De algum modo, veio a calhar o fato de que eu estava trabalhando com mapas do mundo e mapas das Américas da época da exploração. Muitos desses mapas e atlas impressos e manuscritos eram lindamente ilustrados, artefatos espetaculares. Havia muitas reproduções em formato grande, tomos de enciclopédia e livros de decoração. Mas as pessoas que reproduziram mapas ilustrados em seus livros – porque eles continham o que elas achavam que eram “fotos lindas” que os tornariam mais valiosos – não necessariamente estavam interessadas no que vinha escrito nos mapas. Às vezes, eu consultava livros de mapas chamativos, que continham reproduções de mapas, mas que cortavam as bordas do mapa porque elas continham textos, não ilustrações. E, no entanto, aquele texto era uma mina de ouro para mim.
Em relação ao atlas que tem aqueles famosos círculos no mapa, feito pelo cartógrafo francês do século XVI, Guillaume Le Testu – um magnífico volume abrigado no Château de Vincennes, nos subúrbios de Paris –, eu li tudo o que eu pude ter nas mãos. Uma das ex-diretoras da Biblioteca de Mapas da Biblioteca Britânica, Helen Wallis, encomendou fotografias em preto-e-branco do que parecia ter sido o atlas inteiro muitos anos antes. Eu internamente a agradeci, enquanto escaneava as fotos e dava zoom na tela do meu computador. E depois eu me dei conta de um comentário despretensioso em um artigo. Ele dizia que o atlas tinha páginas de texto. Mas que páginas de texto?
Não havia páginas de texto nas fotos do atlas. Nenhum outro documento sobre o atlas reproduzia ou até mesmo mencionava qualquer página de texto. Porém, parecia que havia partes do atlas cujas reproduções eu não havia visto em nenhum outro lugar.4
Eu fui para Paris.
Para encurtar a história (que tem outro subsolo), no final das contas cada mapa desse incrível atlas tinha uma PÁGINA DE TEXTO que o acompanhava.
Como você pode imaginar agora, o único jeito de eu saber se um mapa ou um atlas seria relevante para o meu projeto era ver por mim mesma ou solicitando uma fotografia do item completo. O material que as outras pessoas juntaram por seus próprios motivos só poderia ser um corpus preliminar de exemplos.
E quanto ao catálogo da Biblioteca Britânica? Então, veja bem, algumas das entradas do catálogo dizem “ill.”, a abreviação de “ilustração/ilustrações”. Oba! Eu posso pedir essas e ver se as imagens são relevantes, certo? Eu não preciso ir ao porão fazer espeleologia ou pedir para receber todos os mapas, não é?
Devagar com o andor. Os catálogos de bibliotecas, principalmente em bibliotecas gigantes como a Biblioteca Britânica, são metamórficos e hidras de múltiplas cabeças. A Biblioteca Britânica detém mais de 150 milhões de itens, colecionados durante séculos, parcialmente adquiridos de bibliotecas anteriores que foram compradas ou doadas séculos antes. Essas bibliotecas são maravilhosas… Mas elas não têm e nem podem ter um catálogo de registro completo e consistente ao longo de suas posses.
Vários registros do catálogo da Biblioteca Britânica nos anos 2000 haviam sido escritos décadas antes, talvez até mesmo no século XIX ou mais atrás. Quando o catálogo de computador surgiu por volta de 1975, os conteúdos de um punhado de velhos catálogos impressos e em cartão foram jogados lá com pouca alteração.5
Dezenas de pessoas diferentes devem ter catalogado esses mapas. Elas provavelmente fizeram diferentes juízos sobre o fato de um mapa conter ou não ilustrações dignas de serem imortalizadas com a palavra “ill.”. E as convenções catalográficas mudaram com o passar do tempo.
Não havia uma lógica consistente – não era obra de uma só cabeça – que pudesse fazer juízos ao registrar a presença de ilustrações. O porão poderia estar repleto de mapas contendo ilustrações, mas que não apresentavam o “ill.” na entrada do catálogo.
E eu também estava interessada das descrições textuais nos mapas – frases, parágrafos, comentários sobre as Américas. Isso não é algo que os registros catalográficos observavam frequentemente. Essa é mais uma razão por que eu não podia supor que o vestígio da coisa que me interessava poderia ser garimpado a partir dos materiais criados para outras finalidades.
Eu obstinadamente compilei uma lista de mapas da Biblioteca Britânica (e de mapas em outros lugares) que continham imagens ou descrições das pessoas das Américas. No meio disso, eu criei uma base de dados no FileMaker por meio da qual eu rastreava os mapas.
Os campos eram simples: título, autor, data; um menu suspenso para a região de produção (França, Espanha, Portugal, Holanda, Alemanha, Inglaterra, outra); um menu suspenso para rastrear os temas comuns (gigantes, canibalismo, cidades…); uma caixa de verificação para dizer se era impresso ou manuscrito; um campo em que eu listava livros e artigos que falavam sobre o mapa; e alguns campos livres para inserção de texto.
Eu planejava acrescentar uma miniatura de cada mapa em cada um dos registros. Mas, uma vez que eu tinha visto os mapas, completado as entradas da minha base de dados, feito anotações rápidas e transcrito legendas e blocos de texto, os duzentos-e-pouco itens estavam tão nítidos na minha cabeça que bastava ler o autor, o título e a data para lembrar qual mapa era qual.
Tendo terminado isso, era fácil procurar, digamos, todos os mapas espanhóis que continham alguma imagem de canibais, classificá-los na ordem crescente de data e depois analisá-los em ordem cronológica. Rapidamente eu podia ter uma ideia de quantos entre esses duzentos mapas continham um tipo específico de imagem. O primeiro rascunho de um capítulo qualquer estava praticamente escrito.
Eu revisei e reescrevi os capítulos MUITAS vezes. Eu consultei um monte de material que não eram mapas, comparei livros e impressos aos mapas e só então entendi o que os mapas diziam. Havia muitas tocas-de-coelho, muitas das quais com descobertas legais no final (contanto que você pisasse com cuidado ao longo do percurso).
O que essa arqueologia da biblioteca – e o cérebro de uma estudante de pós-graduação – revela? Como os pesquisadores fazem pesquisa. Essa é a anatomia de um processo de pesquisa. É como alguém que está interessado em aprender mais sobre algo, ou em resolver um enigma histórico, tem que pensar e fazer escolhas.
Os pesquisadores descrevem sua lógica a fim de que outros possam entender como eles chegaram às suas descobertas. As publicações acadêmicas incluem seções em que os autores descrevem a sua fonte e a lógica com a qual eles a abordaram.
Muitas vezes, os historiadores dão uma ideia daquilo que não sobreviveu – mapas que desapareceram no terremoto de Lisboa em 1755, por exemplo. O que sobrevive ao tempo não é uma amostra representativa do que existiu. Diferentemente de outros experimentos científicos controlados, nos quais um cientista pode (até certo ponto) produzir um retrato representativo e bastante fiel do que quer que ele está tentando analisar, o que sobrevive ao tempo não é representativo e nem pode ser controlado. E, portanto, os tipos de histórias que podemos revelar, os modos pelos quais temos que pensar e trabalhar com os vestígios que essas histórias deixam, e como escrevemos sobre nossas descobertas, tudo tem que mostrar isso.
São o estudo, a análise, a decisão e a seleção do que é ou não é relevante para a questão que transformam uma montanha de material amorfo em uma explicação histórica consistente. É esse processo de mostrar onde você encontrou as diferentes peças da sua fonte primária que permite os pares e os leitores avaliarem se existe ou não uma relação entre as questões que você propôs, as fontes que você examinou e o modo como você as analisou.
Adiantando a fita até o presente, até o mundo apocalíptico da IA generativa baseada em grandes modelos de linguagem (LLMs).
Se você pedir para a IA generativa te dar um esboço, uma “inspiração” (é sério?) ou um conteúdo, não é o que você recebe. Algo que não tem um cérebro vasculhou e achou coisas que parecem um conteúdo, mas não são, porque elas não foram analisadas e escritas por uma pessoa. Uns troços copia-e-cola tipo o monstro do Frankenstein tirados de um monte de lugares diferentes? Isso não é um sumário. É uma salada de palavras.
Nós deixamos de lado, por nossa conta e risco, o corpo e aquilo que ele aprende por estar no mundo – o mundo físico. Ao tocar, olhar, ouvir, cheirar e até saborear (geologia de graduandos e gastronomia para adultos), a gente não apenas reúne “dados”, essa palavra insossa que solapa tudo o que não pode ser descrito em números. Se refletirmos e sentirmos o que vivenciamos ao nos movimentarmos pelo mundo, se ponderarmos e compararmos o que ressoa com nosso próprio conhecimento e nossas memórias, se analisarmos tudo isso utilizando as perspectivas e sensibilidades adquiridas por meio da educação e da experiência de vida, então o que tivermos a dizer será único.
Isso é o que é preciso para realizar algo significativo que ainda não existe no mundo. Ninguém está na sua pele quando sai mundo afora. Ninguém além de você pode contribuir com precisamente aquilo que você entende e com aquilo que você diz com a sua própria voz. Essas são coisas que a misteriosa conexão entre o seu cérebro, suas memórias e o mundo pode realizar.
Por “ninguém” eu não me refiro apenas a qualquer outra pessoa. Eu também digo ninguém também no sentido de que certamente não as máquinas de plágio ecocidas popularmente conhecidas como IA generativa, abutres digitais estufados de livros roubados que eles misturam e regurgitam na forma de imitações de palavras provenientes de cérebros pensantes e sencientes de fato. E, no entanto, os defensores da IA insistem seriamente que pegar todas as cores na caixa de tintas, misturá-las e jogá-las na tela cria arte, e não lixo multicolorido.
* * *
(Este texto foi originalmente publicado no substack Strange and Wondrous: Notes from a Science Historian em 21 de janeiro de 2025. Agradecemos encarecidamente à autora por ceder os direitos da tradução. Para ler o original, clique aqui. Tradução de Antonio Barros.)
- Professora e historiadora da ciência. Autora do livro Humans: A Monstrous History. ↩︎
- As concorrências por financiamento de pesquisa de doutorado no Reino Unido nunca me recompensaram com bolsa de estudo – nem mesmo depois de eu ter concluído quatro anos de curso em meio período e publicado artigos em revistas acadêmicas. Vai entender. ↩︎
- Se você está se sentindo desencorajado(a), saiba que o final da estória da tese foi feliz: eu obtive o doutorado e depois ele se tornou um baita de um livro: Renaissance Ethnography and the Invention of the Human: New Worlds, Maps and Monsters. Se você gosta de mapas, monstros e explorações nerd, clique no link. ↩︎
- Nos anos posteriores a esse período jurássico, apareceu uma publicação em fac-símile do atlas. Você pode até consultar as imagens digitais no site da Bibliothèque Nationale de France, Gallica. ↩︎
- Ok, não exatamente jogados. Mas ninguém foi lá e recatalogou os milhões de itens dentro dos padrões dos anos 1970. Isso teria levado um bocado de tempo. ↩︎
Carbono, vol. 16 – março de 2026.
ISSN: 3085-7066
