Genevieve Guenther1
Um pouco mais adiante em nosso século, quando meu filho adolescente estiver na meia idade, a mudança climática poderá destruir cerca de 50% do PIB mundial. Vou dizer novamente. Em algum momento entre 2070 e 2090, a mudança climática poderá causar tamanho dano aos sistemas ecológicos e humanos, bem como as conexões entre eles, que a economia mundial pode encolher pela metade. (A título de comparação: a economia americana, durante a Grande Depressão, encolheu cerca de 30%.)
Essa projeção pode parecer meio exagerada e inacreditável. Sim, duas regiões inteiras de Los Angeles queimaram em janeiro de 2025. Sim, estimativas preliminares do custo desse desastre variam entre US$40 e US$250 bilhões. No entanto, o PIB americano é de mais ou menos 27 trilhões de dólares; o PIB mundial é de 107 trilhões. Mas as economias dos EUA e do mundo não serão consideravelmente maiores em 2070? Será que a mudança climática conseguiria destruir toda essa riqueza?
De acordo com o Institute and Faculty of Actuaries (IFoA) britânico, isso pode acontecer. Atuários são cálculos que avaliam o risco econômico de bancos, seguradoras e governos. O IFoA é uma associação profissional que regula os atuários no Reino Unido; ele existe desde o século XIX. Não se trata de uma associação de defesa do meio ambiente, muito menos de uma radical. No entanto, na metade de janeiro de 2025, eles publicaram um estudo em conjunto com cientistas da Universidade de Exeter, mostrando que economistas estão subestimando os custos econômicos potencialmente catastróficos do aquecimento global. Novamente, no pior dos cenários, nós perderíamos cerca de 50% do PIB neste século.
Mesmo reconhecendo a reputação do instituto por trás do estudo, muitas pessoas ainda vão achar esse número impossível. Mas por quê? A humanidade está entrando em um regime climático sem precedentes na história de nossa espécie. A última vez que houve tanto dióxido de carbono na atmosfera, os oceanos eram tão mais altos, que a costa oeste do que hoje se entende como América do Norte era 160 km mais recuada do que é hoje em dia. O Ártico, atualmente um deserto congelado, era uma floresta de pinheiros habitada por camelos gigantes. E nossa economia está injetando gases de efeito estufa na atmosfera mais rápido do que qualquer outro fenômeno da história geológica de nosso planeta. É um absurdo considerar que causar um colapso no clima do planeta não causaria também um colapso na economia mundial, que depende de um clima estável, mesmo nas próximas décadas.
Muitas pessoas, incluindo políticos e cidadãos, parecem acreditar que o crescimento econômico vai seguir firme enquanto o planeta aquece e o clima começa a se tornar cada vez mais insustentável. Mas essa crença não possui base real no mundo, é quase uma atitude religiosa. Ela defende, acima de tudo, duas ideias: que a economia é algo separado da natureza e que a tecnologia pode realizar todas as funções do ecossistema. Essa crença é a base de todos os modelos econômicos mainstream para a mudança climática; nesses modelos, o crescimento econômico é “exógeno” ou simplesmente presumido. Como os atuários do IFoA observaram, a modelagem econômica do clima baseia-se na “suposição de que uma recessão econômica é impossível, independentemente da gravidade dos choques climáticos”.
Quase nenhuma pesquisa no campo econômico comprova essa afirmação. Como afirma o Congressional Research Service (CRS), “o campo de estudo sobre os efeitos econômicos da mudança climática é relativamente pequeno (e) a escassez relativa de estudos dificulta chegar a conclusões ‘mainstream’ específicas e consensuais sobre os impactos econômicos”. As poucas pesquisas existentes minimizam, em seus modelos, a evidência histórica dos danos que o aquecimento causa às taxas de crescimento, ajustando os modelos com uma variável de adaptação, que considera as tendências políticas e tecnológicas vindouras que irão reduzir os danos. Porém, uma vez que a adaptação reduziu parcamente os impactos climáticos a nível global, segundo uma abrangente análise dos dados, a decisão de incluir tal variável demonstra nada além do que a crença contrafactual dos economistas no poder transcendente da criatividade humana. Isso significa que as ideias econômicas mainstream a respeito da relação entre biosferae economia são baseadas em suposições, conjecturas e afirmações com evidências contraditórias, ou nenhuma evidência, para sustentá-las.
Evidentemente, você pode ler a história da economia do século XX como uma evidência da crença de que o PIB, salvo algumas exceções, sempre irá crescer, e, a longo prazo, para melhor, e que nós sempre desenvolveremos tecnologias para resolver nossos problemas. No entanto, você pode utilizar a história como argumento para o futuro apenas se você minimizar os impactos da mudança climática a ponto de criar desinformação – em outras palavras, apenas mentindo por omissão sobre o que pode acontecer. De fato, é isso que os atuários do IFoA acusam, implicitamente, os economistas da área de fazer. O estudo indica que a economia mainstream subestima o perigo da mudança climática, pois quase sempre exclui de seus modelos “os impactos dos pontos de inflexão climáticos, eventos extremos gerados pelo clima, impactos na saúde humana, conflitos motivados por imigração e falta de recursos, tensões geopolíticas, riscos naturais ou a elevação do nível do mar”. Deixar esses impactos fora dos modelos econômicos, o estudo observa, é “análogo a fazer uma avaliação dos riscos de uma colisão entre o Titanic e um iceberg, excluindo do modelo a possibilidade do navio afundar, a falta de botes salva-vidas e as mortes por afogamento ou hipotermia”.
Nossa economia parece imune às mudanças climáticas porque o mercado e os governos deliberadamente separam ou “dissociam” nossa ecologia e a economia em seus cálculos: o valor do que se entende como “natureza” e o custo de sua destruição não estão incluídos nos preços que pagamos pelas coisas. O que acontece com o sistema climático – a tudo o que a economia classifica como “natureza” ou “recursos naturais” – é considerado como “externalidades”.
No jargão econômico, a palavra “externalidades” significa custos que não são assumidos pelo ente que os impõe. Essa palavra é um pouco óbvia demais ao sugerir que os custos das mudanças climáticas não são incluídos na análise econômica das coisas que fazemos no planeta. No entanto, como os atuários do IFoA colocam, “prosperidade e saúde econômica são interligadas ao Sistema Terra e dele dependem”. Sem contar com o Sistema Terra, nossa economia funciona como um esquema Ponzi, em que roubamos gradualmente a possibilidade de viver em um clima habitável no futuro e chamamos isso de crescimento do PIB.
Essa crença quase religiosa de que o crescimento econômico simplesmente continuará está embutida não apenas na área da economia climática, mas também nas propostas de política climática. As chamadas “vias de mitigação”, modelos que simulam opções de políticas economicamente viáveis, também assumem o crescimento econômico como um fato incontestável. As vias de mitigação serão mais baratas no futuro do que são hoje, afirmam os modelos, pois, à medida que a economia cresce, todos ficarão mais ricos no futuro e, portanto, a sociedade terá mais recursos para arcar com os custos da descarbonização. Adiar a eliminação gradual dos combustíveis fósseis parece, portanto, economicamente viável. No entanto, como mostra esse novo estudo, a garantia de crescimento econômico futuro, se não eliminarmos gradualmente os combustíveis fósseis, é apenas uma fantasia. O núcleo de informações que orienta as políticas climáticas internacionais até agora não se baseia em nada – desmancha no ar. Baseia-se na crença central do capitalismo, nossa religião secular, de que o crescimento é inevitável e que, junto com investimento inteligente e inovação apenas, atingiremos a imortalidade, deixando o futuro melhor do que o passado. O que essa nova pesquisa econômica sugere é que estamos adorando falsos deuses. Conforme alertam os atuários, os modelos econômicos vigentes para as mudanças climáticas “não reconhecem que existe um risco de colapso”. Esses modelos, eles dizem, não são adequados para orientar uma tomada de decisões, pois não são sequer “mais ou menos corretos”, mas sim “precisamente errados”. A verdade é que precisamos eliminar os combustíveis fósseis e interromper a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera a fim de conseguirmos preservar as condições necessárias para a prosperidade e afastar o risco crescente de arruinar o mundo para a próxima geração, incluindo nossos próprios filhos.
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(Este texto foi originalmente publicado no site do The New Republic, em 23 de janeiro de 2025. Agradecemos encarecidamente à autora por ceder os direitos da tradução. Para ler o original, clique aqui. Tradução de Felipe Fauri.)
- Fundadora e diretora do End Climate Science e autora do livro The Language of Climate Politics: Fossil-Fuel Propaganda and How to Fight It. ↩︎
Carbono, vol. 17 – abril de 2026.
ISSN: 3085-7066
