Frédéric Lordon1
Acreditava-se que ele havia se enganado. Marx ainda terá razão. Não exatamente como ele pensava no detalhe, mas, sim, na ideia geral.
A ideia geral: o desenvolvimento das forças produtivas engendra uma modificação das relações de produção que as acompanha até o ponto de criar uma contradição insolúvel no quadro do modo de produção vigente. É o anúncio de uma crise terminal totalmente endógena, já que o capitalismo produz, ele mesmo, suas tensões internas, que ele compensa às custas de remanejamentos históricos, mas que, depois de um certo limite, ele termina por não conseguir mais acomodar. A longo prazo, o capitalismo cava sua própria cova – chamemos isso de “dialética”.
Agora, o detalhe: a transição pelos sucessivos estados da manufatura para a fábrica e para a grande indústria conduz a uma enorme concentração de trabalhadores nos espaços de produção. Não se reúne impunemente as massas exploradas e oprimidas justamente no lugar onde a opressão ocorre. Os trabalhadores se falam, tomam consciência – das coisas –, formam uma consciência – de classe –, se organizam. Uma enorme força se constitui, uma que supera o desamparo do trabalhador que se vê solitário no “mercado de trabalho” – forçosamente derrotado no tête-à-tête desigual com o capital. No tártaro industrial, o capital produz, ele mesmo, seu inimigo mortal, seus dias estão contados.
A questão é que, um século e meio depois, ainda estamos contando os dias. O primeiro levante revolucionário, aquele do início do século XX, que correspondeu a um grau crítico de organização trabalhadora, foi abafado pela repressão e pelo fascismo. O segundo, após a Segunda Guerra, foi anestesiado pela entrada no consumo em massa: a difusão em larga escala do nível de desenvolvimento material, a saída do proletariado do estado de miséria – e descobrimos novas armas do capitalismo que sequer haviam sido pensadas: os assalariados não são mais mantidos unicamente pelo aguilhão da fome, mas também por doces vias muito mais perniciosas. Assim, a alienação acabou por se aprofundar ainda mais. Algumas décadas mais tarde, surgem o avião, o telefone celular, as redes sociais, as séries, ao passo que o capitalismo reestruturou profundamente as suas relações de produção depois que o sucesso industrial do fordismo lhe permitiu vislumbrar mais uma vez o perigo da concentração das massas de trabalhadores. A resposta: automatização, robotização, deslocalização industrial, precarização, atomização.
Podíamos – devíamos – continuar sendo marxistas, mas sem acreditar nessa primeira dialética. Foi preciso olhar para outra direção para identificar novas potencialidades de reviravolta endógena. Por exemplo, olhar para o ecocídio. O capitalismo destrói as condições da vida humana sobre a Terra. Essa ligação causal não constitui ainda o objeto de uma consciência amplamente compartilhada, mas isto ainda vai acontecer. É que os efeitos são de uma amplitude crescente, impossíveis de serem escondidos, e nada estimula a produção de ideias como o aguilhão (desta vez) da angústia – e a barreira do capitalismo verde, da transição energética e das ciclovias terá dificuldades para contê-lo.
Só que isso levará tempo. O tempo das ciclovias, portanto, o tempo dos intelectuais retardatários e retardantes também; por fim, o tempo das concessões. Pois será necessário renunciar a muita coisa: avião, telefone celular, redes sociais, séries etc. Nós não estamos prontos para isso. Jean-Marc Jancovici explicou a Léa Salamé que será necessário chegar a um limite de três ou quatro voos de longa duração por pessoa – na escala de uma vida. Salamé respondeu que três ou quatro voos por ano é quase uma ditadura – o seu cérebro não estava pronto; não recebeu a informação, não podia recebê-la. Claro, trata-se de Léa Salamé, isto é, uma medida-padrão da burrice jornalística, localizada na Radio-France ao invés de no Pavilhão de Breteuil em Sèvres, mas a ideia é a mesma – e as condições de conservação tão satisfatórias quanto. O problema é que, no momento, esse padrão dá muito bem a medida em vigor em grande parte da população. Fazer concessões; relacionar evitar o ecocídio com a necessidade vital da renúncia e o imperativo de abandonar o capitalismo: esta será a grande tarefa política do futuro (que começa agora). Em suma, o resultado dessa corrida contra o tempo é incerto – basta se perguntar o que é o ritmo do ecocídio capitalista comparado ao ritmo da ideia de renunciar no espírito geral. Já vimos competições de corrida mais acirradas. Pouco importa, vamos correr mesmo assim, porque não há a opção de não correr.
Dialética da Inteligência Artificial
Exceto que, de repente (mais uma vez), surge algo que não havia sido antecipado. A inteligência artificial. “Algo grande está por vir”. É Matt Shumer que fala – criador e dono da Otherside AI. Por todos os lados, o artigo é considerado “viral” – não é certo de que isso seja um elogio, e, sim, muito mais uma sugestão de que o artigo perde parte da sua distinção ao ter seduzido tantos analfabetos. Em matéria de distinção, ele não está no nível dos pequenos marqueses do Grand Continent. Estes, por sua vez, deram a notícia, mas com um ar de quem sabe de tudo e com alguns comentários de tecnicismo blasé – e eles são blasés. A regra número 1 do blasé: não ceda aos alarmismos do grande público, ridicularize-os como o que são, com condescendência, e deixe o pânico para as pessoas vulgares.
É preciso admitir que, no texto de Shumer, o vulgar dá motivos para preocupação. Por vulgar, entende-se um vulgar já de última geração. Pois Shumer anuncia a uma fatia considerável de executivos, mesmo os de classe mais elevada, que, em breve, eles terão atingido seu grande objetivo: se tornarão descartáveis. Shumer o anuncia em primeira mão, já que ele se vê rebaixado pelos seus próprios produtos, ao menos no que tange à sua atividade propriamente técnica. É que, daqui em diante, a IA se autoengendra – se autoprograma. Gunther Teubner, um notável sociólogo e jurista do direito alemão, havia encontrado uma palavra para designar esse momento crítico em que um processo se liberta de suas condições iniciais, e principalmente de seus criadores originais, para se autonomizar, crescer endogenamente e acabar por dominar seus próprios desenvolvedores: “salto autopoiético”, diz ele. A IA, ao que parece, conheceu seu salto autopoiético: ela se programa sozinha.
Régis Portalez é um politécnico ímpar que acrescentou à sua formação na X2 não um cargo no corpo técnico de engenharia das Minas ou das Pontes, mas um diploma de soldador. Ele se retirou para o interior para fabricar rodas de oleiro, mas continua a programar eventualmente, pois é preciso viver bem. E ele também vê a chegada de algo grande: “há seis meses talvez, eu acreditava que a IA era, se tanto, capaz de substituir um estagiário nas tarefas subalternas que seu supervisor lhe atribui […] E, então, há duas semanas, pedi a uma delas para escrever integralmente o código de um programa que eu pensava que ia levar um dia e meio para escrever […] Era uma tarefa livre, então, criativa entre aspas, ao passo que bastante restrita pelo fator da técnica. Em volta de um minuto e meio, eu recebi um código de programação que compila e se executa, testado, documentado e funcional”.
O Grand Continent, em resposta a isso, fez beicinho: nada de generalizações apressadas, nada de extrapolações lineares, programar é uma atividade bastante específica, naturalmente disposta à formalização, portanto, sujeita ao domínio da IA. Os programadores estão fazendo um escândalo porque, de uma certa forma, eles estavam destinados à linha de frente quando a IA “criativa” chegasse – e esses tapados não haviam pensado nisso. E agora eles estão escrevendo artigos “virais” cheios de preocupação.
Shumer pode até ser programador, mas ele não deixa de ter uma vida social. Vejamos: há “conhecimentos” que não são programáveis. Os advogados de negócios, por exemplo – assim como todo mundo. Ora, o amigo advogado de Shumer começa a mensurar o tamanho dos danos provocados pela inteligência artificial: “É como ter um exército de colaboradores imediatamente disponível”. E esse amigo se dá conta de que “em breve, a IA será capaz de fazer grande parte das coisas que ele faz”. Na sequência, uma lista de profissões semelhantes: desenvolvedores e consultoria jurídica, claro. Mas também: analistas financeiros, médicos de diagnóstico, atendimento ao cliente, consultorias de todo tipo. E, para fechar com chave de ouro: “writing and content” – redatores de notícias diversas, relatórios de todo tipo. Jornalismo – maravilha. E, sem sombra de dúvidas, logo mais também: roteiristas, dialoguistas, letristas, tradutores (já angustiados), jurados de concursos literários. Além destes, será necessário adicionar aos afetados: designer gráficos, músicos, criadores de vídeo e, por que não, diretores de cinema, agora que o Bytedance nos entrega clipes do Kanye West ou vídeos do Tom Cruise e Brad Pitt sem o Tom Cruise ou o Brad Pitt.
Há três décadas, Robert Reich, um dos intelectuais da onda do clintonismo, se extasiava com o espetáculo da nova “classe criativa”, os “manipuladores de símbolos”, arautos do grande movimento de reestruturação da divisão internacional do trabalho impulsionado pela globalização, que deixava a graxa das fábricas para “os outros”, enquanto nos reservava as alegrias do design e do blueprint. Isto é, a reorganização em escala mundial da divisão essencial do trabalho, prontamente percebida por Marx, entre trabalho de concepção e trabalho de execução. Como a “classe criativa” não ia aplaudir isso? Toda sua sociologia, todas as representações favoráveis que fazia de si mesma a inclinaram para isso. E todas as consequências políticas vieram sem falta. Pois, sem nenhuma surpresa, essa classe – considerada em média –, toda essa classe com seus órgãos próprios – Libération, Le Monde, Télérama, France Inter/Culture, Arte, o L’Obs (novo ou velho) – celebrou e admirou-se disso na mesma medida em que foi também de uma indiferença glacial em relação ao destino das classes trabalhadoras, despedaçadas e massacradas pelas grandes transfusões da globalização, subalternos residuais no interior da grande redivisão do trabalho no exterior, cuja ira a burguesia “criativa” repelirá por meio de todos os artifícios do farisaísmo e do racismo social juntos: eles são obtusos, não compreenderam que a globalização é boa, eles são contra a Europa, são conspiradores, são Gilets Jaunes – são sujos e maus.
Há aqui uma grande lição materialista: as formas da consciência são dadas pelas condições de existência. Porém, eis que as condições de existência da burguesia do Bem se preparam para grandes reviravoltas. Ela vai logo descobrir o que é se encontrar, de um dia para o outro, fadada não somente à inatividade, mas ao sentimento dissolvente da inutilidade. Ela vai conhecer a experiência para qual dirigia sua mais alta indiferença, a experiência “dos outros” vista de dentro, pressionados por projetos sociais, pelos deslocamentos, o downsizing e a “racionalização” – a experiência dos descartáveis. Por meio de setores inteiros, a “burguesia criativa”, que sempre se creditou como tão importante, tão central e tão pouco preocupada, está prestes a se tornar descartável.
Abandonado por seus mestres (o bloco burguês descartável)
A explosão das capacidades da IA e a subsequente amplitude do desmantelamento de funções vão revolucionar o cenário das classes sociais de um modo tal, que nenhum marxismo fissurado na questão “da classe trabalhadora como sujeito da história” poderia imaginar. Nem uma sociologia política do “povo das redes”, como aquela da França Insubmissa, diga-se de passagem. Nem no exclusivismo trabalhista, nem em uma nova classe formada em redes isso acontece. “Isso”: quer dizer, a formação de forças de ruptura. Não que tudo não possa se misturar, porque, sim, ainda existem redutos combativos da classe trabalhadora e, sim, existem redes segregadas – forças em potencial. No entanto, o essencial está para se formar alhures: na demolição metódica, realizada pelo próprio capitalismo, do seu bloco de apoio. Aquele bloco cujo caráter sociologicamente minoritário sempre foi compensado pelo caráter simbolicamente majoritário: profissões “intelectuais”, tendo direito à fala, tendo acesso à expressão pública, tendo a garantia da consideração e da super-representação no espaço das mídias tanto quanto no do cinema, que tem olhos apenas para sua própria classe e tem interesse apenas pelas suas próprias vidas.
Ora, não vamos esperar empurrar essa classe, sem dúvida compósita, para a greve. Crueldade das ilusões perdidas. Todas essas pessoas não tinham nada para reclamar porque tudo lhes agradava, tudo lhes parecia feito para elas. Melhor ainda, tudo parecia destinado a elas. Promessa evidentemente falsa para uma grande soma dessas pessoas, executivos de classe média-alta que viviam em fantasias de “estar em algo”, de “fazer parte” – pois esta é a verdadeira questão da sociologia política: não se trata de “ser ou não ser”, mas de “pertencer ou não pertencer”. E tanto faz se o ponto final deste “pertencer” for realocado para um horizonte tão indefinido e distante que até uma aposentadoria poderia chegar antes – as fantasias de grandeza social não se desarmam, mesmo diante dos vereditos do real, mesmo diante das estatísticas que as conduziam, desde o início, ao fracasso. Como reação, a força da subjetividade individualista: “eu sei do que se trata, mas eu vou chegar lá”. Lamento, velho, você não vai chegar lá. Só que agora, onde você poderia ter desfrutado de uma aposentadoria tranquila, alimentada pela sua imaginação, você se verá defenestrado por uma máquina, e todo o seu entorno vai te dar a experiência profunda de sua inutilidade – a sua inutilidade descartável. Pois não se engane: o capitalismo financeiro vai se lançar, como nunca antes, nas metas colossais de produtividade e de redução de custos. E de modo cego, espumando pela boca.
Eis, então, a nova dialética, aquela que Marx não podia ter elaborado, mais real e mais promissora que a outra; a dialética do desenvolvimento das forças produtivas torcendo por dentro as relações de produção até um ponto crítico, mas agora na sua forma contemporânea: a dialética do bloco burguês descartável.
A questão, porém, continua sendo o que fazer disso tudo. Claro, já existem todos os divergentes, que não esperaram a IA para fazer algo, como os executivos clandestinamente comunistas do Banco Público de Investimentos da França (comunistas não no sentido do PCF…), insatisfeitos com a empresa, estudantes sabotadores de cerimônias de colocação de grau, jovens empregados decididos a pular fora, politécnicos alternativos, autores, autoras e artistas em rebelião contra as instituições de seus campos; diretores de cinema antifascistas sem dinheiro, produtores independentes outrora ricos, mas que mantiveram seu posicionamento. Estes já sabem onde estão, para onde vão e o que têm que fazer. Mas há todo o resto – apontemo-lo sem meias palavras: uma manada de imbecis políticos, batalhões do macronismo, do socialismo ou da ecologia parisiense. Pois, evidentemente, a maior parte dessas pessoas jamais teve a menor das razões para refletir um pouco, dado que sua condição os dispensava de tanto; os tornava, por padrão, torneiras de clichês hegemônicos montados em certezas intelectuais – cujo discurso privado já estava ao alcance de uma IA incipiente, simplesmente capaz de compilar alguns retalhos de imprensa comum. Basta ter uma conversa com um banqueiro, um jornalista ou, melhor ainda, um artista contemporâneo para experimentar a mesma vertigem de um submarino adentrando a grande Fossa das Marianas.
Mas há algo pior: o seu individualismo sem fronteiras, que lhes torna incapazes de ações coletivas para além de um “team building” ou de um “happy hour” ou um “after work”. A classe trabalhadora de Marx detinha sua unidade de espaço e sua concentração em massa. Nada disso está disponível aqui. A atomização, cada vez mais vivida como feliz competitividade, é a condição objetiva dessa classe – e a transição ao “para-si” promete ser trabalhosa. Na verdade, não há nenhuma chance de isso acontecer por si só. Será necessário falar com eles – não desta forma, sem dúvidas. Porém, será necessário falar com eles – para tirá-los da sua condição de legumes políticos. Aparentemente é preciso falar com as plantas, pois isso as ajuda a se desenvolverem – enfim, é o que dizem. Assumir o controle de um novo estado do mundo social, um afeto coletivo confuso, mas destinado a se espalhar como uma mancha de petróleo; assumir o controle para torná-lo realmente comum, para deixá-lo pronto e o construir politicamente depois, esta é a tarefa das organizações. Analisando a oferta, o panorama geral se completa rapidamente. Sejam os partidos comunistas revolucionários, essenciais, porém de pouca abrangência, frequentemente presos a uma orientação específica e, sobretudo, a uma língua específica – a trabalhista –, o que dificulta a reunião das diferentes classes. Seja a França Insubmissa, um movimento significativo, já bem ancorado na classe média intelectual e cultural, da qual, na verdade, é uma emanação, cujos hábitos já compartilha, cujas formas de falar adota. Aqui, um encontro, uma construção conjunta, é possível. “Vocês acreditaram; foram enganados; este sistema que os dispensou é implacável, sabíamos que, de uma forma ou de outra, ele cairia sobre vocês, e aí está; abandonem toda a esperança – ou melhor, transformem-na!”
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(Este texto foi originalmente publicado no blog do Le Monde Diplomatique, em 2 de março de 2026. Agradecemos encarecidamente ao autor por ceder os direitos da tradução. Para ler o original, clique aqui. Tradução de João Gabriel Manfrim. Revisão técnica de Antonio Barros.)
- Economista e filósofo francês, diretor de pesquisa do CNRS (Centre Européen de Sociologie et de Science Politique), em Paris. É autor de inúmeros livro, alguns traduzidos no Brasil, em particular, A sociedade dos afetos: por um estruturalismo das paixões. ↩︎
- Apelido popular da “École Polytechnique” (Escola Politécnica) na França, uma escola de engenharia renomada que redireciona seus alunos para altos cargos da administração/infraestrutura pública (como os setores estatais de minas ou pontes e estradas). [N.T.] ↩︎
Carbono, vol. 19 – junho de 2026.
ISSN: 3085-7066
