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Entrevista com Alessandro Sbordoni

Nesta entrevista concedida ao Carbono, o pesquisador italiano fala sobre o fim do mundo, as amarras do capitalismo e como a cultura tem reagido aos signos do fim

Dizia Mark Fisher, parafraseando Fredric Jameson, que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. E se alguém lhe disser que o fim do mundo já chegou? E se alguém lhe disser, ainda, que é possível imaginar um novo começo? E se o apocalipse que estamos enfrentando for uma produção de signos do capitalismo? É sobre esse tema que se debruça a tese do filósofo italiano Alessandro Sbordoni em Semiótica do Fim: Capitalismo e Apocalipse.1 O livro reúne treze ensaios sobre os signos do fim do mundo na contemporaneidade, que, ao invés de se resumir à destruição de tudo em uma explosão, se estende em nossas jornadas determinadas pelo ritmo do capitalismo, que nunca para, nunca dorme. No fim do mundo, já não somos assombrados pelos fantasmas do passado, mas o futuro é um conceito fantasmagórico. Estudioso de grandes nomes como Jean Baudrillard, Byung-Chul Han, Mark Fisher, entre outros, Sbordoni analisa o cenário cultural do fim, mas também da reimaginação de novos começos, seja na música, no cinema, na cibercultura. O autor observa a indústria cultural hegemônica, produtora da estética pop totalmente focada no passado e no presente, mas também analisa as produções independentes, que tentam recriar o mundo com suas alternativas estéticas. Como pesquisador das tecnologias da informação, Sbordoni nos convida, inclusive, a adentrar e conhecer o universo das backrooms, espaços insólitos originados na internet. Para elucidar algumas questões de sua obra, ele nos concedeu essa entrevista. Agradecemos imensamente a disponibilidade e a generosidade do autor. Acompanhe a entrevista.


CAMILA CARDOZO: Seu livro traz no título a ideia de “fim” num sentido apocalítico, mas não no sentido de um momento definitivo ou pontual. Parece-me, com a leitura de Semiótica do Fim, que o fim nunca chega (ou na verdade nunca se esgota, é um fim sem fim). Parece que o fim é, ao contrário, um infinito onde reaproveitamos restos dos restos do que o capitalismo nos deixou, porque continuamos sendo produtivos mesmo que seja para intensificar o colapso. Em outras palavras, o fim interminável é o que vivemos no capitalismo tardio?

ALESSANDRO SBORDONI: Em Simulacros e Simulação, Jean Baudrillard argumentou que o apocalipse havia chegado ao fim de uma vez por todas. As mídias digitais, afirmou ele, haviam substituído a produção da diferença pela reprodução incessante do mesmo. O fim não tinha mais fim.

No entanto, Jean Baudrillard não tinha familiaridade com computadores. Não existe mensagem sem ruído, não existe sinal sem aleatoriedade, como os teóricos da informação da primeira geração logo descobriram. Mas para reproduzir uma mensagem inédita, pode ser necessário aumentar o volume. A música eletrônica de SOPHIE e Arca, as redes neurais artificiais de Holly Herndon e a glitch art de Rosa Menkman são a prova tecnológica de que as mídias digitais também são capazes de reproduzir algo radicalmente novo.

Meio século após o fim do mundo, estamos começando a ver a imagem e a ouvir o som do futuro. Trata-se da estética do apocalipse que é, também, a reprodução de um mundo totalmente novo por meio da edição de formas de onda e técnicas de computação gráfica. Após o fim interminável do capitalismo, um outro fim está sempre começando. Hoje, a reprodução do capital se reproduz ad infinitum por meio da tecnologia digital. Ao mesmo tempo, a tecnologia digital já se encontra além do fim do capitalismo. Esse argumento está no cerne de Semiótica do fim, bem como do meu livro mais recente, Beyond the Image.

CAMILA CARDOZO: Você apresenta alguns signos produzidos nesse apocalipse utilizando termos da cibercultura. Poderia retomar a explicação sobre o mecanismo dos zeros e uns na tese apresentada no livro?

ALESSANDRO SBORDONI: Os ensaios incluídos em Semiótica do fim foram significativamente influenciados pelos escritos da Cybernetic Culture Research Unit (CCRU), que também embasaram minhas visões políticas sobre cibernética e teoria da informação. Mark Fisher foi um membro proeminente da CCRU, fundada na década de 1990 por Nick Land e Sadie Plant na Universidade de Warwick. As noções de zeros e uns são temas recorrentes nos textos desses ciberteóricos.

Em seu livro Zeros + Ones, por exemplo, Sadie Plant discute a oposição entre zeros e uns no código binário em paralelo com a dualidade entre masculino e feminino, presença e ausência, ser e nada ou, em termos mais freudianos, falo e castração. Nick Land também se inspira em Sigmund Freud e na teoria da pulsão de morte, equiparando o zero a um estado de dissipação equivalente à morte, ao nada e até mesmo à virtualidade. Mas, em sua filosofia posterior, Nick Land vai ainda mais longe e defende a existência de uma relação entre o zero e o próprio dinheiro, ao mesmo tempo que observa a introdução do zero na Europa por meio da contabilidade de partidas dobradas.

Nos ensaios de Semiótica do fim, o zero é frequentemente utilizado para denotar uma relação entre tecnologia e imaginação. Na história da tecnologia, o zero é a quantidade nula que, no entanto, está sempre no centro da definição do um. Na matemática, o zero é a identidade de uma equação resolvida (uma equação como 1+1 = 2, que é equivalente a 2 = 2, é idêntica a 0 = 0). Na computação, o zero é definido como o estado de desligamento da máquina. Nesses casos, o zero é, simultaneamente, o nada e a sua contraparte lógica. Ele é, ao mesmo tempo, o fim de todas as operações matemáticas e o seu ponto de partida.

Ora, assim como a definição do um em um sistema binário depende do zero, a definição de tecnologia sempre se apoia em seu suplemento: a imaginação. De fato, a imaginação radical é a conditio sine qua non para o surgimento de qualquer novo paradigma tecnológico. Como exemplo, basta pensar em como a revolução copernicana foi impulsionada tanto pela invenção do telescópio quanto por uma mudança no imaginário; posteriormente, a definição cosmológica de uns e zeros – a Terra e o Sol – foi alterada a ponto de se tornar irreconhecível.

CAMILA CARDOZO: A noção de apocalipse como fim de uma era sempre foi um mistério para muitas civilizações. Também sempre foi, em algum nível, preocupante ou mesmo assustadora. Você diria que nosso sentimento pelo apocalipse já não é mais de medo, porque não é algo pensado no futuro distante? E, se esse fim não eleva nossa adrenalina para a fuga, o que sentimos agora será tédio e estafa?

ALESSANDRO SBORDONI: “É assim que o mundo acaba. Não com uma explosão, mas com um suspiro”, escreveu T. S. Eliot em um poema publicado há mais de um século. Hoje, o fim do mundo já não nos assusta. O mundo já acabou, e o capitalismo está colocando tudo à venda. O primeiro capítulo do livro (“Não com um estrondo, mas com um bocejo”) argumenta que o tédio também foi banido da nossa relação com o fim de todas as coisas. Em seu lugar, surgiu a hiperestimulação. Ao contrário do tédio, a hiperestimulação complementa o tempo do relógio com uma aceleração cada vez maior de estímulos. No tédio, o tempo do relógio não passa. Mas, na saturação sensorial, o tempo do relógio não existe; existe apenas o tempo de tela. A questão, nesse sentido, não é mais quando o apocalipse ocorrerá, mas se o futuro, enquanto tal, ainda existe no chamado tempo de tela.

As emoções, como nos ensina a filosofia heideggeriana, não ocorrem dentro do tempo: elas são, antes, os vetores do tempo. Mas, diferentemente do tédio ou da ansiedade, a hiperestimulação não guarda qualquer relação com o tempo do relógio. Em vez disso, ela reproduz sua própria temporalidade por meio da tecnologia. De fato, desde o advento da eletricidade no século XIX, o sol já não é a medida da temporalidade humana; a luz da tela digital sempre nasce sobre o Império…

CAMILA CARDOZO: Um dos principais sintomas do capitalismo tardio é o burnout. Será que, no fundo, diante desse mal, não desejamos que o sofrimento acabe logo, que exista um fim para tudo isso? Será isso o que nos faz alimentar um anseio pelo fim?

ALESSANDRO SBORDONI: Em uma palestra da década de 2010, Mark Fisher comentou Sem Limites, o filme de ficção científica estrelado por Bradley Cooper, para discutir nossa própria relação com a escassez de tempo no capitalismo tardio. No filme, o protagonista utiliza uma droga que potencializa a cognição para trabalhar mais rápido, dormir menos e espremer mais horas no dia. Para o capitalismo tardio, tempo é dinheiro e dinheiro é tempo. Portanto, mesmo em uma sociedade capitalista totalmente automatizada, não trabalhamos menos, mas sim ainda mais.

Mais uma vez, é somente por meio da reinvenção da relação com o sistema tecnológico como um todo que se pode almejar um futuro diferente. Nesse sentido, um espírito de esperança deve dissipar o espectro do desespero que paira sobre o século XXI; como argumenta Matt Bluemink em um novo livro, intitulado The Future Is Not Lost, que editei para a Becoming Press, essa é a tarefa política da cultura popular hoje. O mundo é sempre algo que construímos e que podemos reconstruir de maneira diferente.

CAMILA CARDOZO: A leitura de Semiótica do fim me trouxe à memória uma tendência na virada para os anos 2010: a nostalgia. Com isso, surgem no audiovisual, por exemplo, os remakes e spin offs de obras de sucesso. Parece que estamos tentando resgatar algo em vão, em uma tentativa desesperada de produzir quando não há mais criatividade. Além disso, seu livro nos apresenta as backrooms como um tipo de não-lugar dos jogos virtuais, espaços bastante desconfortáveis ou até mesmo insólitos, eu diria. Você acredita que chegamos a uma “backroom” na cultura, porque simplesmente não há mais lugares desbloqueados para a criação artística?

ALESSANDRO SBORDONI: Na adaptação cinematográfica da A24, as backrooms constituem o espaço liminar da nostalgia. Assim como em Solaris, a memória do passado retorna para assombrar os protagonistas do sucesso de bilheteria da A24. Com a única exceção dos monstros de aparência humana que infestam as backrooms, as memórias retratadas na tela restringem-se a bens de consumo, como móveis e objetos de decoração; espaços vazios, como escritórios e apartamentos; portas que não se abrem para fora. O filme, ambientado na década de 1990, é incapaz de evocar um passado radicalmente diferente do presente.

Na Grã-Bretanha, críticos culturais como Mark Fisher e Simon Reynolds apontaram uma incapacidade de imaginar o futuro. Resta saber até que ponto a análise deles não se tornou uma espécie de profecia autorrealizável, na qual a nostalgia é utilizada por produtoras como um argumento de venda em suas campanhas de marketing. Ora, se houver um livro nas backrooms, terá de ser uma edição de bolso de Fantasmas da minha vida, de Mark Fisher…

Diante de tudo isso, é preciso responder: o futuro não está perdido! Ainda existem artistas, músicos e diretores que criam e recriam o presente. Basta observar o cinema de internet de Dana Dawud! Basta ouvir SOPHIE, Arca, Iglooghost e os artistas da SVBKVLT! A memória de ontem dá lugar à estética de um novo amanhã. No século XXI, a cultura popular tem apenas nos entretido, à sua própria maneira. O objetivo, contudo, é reimaginar tudo desde o início.

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  1. SBORDONI, Alessandro. Semiótica do fim. Capitalismo e apocalipse. Tradução: Victor Hermann. São Paulo: sobinfluencia, 2025. ↩︎

Carbono, vol. 20 – julho de 2026.
ISSN: 3085-7066

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