Antonio Martínez Ron1
Os pastores de iaques do Butão estão angustiados porque a montanha sagrada Jomolhari tem perdido suas “pérolas reluzentes” de neve e gelo; no Peru, os peregrinos que subiam ao Colquepunco para coletar “gelo sagrado” limitam-se agora a tomar água do degelo das geleiras. Os primeiros sentem-se culpados por sua deusa estar “adoecida”, e os segundos acreditam que seu deus se cansou de suas orações. Estes são apenas dois exemplos do impacto que o aquecimento global tem sobre as crenças e rituais das culturas que consideram as geleiras lugares sagrados.
Seis pesquisadores que trabalham em alguns desses lugares do planeta publicaram uma análise conjunta no Nature Climate Change na qual expõem como o aquecimento global está forçando transformações nas crenças e rituais nas comunidades indígenas montanheiras. Para muitos dos habitantes dessas regiões do mundo, dos Andes ao Himalaia, ocorre algo perturbador: na visão deles, as geleiras sagradas aparentam estar doentes. Ou estão se escondendo, ou os estão abandonando.
“Os deuses que habitam as montanhas, que em algum momento pareciam onipotentes, agora parecem frágeis e abalados”, resume Elizabeth Allison, do Instituto de Estudos Integrais da Califórnia (CIIS). “A conexão espiritual com a Terra está sendo perdida ao mesmo tempo que estão sendo perdidas as geleiras”, explica Iván Lizaga, pesquisador do IPE-CSIC e coautor do artigo. “Eles entendem que um é consequência do outro”.
Desconexão nas Montanhas da Lua
Lizaga colabora com o pesquisador local Moses Muhumuza, que há anos trabalha nos Montes Rwenzori, conhecidos historicamente como “Montanhas da Lua”, situadas na fronteira entre Uganda e a República Democrática do Congo. A cosmologia, as crenças e as práticas espirituais do povo konjo, que vive na região, estão profundamente entranhadas nos recursos naturais. Os konjo conhecem 21 deuses e deusas associados à montanha, e em sua cosmovisão as geleiras são o sêmen semissólido do deus Kithasamba (literalmente, “Aquele que não escala”, porque reside na cúpula da montanha).
Nestas montanhas os dados são preocupantes: foram perdidas cerca de 90% das geleiras desde os primórdios do século XX. A perda física, juntamente com a proibição aos habitantes locais de acessar o Parque Nacional, tem obrigado o abandono de muitas das cerimônias tradicionais. A comunidade konjo estabeleceu uma relação de causalidade direta entre os dois fatos, explica Lizaga, e interpretaram que o gelo sumiria não pelo aquecimento global, mas sim por eles serem impedidos de realizar seus rituais. Felizmente, a situação está se revertendo, mesmo que os efeitos do abandono se mantenham.
O deus escondido
Outro caso citado no artigo é o da peregrinação do Senhor de Quyllurit’i no Peru. Historicamente, os devotos subiam as geleiras de Colquepunco para cortar blocos do “gelo sagrado” e levá-los para suas comunidades. Como destaca a antropóloga argentina Constanza Ceruti, os peregrinos agora se abstêm de cortar o gelo e apenas recolhem água do degelo, interpretando que a geleira retrocede porque o Senhor, cansado das orações dos devotos, está tentando “se esconder” deles. “Com quase trinta anos de experiência pessoal de campo no estudo antropológico e arqueológico de altitudes, pude ver claramente que o futuro das montanhas está em risco e, com ele, seu patrimônio cultural”, afirma Ceruti.
Na Bolívia, após o total desaparecimento da geleira Chacaltaya em 2009, os habitantes do Vale de Milluni interpretam o sol ardente como consequência de seus atos. “É um castigo que nós mesmos criamos”, relata um morador local. Na cosmovisão andina, os topos nevados são “avós”, ou guardiões, e a crise climática tem obrigado a modificar tradições com séculos de existência. Mas essa relação pode ter mudado, destaca Elizabeth Allison. “Enquanto antes as orações para manter boas relações com os deuses das montanhas pareciam produzir urgências suficientes e oportunas, essas orações e oferendas já não são tão efetivas.”
A serviço do diabo
Guillermo Salas Carreño, da Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP), defende que nos Andes as montanhas não deixaram de ser agentes intencionais, mas que seu significado está mudando. “Eu trabalhei nas menores comunidades rurais e elas são muito conscientes das mudanças que ocorrem no clima, produzindo um sentimento de culpa na qual as colinas estão as castigando por suas falhas morais e o descaso ritual”, explica para elDiario.es. “Há quem diga que nossos pecados cheiram tão mal que o Senhor [as geleiras] foge durante a peregrinação, porque fedemos muito”. Na sua opinião, é especialmente injusto que essa gente que vive em economias de subsistência se culpe pelas mudanças climáticas. “Estamos diante do paradoxo de que eles estão pagando mais caro pelas mudanças e obviamente não têm a responsabilidade”, enfatiza.
Um fato significativo em algumas regiões, como explica Salar Carreño, é o perceptível aumento da influência das igrejas evangélicas e pentecostais. Isso deixa as antigas divindades de fora e abre caminho para uma interpretação baseada nas escrituras. “Essas mudanças são vistas como castigo divino ou como parte da teleologia da Segunda Vinda e o Juízo Final”, explica o especialista. “Como não são Deus, as geleiras e as montanhas são então associadas com o diabo. E os convertidos costumam deixar de honrar as geleiras e as montanhas”.
A deusa adoecida do Himalaia
No topo do mundo, no Butão, uma das consequências do aquecimento global é que a metáfora da beleza divina está desmoronando. Os habitantes das terras altas do Himalaia descreviam anteriormente a montanha sagrada, Jomolhari, como uma deusa que vestia “pérolas reluzentes”, em alusão ao gelo e à neve vista no cume. Agora, porém, os pastores de iaques observam com pesar as “manchas pretas” que aparecem na montanha à medida que o gelo e a neve diminuem, sugerindo que ela “parece adoecida”.
Como nos casos anteriores, os habitantes das terras altas sinalizam um sentido de culpabilidade moral, preocupados de terem falhado ao seguir seus rituais e a cultura adequadamente, fazendo com que a deusa Jomolhari os abandonasse. Para Elizabeth Allison, o que ocorre é uma perda de sentido de integração e conexão que as religiões exerciam”. “As percepções, as práticas e as metáforas religiosas milenares nas comunidades de altitude estão mudando à medida que a paisagem física muda em direção a um entorno ressecado e escuro”, argumenta. “Muitos desses rituais que estão sendo abandonados protegiam a biodiversidade, e a sua desaparição contribui para que não se consiga mais deter essa degradação”, concorda Iván Lizaga.
A angústia pela perda
Álvaro Fernandez-Llamazares, especialista em etnobiologia da Universidade Autônoma de Barcelona (ICTA-UAB), acredita que o referido artigo é muito valioso porque mostra que as mudanças climáticas não apenas transformam paisagens físicas, mas também as relações espirituais que muitas comunidades mantêm com essas paisagens. “O retrocesso das geleiras afeta sistemas de crenças, rituais e relações de reciprocidade que durante séculos regularam a convivência entre as pessoas e a natureza”, ele salienta. Em seu trabalho com as comunidades indígenas, ele pôde observar processos muito similares, frequentemente acompanhados do que se conhece como solastalgia, uma sensação de luto, angústia e desorientação que surge quando os lugares de pertencimento transformam-se ou desaparecem pela deterioração ambiental.
“Entre os sâmi do norte da Fino-Escandinávia, a perda da neve estável e a crescente imprevisibilidade do gelo são vividas com uma sensação enorme de perda”, relata Fernández-Llamazares. “A paisagem para de responder como antes e se quebra a relação de confiança construída por gerações. Nas comunidades sâmi, essa mudança costuma ser expressa como um luto silencioso por um território que já não sustenta com a mesma intensidade a vida cultural e espiritual”.
A necessidade de que as comunidades se impliquem na conversação dos ecossistemas tem levado a ONU a patrocinar programas como o que ocorre nas montanhas do norte do Paquistão, onde se busca recuperar crenças locais como o “matrimônio entre geleiras machos e fêmeas” para semear novas geleiras. Sérgio Henrique Faria e sua equipe do Laboratório de Gelo (IzotzaLab) do Basque Center For Climate Change (BC3), que investigaram este processo, acreditam que a análise desses seis pesquisadores é uma oportunidade para refletir sobre a posição dessas crenças.
“Durante os últimos séculos, o pensamento acadêmico e científico considerava as religiões baseadas na natureza algo primitivo que deveria ser superado”, aponta Faria. “No seu tempo, essa atitude foi crucial para combater os perigos do misticismo, mas também diminuiu o valor positivo das relações recíprocas com o ambiente que é mencionado naquele artigo”. Na sua opinião, as mudanças climáticas destacaram os perigos do distanciamento radical com o meio ambiente, ao que se acrescenta a reação de certos grupos religiosos, que não aceitam a ideia de fazer parte da natureza e perder a suposta superioridade humana outorgada pelo Divino. “É hora de considerar essas novas ameaças”, conclui.
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(Este texto foi originalmente publicado no El Diario, em 20 de fevereiro de 2026. Agradecemos encarecidamente ao autor por ceder os direitos da tradução. Para ler o original, clique aqui. Tradução de Pedro Christoff.)
- Jornalista de ciência e escritor. Trabalhou nos principais veículos de imprensa em espanhol e recebeu o prêmio Ondas e o Concha García Campoy. É um dos fundadores da plataforma Naukas e do podcast Catástrofe Ultravioleta. Autor, entre outros, do livro El ojo desnudo. ↩︎
Carbono, vol. 20 – julho de 2026.
ISSN: 3085-7066
