São bastante conhecidas as relações históricas entre o agronegócio brasileiro – um dos principais motores do PIB nacional – e o sistema escravista da plantation, que vigorou no período colonial. Em alguns casos, é possível traçar uma linha direta entre os proprietários de terra de hoje e os escravagistas dos séculos passados, de modo que essa linhagem transmite, além do patrimônio, as concepções políticas e sociais das elites econômicas. Assim, não é de se espantar que os empresários do setor de cana-de-açúcar no Sudeste e no Nordeste brasileiros ainda hoje apresentem vieses racistas e antidemocráticos na defesa de seus negócios. Ora, a continuidade estrutural entre as atuais formas de exploração do trabalho, de degradação do meio-ambiente e de hierarquização social e as formas arcaicas que perduraram por séculos desde a colonização do Brasil constitui o que o sociólogo estadunidense, professor da Universidade de Oklahoma, Ian Carrillo chama de capitalismo racial. Em seu mais recente livro, The Business of Racism,1 Carrillo expõe as ideologias racistas e predatórias que fazem parte da elite canavieira dos estados de São Paulo, Pernambuco e Alagoas. Por meio de uma criteriosa investigação que envolveu o levantamento de leis, de documentos históricos, do debate com a tradição do pensamento sociológico brasileiro e, sobretudo, de uma etnografia minuciosa, o autor traça um panorama histórico das relações trabalhistas e ambientais que fazem parte da realidade social das plantações e usinas de cana do agronegócio brasileiro. Com isso, saltam à vista tanto os esforços do Estado no sentido da erradicação do trabalho análogo à escravidão – que é fortemente presente nesses lugares –, quanto a resistência das elites por meio da organização política em torno das agendas da direita nacional e, não raro, por meio da coerção e da violência. O livro, portanto, deixa claro que o passado escravagista brasileiro, juntamente com o racismo estrutural sobre o qual ele sempre se apoiou, não foi totalmente extinto, vigorando, ainda, na mentalidade das elites rurais brasileiras. Nesta entrevista, que foi concedida em português pelo tão amável Professor Carrillo, podemos entender melhor em que consiste o capitalismo racial, como foi a história de combate ao trabalho análogo à escravidão nas usinas canavieiras e como as nossas elites atuam para sabotar a democracia racial no Brasil. Leia abaixo.
ANTONIO BARROS: Podemos começar por uma noção crucial no livro e com a qual nem todas as pessoas estão familiarizadas. O que define o capitalismo racial? E como ele se manifesta no Brasil, especificamente nas usinas de cana de açúcar que você visitou?
IAN CARRILLO: Meu livro define o capitalismo racial como um processo e uma estrutura em que a acumulação desigual de capital ocorre por divisões sociais, como raça, gênero e classe, entre outras categorias. Em geral, essas relações de capitalismo racial operam pelo Estado, a força de trabalho, o meio ambiente, as instituições e a cultura.
No livro, uso capitalismo racial como uma abordagem para estudar a indústria canavieira no Brasil. Essa indústria é um caso exemplar de capitalismo racial. As plantações açucareiras eram a entidade econômica principal da colonização. Nas plantações, relações de classes eram estratificadas racialmente. Senhores de engenho eram brancos, e o poder e status eram concentrados nas mãos deles. Trabalhadores escravizados eram negros e tinham uma posição muito precária. As práticas ambientais também eram de exploração, envolvendo a depleção de solo, o desmatamento, a poluição de água e (começando no século XX) a queima da palha.
Essa indústria tem passado por mudanças importantes, como a abolição de escravidão e a adoção do estatuto do trabalhador rural. Mas a plantação como um modelo de negócio e um modelo para organizar sociedade persiste até hoje.
ANTONIO BARROS: Você demonstra, no livro, que o capitalismo racial no Brasil descende do sistema econômico da plantation e da escravatura, que vigoraram até o século XIX. Quais são as continuidades entre esses dois sistemas?
IAN CARRILLO: O capitalismo racial foi desenvolvido pela colonização, mas é também um fenômeno atual. O mundo contemporâneo é composto de desigualdades, estruturas e relações que a colonização construiu. Infelizmente, isso é visível nas relações açucareiras hoje em dia: a branquitude continua a definir o poder econômico, e a grande maioria dos trabalhadores canavieiros é afrodescendente.
Outra continuidade importante tem a ver com o poder político. Os usineiros, senhores de engenho e suas famílias continuam tendo muito poder no sistema político e na economia política. Nesse sentido, o patrimonialismo é central na configuração do capitalismo racial no Brasil, historicamente e atualmente.
ANTONIO BARROS: Ao ler o seu livro, é possível retraçar a história das leis trabalhistas no Brasil, desde a Constituição de 1988 e os anos FHC, até a flexibilização da CLT e a extinção do Ministério do Trabalho, respectivamente feitas por Temer e Bolsonaro. Como você avalia esse período em termos de melhorias das condições de trabalho nas usinas de cana? E o quão distante o Brasil está de erradicar o trabalho análogo à escravidão?
IAN CARRILLO: O período entre a década 1990 até (mais ou menos) o ano de 2013 é muito importante para a história do trabalho rural no Brasil. A criação e a implementação de leis contra o trabalho infantil e o trabalho análogo à escravidão foram uma grande intervenção no setor do agronegócio. O Ministério de Trabalho e o Ministério Público de Trabalho também desenvolveram regulações para combater outras formas de abuso relativos à saúde, ao roubo de salários e à informalidade, entre outras áreas. A expansão de regulamentação trabalhista não foi perfeita, mas foi um choque para a classe latifundiária, que era acostumada a ter a liberdade de explorar e dominar trabalhadores sem muita interferência do Estado.
A luta contra o trabalho análogo à escravidão infelizmente vai ser uma luta de longo prazo. Enquanto o capitalismo racial existir, atores poderosos vão tentar escravizar trabalhadores. No entanto, como meu livro descreve, muitas políticas institucionais no Brasil interromperam a reprodução do trabalho escravo. Os Grupo Móveis criaram e institucionalizaram normas e protocolos para poder identificar e documentar o trabalho escravo. Promotores e desembargadores também desenvolveram métodos e instrumentos para criminalizar o trabalho análogo à escravidão e condenar as pessoas que escravizaram trabalhadores. Isso foi um avanço muito importante. E sabemos que foi importante porque o setor do agronegócio tem trabalhado vigorosamente para reverter essas leis – para mudar a definição de trabalho escravo, por exemplo. A classe latifundiária pensa que o trabalho infantil e o trabalho escravo são algo normal. Mas, nas décadas recentes, muitos movimentos – no Estado, nos sindicatos rurais, nos movimentos rurais e na sociedade brasileira – têm emergido para desafiar essa exploração dos trabalhadores.
ANTONIO BARROS: Seu livro também capta a tensão existente entre os agentes do Estado (fiscais, promotores) e os usineiros. Conforme as leis trabalhistas avançaram no país, houve reação dos produtores de cana. Como você descreveria o papel da elite canavieira no panorama político e econômico do Brasil depois da redemocratização? E como a ideologia das elites tem atrasado a implementação das leis trabalhistas e do antirracismo no Brasil?
IAN CARRILLO: As elites açucareiras que entrevistei em São Paulo, Alagoas e Pernambuco compartilham uma visão que é hostil a valores democráticos, como igualdade, universalidade e direitos humanos. Isso provavelmente não é uma surpresa, porque a plantation é uma entidade econômica e política que é antitética à democracia. Os trabalhadores rurais eram tradicionalmente excluídos de proteções legais, e a Constituição de 1988 mudou essa dinâmica. A implementação de direitos não foi rápida, mas houve momentos de progresso. Nos anos 1990, os Grupos Móveis usaram a Constituição para estabelecer a justificação legal para combater o trabalho análogo à escravidão. Em 2005, auditores fiscais do trabalho e promotores também usaram a Constituição para criar a Norma Regulamentadora 31, que foi fundamental para estender direitos trabalhistas ao âmbito rural. Esses momentos representam a longa marcha de democratização.
No entanto, as elites resistiram ao cumprimento dessas leis. Não queriam fornecer banheiros e equipamento de proteção individual, por exemplo. Em geral, as elites não queriam respeitar os direitos trabalhistas e as dignidades básicas dos trabalhadores. Assim, essas elites continuam a ser um dos maiores obstáculos do antirracismo no Brasil. Porém, meu livro mostra que o poder dessas elites não é inevitável, e que é possível desafiar e reformar o sistema das oligarquias.
ANTONIO BARROS: Você também mostra que a queimada da palha da cana, uma atividade nociva aos trabalhadores e ao meio ambiente, passou a ser regulada pelo Estado, desagradando os usineiros. De que modo as questões ambientais foram articuladas pelas elites rurais para legitimar o capitalismo racial e a degradação ambiental?
IAN CARRILLO: Nas plantações de cana-de-açúcar, não é possível separar atividades trabalhistas e atividades ambientais. Por exemplo, cortar cana é uma atividade trabalhista e uma atividade ambiental. Essas ligações são vistas na maneira como as elites rurais discutem a queima da palha. No Nordeste, onde essa prática persiste, as elites explicaram para mim que proibir a queima de palha causaria caos racial e de classe. Na perspectiva deles, se as usinas não pudessem fazer a queimada, elas fechariam, e milhares de trabalhadores se mudariam para os centros urbanos, onde eles supostamente cometeriam muitos crimes violentos. Assim, nessa visão racista das elites, queimar a palha é uma atividade necessária para manter a ordem racial e de classe.
Também é importante dizer que a elite paulista tinha essa mesma perspectiva antes da adoção da colheita mecanizada. Entre os anos 2000 e 2002, quando a ALESP estava propondo leis para proibir as queimadas, as elites rurais usavam um discurso que era basicamente idêntico ao discurso das elites nordestinas. As elites paulistas propagavam estereótipos raciais dos trabalhadores rurais para deslegitimar leis ambientais e para justificar a queima de palha. Assim, no Nordeste e em São Paulo, vemos que a degradação ambiental é intrínseca ao poder das elites no capitalismo racial.
ANTONIO BARROS: Por fim, seu livro mostra que há distinções entre o Sudeste e o Nordeste no que diz respeito à implementação da mecanização e das leis trabalhistas e ambientais. Na sua visão, como se diferenciam as elites dessas duas regiões? Como a ideologia racista e conservadora opera nesses diferentes lugares?
IAN CARRILLO: No Brasil, há diferenças regionais entre as elites paulistas e as elites nordestinas. No entanto, elas têm muitas características semelhantes. Nas duas regiões, as elites são antidemocráticas, reacionárias e patrimonialistas. Desde a colonização, a branquitude tem definido a oligarquia rural em São Paulo e no Nordeste, a despeito da abolição, dos ciclos de commodities e das mudanças nas configurações políticas no Brasil.
Uma diferença crucial entre as elites paulistas e nordestinas é a sua visão de poder. As elites paulistas descreveram o seu poder em termos nacionais. Elas acreditavam que eram as pessoas mais modernas e empreendedoras do Brasil, e que só elas – como paulistas – tinham o talento para restaurar a grandeza do país. Essa mentalidade reflete o que a historiadora Barbara Weinstein chama de supremacia étnico-regional. As elites nordestinas tinham uma visão de poder que era mais regional. Elas sabiam que as suas usinas eram cada vez menos competitivas no setor nacional. Assim, um de seus desejos mais primordiais era capturar o Estado para poder parar esse declínio econômico e proteger as suas usinas das forças democráticas e econômicas. Apesar das diferenças, as elites paulistas e nordestinas concordavam que era necessário eliminar as leis trabalhistas e ambientais e restringir a democracia.
Em geral, um aspecto importante do capitalismo racial é que ideologias de dominação racial operam diferentemente dependendo da região geográfica. Isso é visto no Brasil, onde o regionalismo influencia a raça e a racialização, inclusive para as elites econômicas.
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- CARRILLO, Ian. The Business of Racism. Labor and Environmental in Brazil’s Racial Capitalism. Durham: Duke University Press, 2026. ↩︎
Carbono, vol. 22 – setembro de 2026.
ISSN: 3085-7066
