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Ser da Geração Z em um Mundo que se Recusa a Melhorar

Nascidos na época das crises e do superaquecimento, o ativismo digital da Geração Z reflete um posicionamento crítico contra um mundo que não melhora. Essa geração tem de navegar as falhas sistêmicas do mundo, enquanto as gerações anteriores muitas vezes os culpam por condições que são, na verdade, uma herança do passado

Vaishnavi Singh1

Quando o chefe de justiça da Suprema Corte indiana comparou os jovens às baratas, a juventude fez com que seu repúdio fosse ouvido. O “Partido do Povo Barata” (Cockroach Janta Party – CJP) tomou conta de muitos feeds no Instagram por alguns dias, até que comentários odiosos, alegando que o movimento era desonesto, começassem a invadir as discussões sobre o assunto. Mas também se popularizou um argumento em defesa do movimento: como podemos esperar que um grupo recém-criado nas redes sociais pudesse se responsabilizar por todas as falácias e problemas que os políticos no poder jogam na cara do povo?

Esse ensaio não é sobre o CJP ou sobre baratas. Todos nós, em algum momento, já reparamos que há um padrão generalizado de gerações passadas verem com maus olhos e apontarem o dedo para gerações mais novas.

A internet e o “doomer”

Em sua pesquisa publicada em 2021 pela Frontiers in Political Science, a professora associada de pedagogia, Tanu Biswas, da Universidade de Stavanger, diz que a geração Z “nasceu em uma era superaquecida”. Biswas faz referência ao antropólogo Thomas Hylland Eriksen, que define o neoliberalismo do Antropoceno como um fenômeno que não se limita ao âmbito das crises ambientais, mas que, na verdade, as crises são parte de um ecossistema maior em que a desigualdade econômica e social é cada vez mais agravada.

Esse entrelaçamento de crises diversas é evidenciado pela evolução política da ativista ambiental Greta Thunberg – também pertencente à geração Z, que foi ridicularizada durante sua adolescência por exigir que os líderes políticos mais velhos se responsabilizassem pelo mundo –, tendo em vista que ela continua a aprofundar sua base ideológica com um discurso anticapitalista. 

Para o bem ou para o mal, os laços da Geração Z com a internet e as redes sociais tornaram essa geração, ao mesmo tempo, extremamente ciente do que acontece, porém deprimentemente impotente diante disso tudo. O neologismo “doomer” (vindo da palavra inglesa “doom”, que se refere a uma ruína ou fracasso inevitável) é o que melhor nos descreve como geração. O termo é atribuído a uma subcultura online do final dos anos 2000, na qual os usuários se juntavam virtualmente para discutir situações “apocalípticas”, como a crise do petróleo de 2008.

Essa subcultura cresceu não como um catalisador discutindo o fim do mundo teológico como numa espécie de culto, mas sim a partir do conhecimento das recessões econômicas, das catástrofes ambientais causadas pela ação humana e da natureza da nossa cumplicidade diante de nossa própria ruína.

Ao longo dos anos, o Doomer se tornou uma caricatura de um cara solitário, egocêntrico e com uma mentalidade derrotista, frequentemente aparecendo em memes ao lado de sua versão feminina, a garota Doomer. Se você ousar lamentar o próprio futuro em um mundo em chamas, dirão que você é um Doomer que não liga para nada.

O Doomer teria tomado – falando em termos do 4chan – a “black-pill” do niilismo e do desespero. Desde a COVID-19 e dos lockdowns no mundo todo, uma geração inteira chega a ser associada à figura do Doomer. Compartilhamos nosso desdém pelo processo de destruição socioeconômica do mundo por meio de memes e passamos horas doomscrolling2 e rolando nossas timelines, lendo manchetes sobre guerras e imperialismo como uma forma de humor que raramente diverte.

Fomos tragados por um ciclo passivo de testemunho da ruína da humanidade e das desigualdades de raça, casta, classe e gênero, sem poder fazer nada em relação a isso, porque não conseguimos ver como poderíamos alcançar o poder para fazer qualquer diferença significativa. Mas, é claro, isso não reflete a realidade de toda pessoa jovem no mundo.

Protestos massivos estouram de novo e de novo – como os protestos na Índia contra a nova emenda à Lei de Cidadania e do Registro Nacional dos Cidadãos (CAA-NRC), liderados principalmente por jovens millennials e Gen Z; o movimento Black Lives Matter nos EUA, e as tomadas de governo no Nepal e em Bangladesh.

Criamos slogans virais e repostamos notícias sobre o número cada vez maior de vítimas na Palestina, enquanto nos deparamos com fotos de criancinhas mortas na tela do celular. Dizemos que condenamos a IA generativa, mas o nosso mísero salário vem de instituições que lucram com o sofrimento. E tudo isso poderia estar, idealmente – e talvez esteja, mesmo – nos levando a uma mobilização cada vez maior. Mas não temos certeza disso.

Os Doomers estão certos sobre a situação atual do planeta e talvez devêssemos continuar dando nome aos problemas em vez de nos sujeitarmos à desonesta alcunha de que se trata só de uma “mentalidade doomer”. Walter Benjamin escreveu em 1935 que “autoalienação [da humanidade] atingiu o ponto que lhe permite viver sua própria destruição como um prazer estético de primeira ordem.”

O doomscrolling faz algo similar. Consumimos nossa própria ruína, e as gerações mais velhas dizem que essa é uma falha moral nossa, que merecemos a ruína porque somos preguiçosos e desinteressados.

Em defesa da Gen Z

Uma geração inteira não é um monólito, mesmo que nosso estilo de vida cronicamente online tenha nos juntado em um grande grupo de jovens que reclamam e reclamam sem fazer nada que ativamente mude alguma coisa. A necessidade de mobilização é real, bem como a necessidade de criticarmos, questionarmos e termos conversas difíceis.

Mas resolverá alguma coisa se ficarem culpando uma geração que passou a maior parte dos seus anos de formação presa no quarto, terminando a escola e a faculdade com formaturas virtuais no Zoom? Eu defendo que não podemos nos mobilizar sem empatia, da mesma forma que não podemos nos mobilizar sem responsabilizar as pessoas certas.

Os jovens buscam, cada vez mais, um senso de comunidade em ambientes diariamente mais conservadores, um fenômeno conectado ao que Svetlana Boym chama de “nostalgia restaurativa”, o sentimento de saudade e nostalgia por um passado imaginado em que tudo fazia sentido, em vez de uma ânsia por um futuro que poderíamos salvar.

Uma política que zombe do desespero vai, inevitavelmente, fazer com que a juventude fique cada vez mais cínica, apática e cheia de fantasias reacionárias sobre a ordem. Se vamos nos mobilizar de forma significativa, precisamos começar tratando o desespero não como uma fraqueza, mas como uma resposta ao mundo como existe hoje.

* * *

(Este texto foi originalmente publicado no site Usawa, em 29 de maio de 2026. Agradecemos encarecidamente à autora por autorizar a tradução. Para ler o original, clique aqui. Tradução de Giulia Santos Menegaz.)

  1. Autora iniciante, com mestrado em Artes Literárias pela Ambedkar University Dehli. Sua área de interesse se concentra na internet, na cultura da mídia, na nostalgia e na vida política contemporânea. ↩︎
  2. Termo que une as palavras em inglês “doom”, associada a catástrofe ou fatalidade, e “scrolling”, o ato de deslizar o dedo pela tela. Ele descreve o hábito de consumir, de forma repetitiva e muitas vezes involuntária, notícias e publicações que despertam desconforto, medo ou angústia, mesmo quando esse consumo já não traz nenhuma informação nova ou útil. Ver aqui. [N.T.] ↩︎

Carbono, vol. 23 – outubro de 2026.
ISSN: 3085-7066

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