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Entrevista com Luis Carlos Barragán Castro

O escritor colombiano, autor do livro “Parásitos Perfectos”, comenta sobre o lugar da ficção científica e da literatura latino-americana no Antropoceno

Publicado em 2024, Parásitos perfectos1 é um livro de contos do autor Luis Carlos Barragán Castro, que chamou a atenção de figuras importantes do cenário literário, tais como Mariana Enríquez. Nascido em Bogotá, na Colômbia, Barragán Castro rapidamente ganhou os holofotes da literatura especulativa latino-americana graças às suas criações insólitas, nas quais despontam temas caros à ficção científica, tais como a simbiose humano-máquina e a presença de dispositivos tecnológicos futuristas. Além disso, sua ficção se compõe, também, de todo um rol de criaturas que vão desde animais que são usados como carros, passando por humanos que fazem dos parasitas uma forma de estilização do próprio corpo. Nos contos de Barragán Castro, a ficção científica alcança o potencial especulativo que salienta os aspectos mais relevantes do nosso presente habitado pelas máquinas, pela inteligência artificial, mas também pela alienação diante da tecnologia e de tudo o que compromete a sociedade e o meio ambiente. Nesta entrevista que o escritor gentilmente nos concedeu, o novo boom da literatura latino-americana, a importância da literatura de ficção científica e alguns temas da biologia são abordados à luz do Antropoceno.


ANTONIO BARROS: O seu livro é composto de vários contos que podem ser lidos de forma independente, mas que também se entrelaçam, seja pela temática, seja pela reincidência de elementos comuns, compondo um universo de ficção científica absolutamente singular. Na sua opinião, qual é o lugar da ficção científica entre a literatura, tendo em mente os problemas do Antropoceno?

LUIS CARLOS BARRAGÁN CASTRO: Pode ser que durante boa parte da história da literatura a ficção científica tenha tido um lugar mais ou menos marginal, e que durante a maior parte do século XX muitos acadêmicos de literatura não a tenham levado a sério. Eu acredito que na verdade é o contrário no século XXI. A literatura de ficção científica ocupa um lugar central em nosso mundo e em nossa época, precisamente porque cada vez mais nosso mundo é composto por máquinas ou por coisas feitas por máquinas. A ficção científica serve, entre outras coisas, para pôr no centro a pergunta sobre o que somos quando nos colocamos frente a frente com a técnica, a ciência e as transformações produzidas pela tecnologia. Foi justamente a ficção científica que evoluiu para refletir sobre e imaginar o que está nos transformando agora mesmo, ao menos para ter uma linguagem que nos permita identificar esses problemas, ou esses caminhos, ou para descrever o que sentimos quando estamos sendo literalmente duplicados pela inteligência artificial, e, também, para refletir diante das modificações maquínicas e planetárias a que chamamos de Antropoceno.

ANTONIO BARROS: A geografia do livro é relativamente próxima à divisão geopolítica atual. Porém, nos contos, a história e o clima são indeterminados. A mistura de avanço tecnológico com aspectos intensificados da barbárie capitalista atual coloca o livro em um futuro impreciso, em que os efeitos da mudança climática e da reprodução do capital teriam produzido consequências drásticas. Em que medida os seus contos realçam os elementos do nosso presente momento?

LUIS CARLOS BARRAGÁN CASTRO: Como disse Ursula Le Guin, “a ficção científica não é preditiva, é descritiva”. Essa ideia me parece muito correta; a ficção científica não fala do futuro, mas sim decorre da especulação sobre o que acontece no presente, de criticá-lo ou inclusive de apreciá-lo. É uma reação ao presente. Meu trabalho consistiu, em parte, em identificar as coisas que acontecem ao redor de nós e exagerá-las um pouco para que possamos notá-las melhor. Não como um sociólogo, necessariamente, mas sim como um ator que viveu essas dinâmicas, tanto distópicas quanto utópicas, do nosso presente, e que se sente sobrecarregado por essas mesmas dinâmicas. No fim das contas, sou um produto dessas contradições, e quando tento ser honesto não posso evitar de falar a respeito de como elas me afetam.

ANTONIO BARROS: Apesar da estranheza que seus contos geram no leitor – piratas que roubam memórias, automóveis que são insetos gigantes, crustáceos que se alimentam de fezes humanas, portais na barriga de seres-humanos –, a realidade em que as personagens vivem não causa estupefação nelas. Você diria que as personagens vivem alienadas da mesma forma que vivemos hoje em dia? E você acredita que essa alienação é algo a se combater pela literatura ou algo incontornável dado o nosso contexto de desinformação e burnout?

LUIS CARLOS BARRAGÁN CASTRO: Sim, acho que eles vivem alienados, mas, do mesmo jeito que nós, buscam escapar dessa alienação de alguma forma. Ou seja, nós também estamos rodeados por máquinas e coisas extraordinárias, mas não temos tempo de ficar estupefatos, porque esta já é nossa realidade. Eu adoraria que pudéssemos lutar contra essa alienação, de estar constantemente saturados de informações e ideias, e produtos e formas de ser. Ao passo que num mundo em que o capitalismo não parecia tão invencível se podia ainda imaginar uma revolução que transformasse a realidade, o mundo estranho em que vivemos agora não parece mostrar uma saída com facilidade. Acho que os personagens de alguma forma procuram a saída e rompem com essa alienação levando os objetos que os parasitaram até o extremo, esperando que haja uma porta de saída em algum lugar. Por exemplo, ser um caçador de carros e viver nos limites da sociedade, ou levar o consumo de parasitas até a autodestruição. Sim, seria genial que a literatura ajudasse nesse processo de imaginar saídas desse esgotamento, e de certo modo descrevê-lo já nos ajuda a confrontá-lo.

ANTONIO BARROS: Parásitos perfectos fala da simbiose, inclusive fazendo menção à teoria de Lynn Margulis. Não é incomum ver na ficção científica narrativas que extrapolam os conceitos da ciência, muitas vezes criando distopias. Nesse caso, porém, trata-se de um conceito pouco difundido na cultura de modo geral. E seu livro não pode ser enquadrado como uma distopia. Em que medida você acredita que esse conceito e, em particular, o seu livro são reveladores da pertinência da simbiose para o melhor entendimento das questões humanas no Antropoceno?

LUIS CARLOS BARRAGÁN CASTRO: Que bom que você acha que não é uma distopia. Não é. É um livro em cinza, e não em preto e branco, ou pelo menos isso era o que eu estava querendo construir, o bem e o mal não são tão claros. Podemos encontrar prazer e realização no fundo do sofrimento, o que parece bom traz problemas, e os problemas às vezes são bons. Na verdade, eu implementei várias formas de relação interespecíficas: a simbiose, mas também o parasitismo, a forésia, o comensalismo e o mutualismo, e esses me parecem conceitos muito úteis para descrever nossa relação com as máquinas, os animais, a comida, as plantas, nosso planeta, as pessoas que nos rodeiam, a tecnologia, os meios de comunicação, as ideias; os próprios memes são unidades virais viventes no sentido técnico. Acho que isso ajuda a entender o Antropoceno na medida em que talvez nos dê mais ferramentas para entender a complexidade dessas relações. E funciona, além disso, para que possamos ver tudo mais além do bem e do mal.

ANTONIO BARROS: A literatura latino-americana vivenciou o seu boom na década de 1960 e 1970, graças a figuras como Cortázar e seu conterrâneo, García Márquez. Agora, com o sucesso de escritores sul-americanos que trabalham com uma literatura especulativa, tais como Mariana Enríquez, Samantha Schweblin e Juan Cárdenas, há um ressurgimento no interesse pela literatura da América Latina. Como você analisa esse fenômeno? E como seu livro se insere nessa nova onda de literatura especulativa?

LUIS CARLOS BARRAGÁN CASTRO: Assim espero. Eu gosto da ideia de que a literatura volte a ser popular, ou tenha uma nova etapa de atividade e energia. Somos muitos os escritores latino-americanos que estamos experimentando com o terror, a ficção científica e a fantasia, e talvez estejamos propondo formas mais sinceras de ler nossa realidade e nossa posição geográfica. Muitos desses livros e autores (e existem muitos outros) estão se colocando perguntas muito válidas sobre nossa história, e além disso libertando sua imaginação para propor, para criticar, para simplesmente especular a partir do que está acontecendo historicamente conosco agora. Espero que meu livro esteja enquadrado nesse mini boom. E espero que esteja trazendo algo em prol de uma nova literatura latino-americana.

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  1. BARRAGÁN CASTRO, Luis Carlos. Parásitos perfectos. Buenos Aires: Caja Negra, 2024. ↩︎

Carbono, vol. 3 – fevereiro de 2025.
ISSN: 3085-7066

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