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Entrevista com Anna Kornbluh

A autora do livro “Immediacy, or, The Style of Too Late Capitalism” concedeu uma entrevista por escrito ao Carbono

Anna Kornbluh, da Universidade de Illinois, Chicago, leciona e pesquisa sobre romances, filmes e estética cultural de uma perspectiva formalista e marxista. Em 2024, ela lançou pela editora Verso o livro intitulado Immediacy, or, The Style of Too Late Capitalism,1 que provocou intensos debates na comunidade acadêmica internacional. O livro trata do estilo do capitalismo muito tardio (too late capitalism), alegando que a arte e a literatura contemporâneas abdicaram da mediação como resultado da atual organização do capitalismo, que incentiva a circulação incessante de mercadorias e bens culturais a fim de combater a estagnação econômica da produção. Com isso, as tradicionais formas de produção e recepção artísticas, respaldadas pelas instituições que promovem a reprodução social do conhecimento, foram substituídas por formas imersivas e imanentistas, que apostam nos afetos como meio de suscitar respostas convergentes com a organização socioeconômica que incentiva o imediatismo (immediacy). O imediatismo (ou a ausência de mediação), portanto, é a condição na qual a arte e a literatura são hoje produzidas e consumidas, gerando um estilo que achata a consciência teórica e política, ao passo que enaltece narcisismos teóricos e artísticos de toda sorte.

Nessa entrevista, a professora Anna Kornbluh esclarece o que é o capitalismo muito tardio em sua relação com o pós-modernismo, a catástrofe climática e a crise do trabalho, bem como aborda as relações entre esse sistema econômico e as formas artísticas do imediatismo.


ANTONIO BARROS: O seu livro Immediacy, or, the Style of Too Late Capitalism tem uma forte inspiração no livro de Fredric Jameson, Postmodernism, or, the Logic of Late Capitalism, correto? Jameson é um teórico bastante lido e conhecido no Brasil. Comecemos, então, por isso: quais as diferenças mais notáveis entre o “late capitalism” de Jameson e o “too late capitalism” do qual você fala em seu livro? Além disso, o seu livro trabalha com uma dicotomia entre a imediatismo e a mediação, a primeira como resultado do capitalismo atual e a segunda como parte de práticas culturais e acadêmicas que parecem hoje relegadas à margem da produção artística e crítica. É possível dizer que o pós-modernismo foi o último estilo de uma cultura da mediação, ou o capitalismo financista das últimas décadas do século XX já havia eliminado a mediação?

ANNA KORNBLUH: Immediacy sem dúvida tem uma dívida profunda com o Pós-Modernismo e pretende estender as análises de Jameson – em parte porque o método marxista dialético de interpretação da estética cultural que ele estabeleceu em O Inconsciente Político e no Pós-Modernismo é simplesmente insuperável, e em parte porque ele próprio notou que o pós-modernismo não é mais a dominante cultural. “Capitalismo tardio” foi um termo nas artes durante quase um século. Ainda estamos no capitalismo! Mas de que modo nossas análises podem apreender o que continua igual enquanto também apreende o que é diferente? O termo “capitalismo muito tardio” é um esforço de nomear essa crise prolongada do capitalismo que ainda continua aí, enquanto leva as pessoas à miséria e coloca o planeta em perigo, e também uma tentativa de dizer que a temporalidade em que vivemos não é mais tardia no sentido de que antecipa uma mudança, mas muito tardia no sentido de que o futuro já está significativamente – embora não totalmente – determinado. A situação econômica subjacente à crise de produção (sobrecapacidade, expulsão do trabalho, tendência de queda na taxa de lucro) tornou-se muito mais evidente nos quarenta anos após Jameson ter identificado o pós-modernismo como lógica cultural que correspondia à globalização, às corporações multinacionais e à compressão do espaço-tempo. Hoje em dia é senso comum para figuras não marxistas como Larry Summers que a estagnação secular é real e mensurável. Immediacy tenta descrever a estética cultural que modula essa situação empírica duradoura da estagnação da produção e da intensificação da circulação. Um dos contrastes sobre o qual o livro repousa é aquele entre a mediação pós-moderna – o meta, a ironia, a intertextualidade, o pastiche – e a desmediação contemporânea – o achatamento, o borrão, a indistinção, o lodo. A financeirização excessiva do fim do século XX e do início do século XXI impulsiona a desintermediação; imediatismo (immediacy) é a mediação negada resultante de nossa base de circulação futura de gerenciamento de ativos.

ANTONIO BARROS: O capítulo dedicado à literatura põe em questão tanto a autoficção quando as narrativas em primeira pessoa, ambas como parte de uma cultura do imediatismo e da imanência. De que maneira isso promove um achatamento da dimensão crítica presente, por exemplo, nas obras do realismo convencional e da literatura em terceira pessoa?

ANNA KORNBLUH: Uma das observações que o livro faz a respeito do estilo do imediatismo é a de que tem havido uma mutação radical na literatura do século XXI. Nos trezentos anos de história do romance anglófono, ele foi majoritariamente composto na terceira pessoa (o que foi provado por experts em analítica computacional, mas também é algo observável pela leitura). A terceira pessoa é, nesse sentido, definidora da forma romance e oferece um entendimento único que não está disponível à nossa experiência fenomênica comum. Mas de repente, no século XXI, os romances não são mais escritos na terceira pessoa; a primeira pessoa atingiu um domínio sem precedentes. No capítulo sobre a escrita como meio, o livro situa essa mutação radical em relação à antimediação, à antirrepresentação, que é determinada pela base do capitalismo muito tardio. A antificcionalidade militante da moda da autoficção se parece, nesse contexto, menos com algum tipo de radicalismo vanguardista e mais com a mais explícita versão de uma mutação mais ampla na forma literária: distante das típicas mediações das explorações da consciência coletiva e do discurso indireto livre, e tendendo ao personalismo, ao atomismo e à memória. A deliberada rejeição da ficcionalidade, da personagem, da intriga, e da duração temporal por parte da autoficção deve ser entendida como parte da deslegitimação da atividade social da representação, e esse descrédito é, novamente, um empreendimento economicamente sobredeterminado.

ANTONIO BARROS: Em seu livro, há alguns momentos em que você menciona a crise do trabalho acadêmico como um dos elementos associados ao imediatismo. Do meu ponto de vista, muito do que se configura como imediatismo hoje se deve à deterioração das condições de trabalho, não apenas na universidade e entre os artistas, mas como um todo, o que impulsiona pessoas a buscar nos aplicativos meios de vida. Você concorda que a crise do trabalho em geral, mas especificamente do trabalho acadêmico e do trabalho artístico, está na origem do estilo do imediatismo?

ANNA KORNBLUH: A crise do trabalho cultural – o trabalho de reprodução social, de produzir conhecimento e de produzir sentido, de criar instituições e de fazer pontes – é claramente uma característica da crise de estagnação. A busca desesperada do lucro a qualquer custo por parte da nossa economia, em face do declínio de produtividade e da insustentabilidade do crescimento vertiginoso, significa que há um grave desinvestimento no registro interventivo da vida política e civil, um sério desfinanciamento das escolas públicas e dos meios de comunicação públicos. As condições de trabalho deletérias no campo da publicação, da educação superior, do jornalismo, são parte da análise da degradação da produção de ficção presente no capítulo sobre a escrita, bem como da desespecificação da mídia no mundo da arte contemporânea, do triunfo do ensaio pessoal sobre o jornalismo investigativo, e da predominância da autoteoria sobre a pesquisa acadêmica. É por isso que o livro termina de olho nos movimentos sindicais na indústria cultural. Sem professores e trabalhadores da área da saúde sindicalizados, sem jornalistas e funcionários dos museus sindicalizados, não veremos uma melhora no estilo cultural.

ANTONIO BARROS: Por fim, em algumas passagens do livro, você coloca o imediatismo como um obstáculo para uma maior consciência das mudanças climáticas. Amitav Ghosh diz que o leitor do futuro não entenderá por que a literatura do presente ignora o aquecimento global e seus efeitos. De que maneira a literatura e a produção artística atuais contribuem para isso?

ANNA KORNBLUH: O livro sugere que o muito tardio é uma realidade ecológica – não num sentido fatalista, uma vez que as coisas ainda podem ser menos piores, mas no sentido de que as piores consequências ainda estão em gestação –, e que isso é uma leitura sintomática compassiva do estilo do imediatismo: os artistas estão renunciando à criatividade e à mediação porque a humanidade está à beira da extinção forçada. Mas a análise prossegue, enfatizando que o sintoma não é o único caminho para a estética cultural. Nossa arte também pode ser benéfica ou intervencionista – nos ajudando a pensar coletivamente, a pensar em soluções climáticas, a entender a relação entre representação e ação. Mas ela só pode fazer isso se não for abertamente antiarte, antimediação, antirrepresentação. Não parece verdade que a arte e a literatura contemporâneas ignoram os efeitos do clima; porém, me parece que focar somente nos efeitos (e não, digamos, nas causas) não é uma forma de pensamento muito ampla nem politicamente mobilizadora. Essas questões continuam a me preocupar, e vários ensaios sobre a “contraestética do clima” e sobre os usos da arte na crise climática derivaram do livro Immediacy.

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  1. KORNBLUH, Anna. Immediacy, or, The Style of Too Late Capitalism. Londres e Nova York: Verso, 2024. ↩︎

Carbono, vol. 1 – dezembro de 2024.
ISSN: 3085-7066

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