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A Rapidez das Geleiras

A língua em tempo de mudança climática

Rob Nixon1

A língua se curva e se dobra sob o peso da mudança climática. Pense no adjetivo “glacial”. Recentemente eu me deparei com um velho esboço da minha tese de doutorado, no qual meu orientador rabiscou a seguinte bronca: “Você está progredindo em ritmo glacial. Você está patinando em gelo fino”. Isso foi em 1988, o ano em que o climatologista James Hansen declarou, diante do Senado dos Estados Unidos, que os descontrolados gases do efeito estufa impunham uma ameaça ao planeta.

Se hoje em dia eu repetisse a admoestação do meu orientador em uma dissertação, o estudante presumiria que eu o estaria advertindo por escrever depressa demais. Ao longo de todos os sete continentes, as geleiras estão recuando rapidamente. Em um período de quatro anos, a calota de gelo da Groenlândia perdeu um trilhão de toneladas de gelo. Alguns geólogos esperam que o Parque Nacional da Geleira em Montana perca a última de suas geleiras por volta de 2033, no mesmo momento em que as geleiras equatoriais no Monte Kilimanjaro estarão em vias de desaparecer. Um glaciologista islandês calcula que, ao final do próximo século, a Islândia estará desprovida de gelo. Estamos caminhando em direção a uma época em que os turistas visitarão o Parque Nacional Antes Conhecido Como Parque Nacional da Geleira? Em que os estudantes lerão o conto de Hemingway “As neves do Kilimanjaro” (1936) não como realismo, mas sim como ficção científica? Em que Reykjavik será a capital da Exlândia?2

Essa mudança nos faz lembrar de que metáforas mortas não estão terminantemente mortas para sempre. Às vezes elas só estão hibernando, para depois cambalear de volta à vida, atordoadas e confusas, piscando diante do mundo alterado que as despertou de seu sono. (“Metáfora morta” é ela própria uma metáfora morta, mas não podemos mais sentir a mortalidade em linguagem figurada.)

Durante a Pequena Era Glacial, que se estendeu do século XIV ao século XIX, o inverno médio do hemisfério Norte era significativamente mais frio do que é hoje. As geleiras mais frequentemente avançaram do que recuaram, às vezes aniquilando comunidades conforme avançavam. O poema de Percy Bysshe Shelley “Mont Blanc” (1817) captura a aura ameaçadora que emanava desses congelantes rios de gelo:

“[…] As geleiras rastejam
Como cobras que espreitam a presa, de suas longínquas fontes,
Rolando lentamente […]
com o desdém de um poder mortal”.

Shelley via as geleiras como predadoras, forças imortais, seres eternos, diante das quais os meros humanos estremeciam. Mas o aquecimento global inverteu essa percepção. Agora estamos mais propensos a ver as geleiras como vítimas dos poderes gigantescos da humanidade, capazes de alterar o planeta. 

As geleiras no século XXI constituem um perigo descongelado, conforme as geleiras em recuo e as calotas polares elevam os níveis dos oceanos. Tão alarmante quanto o impacto na elevação do nível do mar causado pelo grande derretimento é o impacto na segurança de nossas reservas de água potável. Isso porque as geleiras servem como frágeis e frígidos reservatórios que abrigam uma água insubstituível: 47% da humanidade dependem da água armazenada na forma do gelo sazonalmente aprovisionado que escorre apenas do Himalaia e do Tibet.

Do Himalaia aos Alpes e os Andes, o recuo das geleiras está revelando as botas e ossadas de montanhistas perdidos há muitos anos. Mas essas descobertas envolvem uma assombrosa revelação dupla: cada alpinista encontrado nos faz lembrar do próprio desaparecimento da geleira. A Geleira do Siachen, onde as tropas indianas e paquistanesas combateram intermitentemente desde 1984, é, para Arundhati Roy, a “metáfora mais apropriada para a insanidade de nossos tempos”. O derretimento da geleira está expelindo “cartuchos de artilharia vazios, galões de combustível esvaziados, piquetas, botas velhas, tendas e todo tipo de lixo que milhares de seres humanos em guerra produzem”. Esses detritos militares fantasmagóricos estão se tornando visíveis devido a uma guerra que deixa muito mais consequências, a guerra da humanidade contra o planeta que nos sustenta, uma guerra que deixou a Geleira do Siachen gravemente ferida.

* * *

Ralph Waldo Emerson chamou as metáforas mortas de “poesia fóssil”, observando em seu ensaio de 1844 que “a palavra mais morta” foi “outrora uma imagem brilhante”. Se toda metáfora envolve um teor (o objeto a que se refere) e um veículo (a imagem que transmite a comparação), uma falha em visualizar imagens outrora brilhantes pode resultar em um amontoado de vários veículos. Como afirmou George Orwell: “O polvo fascista entoou o seu canto do cisne, o coturno foi jogado no caldeirão”.

Em “Política e a Língua Inglesa” (1946), Orwell lançou seis regras para escritores, sendo a primeira delas: “Nunca use uma metáfora, símile ou outra figura de linguagem que você está acostumado a ver na imprensa”. Uma metáfora inerte tal como “incubadora do radicalismo” transmite muito pouco: não podemos mais sentir a temperatura ardente entre os lençóis, assim como – antes da consciência pública acerca do aquecimento global – deixamos de notar a congelante poesia fóssil em “ritmo glacial”.

Conforme a consciência acerca do aquecimento global cresceu, uma nova classe de metáforas mortas adentrou a língua inglesa. Frequentemente falamos de pegadas de carbono, de espécies varridas da face da Terra e dos gases do efeito estufa, mas não vemos mais os pés, as mãos, os rostos e os galpões de vidro que eram vívidos quando essas frases foram cunhadas pela primeira vez. Os geólogos agora falam da busca pela “assinatura humana” no registro fóssil. Alguns geoengenheiros querem injetar grandes nuvens de aerossol de sulfúrico na atmosfera da Terra, na esperança de “reiniciar o termostato global”. Muitas dessas cunhagens pretendem dar uma dimensão íntima, humana, a fenômenos planetários que podem parecer imensos e abstratos de forma intimidadora. Em 1759, Adam Smith reagiu de forma parecida à escala massiva das forças econômicas, inserindo o corpo humano na forma da “mão invisível” do mercado. Hoje, o escritor de ficção científica Kim Stanley Robinson traz a metáfora morta de volta à vida, queixando-se de que, quando se trata do meio ambiente, “a mão invisível nunca paga a conta”.

À medida que a criosfera do nosso planeta descongela, podemos detectar todo tipo de agitação no cemitério das metáforas mortas. Nos resorts austríacos e suíços, as “coberturas” naturais de neve ficaram tão gastas, que os donos dos resorts as estão protegendo com cobertores isotérmicos de verdade. E, no Ártico, paira a ameaça do permafrost não permanente, de onde borbulhará livremente o metano que altera o clima.

Em termos planetários, estamos todos patinando em gelo fino.

“O parto das geleiras” é a versão abreviada para o ritmo sazonal no qual as geleiras acumulam gelo e depois, no verão, liberam um pouco desse acúmulo na forma de icebergs e blocos de gelo. Quando os cientistas se referem a “geleiras parindo”, nós não visualizamos o típico rebanho leiteiro do Wisconsin: à medida que a frase se torna rotineira, os partos são perdidos de vista. Agora que a mudança climática deixou em parafuso o equilíbrio entre o acúmulo e o desprendimento das geleiras, a metáfora morta se reafirma como uma imagem viva. O parto prolífico que estamos testemunhando agora é um ato fecundo ou fatal, um ritual de nascimento ou um sintoma da morte do gelo?

Em 2015, antes da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, em Paris, o escultor Olafur Eliasson e o geólogo Minik Rosing viajaram para a Groenlândia, onde eles laçaram alguns blocos de gelo que eles transportaram à Place du Panthéon. Lá, eles criaram o Relógio de Gelo (Ice Watch), uma combinação de mini-icebergs no formato de um mostrador de relógio. Ao longo de toda a conferência, o público podia controlar o tempo se esgotando na forma de gelo derretido.

O Greenpeace também buscou, através da arte, mobilizar as pessoas contra a aceleração do desprendimento das geleiras. Mais de 7 milhões de pessoas viram o vídeo do Greenpeace no qual o compositor Ludovico Einaudi interpreta a sua “Elegia para o Ártico” (2016) em um piano de cauda equilibrado em uma frágil balsa. À medida que a balsa desliza pelo gelo derretido que escorre de uma geleira em Svalbard, Noruega, os acordes plangentes do pianista reverberam em contraponto com o estrondo percussivo dos enormes pedaços de gelo quebrando no oceano.

Chegamos a um ponto de inflexão linguístico em que a expressão “ritmo glacial” é incapaz de transmitir seu significado com alguma clareza? Sob a pressão de um mundo em aquecimento, o termo “glacial” precisa ser aposentado e empurrado do penhasco climático?

A mudança climática abrupta desafia não apenas a capacidade de adaptação do ser vivo, mas também as capacidades adaptativas da linguagem humana. O “glacial” rabiscado nas margens da minha tese de doutorado em 1988 não é o mesmo “glacial” de 2018, assim como o urso polar que estrelou os comerciais da Coca-Cola (rechonchudo, açucarado, um ícone feliz da vida plena) não é intercambiável com o urso polar icônico de hoje – magrelo, com as costelas à mostra, um refugiado climático à deriva em uma exígua plataforma de gelo, inverossimilmente longe mar adentro. Em termos simbólicos, os dois ursos praticamente pertencem à mesma espécie.

Há muitos anos, na condição de estudante de pós-graduação, eu encontrei e me deliciei com a exortação de Franz Kafka segundo a qual “um livro deveria ser a piqueta que abre o mar de gelo dentro de nós”. Mas agora eu ouço as palavras dele de um modo bem diferente. Eu sinto vontade de dizer: “Hei, Franz, larga essa piqueta. Pega leve com esse frágil mar de gelo”.

* * *

(Este texto foi originalmente publicado no site da Aeon, em 19 de março de 2018. Agradecemos encarecidamente ao autor e à revista por cederem os direitos da tradução. Para ler o original, clique aqui. Tradução de Antonio Barros.)

  1. Professor de Humanidades e Meio Ambiente na Universidade de Princeton. Autor do livro Slow Violence and the Environmentalism of the Poor. ↩︎
  2. No original “DeIceland”, que é um jogo de palavras com o nome do país em inglês, Iceland (Islândia). [N.T.] ↩︎

Carbono, vol. 7 – junho de 2025.
ISSN: 3085-7066

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