{"id":1006,"date":"2025-10-11T10:52:54","date_gmt":"2025-10-11T13:52:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1006"},"modified":"2025-11-11T15:47:42","modified_gmt":"2025-11-11T18:47:42","slug":"a-nostalgia-na-fotografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/10\/11\/a-nostalgia-na-fotografia\/","title":{"rendered":"A Nostalgia na Fotografia de Espa\u00e7os Urbanos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Camila Cardozo<sup data-fn=\"33943047-9b0f-492c-b355-5d74dd917200\" class=\"fn\"><a href=\"#33943047-9b0f-492c-b355-5d74dd917200\" id=\"33943047-9b0f-492c-b355-5d74dd917200-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-right has-small-font-size\"><blockquote><p><em>\u201cEu plantado no alto em mim <\/em><br><em>Contemplo a ilus\u00e3o da casa<\/em><br><em>As imagens se acumulam<\/em><br><em>Rolam enquanto falo<\/em><br><em>Eu sei <\/em><br><em>O tempo \u00e9 o meu lugar <\/em><br><em>O tempo \u00e9 minha casa<\/em><br><em>A casa \u00e9 onde quero estar\u201d <\/em><br><em>A ilus\u00e3o da casa, <\/em>Vitor Ramil<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tenho observado e refletido sobre minha cidade. Sinto cada vez mais saudade, mesmo morando nela. A sensa\u00e7\u00e3o constante e crescente \u00e9 de perda. Estou perdendo a cidade para grandes construtoras, muito mais poderosas que o plano diretor e o conselho local de arquitetura e urbanismo, muito mais poderosa que n\u00f3s, moradores nost\u00e1lgicos de um tempo em que Porto Alegre fazia jus ao nome \u2013 embora sempre guardasse no fundo uma melancolia, que n\u00e3o comprometia e at\u00e9 real\u00e7ava seu charme. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos tempos, esses sentimentos coletivos de perda e de nostalgia est\u00e3o mobilizando algumas a\u00e7\u00f5es culturais n\u00e3o s\u00f3 em Porto Alegre, mas em outras cidades do Brasil. Por aqui, no final de 2024 o CAU\/RS (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul) organizou a <em>Caminhada da perda<\/em>, um roteiro que perpassava algumas ruas que conectam pra\u00e7as importantes da cidade:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cNo decorrer de um s\u00e9culo, estas pra\u00e7as tiveram sua paisagem bruscamente alterada pela aus\u00eancia de edifica\u00e7\u00f5es emblem\u00e1ticas, que apesar da qualidade arquitet\u00f4nica, projetos de reconhecidos arquitetos, sucumbiram seja por trag\u00e9dias como inc\u00eandios ou simplesmente demolidos pela \u00e2nsia da transforma\u00e7\u00e3o urbana com a verticaliza\u00e7\u00e3o da cidade.\u201d<sup data-fn=\"1813e64f-3c44-4e24-b556-7b8afc103e9c\" class=\"fn\"><a href=\"#1813e64f-3c44-4e24-b556-7b8afc103e9c\" id=\"1813e64f-3c44-4e24-b556-7b8afc103e9c-link\">2<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O perfil do site Geopizza no Instagram, que acompanho h\u00e1 alguns anos, de tempos em tempos compartilha imagens comparativas de cidades pelo mundo, demonstrando as mudan\u00e7as em suas paisagens com o recurso de \u201cantes e depois\u201d em suas publica\u00e7\u00f5es. O mesmo perfil divulgou recentemente o trabalho do fot\u00f3grafo <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/andredvco\">Andr\u00e9 Gomes<\/a>, que tamb\u00e9m \u00e9 arquiteto e urbanista. As fotos de Andr\u00e9 Gomes nos apresentam as transforma\u00e7\u00f5es no cen\u00e1rio da cidade de S\u00e3o Paulo, onde muitas das casas antigas deram lugar a pr\u00e9dios corporativos de grande porte. Sua conta est\u00e1 em\u00a0constante crescimento nos n\u00edveis de engajamento gra\u00e7as a esse portf\u00f3lio, pelo qual agora \u00e9 conhecido como arquiteto e fot\u00f3grafo \u00e0 ca\u00e7a de casas antigas.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"799\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes1-1024x799.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1021\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes1-1024x799.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes1-300x234.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes1-768x599.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes1-1536x1198.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes1-1200x936.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes1.jpg 1688w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"701\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes2-1024x701.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1022\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes2-1024x701.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes2-300x205.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes2-768x525.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes2-1536x1051.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes2-1200x821.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes2.jpg 1688w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Algumas das fotos de antes e depois nas contas de @geopizza e @andredvco. Captura de tela. Rede social. Dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DEFYkHeOScK\/?igsh=dG9sdm5wcHNxOG41&amp;img_index=1\">aqui<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A descoberta do trabalho de Andr\u00e9 Gomes me trouxe \u00e0 mem\u00f3ria minha pr\u00f3pria experi\u00eancia amadora. Aqui em Porto Alegre, com meu celular, fotografei em 2023 uma casa pela qual minha m\u00e3e nutria certa afei\u00e7\u00e3o, pois a fazia recordar de sua av\u00f3, que havia trabalhado no local quando na resid\u00eancia funcionava uma cl\u00ednica. Ao passearmos por l\u00e1 novamente ap\u00f3s alguns meses, descobrimos que a casa n\u00e3o existia mais.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"416\" height=\"276\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Camila1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1025\" style=\"width:458px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Camila1.jpg 416w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Camila1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 416px) 100vw, 416px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"412\" height=\"310\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Camila2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1026\" style=\"width:454px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Camila2.jpg 412w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Camila2-300x226.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 412px) 100vw, 412px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagens mostrando o antes e o depois de uma mesma localidade em Porto Alegre. Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fotografia, segundo Roland Barthes,<sup data-fn=\"8e8142cd-7761-4574-9346-70db56aa968e\" class=\"fn\"><a href=\"#8e8142cd-7761-4574-9346-70db56aa968e\" id=\"8e8142cd-7761-4574-9346-70db56aa968e-link\">3<\/a><\/sup> constitui a evid\u00eancia do que aconteceu no passado; \u00e9 o recurso visual como registro:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c[&#8230;] na Fotografia jamais posso negar que <em>a coisa esteve l\u00e1<\/em>. H\u00e1 dupla posi\u00e7\u00e3o conjunta: de realidade e de passado. E j\u00e1 que essa coer\u00e7\u00e3o s\u00f3 existe para ela, devemos t\u00ea-la, por redu\u00e7\u00e3o, como a pr\u00f3pria ess\u00eancia, o noema da Fotografia. O que intencionalizo em uma foto (n\u00e3o falemos ainda do cinema) n\u00e3o \u00e9 nem a Arte, nem a Comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 a Refer\u00eancia, que \u00e9 a ordem fundadora da Fotografia.<br>O nome do noema da Fotografia ser\u00e1 ent\u00e3o: \u2018<em>Isso-foi<\/em>\u2019, ou ainda: o Intrat\u00e1vel. Em latim (pedantismo necess\u00e1rio porque esclarece nuances), isso seria sem d\u00favida: \u2018<em>interfuit<\/em>\u2019: isso que vejo encontrou-se l\u00e1, nesse lugar que se estende entre o infinito e o sujeito (<em>operator <\/em>ou <em>spectator<\/em>); ele esteve l\u00e1, e todavia de s\u00fabito foi separado; ele esteve absolutamente, irrecusavelmente presente, e no entanto j\u00e1 diferido.\u201d<sup data-fn=\"021bc49a-ef2f-49b3-957a-d595776dd9e9\" class=\"fn\"><a href=\"#021bc49a-ef2f-49b3-957a-d595776dd9e9\" id=\"021bc49a-ef2f-49b3-957a-d595776dd9e9-link\">4<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o podemos desconsiderar que as imagens capturadas, no tempo em que as fotografias eram produto exclusivo de c\u00e2meras anal\u00f3gicas, podem ser refutadas, se levarmos em conta que as t\u00e9cnicas fotogr\u00e1ficas tamb\u00e9m possibilitam a cria\u00e7\u00e3o de imagens ficcionais por meio da composi\u00e7\u00e3o, do enquadramento, dos ajustes de luz e temperatura, do instante decisivo do clique, a edi\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo, hoje em dia, de ferramentas como os filtros de redes sociais e dos pr\u00f3prios aplicativos de fotografia de celular. Sabemos que a fotografia ainda hoje \u00e9 um recurso utilizado para registrar o real, seja no fotojornalismo ou no testemunho de usu\u00e1rios amadores com as lentes de seus celulares. Existe, contudo, uma diferen\u00e7a entre realidade e verdade, como destaca o autor. Ainda assim, nos interessa o fato de que as fotografias contam uma hist\u00f3ria, e que muitas delas podem nos sensibilizar a ponto de querermos \u201cescrut\u00e1-las\u201d \u2013 um afeto que Barthes denomina <em>punctum <\/em>\u2013 ou ao menos discutir sua import\u00e2ncia em um ensaio como este, com pretens\u00f5es mais modestas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por falar em hist\u00f3rias e fotografia, Brooks<sup data-fn=\"cc84c05b-4a80-4685-8f26-ec7ad843ff02\" class=\"fn\"><a href=\"#cc84c05b-4a80-4685-8f26-ec7ad843ff02\" id=\"cc84c05b-4a80-4685-8f26-ec7ad843ff02-link\">5<\/a><\/sup> argumenta que somos seduzidos pelas narrativas, usadas exaustivamente na sociedade contempor\u00e2nea, especialmente para fins comerciais. Visando ao lucro, as grandes empresas exploram a cria\u00e7\u00e3o de narrativas ao m\u00e1ximo na tentativa de cativar seus interlocutores. Na comunica\u00e7\u00e3o interna de empresas, no B2B (<em>business to business<\/em>) e na gest\u00e3o de marcas, elas exibem h\u00e1 d\u00e9cadas os seus <em>cases <\/em>de sucesso. Conhecer as marcas e encontrar identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo que passa pelo contato com a hist\u00f3ria de sua funda\u00e7\u00e3o e com suas propostas, que v\u00e3o al\u00e9m de vender um produto, estendendo-se \u00e0 mudan\u00e7a na vida de seus consumidores ou mesmo \u00e0 promessa de compromisso social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um exemplo contempor\u00e2neo dos que mais se beneficiam da conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias \u00e9 o Instagram, a rede social onde podemos acompanhar o cotidiano de pessoas comuns, mas tamb\u00e9m de influenciadores digitais na promo\u00e7\u00e3o de marcas e estilos de vida inalcan\u00e7\u00e1veis e fotog\u00eanicos, atrav\u00e9s de fotos postadas temporariamente nos <em>stories<\/em>. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">John Berger j\u00e1 nos havia alertado para a sedu\u00e7\u00e3o das imagens na publicidade. De acordo com o autor: \u201cNunca houve tamanha prolifera\u00e7\u00e3o de imagens, tamanha concentra\u00e7\u00e3o de mensagens visuais em nenhuma forma de sociedade conhecida na hist\u00f3ria\u201d.<sup data-fn=\"4ee30d84-c572-433e-a54e-1faf6c604917\" class=\"fn\"><a href=\"#4ee30d84-c572-433e-a54e-1faf6c604917\" id=\"4ee30d84-c572-433e-a54e-1faf6c604917-link\">6<\/a><\/sup> Sua tese se baseia no fato de que as ruas eram dominadas por an\u00fancios publicit\u00e1rios, bem como as m\u00eddias impressas e a televis\u00e3o. Hoje, vivendo ainda mais imersos no mundo das imagens que \u00e0 \u00e9poca da primeira impress\u00e3o de seu livro, em 1972, somos levados a acreditar em narrativas ilustradas, em ilus\u00f5es produzidas na internet, especialmente em redes sociais, criando um \u201cefeito de real\u201d<sup data-fn=\"6a674e19-b543-48de-bc15-21a9b6e0592c\" class=\"fn\"><a href=\"#6a674e19-b543-48de-bc15-21a9b6e0592c\" id=\"6a674e19-b543-48de-bc15-21a9b6e0592c-link\">7<\/a><\/sup> muito mais convincente que os textos liter\u00e1rios. Berger, ainda falando sobre a publicidade, argumenta que ela produz mitos por meio das imagens. Ademais, ela tem em sua ess\u00eancia a nostalgia ao jogar com o tempo ao \u201cvender o passado para o futuro\u201d.<sup data-fn=\"5ec71110-ee60-499f-9a39-9a243959a5fc\" class=\"fn\"><a href=\"#5ec71110-ee60-499f-9a39-9a243959a5fc\" id=\"5ec71110-ee60-499f-9a39-9a243959a5fc-link\">8<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As fotografias de Andr\u00e9 Gomes, a meu ver, apresentam uma outra rela\u00e7\u00e3o com as temporalidades, embora tamb\u00e9m nost\u00e1lgica. Elas n\u00e3o t\u00eam um futuro promissor para nos vender, apenas nos fazem tentar preservar o pouco que temos de reminisc\u00eancias do passado de nossos espa\u00e7os urbanos e nos alertam para o risco iminente. O futuro as amea\u00e7a e nos aterroriza, basta observar a progress\u00e3o das perdas no presente. A beleza, a arte e a arquitetura realmente est\u00e9tica perdem espa\u00e7o para a funcionalidade necess\u00e1ria aos pr\u00e9dios adaptados para o acelerado ritmo de trabalho e consumo, dos pr\u00e9dios residenciais e comerciais. Fotografar as constru\u00e7\u00f5es sobreviventes \u2013 at\u00e9 quando, n\u00e3o sabemos \u2013 \u00e9 ter a possibilidade de contar como um dia nossas ruas tiveram mais personalidade com suas casas coloridas, esculturas e jardins dom\u00e9sticos, fachadas ornamentadas, revestimentos criativos e outras marcas culturais.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"258\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1028\" style=\"width:392px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes3.jpg 258w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes3-246x300.jpg 246w\" sizes=\"auto, (max-width: 258px) 100vw, 258px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"256\" height=\"316\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1029\" style=\"width:390px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes4.jpg 256w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AndreGomes4-243x300.jpg 243w\" sizes=\"auto, (max-width: 256px) 100vw, 256px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fotos de antes e depois em mais um post colaborativo de Andr\u00e9 Gomes e GeoPizza, no Instagram. Redes sociais. Captura de tela<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao nos depararmos com iniciativas como a de Andr\u00e9 Gomes, somos confortados frente ao medo da perda com a esperan\u00e7a de que nossa mem\u00f3ria n\u00e3o se apague totalmente. A grande maioria das contas no Instagram, por\u00e9m, contribui para intensificar o trabalho que a publicidade j\u00e1 exercia \u00e0 \u00e9poca em que Berger elucidou sobre as imagens que ela produz. N\u00f3s, consumidores \u2013 de Instagram e outros produtos \u2013, somos acometidos por uma insatisfa\u00e7\u00e3o com nossas pr\u00f3prias vidas e pelo desejo de obter o sucesso e a felicidade que vemos representadas nas imagens \u2013 publicit\u00e1rias ou n\u00e3o, especialmente aquelas produzidas por influenciadores digitais, que promovem seus estilos de vida onerosos ou ociosos (privil\u00e9gios de quem n\u00e3o precisa passar seus dias sendo produtivo para adquirir o b\u00e1sico \u00e0 subsist\u00eancia). Em um contexto social de uso exacerbado de tecnologias, de excesso de informa\u00e7\u00e3o e desinforma\u00e7\u00e3o armazenadas em bases de dados e compartilhadas infinitamente \u2013 de tal modo que recebemos muito e absorvemos pouco, e os pr\u00f3prios usu\u00e1rios come\u00e7am a se preocupar com consequ\u00eancias como o fen\u00f4meno do <em>brain rot <\/em>\u2013, em meio \u00e0 efemeridade das imagens, iniciativas como a de Andr\u00e9 Gomes s\u00e3o um al\u00edvio e uma esperan\u00e7a de tentar preservar um pouco da nossa mem\u00f3ria, pelo tempo que pudermos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"33943047-9b0f-492c-b355-5d74dd917200\">Mestra e doutoranda em Letras pela UFRGS. Editora associada do Carbono. <a href=\"#33943047-9b0f-492c-b355-5d74dd917200-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"1813e64f-3c44-4e24-b556-7b8afc103e9c\">Texto\u00a0 de\u00a0 apresenta\u00e7\u00e3o\u00a0 do\u00a0 evento\u00a0 para\u00a0 o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sympla.com.br\/evento\/caminhada-da-perda-cau-rs\/2765100?referrer=www.google.com\"> site\u00a0 de\u00a0 compra\u00a0 de\u00a0 ingressos<\/a>.\u00a0Acesso em 10 de mar\u00e7o de 2025. <a href=\"#1813e64f-3c44-4e24-b556-7b8afc103e9c-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"8e8142cd-7761-4574-9346-70db56aa968e\">Roland Barthes. <em>A c\u00e2mara clara<\/em>: notas sobre fotografia<em>.<\/em><strong><em> <\/em><\/strong>Tradu\u00e7\u00e3o de J\u00falio Casta\u00f1on Guimar\u00e3es. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. <a href=\"#8e8142cd-7761-4574-9346-70db56aa968e-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"021bc49a-ef2f-49b3-957a-d595776dd9e9\">Roland Barthes, <em>op. cit.<\/em>, p. 115-116, grifos do autor. <a href=\"#021bc49a-ef2f-49b3-957a-d595776dd9e9-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 4 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"cc84c05b-4a80-4685-8f26-ec7ad843ff02\">Peter Brooks. <em>Seduced by Story<\/em>: the Use and Abuse of Narrative. Nova York: New York Review Books, 2022. <a href=\"#cc84c05b-4a80-4685-8f26-ec7ad843ff02-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 5 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"4ee30d84-c572-433e-a54e-1faf6c604917\">John Berger. <em>Modos de ver.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o de Hugo Mader. S\u00e3o Paulo: F\u00f3sforo, 2022, p. 146. <a href=\"#4ee30d84-c572-433e-a54e-1faf6c604917-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 6 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"6a674e19-b543-48de-bc15-21a9b6e0592c\">Segundo Barthes, o efeito de real na fic\u00e7\u00e3o consiste na inser\u00e7\u00e3o de detalhes aparentemente banais, que conferem ao ambiente ficcional as similaridades com a realidade. Ranci\u00e8re, embora com discord\u00e2ncias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tese de Barthes, contribui para esta teoria ao expor a dimens\u00e3o pol\u00edtica da apresenta\u00e7\u00e3o de elementos descritivos cuja signific\u00e2ncia \u00e9 comumente ignorada. Cf. Roland Barthes. O efeito de real. In: Roland Barthes <em>et alii<\/em>. <em>Literatura e semiologia<\/em>: pesquisas semiol\u00f3gicas<em>. \u00a0<\/em>Petr\u00f3polis: Vozes, 1972; Jacques Ranci\u00e8re. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0101-33002010000100004\">O efeito de realidade e a pol\u00edtica da fic\u00e7\u00e3o<\/a>.<strong> <\/strong><em>Novos Estudos Cebrap (86)<\/em>. Mar\u00e7o de 2010. <a href=\"#6a674e19-b543-48de-bc15-21a9b6e0592c-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 7 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"5ec71110-ee60-499f-9a39-9a243959a5fc\">John Berger, <em>op. cit.<\/em>, p. 159. <a href=\"#5ec71110-ee60-499f-9a39-9a243959a5fc-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 8 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 11 \u2013 outubro de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em seu artigo, Camila Cardozo reflete sobre a perda das mem\u00f3rias por meio da invas\u00e3o da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria nas cidades, que reconfigura o espa\u00e7o urbano e incita a nostalgia<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1033,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Mestra e doutoranda em Letras pela UFRGS. Editora associada do Carbono.\",\"id\":\"33943047-9b0f-492c-b355-5d74dd917200\"},{\"content\":\"Texto\u00a0 de\u00a0 apresenta\u00e7\u00e3o\u00a0 do\u00a0 evento\u00a0 para\u00a0 o\u00a0<a href=\\\"https:\/\/www.sympla.com.br\/evento\/caminhada-da-perda-cau-rs\/2765100?referrer=www.google.com\\\"> site\u00a0 de\u00a0 compra\u00a0 de\u00a0 ingressos<\/a>.\u00a0Acesso em 10 de mar\u00e7o de 2025.\",\"id\":\"1813e64f-3c44-4e24-b556-7b8afc103e9c\"},{\"content\":\"Roland Barthes. <em>A c\u00e2mara clara<\/em>: notas sobre fotografia<em>.<\/em><strong><em> <\/em><\/strong>Tradu\u00e7\u00e3o de J\u00falio Casta\u00f1on Guimar\u00e3es. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.\",\"id\":\"8e8142cd-7761-4574-9346-70db56aa968e\"},{\"content\":\"Roland Barthes, <em>op. cit.<\/em>, p. 115-116, grifos do autor.\",\"id\":\"021bc49a-ef2f-49b3-957a-d595776dd9e9\"},{\"content\":\"Peter Brooks. <em>Seduced by Story<\/em>: the Use and Abuse of Narrative. Nova York: New York Review Books, 2022.\",\"id\":\"cc84c05b-4a80-4685-8f26-ec7ad843ff02\"},{\"content\":\"John Berger. <em>Modos de ver.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o de Hugo Mader. S\u00e3o Paulo: F\u00f3sforo, 2022, p. 146.\",\"id\":\"4ee30d84-c572-433e-a54e-1faf6c604917\"},{\"content\":\"Segundo Barthes, o efeito de real na fic\u00e7\u00e3o consiste na inser\u00e7\u00e3o de detalhes aparentemente banais, que conferem ao ambiente ficcional as similaridades com a realidade. Ranci\u00e8re, embora com discord\u00e2ncias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tese de Barthes, contribui para esta teoria ao expor a dimens\u00e3o pol\u00edtica da apresenta\u00e7\u00e3o de elementos descritivos cuja signific\u00e2ncia \u00e9 comumente ignorada. Cf. Roland Barthes. O efeito de real. In: Roland Barthes <em>et alii<\/em>. <em>Literatura e semiologia<\/em>: pesquisas semiol\u00f3gicas<em>. \u00a0<\/em>Petr\u00f3polis: Vozes, 1972; Jacques Ranci\u00e8re. <a href=\\\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0101-33002010000100004\\\">O efeito de realidade e a pol\u00edtica da fic\u00e7\u00e3o<\/a>.<strong> <\/strong><em>Novos Estudos Cebrap (86)<\/em>. Mar\u00e7o de 2010.\",\"id\":\"6a674e19-b543-48de-bc15-21a9b6e0592c\"},{\"content\":\"John Berger, <em>op. cit.<\/em>, p. 159.\",\"id\":\"5ec71110-ee60-499f-9a39-9a243959a5fc\"}]"},"categories":[14,10,5,6],"tags":[130,132,133,131,134],"class_list":["post-1006","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arquivo","category-artigo","category-capitalismo","category-cultura","tag-especulacao-imobiliaria","tag-fotografia","tag-instagram","tag-nostalgia","tag-volume-11"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1006","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1006"}],"version-history":[{"count":26,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1006\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1089,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1006\/revisions\/1089"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1033"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1006"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1006"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1006"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}