{"id":1038,"date":"2025-10-11T10:56:02","date_gmt":"2025-10-11T13:56:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1038"},"modified":"2025-11-11T15:47:32","modified_gmt":"2025-11-11T18:47:32","slug":"entrevista-com-fabian-muniesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/10\/11\/entrevista-com-fabian-muniesa\/","title":{"rendered":"Entrevista com Fabian Muniesa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Paranoid Finance<\/em><sup data-fn=\"d8044224-20cd-4924-a513-92980be49b92\" class=\"fn\"><a href=\"#d8044224-20cd-4924-a513-92980be49b92\" id=\"d8044224-20cd-4924-a513-92980be49b92-link\">1<\/a><\/sup> \u00e9 um livro ousado. Nele, o professor da \u00c9cole des Mines de Paris, Fabian Muniesa, investiga como a no\u00e7\u00e3o de valor, indispens\u00e1vel para a economia pol\u00edtica e para os defensores do sistema capitalista, \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, fruto de um funcionamento paranoico. Na verdade, Muniesa afirma que a cria\u00e7\u00e3o do valor \u00e9 decorrente de procedimentos semi\u00f3ticos que n\u00e3o encontram nenhum fundamento real, nenhuma externalidade fixa, que possa ancor\u00e1-lo. Com isso, a paranoia \u00e9 inerente \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do valor econ\u00f4mico: \u00e9 preciso n\u00e3o apenas insistir na fantasia do valor, como tamb\u00e9m defend\u00ea-la de seus poss\u00edveis inimigos, \u00e1vidos por corromperem o suposto car\u00e1ter leg\u00edtimo do valor. O que Muniesa agrega ao debate, portanto, \u00e9 uma vis\u00e3o cr\u00edtica do sistema financeiro, abrindo caminho para um imagin\u00e1rio econ\u00f4mico e social que n\u00e3o seja dependente da fic\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria que impera nas rela\u00e7\u00f5es comerciais e na forma pela qual a sociedade se organiza. Diferentemente, portanto, da tradicional cr\u00edtica ao sistema financeiro \u2013 que, segundo Muniesa, ainda se apega \u00e0 no\u00e7\u00e3o de valor e tenta defend\u00ea-la das vis\u00f5es financistas perniciosas \u2013, o livro prop\u00f5e uma outra abordagem, que critique, justamente, a paranoia envolvida nas finan\u00e7as. Lan\u00e7ando m\u00e3o de termos e conceitos da psican\u00e1lise, que, na opini\u00e3o do autor, n\u00e3o deveriam ficar restritos apenas ao campo das ci\u00eancias da mente, Muniesa mostra, atrav\u00e9s de exemplos convincentes, como a paranoia inerente ao sistema financeiro e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do valor \u00e9 extrapolada por correntes conservadoras (e at\u00e9 mesmo fascistas), que, na imbrica\u00e7\u00e3o com as novas tecnologias e a mentalidade do Vale do Sil\u00edcio, dobram a aposta na ideia de que existe um valor acima de todos, e que ele deve ser protegido a fim de que a economia possa prosperar. Na intersec\u00e7\u00e3o entre a paranoia do sistema financeiro e da paranoia fascista, o livro de Muniesa apresenta-se como uma fonte imprescind\u00edvel para aqueles que pretendem defenestrar o capital e instaurar em seu lugar sistemas econ\u00f4micos e uma sociedade mais igualit\u00e1ria. Acompanhe, a seguir, as brilhantes respostas que Fabian Muniesa t\u00e3o gentilmente concedeu ao Carbono, que esclarecem os pressupostos do livro e tratam, inclusive, de outras formas de valor, como, por exemplo, o valor est\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Essencialmente, <em>Paranoid Finance<\/em> mostra como as finan\u00e7as s\u00e3o em si mesmas paranoicas, isto \u00e9, que o processo de produ\u00e7\u00e3o e defesa do valor \u00e9 inerente \u00e0 racionalidade financeira e que, por isso, trata-se de um pensamento paranoico. Voc\u00ea poderia explicar melhor o que isso quer dizer e quais consequ\u00eancias isso tem para o entendimento do capitalismo financeiro e do sistema de produ\u00e7\u00e3o capitalista em geral?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FABIAN MUNIESA: <\/strong>Obrigado, Antonio. Sim, a mensagem \u00e9 exatamente essa. O livro n\u00e3o \u00e9 sobre uma percep\u00e7\u00e3o espec\u00edfica das finan\u00e7as \u2013 uma percep\u00e7\u00e3o delirante \u2013, oposta a uma abordagem padr\u00e3o \u2013 que seria perfeitamente s\u00e3. N\u00e3o \u00e9 sobre finan\u00e7as racionais contra finan\u00e7as irracionais. Eu uso o exemplo de alguns movimentos alternativos que desenvolvem vis\u00f5es sobre as finan\u00e7as que s\u00e3o como cultos, s\u00e3o conspirativas, fundamentalistas. Mas o objetivo \u00e9 mostrar que essas vis\u00f5es apenas se encarregam de levar a s\u00e9rio a imagina\u00e7\u00e3o financeira. Elas s\u00f3 intensificam as vis\u00f5es que s\u00e3o de conhecimento geral em Wall Street ou no Vale do Sil\u00edcio. Elas s\u00e3o os movimentos dos verdadeiros crentes que radicalizam o problema inerente \u00e0s convencionais doutrinas financeiras de cria\u00e7\u00e3o de valor e retorno do investimento. E onde se encontra esse problema? Bem, o problema \u00e9 a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de valor. O valor \u00e9 nada e tudo, ao mesmo tempo. Ele \u00e9 supostamente o fundamento de tudo (tudo o que fazemos parece ter a ver com a cria\u00e7\u00e3o de valor, com a preocupa\u00e7\u00e3o com o rendimento de nossos investimentos no futuro, com proteger esse tesouro dos inimigos); por\u00e9m, os alicerces do valor n\u00e3o s\u00e3o encontrados em lugar nenhum. N\u00f3s nos esquecemos de que se trata de uma met\u00e1fora inventada com o prop\u00f3sito de justificar o controle de pessoas e de coisas. Acreditar no valor \u00e9 como acreditar em fantasmas sem saber que s\u00e3o fantasmas. Certo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a\u00ed voc\u00ea pergunta como isso ajuda na nossa compreens\u00e3o do sistema capitalista. \u00c9 uma quest\u00e3o complicada! Por qu\u00ea? Porque a no\u00e7\u00e3o de valor \u00e9 precisamente aquela que tendemos a usar para decifrar o capitalismo. Esse \u00e9 o \u00fanico objetivo da tradi\u00e7\u00e3o que os acad\u00eamicos frequentemente denominam \u201ceconomia pol\u00edtica\u201d (uma express\u00e3o que eu acho terrivelmente enganadora). O objetivo \u00e9 criar uma \u201cteoria do valor\u201d (ou v\u00e1rias teorias conflitantes, na verdade) que vai, no final das contas, justificar de onde deveria vir essa coisa chamada \u201cvalor\u201d e para onde ela deveria ir. Ora, para mim, essa abordagem (bem como a \u201ceconomia pol\u00edtica\u201d) \u00e9 parte do problema. Ela \u00e9 parte da vis\u00e3o de mundo, da imagina\u00e7\u00e3o, da cultura, da cosmologia ou da ideologia (voc\u00ea escolhe) de que \u00e9 feito o capitalismo. Esse \u00e9 o truque semi\u00f3tico m\u00e1ximo do capital: nos dar um conceito atrav\u00e9s do qual podemos entend\u00ea-lo, criticamente ou n\u00e3o. Temos que evitar morder essa isca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Em seu livro, voc\u00ea mostra que o processo de produ\u00e7\u00e3o de valor \u00e9 um procedimento semi\u00f3tico. Nesse sentido, voc\u00ea diria que o valor, no sistema financeiro e no capitalismo, \u00e9 similar ao que Saussure define como valor no sistema lingu\u00edstico? Ou existe uma externalidade imanente \u2013 por exemplo, a reprodu\u00e7\u00e3o social do trabalho \u2013 ou um denominador comum do capital \u2013 a mais valia \u2013 capazes de ancorar o valor do dinheiro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FABIAN MUNIESA: <\/strong>Certamente n\u00e3o! A abordagem semi\u00f3tica que eu prefiro n\u00e3o funciona assim. Eu seguramente prefiro uma perspectiva que considera os signos como procedimentos pragm\u00e1ticos (e geralmente desleixados), e n\u00e3o como fun\u00e7\u00f5es de uma estruturada distribui\u00e7\u00e3o do significado. E isso, com certeza, n\u00e3o tem a ver com os signos terem um valor. Tem a ver com a no\u00e7\u00e3o de \u201cvalor\u201d se colocando, em vez disso, como a refer\u00eancia fantasmal dos procedimentos dos signos capitalistas. \u00c9 verdade, como voc\u00ea sugere, que h\u00e1 muitas tentativas (tanto na economia pol\u00edtica, quanto na pr\u00e1tica social) de \u201cancorar o valor\u201d em algum tipo de \u201cdenominador\u201d est\u00e1vel. Mas isso \u00e9 parte da doen\u00e7a da qual eu falo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Voc\u00ea segue as ideias de Deleuze e Guattari para descrever as finan\u00e7as. Por\u00e9m, ao que parece, o axioma do capital, em <em>O Anti-\u00c9dipo<\/em>, obedece ao que os autores chamam de mecanismo esquizofr\u00eanico t\u00edpico do inconsciente como produ\u00e7\u00e3o. A ideia de paranoia, por sua vez, especialmente como voc\u00ea a define na \u201cConclus\u00e3o\u201d do livro, guarda mais rela\u00e7\u00e3o com a concep\u00e7\u00e3o freudiana. \u00c9 poss\u00edvel dizer, ent\u00e3o, que as finan\u00e7as operam entre a esquizofrenia e a paranoia? Ou o conceito de esquizofrenia \u00e9 impr\u00f3prio para descrever o seu funcionamento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FABIAN MUNIESA: <\/strong>Na verdade, eu n\u00e3o estou praticando a exegese conceitual. O meu uso (ou melhor, minha apropria\u00e7\u00e3o pessoal) desses autores \u00e9 claramente despojado. Especialmente, como no caso em quest\u00e3o, com autores que n\u00e3o sabiam muito acerca de como as finan\u00e7as funcionam de fato. Sou eu mesmo escrevendo e falando, no fundo. E o meu uso da no\u00e7\u00e3o de paranoia \u00e9 bem direto. A paranoia \u00e9 uma radicaliza\u00e7\u00e3o do problema da verdade. O paranoico luta em uma miss\u00e3o pela adequa\u00e7\u00e3o dos signos. Isso pode se traduzir em v\u00e1rias coisas, como, por exemplo, em formas cotidianas de ang\u00fastia ou de desordem existencial, ou at\u00e9 mesmo em algum tipo de desconforto intelectual excessivo. Algumas vezes, quando as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o prop\u00edcias, a express\u00e3o psic\u00f3tica pode desembocar mais tarde na forma da alucina\u00e7\u00e3o, por exemplo. A esquizofrenia opera como uma solu\u00e7\u00e3o interpretativa radical \u00e0 ang\u00fastia de viver em uma tens\u00e3o paranoica. O principal problema com todos esses conceitos \u00e9 que eles permanecem presos ao dom\u00ednio da psiquiatria e da psicologia cl\u00ednica. Eu acho que, em vez disso, eles deviam se tornar os conceitos b\u00e1sicos da ci\u00eancia social (eu n\u00e3o sou o primeiro a dizer isso, \u00e9 claro, mas a ideia ainda \u00e9 considerada desacreditada, infelizmente).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: No seu livro, voc\u00ea alega que a cr\u00edtica do sistema financeiro lida com o mesmo problema que o cerca: ao criticar o car\u00e1ter fugidio e fantasmal do valor, a cr\u00edtica pressup\u00f5e que existe um valor intr\u00ednseco que deve ser protegido, ao inv\u00e9s de criticar a dicotomia que engendra a diferen\u00e7a entre valor bom e valor mau. Como seria uma cr\u00edtica da finan\u00e7a mais efetiva? Voc\u00ea conseguiria esbo\u00e7\u00e1-la em poucas linhas aqui?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FABIAN MUNIESA: <\/strong>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o muito importante. \u00c9 verdade que <em>Paranoid Finance<\/em> pode ser lido como uma cr\u00edtica da cr\u00edtica. A cr\u00edtica das finan\u00e7as seria est\u00e9ril, ou vazia, ou inclusive perigosa, porque ela est\u00e1 presa no feiti\u00e7o das pr\u00f3prias finan\u00e7as (isto \u00e9, a ideia de reivindicar o valor, protegendo-o dos inimigos). Isso em parte \u00e9 verdade, mas o livro articula um vi\u00e9s bem claramente cr\u00edtico (que eu chamei de \u201ccr\u00edtica antropol\u00f3gica das finan\u00e7as\u201d): quebrar esse feiti\u00e7o, parar de usar o \u201cvalor\u201d como uma categoria do pensamento cr\u00edtico. O mesmo vale para a cr\u00edtica pol\u00edtica: uma cr\u00edtica anarquista desse tipo, que partiria da premissa de que deveriam ser destru\u00eddas todas as precondi\u00e7\u00f5es que tornam significativa a no\u00e7\u00e3o de valor. Isso soa bastante assustador. N\u00e3o \u00e9? Mas, em um contexto em que a \u201cdefesa de nosso valor\u201d se torna um mantra pol\u00edtico (tanto no imagin\u00e1rio reacion\u00e1rio, quanto no progressista) que alimenta ideias a respeito de como nos livrarmos dos \u201cinimigos do valor\u201d (como se a ideia de valor necessitasse de uma ideia de antivalor para existir), talvez seja o momento de dar margem \u00e0 cr\u00edtica do capitalismo que diz simplesmente: abaixo o valor. Bem-vindos, inimigos do valor, sejam eles quem forem. Eles s\u00e3o nossos amigos. Nada pr\u00e1tico? Bem, eu n\u00e3o posso evitar uma certa simpatia para com v\u00e1rias formas de ativismo que propositalmente visam \u00e0 abertura e a suprimir ou contornar fronteiras de todos os tipos (do resgate mar\u00edtimo ao conhecimento pirata, do decrescimento \u00e0s comunidades globais). Quanto mais elas s\u00e3o acusadas de destruir o valor, mais simp\u00e1tico a elas eu me torno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Apesar de a paranoia ser inerente \u00e0s finan\u00e7as, \u00e9 poss\u00edvel distinguir um comportamento paranoico mais radical \u2013 aquele do NESARA\/GESARA. A pr\u00f3pria ideia do Bitcoin como um valor un\u00edvoco para o dinheiro pode ser caracterizada dessa forma. \u00c0 luz das recentes taxa\u00e7\u00f5es de Trump, escoradas na fantasia paranoica da perda de hegemonia estadunidense e do desequil\u00edbrio fiscal, o que voc\u00ea teria a dizer?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FABIAN MUNIESA: <\/strong>Voc\u00ea menciona o NESARA\/GESARA. Esse \u00e9 o nome de uma fantasia que contribuiu para alimentar a s\u00edndrome do QAnon, uma s\u00edndrome que tem um papel crucial na din\u00e2mica do movimento MAGA [Make America Great Again]. No centro disso est\u00e1 o assim chamado \u201cSistema Financeiro Qu\u00e2ntico\u201d [\u201cQuantum Financial System\u201d], que deveria promover a revaloriza\u00e7\u00e3o de tudo por meio de uma moeda m\u00e1gica. H\u00e1 alguns trechos sobre isso em <em>Paranoid Finance<\/em>. Esse sistema \u00e9 mais radical do que a vis\u00e3o convencional que presenciamos agora? Diante da not\u00e1vel conflu\u00eancia de Wall Street e do Vale do Sil\u00edcio incrustrada na imagina\u00e7\u00e3o de gente como Pieter Thiel, Elon Musk e Donald Trump? Diante dos sonhos de plataformas integradas que s\u00e3o ao mesmo tempo sociais, monet\u00e1rias e espirituais, milagrosamente implementadas com o objetivo de restaurar o equil\u00edbrio de todo o valor e liberar a energia eterna do investimento? Diante de tecnologias redentoras que v\u00e3o cumprir a tarefa sagrada de defender esse lindo tesouro das hordas cru\u00e9is do falso valor? NESARA\/GESARA talvez seja um p\u00e1lido press\u00e1gio daquilo que Pieter Thiel tem em mente quando fala sobre a internet e a chegada do Anticristo. Hoje em dia, o fascismo certamente est\u00e1 por todo lugar \u2013 e ele \u00e9 multifacetado. Mas, como eu afirmo, uma grande parte disso tem a ver com aquilo que eu descrevo em <em>Paranoid Finance.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: A no\u00e7\u00e3o de valor \u00e9 crucial n\u00e3o s\u00f3 para as finan\u00e7as, mas tamb\u00e9m para a est\u00e9tica. Na literatura, por exemplo, ela define quais obras devem ou n\u00e3o pertencer ao c\u00e2none. Inclusive, o debate sobre a abertura do c\u00e2none se pauta tamb\u00e9m por uma redefini\u00e7\u00e3o do valor que parece seguir uma l\u00f3gica id\u00eantica \u00e0 que voc\u00ea descreve em <em>Paranoid Finance<\/em>. Existe paralelo entre o valor em outros \u00e2mbitos da cultura e o valor financeiro? \u00c9 poss\u00edvel prescindir de todos, de alguns ou de nenhum?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FABIAN MUNIESA: <\/strong>Voc\u00ea tem raz\u00e3o sobre esse paralelo. A toxidade da no\u00e7\u00e3o de valor n\u00e3o est\u00e1 presente apenas nos ideais financeiros da cria\u00e7\u00e3o de valor. A no\u00e7\u00e3o faz parte de uma tradi\u00e7\u00e3o mais ampla, complexa e insidiosa. A pr\u00f3pria ideia de que a vida social \u2013 e a hist\u00f3ria universal em geral \u2013 \u00e9, ou deveria ser, sobre \u201ca concretiza\u00e7\u00e3o dos valores\u201d \u00e9 totalmente question\u00e1vel, nesse aspecto. Os horrores do s\u00e9culo passado s\u00e3o, em grande medida, a conquista experimental desse modo de ver as coisas. E ainda tem mais por vir neste s\u00e9culo, ao que parece. E, portanto, sim, mais a ser dito sobre isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso posto, eu n\u00e3o compartilho da defini\u00e7\u00e3o de \u201cest\u00e9tica\u201d que voc\u00ea parece insinuar. Para mim, o problema do ju\u00edzo est\u00e9tico (e da educa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, mais fundamentalmente) \u00e9 o problema da pr\u00f3pria premissa cl\u00e1ssica da est\u00e9tica: qual seja, a promessa de uma possibilidade de express\u00e3o \u201cinterna\u201d (amor, desejo, sensibilidade, identidade) da estrutura de uma composi\u00e7\u00e3o (harmonia, raz\u00e3o). A promessa da est\u00e9tica, filosoficamente entendida, n\u00e3o \u00e9 a promessa de ranquear os valores de acordo com um c\u00e2none. Ao menos n\u00e3o para mim. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 a promessa de libertar o sujeito da estereotipia. Uma promessa de emancipa\u00e7\u00e3o, se voc\u00ea preferir. Mas uma promessa que \u00e9 reflexiva e que compreende a fragilidade desse esfor\u00e7o. E o \u00e2mbito da educa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica \u00e9 vital aqui. Hoje em dia h\u00e1 muita coisa sendo dita sobre como a est\u00e9tica da internet e a est\u00e9tica da intelig\u00eancia artificial generativa representam uma forma fascista de est\u00e9tica. Eu acho essa uma discuss\u00e3o certeira e bastante \u00fatil. E isso est\u00e1, ali\u00e1s, muito ligado ao livro <em>Paranoid Finance<\/em>, ilustrado no modelo de euforia regressiva (e estupidez) t\u00edpica das formas art\u00edsticas ligadas \u00e0 m\u00edstica da \u201cWeb 3.0\u201d, por exemplo. Mas a chave para o elemento fascista \u00e9, precisamente, a exacerba\u00e7\u00e3o da estereotipia. Em outras palavras, trata-se da produ\u00e7\u00e3o de uma mente comunit\u00e1ria que \u00e9 forjada segundo um ideal fascista de democracia, em que a pol\u00edtica perfeita \u00e9 pensada em termos da ades\u00e3o superficial a s\u00edmbolos de express\u00e3o (os \u201clikes\u201d), que se traduz no triunfo de uma vontade coletiva (os \u201ctrendings\u201d) que almeja se tornar exclusiva. Eu acho que posso dizer isso de forma bem cr\u00edtica e normativa: esse \u00e9 o tipo errado de est\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"d8044224-20cd-4924-a513-92980be49b92\"><a href=\"https:\/\/www.politybooks.com\/bookdetail?book_slug=paranoid-finance--9781509561162\">MUNIESA, Fabian. <em>Paranoid Finance<\/em>. Cambridge; Hoboken: Polity Press, 2024<\/a>. <a href=\"#d8044224-20cd-4924-a513-92980be49b92-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 11 \u2013 outubro de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fabian Muniesa, professor da \u00c9cole des Mines de Paris, fala com o Carbono sobre o seu livro mais recente, &#8220;Paranoid Finance&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1087,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"<a href=\\\"https:\/\/www.politybooks.com\/bookdetail?book_slug=paranoid-finance--9781509561162\\\">MUNIESA, Fabian. <em>Paranoid Finance<\/em>. Cambridge; Hoboken: Polity Press, 2024<\/a>.\",\"id\":\"d8044224-20cd-4924-a513-92980be49b92\"}]"},"categories":[14,5,6,8],"tags":[129,135,136,134],"class_list":["post-1038","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arquivo","category-capitalismo","category-cultura","category-entrevista","tag-paranoia","tag-sistema-financeiro","tag-valor","tag-volume-11"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1038","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1038"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1038\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1086,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1038\/revisions\/1086"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1087"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1038"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1038"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1038"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}