{"id":1151,"date":"2025-12-10T14:46:40","date_gmt":"2025-12-10T17:46:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1151"},"modified":"2026-01-09T18:08:27","modified_gmt":"2026-01-09T21:08:27","slug":"entrevista-com-claire-bishop","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/12\/10\/entrevista-com-claire-bishop\/","title":{"rendered":"Entrevista com Claire Bishop"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quantas vezes voc\u00ea j\u00e1 esteve em um museu ou em uma exposi\u00e7\u00e3o de arte e testemunhou algu\u00e9m sacando o telefone celular do bolso para uma foto, uma selfie ou simplesmente olhar um conte\u00fado completamente alheio \u00e0 exibi\u00e7\u00e3o? Ou, ainda, quantas vezes voc\u00ea n\u00e3o surpreendeu a si mesmo(a) fazendo exatamente isso? A onipresen\u00e7a das c\u00e2meras dos aparelhos celulares nos diferentes espa\u00e7os da cultura \u2013 desde o cinema e o teatro, at\u00e9 as salas de aula e exposi\u00e7\u00f5es de arte \u2013 \u00e9 um fen\u00f4meno que acompanha a prolifera\u00e7\u00e3o da tecnologia de comunica\u00e7\u00e3o remota e a intromiss\u00e3o das m\u00eddias sociais em todos os \u00e2mbitos da vida privada e p\u00fablica. Esse fato ineg\u00e1vel \u2013 que leva \u00e0s situa\u00e7\u00f5es descritas acima \u2013 n\u00e3o deve, por\u00e9m, ser condenado antecipadamente, de acordo com Claire Bishop, professora do curso de Doutorado em Artes da City University of New York. Em <em>Disordered Attention<\/em>,<sup data-fn=\"66dc02d1-38e1-470f-960d-8cfb59df0969\" class=\"fn\"><a href=\"#66dc02d1-38e1-470f-960d-8cfb59df0969\" id=\"66dc02d1-38e1-470f-960d-8cfb59df0969-link\">1<\/a><\/sup> ela esmi\u00fa\u00e7a os padr\u00f5es de aten\u00e7\u00e3o que se desenvolveram a partir do uso que artistas da d\u00e9cada de 1990 em diante fizeram das tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e dos seus recursos. Partindo da arte baseada em pesquisa, que emulou as formas de navega\u00e7\u00e3o dos prim\u00f3rdios da internet, e passando pela performance e pela instala\u00e7\u00e3o de arte contempor\u00e2nea, que introduzem o espectador e a tecnologia como partes indispens\u00e1veis da pr\u00f3pria experi\u00eancia est\u00e9tica, Bishop nos mostra que a aten\u00e7\u00e3o que dedicamos \u00e0 arte hoje em dia \u00e9 essencialmente distinta daquela atitude contemplativa e linear que marcou as exposi\u00e7\u00f5es de arte do passado. Em uma cultura atravessada pelos dispositivos celulares, em que a aten\u00e7\u00e3o se mostra dividida e n\u00e3o necessariamente orientada para um \u00fanico objeto, o modo como vemos as obras e a forma com que os artistas trabalham passaram a ser atrelados \u00e0s novas condi\u00e7\u00f5es de aten\u00e7\u00e3o emergentes. Longe de recriminar o uso dessas tecnologias como atentat\u00f3rias a uma suposta experi\u00eancia est\u00e9tica \u201caut\u00eantica\u201d, Bishop tenta entender como se d\u00e1 o processo de cria\u00e7\u00e3o e frui\u00e7\u00e3o em meio a uma aten\u00e7\u00e3o desordenada. Segundo ela, o que acontece hoje recupera, de certo modo e em parte, o tipo de comportamento que observ\u00e1vamos nas exposi\u00e7\u00f5es de arte do s\u00e9culo XVIII, que foi abolido pelo serialismo e pela aten\u00e7\u00e3o exclusiva das galerias e exposi\u00e7\u00f5es de museus a partir do s\u00e9culo XIX. Para Bishop, a aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um estado volitivo de foco que se op\u00f5e \u00e0 distra\u00e7\u00e3o, mas, sim, um fen\u00f4meno coletivo. Com isso, a dicotomia aten\u00e7\u00e3o\/desaten\u00e7\u00e3o perde sentido, dando lugar a formas h\u00edbridas de aten\u00e7\u00e3o que permeiam a cultura. Infelizmente, a professora Claire Bishop teve outros compromissos que a impediram de responder as quest\u00f5es formuladas pelo <em>Carbono. <\/em>Contudo, algumas de suas ideias ficam expl\u00edcitas nas respostas concedidas \u00e0 Francesca Billington, em entrevista publicada originalmente no site <a href=\"https:\/\/www.thenation.com\/article\/culture\/claire-bishop-art-social-media-interview\/\"><em>The Nation<\/em><\/a>, em 6 de novembro de 2024. Agradecemos a autora por autorizar a tradu\u00e7\u00e3o e a republica\u00e7\u00e3o. Acompanhe.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FRANCESCA BILLINGTON: Voc\u00ea escreve que, durante uma visita ao museu, voc\u00ea vai alternar entre a obra e seu telefone celular. Voc\u00ea poder\u00e1 escanear um QR code para ler mais sobre a exposi\u00e7\u00e3o, voc\u00ea vai responder mensagens, vai fotografar as etiquetas. Quando come\u00e7ou esse tipo de comportamento? Em que medida ele \u00e9 condicionado pelos nossos pr\u00f3prios h\u00e1bitos de aten\u00e7\u00e3o e em que medida ele \u00e9 encorajado pelos pr\u00f3prios museus?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLAIRE BISHOP<\/strong>: Eu estava tentando entender se era s\u00f3 comigo ou se havia uma mudan\u00e7a cultural mais ampla no que tange \u00e0 aten\u00e7\u00e3o. Eu frequentemente era atra\u00edda por instala\u00e7\u00f5es feitas de m\u00faltiplas partes \u2013 mas hoje em dia eu frequentemente me sinto saturada. Portanto, uma parte do argumento \u00e9 a de que nossos h\u00e1bitos de leitura se modificaram como resultado dos smartphones e da internet. Nos acostumamos aos impulsos intermitentes e que disputam nossa aten\u00e7\u00e3o. Eu diria que isso chegou aos n\u00edveis atuais por volta de 2016, que foi quando havia uma explos\u00e3o de indigna\u00e7\u00e3o a respeito dos telefones nos teatros. Os museus seguiram na dire\u00e7\u00e3o oposta e decidiram tirar proveito desses m\u00faltiplos atratores de nossa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro \u00e9 antes de tudo uma discuss\u00e3o dirigida \u00e0s pessoas (e existem muitas na Academia!) que ainda acreditam em uma aten\u00e7\u00e3o totalmente focada \u2013 a ideia de que voc\u00ea <em>pode<\/em> e <em>deve<\/em> ficar diante de e ser mesmerizado por uma obra de arte por um longo per\u00edodo sem nenhuma intermedia\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Eu n\u00e3o vou contra essa ideia \u2013 h\u00e1 pouco, eu fiquei boquiaberta em frente \u00e0 <em>Olympia<\/em>, de Manet, no Met \u2013, mas ela n\u00e3o \u00e9 mais uma descri\u00e7\u00e3o realista de como as pessoas enxergam a arte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FRANCESCA BILLINGTON: Qual \u00e9 a conex\u00e3o entre a arquitetura desses lugares (museus, teatros) e como aprendemos a nos envolver com certas formas de arte?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLAIRE BISHOP: <\/strong>Voc\u00ea pode perceber como algumas arquiteturas para o olhar foram criadas no s\u00e9culo XIX para produzir o que \u00e9 chamado de \u201caten\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 os museus modificando suas pr\u00e1ticas de pendurar objetos, os teatros introduzindo a escurid\u00e3o e a mudan\u00e7a no arranjo dos assentos. A galeria moderna do tipo cubo branco, com uma \u00fanica fila de obras na parede, tem tudo a ver com produzir uma aten\u00e7\u00e3o focada, um tipo de rela\u00e7\u00e3o um-por-um entre a obra e o espectador. E, no teatro, trata-se da constru\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o escuro para a aten\u00e7\u00e3o reverente naquilo que est\u00e1 no palco \u2013 nada de falar ou conversar ao mesmo tempo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FRANCESCA BILLINGTON: Deve ser f\u00e1cil se desesperar vendo as pessoas passando mais tempo tirando fotos do que observando a obra de arte. Mas voc\u00ea tamb\u00e9m nos mostra como as novas formas de aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o de todo ruins. E tamb\u00e9m que elas n\u00e3o s\u00e3o totalmente <em>novas<\/em>.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLAIRE BISHOP: <\/strong>A ideia mesma de uma aten\u00e7\u00e3o totalmente focada, absorta, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o moderna que data do fim do s\u00e9culo XIX. Quando voc\u00ea olha para as imagens dos museus e dos teatros do s\u00e9culo XVIII \u2013 que s\u00e3o pinturas e gravuras, obviamente \u2013, voc\u00ea se surpreende com a multid\u00e3o atarefada conversando entre si e bastante indiferente ao que est\u00e1 no palco ou nas paredes. Portanto, o tipo de aten\u00e7\u00e3o socializada que temos hoje nos museus e galerias \u2013 tirar fotos, fazer v\u00eddeos, mandar mensagens e assim por diante \u2013 poderia ser visto como um retorno a uma audi\u00eancia soci\u00e1vel pr\u00e9-moderna. Em vez de categorizar como \u201cdistra\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 e, portanto, como um problema \u2013 o uso que as pessoas fazem dos telefones em performances, eu considero as c\u00e2meras dos telefones como uma tecnologia que nos leva de volta a uma forma de sociabilidade pr\u00e9-moderna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FRANCESCA BILLINGTON: Mas n\u00e3o \u00e9 antissocial bloquear a vis\u00e3o de algu\u00e9m que quer ver uma pintura?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLAIRE BISHOP: <\/strong>Deixe-me esclarecer: esse argumento sobre a sociabilidade pr\u00e9-moderna eu o fa\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 <em>performance ao vivo<\/em>, n\u00e3o a exibi\u00e7\u00f5es estrondosas. Eu pretendo situar a performance em museus \u2013 e o uso que as pessoas fazem dos telefones celulares \u2013 em uma hist\u00f3ria mais longa da audi\u00eancia de espet\u00e1culos, com os \u00f3culos de \u00f3pera e a arquitetura dos balc\u00f5es em formato de ferradura, com tudo aquilo que foi projetado para ver tanto o p\u00fablico quanto a performance. No teatro padr\u00e3o, pelo menos, ainda existe a expectativa de que voc\u00ea n\u00e3o fique no seu telefone celular \u2013 lembremos do fiasco da Rihanna enviando mensagem de texto para Jeremy O. Harris durante a pe\u00e7a <em>Slave Play<\/em>, em 2019. Mas quando voc\u00ea leva a performance para dentro da galeria ou do museu, as expectativas em torno do comportamento mudam, porque a gente vem tirando fotos das obras de arte h\u00e1 muito mais tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, \u00e9 claro que as pessoas tirando fotos incomodam. Eu lembro de ter ido ao Uffizi, h\u00e1 vinte anos, e os turistas ficavam conversando igual zumbis, fazendo v\u00eddeos da experi\u00eancia toda, sem parar para olhar a obra. Eu sou a favor de tolerar uma <em>audi\u00eancia h\u00edbrida<\/em>, na qual voc\u00ea olha a obra e talvez tira uma foto tamb\u00e9m. Obviamente, exagerar para qualquer um dos lados n\u00e3o \u00e9 legal: se voc\u00ea est\u00e1 tendo a experi\u00eancia de algo <em>somente<\/em> por meio da media\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o por que voc\u00ea est\u00e1 l\u00e1? E o movimento do \u201colhar lento\u201d (\u201c<em>slow looking<\/em>\u201d) se apresenta como bastante conservador \u2013 ele \u00e9 excessivamente reverente e tecnof\u00f3bico. Eu quero defender que ambos s\u00e3o poss\u00edveis, defender estar com seu telefone celular como um modo de olhar mais de perto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FRANCESCA BILLINGTON: \u00c0s vezes eu penso no impulso que eu tenho, quando estou numa exibi\u00e7\u00e3o em um museu, de olhar meu celular mesmo quando eu n\u00e3o quero tirar uma foto. Esse parece ser um lado negativo de nosso acesso \u00e0 tecnologia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLAIRE BISHOP: <\/strong>\u00c9 um problema, e \u00e9 algo com o que eu luto constantemente. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o me sinto atra\u00edda pela solu\u00e7\u00e3o que prega excessiva cautela e recusa \u00e0 tecnologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FRANCESCA BILLINGTON: Por que n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLAIRE BISHOP: <\/strong>A gente depende de nossos telefones para trabalhar; n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para a vida social. Existe uma suposi\u00e7\u00e3o de classe acerca do privil\u00e9gio de poder se desconectar. Para muitas pessoas na economia informal e nos trabalhos prec\u00e1rios, que pagam por hora e sem contrato, simplesmente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se desconectar. Qualquer pessoa que tem filhos tamb\u00e9m sabe disso. Nunca se sabe quando vai haver um problema na creche e a pessoa vai ser chamada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FRANCESCA BILLINGTON: Existe algum ganho em deixar as pessoas filmarem e tirarem fotos durante, digamos, uma pe\u00e7a?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLAIRE BISHOP: <\/strong>\u00c9 dif\u00edcil, n\u00e3o \u00e9? Eu estou interessada no fen\u00f4meno da \u201cperformance descontra\u00edda\u201d, que come\u00e7ou a aparecer aproximadamente nos \u00faltimos dez anos para p\u00fablicos neurodivergentes e p\u00fablicos portadores de defici\u00eancia, bem como para crian\u00e7as, que podem precisar conversar ou se movimentar. Seria interessante pensar em um futuro no qual todas as performances ser\u00e3o performances descontra\u00eddas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FRANCESCA BILLINGTON: Como as estrat\u00e9gias formais dos artistas mudaram em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as nas janelas de aten\u00e7\u00e3o que estamos presenciando?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLAIRE BISHOP: <\/strong>Est\u00e1 acontecendo de v\u00e1rias formas, algumas conscientes, outras n\u00e3o. Eu acredito que todos os artistas hoje em dia premeditam como a exibi\u00e7\u00e3o vai ficar em uma fotografia. Da\u00ed, no \u00e2mbito de uma obra, h\u00e1 diferentes respostas, algumas das quais, segundo alego, s\u00e3o sintomas, em vez de tentativas deliberadas de se envolver criticamente com a aten\u00e7\u00e3o enquanto um problema. Por um lado, voc\u00ea tem o aumento do interesse na performance, principalmente na performance duradora. Esse \u00e9 um efeito direto das tecnologias de m\u00eddia como o smartphone. Existe um desejo pela experi\u00eancia imediata, estar junto com um grupo de pessoas. Mas tamb\u00e9m \u00e9 algo paradoxal: a imediatez f\u00edsica da performance tamb\u00e9m fica boa nas fotografias. \u00c9 tanto um sintoma, quanto a cura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, temos artistas realizando instala\u00e7\u00f5es que cont\u00eam um monte de materiais densos \u2013 possivelmente em rea\u00e7\u00e3o \u00e0 concis\u00e3o linear da m\u00eddia social e das manchetes. Mas o efeito \u00e9 sobrecarregar o senso de informa\u00e7\u00e3o do espectador. Ent\u00e3o, \u00e9 uma faca de dois gumes: uma instala\u00e7\u00e3o densa, intelectualizada, baseada no texto \u00e9 tanto um ant\u00eddoto quanto um sintoma do nosso ambiente informacional. O livro n\u00e3o lida com a economia da \u201cexperi\u00eancia\u201d, a ascens\u00e3o de todas aquelas instala\u00e7\u00f5es imersivas como a Chagall Experience e a Van Gogh Experience. Eu primeiramente estou preocupada com a obra que aparece nos museus, nas bienais e nas galerias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe tamb\u00e9m um tipo de artista que intencionalmente quer se tornar viral \u2013 receber o m\u00e1ximo de aten\u00e7\u00e3o pelo seu gesto, que geralmente \u00e9 pol\u00eamico ou pol\u00edtico. Peguemos, por exemplo, o Pussy Riot, que fez sua ora\u00e7\u00e3o punk contra Putin na catedral de Moscou em 2012. Foi uma performance projetada para ser um espet\u00e1culo de m\u00eddia social. Um problema poss\u00edvel com esse tipo de a\u00e7\u00e3o \u00e9 que ela quer competir com outras formas de viraliza\u00e7\u00e3o, mas, ao faz\u00ea-lo, ela gera um modo de aten\u00e7\u00e3o que poder\u00edamos chamar de \u201cpico e decl\u00ednio\u201d \u2013 um repentino pico de interesse seguido da total satura\u00e7\u00e3o ou rejei\u00e7\u00e3o. Ela prendeu nossa aten\u00e7\u00e3o de modo intenso, mas depois ficamos cansados muito rapidamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FRANCESCA BILLINGTON: A internet possibilitou aos artistas fazerem novos tipos de pesquisa e exibirem essa pesquisa de novos jeitos. Eles repentinamente tiveram acesso a enormes quantidades de imagens e dados. Que tipo de obra saiu disso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLAIRE BISHOP: <\/strong>A disponibilidade gradual de massas de artigos e arquivos online gerou alguns produtos \u2013 geralmente, um surto de interesse na hist\u00f3ria. Isso foi visto nos filmes e v\u00eddeo-ensaios dos artistas, em palestras-performances e publica\u00e7\u00f5es, e em um tipo de instala\u00e7\u00e3o chamada \u201carte baseada em pesquisa\u201d \u2013 um monte de vitrines ou estantes contendo coisas ef\u00eameras, documentos, fotos, textos, livros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas isso n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por causa da internet, \u00e9 claro. H\u00e1 motivos institucionais tamb\u00e9m, principalmente a emerg\u00eancia de doutorados (em vez de s\u00f3 bacharelados ou mestrados) em artes, que s\u00e3o comuns na Europa (aqui n\u00e3o muito, ainda). Em certa medida, eu simpatizo com esse trabalho. Ele \u00e9 mais intelectual e curioso do que um monte de pintura e escultura destinada ao mercado que voc\u00ea v\u00ea por a\u00ed nas galerias comerciais. Mas ele tamb\u00e9m \u00e9 sintom\u00e1tico de uma mentalidade \u201ccorta-e-cola\u201d \u2013 uma tend\u00eancia em acumular e juntar em vez de sintetizar e filtrar. Sabemos por conta pr\u00f3pria: quem tem tempo de editar todas as fotos que tiramos com nossos telefones celulares?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<strong>FRANCESCA BILLINGTON: A consequ\u00eancia sendo a de que n\u00e3o sabemos que conclus\u00f5es tirar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLARIE BISHOP: <\/strong>Muitas vezes \u00e9 uma estrat\u00e9gia deliberada. Nos anos 1990, especialmente, os artistas n\u00e3o queriam entregar uma interpreta\u00e7\u00e3o f\u00e1cil. Mas isso foi no auge do p\u00f3s-estruturalismo. Ningu\u00e9m queria ser acusado de apontar para universais falidos como \u201ca verdade\u201d. Desde ent\u00e3o, passamos pelas \u201cfake news\u201d e o assalto da direita \u00e0 verdade como \u201cfatos alternativos\u201d, de modo que os artistas est\u00e3o agora em um novo paradigma no que diz respeito ao estatuto da verdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FRANCESCA BILLINGTON: Esta entrevista est\u00e1 acontecendo por meio do Google Chat. Algo sobre isso parece relevante. Voc\u00ea \u00e9 uma acad\u00eamica que estuda a aten\u00e7\u00e3o \u2013 por que voc\u00ea prefere assim?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLAIRE BISHOP: <\/strong>Eu sempre deixo escapar alguma bobagem quando eu falo. Poder conversar por interm\u00e9dio dos meus dedos me deixa um pouco mais cuidadosa \u2013 mas, felizmente, sem o trabalho \u00e1rduo das entrevistas por e-mail ou da reda\u00e7\u00e3o. \u00c9 o meu meio-termo. Al\u00e9m disso, eu posso fazer outras coisas ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FRANCESCA BILLINGTON: Aten\u00e7\u00e3o h\u00edbrida!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLAIRE BISHOP: <\/strong>Exatamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Barros.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"66dc02d1-38e1-470f-960d-8cfb59df0969\"><a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/en-gb\/products\/2942-disordered-attention?srsltid=AfmBOoo65Om9IiejBEbh13jZMd3HUOcBaLFNmfhCiYDv7WmCQtEZtXcn\">BISHOP, Claire. <em>Disordered Attention<\/em>. How We Look at Art and Performance Today. Londres; Nova York: Verso, 2024<\/a>. <a href=\"#66dc02d1-38e1-470f-960d-8cfb59df0969-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 13 \u2013 dezembro de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando os museus e as galerias s\u00e3o invadidos pelos telefones celulares, isso muda o modo como nos relacionamos com a arte. A historiadora da arte Claire Bishop, professora da City University of New York, comenta nesta entrevista os efeitos da aten\u00e7\u00e3o desordenada <\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":1153,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"<a href=\\\"https:\/\/www.versobooks.com\/en-gb\/products\/2942-disordered-attention?srsltid=AfmBOoo65Om9IiejBEbh13jZMd3HUOcBaLFNmfhCiYDv7WmCQtEZtXcn\\\">BISHOP, Claire. <em>Disordered Attention<\/em>. How We Look at Art and Performance Today. 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