{"id":1156,"date":"2025-12-10T14:44:51","date_gmt":"2025-12-10T17:44:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1156"},"modified":"2026-01-09T18:08:16","modified_gmt":"2026-01-09T21:08:16","slug":"o-cadaver-do-aceleracionismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/12\/10\/o-cadaver-do-aceleracionismo\/","title":{"rendered":"O Cad\u00e1ver do Aceleracionismo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Benjamin Noys<sup data-fn=\"88783adf-9d46-49ec-a55c-9010d09e96c6\" class=\"fn\"><a href=\"#88783adf-9d46-49ec-a55c-9010d09e96c6\" id=\"88783adf-9d46-49ec-a55c-9010d09e96c6-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por que chutar o cad\u00e1ver do aceleracionismo? Mais de dez anos depois de eu ter cunhado o termo, ele agora parece ter desaparecido ou sido ofuscado por debates mais urgentes. Se o aceleracionismo pode ser definido como o movimento cultural que argumenta em favor da ado\u00e7\u00e3o da tecnologia e do pensamento abstrato a fim de romper em dire\u00e7\u00e3o a um futuro p\u00f3s-capitalista, parece que sobraram muito poucos aceleracionistas. N\u00e3o seria arriscado, principalmente para um cr\u00edtico do aceleracionismo como eu, manter vivo algo que, com raz\u00e3o, deveria ser agora um cachorro morto? \u00c9 verdade que as paix\u00f5es despertadas pelo movimento aceleracionista arrefeceram, e o movimento que havia, especialmente na esquerda, assume hoje em dia formas mais s\u00f3brias e contidas. Se o aceleracionismo \u00e9 um movimento de vanguarda, na mesma pegada do Futurismo, ent\u00e3o, assim como muitos desses movimentos, ele parece ter se esgotado. Isso n\u00e3o necessariamente \u00e9 algo para se lamentar, at\u00e9 mesmo por aqueles que o endossam. Os futuristas italianos viram o seu movimento a favor da velocidade como algo que se tornaria obsoleto gra\u00e7as \u00e0s for\u00e7as que eles desencadearam. De um ponto de vista cultural e pol\u00edtico bastante diferente, Guy Debord, l\u00edder dos situacionistas nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970, pensava que o papel das vanguardas era desaparecer assim que o seu trabalho estivesse conclu\u00eddo. Os pr\u00f3-aceleracionistas podem at\u00e9 alegar que o aceleracionismo atingiu seus objetivos ao colocar a tecnologia e a mudan\u00e7a no centro dos debates, e, por isso, eles podem deixar o campo de forma honrosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os rumores sobre a morte do aceleracionismo foram exagerados. Em uma \u00e9poca muito afeita \u00e0 met\u00e1fora g\u00f3tica, poder\u00edamos acrescentar que o aceleracionismo, se est\u00e1 morto, permanece como uma alma penada que domina a paisagem cultural. As quest\u00f5es acerca do papel da tecnologia em nossa cultura e na rela\u00e7\u00e3o com a mudan\u00e7a pol\u00edtica n\u00e3o esvaneceram. Os debates recentes em torno dos modelos de linguagem de grande escala (<em>large language models<\/em>, ou LLM, em ingl\u00eas) e a intelig\u00eancia artificial demonstram o qu\u00e3o urgentes ainda s\u00e3o, e como v\u00e3o persistir, os problemas relativos \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o dos humanos por m\u00e1quinas e ao controle da tecnologia. Se o aceleracionismo foi o primeiro movimento do pensamento na era das m\u00eddias sociais, ent\u00e3o essa era ainda n\u00e3o acabou. O aceleracionismo incialmente prosperou no espa\u00e7o dos debates em blog, permitindo discuss\u00f5es mais longas, e no Twitter (hoje, X), dando a esses debates uma forma abreviada e pungente. Atualmente, as m\u00eddias sociais est\u00e3o cada vez mais tomadas pelos rob\u00f4s, pelos memes, pela IA e pela monetiza\u00e7\u00e3o. A deteriora\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias plataformas online levou embora algo da for\u00e7a ut\u00f3pica desses espa\u00e7os virtuais, deixando em seu lugar um cen\u00e1rio mais \u00e1rido e virulento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso ainda levanta quest\u00f5es sobre como devemos nos envolver com a tecnologia e seus potenciais e perigos (mesmo se esses perigos n\u00e3o parecem oferecer muitas chances de se reverter em benef\u00edcios). Embora o aceleracionismo tenha enfraquecido enquanto movimento \u2013 juntamente com as plataformas de que ele dependia \u2013 esse pr\u00f3prio enfraquecimento imp\u00f5e quest\u00f5es. Podemos, \u00e9 claro, apontar a domina\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os online por parte das corpora\u00e7\u00f5es, com uma s\u00e9rie de nomes conhecidos (Google, Amazon, Netflix etc.). Os zaibatsus da Sprawl, trilogia de fic\u00e7\u00e3o cyberpunk de William Gibson \u2013 megacorpora\u00e7\u00f5es enormes, possivelmente inteligentes \u2013 certamente est\u00e3o entre n\u00f3s. Ao mesmo tempo, agentes estatais ainda est\u00e3o na ativa, e, acompanhando isso, um espa\u00e7o automatizado crescente de rob\u00f4s e IA emergente, na forma dos modelos de linguagem de grande escala. \u00c9 claro, mesmo no come\u00e7o nos anos 2010, 90% de todo o tr\u00e1fico di\u00e1rio de e-mails, conforme estimativa, eram spam, o precursor de algumas formas da IA contempor\u00e2nea. O espa\u00e7o da internet, \u00e0 sua maneira, tem sido marcado por uma guerra e uma crise cont\u00ednuas, e pensar sobre isso \u00e9 uma tarefa vital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu diria que o fracasso do aceleracionismo em se manter no nosso momento atual evidencia algo de sua falta de engajamento cr\u00edtico com a tecnologia. Embora estivesse certa ao levantar quest\u00f5es acerca da tecnofobia de alguns elementos da esquerda e da sociedade em geral, a tecnofilia que a substituiu era em grande parte apenas uma invers\u00e3o. Esse argumento seria apresentado com for\u00e7a devastadora por Harisson Fluss e Landon Frim em <em>Prometheus and Gaia<\/em> (2022). Esse livro observou a coincid\u00eancia de opostos entre o aceleracionismo e seus cr\u00edticos, como Bruno Latour, que endossou um pensamento de Gaia e da Terra aparentemente alternativo. Fluss e Frim alegam que o que foi compartilhado entre essas vis\u00f5es de mundo foram compromissos irracionais, incluindo a ado\u00e7\u00e3o do mito como modo de construir nosso pensamento. O pensamento da tecnologia ficou obscurecido por esse modo m\u00edtico. Pode ser que o tipo de questionamento que o aceleracionismo ao menos iniciou precisava ser feito e continua relevante, mesmo se os modos como essas cr\u00edticas foram feitas n\u00e3o se mostraram dur\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que aconteceu com o aceleracionismo de l\u00e1 para c\u00e1? Se o aceleracionismo desapareceu ou se modificou, ent\u00e3o uma breve retrospectiva dos \u00faltimos dez anos poderia nos orientar? Entre o primeiro manifesto aceleracionista (2013), a primeira edi\u00e7\u00e3o do meu livro <em>Malign Velocities<\/em> (2014) e hoje, houve uma avalanche de manifestos, frequentemente inspirados pelo aceleracionismo. A inspira\u00e7\u00e3o original, e que pode ser considerada o primeiro manifesto aceleracionista, foi o <em>Manifesto for Philosophy<\/em> (1999, na edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas), de Alain Badiou. Badiou j\u00e1 tinha insistido na necessidade da filosofia, na car\u00eancia de uma forma matem\u00e1tica abstrata para o pensamento, e tinha feito cr\u00edticas divertidas \u00e0s invoca\u00e7\u00f5es cafonas aos camponeses e \u00e0 Floresta Negra feitas por Heidegger. Verificou-se que, apesar da ades\u00e3o \u00e0 alta tecnologia por parte de Badiou, o seu modo de pensar permaneceu fortemente influenciado por Heidegger. No entanto, foram a verve pol\u00eamica de Badiou, sua ades\u00e3o \u00e0 filosofia e sua inclina\u00e7\u00e3o em favor da tecnologia que se mostraram influentes. Houve uma curta era de manifestos e, \u00e9 claro, antimanifestos, conforme a batalha sobre o aceleracionismo se ampliava e se intensificava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para tirar sarro. O manifesto n\u00e3o foi s\u00f3 uma forma condizente com as janelas de aten\u00e7\u00e3o curtas; ele tamb\u00e9m representava um desejo de romper com a linguagem hier\u00e1tica, cansativa e muitas vezes mistificadora da teoria anterior (principalmente aquela conhecida como p\u00f3s-estruturalismo). A pr\u00f3pria hostilidade contra a linguagem demonstrada por Badiou e sua insist\u00eancia na matem\u00e1tica foram decisivas nesse desejo de dizer e fazer as coisas de fato, em vez de ficar falando sobre dizer e fazer as coisas. A tend\u00eancia derridiana de iniciar qualquer discuss\u00e3o com uma medita\u00e7\u00e3o sobre como come\u00e7ar e sobre os t\u00edtulos passou a ser vista como a mais maliciosa das t\u00e1ticas de procrastina\u00e7\u00e3o. Dito isso, a forma curta e agressiva do manifesto poderia deixar muitas coisas para o leitor pensar. Parte da inten\u00e7\u00e3o original de <em>Malign Velocities<\/em> era pesquisar a hist\u00f3ria e o contexto das v\u00e1rias formas do gesto aceleracionista. Como disse Mao, as ideias n\u00e3o caem do c\u00e9u, mas surgem da pr\u00e1tica social. A tempestade de manifestos lan\u00e7ada do Monte Olimpo das m\u00eddias sociais poderia ter sido revigorante, mas tamb\u00e9m irritante. O terreno movedi\u00e7o, as especula\u00e7\u00f5es sobre a autoria, os v\u00e1rios coletivos que poderiam ou n\u00e3o ser coletivos, as excomunh\u00f5es e as den\u00fancias levaram a uma paisagem agitada e muitas vezes confusa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das caracter\u00edsticas desse per\u00edodo foi a impaci\u00eancia com os modos de pensamento anteriormente existentes, com algumas exce\u00e7\u00f5es (Badiou, por exemplo). Isso s\u00f3 n\u00e3o abrangia a den\u00fancia da pol\u00edtica popular feita pelo aceleracionismo, que alegava que a pol\u00edtica de esquerda vigente estava ligada ao humano, \u00e0 comunidade, \u00e0 natureza e aos limites. Tivemos tamb\u00e9m, por parte do realismo especulativo, a rejei\u00e7\u00e3o do correlacionismo, segundo o qual todo o pensamento pr\u00e9vio estava fixado na rela\u00e7\u00e3o do humano com o n\u00e3o humano e, portanto, o pensamento n\u00e3o poderia ter acesso \u00e0 grande realidade exterior. Os comunisadores<sup data-fn=\"1115b800-e234-461c-a19f-583563f8c9e2\" class=\"fn\"><a href=\"#1115b800-e234-461c-a19f-583563f8c9e2\" id=\"1115b800-e234-461c-a19f-583563f8c9e2-link\">2<\/a><\/sup> afirmavam que a pol\u00edtica de esquerda estava dominada pelo programatismo, no qual a esquerda tentou desenvolver programas que liderassem os trabalhadores, em vez de seguir a dissolu\u00e7\u00e3o da identidade do oper\u00e1rio. Um exemplo mais recente \u00e9 o ataque do Afropessimismo aos radicalismos antinegritude anteriores, que ignoram o papel decisivo da escravatura para a sociedade e o pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ironia \u00e9 que esse pensamento se assemelhava muito \u00e0 tentativa heideggeriana (e derridiana) de pensar para al\u00e9m do fim da metaf\u00edsica. Embora Heidegger estivesse errado sobre a tecnologia \u2013 que, conforme ele alegava, era a \u00faltima forma de metaf\u00edsica \u2013, aparentemente ele estava certo em rejeitar vastas camadas do pensamento como sendo metaf\u00edsicas. O jogo podia come\u00e7ar: quem foi o \u00faltimo metaf\u00edsico? Foi Nietzsche, com sua vontade de poder, conforme afirmou Heidegger? Que tal Antonin Artaud e sua exaust\u00e3o da presen\u00e7a na pr\u00f3pria loucura, como sugere Derrida? Derrida poderia tamb\u00e9m insinuar que o pr\u00f3prio Heidegger ficou preso nesse modo de pensar. Ainda que os movimentos dos anos 2010 buscassem se furtar daquilo que eles acreditavam ser debates in\u00fateis, a ironia \u00e9 que eles os repetiram de novas formas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa fogueira do passado, houve alguns grandes sobreviventes, especialmente Nietzsche e Deleuze. Embora, em <em>Malign Velocities<\/em>, eu tenha apontado a influ\u00eancia de ambos, eu subestimei a influ\u00eancia de Nietzsche, principalmente. Nietzsche n\u00e3o apenas proporcionou aos aceleracionistas um tom agressivo, mas tamb\u00e9m uma pol\u00edtica cultural antiburguesa, um antagonismo com a metaf\u00edsica e a ado\u00e7\u00e3o do mito e da est\u00e9tica. Desde a publica\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas do livro de Domenico Losurdo <em>Nietzsche, the Aristocratic Rebel<\/em> (2020) e da reedi\u00e7\u00e3o de <em>The Destruction of Reason<\/em> (2021), de Georg Luk\u00e1cs, obtivemos recursos valiosos para uma cr\u00edtica de Nietzsche. O problema n\u00e3o \u00e9 simplesmente a pol\u00edtica declarada de Nietzsche, que \u00e9 a de um aristocrata rebelde, mas tamb\u00e9m como o seu pensamento \u00e9 dominado pelo pol\u00edtico e por uma fragmenta\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o em nome da conting\u00eancia. \u00c9 esse ataque metaf\u00edsico \u00e0 raz\u00e3o que precisa ser considerado e respondido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em se tratando de aceleracionismo, esse n\u00e3o \u00e9 somente o problema do aceleracionismo reacion\u00e1rio e de direita, encarnado na figura de Nick Land \u2013 \u201cnosso Nietzsche\u201d, de acordo com Mark Fisher. O aceleracionismo reacion\u00e1rio e de direita fica contente em adotar o radicalismo aristocr\u00e1tico nietzscheano e sua pol\u00edtica de casta, sele\u00e7\u00e3o e aniquila\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que as posi\u00e7\u00f5es aceleracionistas de esquerda tamb\u00e9m est\u00e3o comprometidas pelos compromissos irracionalistas nietzscheanos. Essa \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o indesej\u00e1vel, de acordo com Luk\u00e1cs, de \u00e9tica de esquerda com epistemologia de direita. Eu deveria acrescentar que essa cr\u00edtica de Nietzsche tamb\u00e9m impactou o meu pr\u00f3prio trabalho, que ficou vulner\u00e1vel por conta da ado\u00e7\u00e3o da politiza\u00e7\u00e3o nietzschiana que dependia da vontade e da escolha. Algumas figuras associadas ao aceleracionismo, mesmo de maneira perif\u00e9rica, seguiram um caminho diferente \u2013 na dire\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o e de Hegel. Isso parece contradizer minha an\u00e1lise. No entanto, ao enfatizar a escolha, essa tend\u00eancia continua sendo existencial, e, ao enfatizar a vontade, continua sendo nietzschiana. Sua fonte preferida \u00e9 um Hegel supostamente n\u00e3o metaf\u00edsico, e uma de suas principais refer\u00eancias hegelianas, Robert B. Pippin, recentemente se converteu a Heidegger.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez tudo isso \u00e9 para dizer que os \u00faltimos dez anos n\u00e3o foram t\u00e3o estranhos quanto eles aparentam a princ\u00edpio. Por baixo da apar\u00eancia de mudan\u00e7a radical e da reviravolta nas posi\u00e7\u00f5es e ideias, tem havido mais continuidade do que imaginamos. Conforme eu sugeri, Deleuze, um dos mais influentes formuladores do aceleracionismo (com Guattari), continua sendo muito importante, e Nietzsche tamb\u00e9m continua exercendo sua influ\u00eancia. A \u00eanfase dos pensadores p\u00f3s-estruturalistas na linguagem e na media\u00e7\u00e3o diminuiu, mas persiste o compromisso com uma materialidade fragmentada de uma alteridade ca\u00f3tica e inst\u00e1vel. O que podemos dizer \u00e9 que os principais compromissos filos\u00f3ficos ou metaf\u00edsicos (mesmo sendo considerados como antimetaf\u00edsicos) n\u00e3o mudaram de modo significativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As apar\u00eancias contam, \u00e9 claro. O aceleracionismo \u00e9 cada vez menos reivindicado como uma posi\u00e7\u00e3o nos debates. Suas raras apari\u00e7\u00f5es parecem agora surgir entre aqueles na extrema direita que est\u00e3o cometendo viol\u00eancias. Eles usam o aceleracionismo para se referir \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o do conflito quando miram espa\u00e7os de cren\u00e7a e de hibridismo que v\u00e3o contra os desejos racistas de purifica\u00e7\u00e3o. Nesse caso, o aceleracionismo \u00e9 mais parecido com a estrat\u00e9gia de tens\u00e3o na It\u00e1lia dos anos 1970, em que agentes da extrema direita tentaram levar a cabo atos de viol\u00eancia que poderiam desestabilizar a ordem vigente e encorajar solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias. Essas s\u00e3o, tamb\u00e9m, a\u00e7\u00f5es de lobos solit\u00e1rios, nas quais a ideologia funciona mais como um r\u00f3tulo ou at\u00e9 mesmo um meme com o qual a pessoa se identifica. Podemos perceber novamente a influ\u00eancia das m\u00eddias sociais, com esses agentes da extrema direita adotando o manifesto, o streaming ao vivo e o meme para justificar e espalhar sua ideologia. O aceleracionista, nesse caso, \u00e9 um influenciador maligno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, recentemente o aceleracionismo ressurgiu outra vez nos altos n\u00edveis do mundo corporativo, por meio do aceleracionismo efetivo (e\/acc, na sigla em ingl\u00eas). Agora o objetivo \u00e9 usar a tecnologia a fim de manter e espalhar a consci\u00eancia humana (ou o que quer que seja que vai substituir essa consci\u00eancia) ao redor do universo. Tomando emprestado as ideias de Nick Land e da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o aceleracionismo efetivo pretende criar o desenvolvimento desregulado da tecnologia, principalmente da intelig\u00eancia artificial, nos permitindo transcender aquilo que William Gibson chamou de \u201ca carne\u201d. Aqui podemos perceber que o aceleracionismo converge com o mercado capitalista, e a no\u00e7\u00e3o dist\u00f3pica das corpora\u00e7\u00f5es como seres sencientes emergentes, que encontramos em Gibson, \u00e9 revertida na promessa de um novo futuro radical.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que podemos ver nesses dois exemplos s\u00e3o a for\u00e7a e a persist\u00eancia do aceleracionismo de direita. Embora o Futurismo Italiano tenha sido um movimento heterog\u00eaneo, com suas tend\u00eancias nietzschianas, anarquistas e protofascistas, ele pode nos dar um alerta \u00fatil acerca do destino do movimento aceleracionista. Podemos apontar o fato de que o Futurismo foi um movimento cultural sujeito a inflex\u00f5es diferentes, como, por exemplo, o Futurismo Russo, mais \u00e0 esquerda. Essa diversidade, contudo, obscurece compromissos centrais com uma pol\u00edtica est\u00e9tica do mito que transforma a tecnologia de uma realidade social em uma for\u00e7a m\u00edtica. A necessidade se entender a tecnologia \u2013 e principalmente o controle da tecnologia (o que costumava se chamar de o controlo dos meios de produ\u00e7\u00e3o) \u2013 amea\u00e7a desaparecer em um movimento que s\u00f3 oferece a pseudo-solu\u00e7\u00e3o da fus\u00e3o com a tecnologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em muitos sentidos, o aceleracionismo foi uma tentativa autoconsciente de reinventar um movimento de vanguarda numa \u00e9poca em que esse tipo de movimento era supostamente imposs\u00edvel. Ele tamb\u00e9m concedeu a Nietzsche um papel central, por conta de sua pol\u00edtica da vontade e do mito, exatamente do mesmo modo que as vanguardas anteriores o fizeram. A ades\u00e3o ao aceleracionismo da parte dos artistas, vituperada por muitos pensadores aceleracionistas, tamb\u00e9m aponta para essa ideia do aceleracionismo como um movimento cultural amplo. Isso n\u00e3o significa negar o papel das ideias ou negar a possibilidade de compreens\u00f5es erradas; significa, antes, insistir no fato de que essas ideias e as interpreta\u00e7\u00f5es erradas se desenvolveram a partir das ambiguidades e tens\u00f5es do pr\u00f3prio aceleracionismo. <em>Malign Velocities<\/em> foi e continua sendo uma tentativa de entender algumas dessas ambiguidades e tens\u00f5es, tanto historicamente, quanto no seu ressurgimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Analisar e compreender o aceleracionismo \u00e9 entender algo sobre o que tem acontecido nos \u00faltimos dez anos aproximadamente. Pode-se dizer que se tratou de um movimento muito restrito, desconhecido da maioria da humanidade \u2013 quase um estalar de dedos em compara\u00e7\u00e3o com todos os problemas e for\u00e7as reais que d\u00e3o forma a esses anos todos. Isso seria verdade; por\u00e9m, os modos com que o aceleracionismo reencenou os gestos do passado, bem como prometeu novos futuros tecnol\u00f3gicos ut\u00f3picos para a era das m\u00eddias sociais, ainda impressionam. Ele representou algo das for\u00e7as e do trabalho reais, tanto quanto de sua express\u00e3o ideol\u00f3gica nesse per\u00edodo. Se, como sugeriu Hegel, precisamos compreender nosso pr\u00f3prio tempo no pensamento, isso inclui entender onde ele pode ter perdido o rumo. \u00c9 por isso que eu ainda acredito que vale a pena rastrear as velocidades malignas do aceleracionismo e suas muta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado no substack das editoras Repeater e Zer0 Books, em 29 de outubro de 2025. Agradecemos encarecidamente ao autor por ceder os direitos da tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/repeaterzer0.substack.com\/p\/the-corpse-of-accelerationism\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Barros.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"88783adf-9d46-49ec-a55c-9010d09e96c6\">Professor de Teoria Cr\u00edtica na Universidade de Chichester. \u00c9 autor do livro <em><a href=\"https:\/\/www.collectiveinkbooks.com\/zer0-books\/our-books\/malign-velocities\">Malign Velocities. Accelerationism and Capitalism<\/a><\/em>. <a href=\"#88783adf-9d46-49ec-a55c-9010d09e96c6-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"1115b800-e234-461c-a19f-583563f8c9e2\">Possivelmente o autor est\u00e1 se referindo ao movimento surgido na d\u00e9cada de 1970 que reivindicou para si o legado do comunismo ap\u00f3s o desaparecimento da Internacional Situacionista, modernizando-o. Essa nova corrente se denominada \u201ccomunisadores\u201d porque alegavam ser os \u00fanicos verdadeiros comunistas, os \u00fanicos que entenderam a obra de Marx. [N.T.] <a href=\"#1115b800-e234-461c-a19f-583563f8c9e2-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 13 \u2013 dezembro de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um pouco mais de dez anos ap\u00f3s o surgimento do aceleracionismo, Benjamin Noys, respons\u00e1vel por ter cunhado o termo, reflete sobre as transforma\u00e7\u00f5es pelas quais o movimento passou<\/p>\n","protected":false},"author":51,"featured_media":1160,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Professor de Teoria Cr\u00edtica na Universidade de Chichester. \u00c9 autor do livro <em><a href=\\\"https:\/\/www.collectiveinkbooks.com\/zer0-books\/our-books\/malign-velocities\\\">Malign Velocities. 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