{"id":1187,"date":"2025-12-10T14:45:31","date_gmt":"2025-12-10T17:45:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1187"},"modified":"2026-01-09T18:08:22","modified_gmt":"2026-01-09T21:08:22","slug":"em-louvor-aos-robos-inuteis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/12\/10\/em-louvor-aos-robos-inuteis\/","title":{"rendered":"Em Louvor aos Rob\u00f4s In\u00fateis"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Laura Tripaldi<sup data-fn=\"fac4b48a-27df-4fe0-8eb3-c840052fac36\" class=\"fn\"><a href=\"#fac4b48a-27df-4fe0-8eb3-c840052fac36\" id=\"fac4b48a-27df-4fe0-8eb3-c840052fac36-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 alguns meses, visitei, na Galeria Nacional em Roma, a retrospectiva do Futurismo organizada para marcar o 80\u00ba anivers\u00e1rio da morte de Filippo Tommaso Marinetti. As salas estavam cheias de arquivos de um sonho mec\u00e2nico ultra modernista: cartazes, pinturas e esculturas coexistiam ao lado de motores, tel\u00e9grafos, carros e avi\u00f5es. Era imposs\u00edvel ignorar a voz do ide\u00f3logo vision\u00e1rio do Futurismo, que ecoava pelos corredores neo-cl\u00e1ssicos s\u00f3brios do museu: \u201cAfirmamos que a magnific\u00eancia do mundo foi enriquecida por uma nova beleza: a beleza da velocidade\u201d. Para os futuristas, toda m\u00e1quina era, essencialmente, uma m\u00e1quina do tempo: mais do que ferramentas projetadas para realizar uma tarefa espec\u00edfica, os objetos tecnol\u00f3gicos eram a personifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do impulso universal da humanidade em dire\u00e7\u00e3o ao progresso. Olhando al\u00e9m das implica\u00e7\u00f5es notoriamente controversas de suas afilia\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, o g\u00eanio da vanguarda futurista era sua intui\u00e7\u00e3o de que a evolu\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas poderia capturar transforma\u00e7\u00f5es culturais melhor do que qualquer outra pr\u00e1tica humana. E assim, at\u00e9 mesmo as artes e as letras \u2013 as mais valiosas express\u00f5es do humanismo \u2013 tiveram que ouvir o rugido dos motores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outubro de 2021, os visitantes da Tate Modern de Londres entraram em um espa\u00e7o povoado por vis\u00f5es de um futuro muito diferente. Organismos flutuantes e semitransparentes pairavam lentamente no ar como criaturas ser\u00e1ficas das profundezas do oceano. Esses <em>aer\u00f3bios<\/em>, como foram batizados pela artista coreana-americana Anicka Yi, que os concebeu, s\u00e3o paquid\u00e9rmicos, calmos e silenciosos. Esses aut\u00f4matos voadores respondem \u00e0 presen\u00e7a humana, mudando a altitude e o comportamento com base na proximidade das pessoas no espa\u00e7o. \u201cQuando voc\u00ea olha para esses aer\u00f3bios, d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o quase oposta ao vale da estranheza\u201d, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?si=eCZPv9NqKZLae9Ws&amp;v=HtGGg7J5z-A&amp;feature=youtu.be\">explica Yi<\/a>. \u201cVoc\u00ea sabe que eles s\u00e3o mec\u00e2nicos, ainda que parecem palpavelmente vivos\u201d. Ao contr\u00e1rio dos rob\u00f4s antropom\u00f3rficos, cuja semelhan\u00e7a imperfeita com os humanos muitas vezes gera uma sensa\u00e7\u00e3o de desconforto sutil (ou \u201cestranheza\u201d), os aut\u00f4matos de Yi n\u00e3o s\u00e3o perturbadores nem tranquilizadores, mas projetados para evocar uma sensa\u00e7\u00e3o de alteridade sublime, como nadar ao lado de uma baleia no mar. Sua escala \u00e9 imponente, mas sua presen\u00e7a convida \u00e0 aten\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o ao medo. Esses objetos art\u00edstico-tecnol\u00f3gicos s\u00e3o dif\u00edceis de definir: s\u00e3o artefatos feitos pelo homem, mas n\u00e3o servem a nenhuma fun\u00e7\u00e3o instrumental. Eles se movem em seu ambiente guiados por suas percep\u00e7\u00f5es, interagindo uns com os outros e com o mundo ao seu redor. Yi os descreve, <a href=\"https:\/\/www.bazardotempo.com.br\/products\/o-manifesto-das-especies-companheiras-cachorros-pessoas-e-alteridade-significativa\">tomando emprestado um termo de Donna Haraway<\/a>, como \u201cum novo tipo de esp\u00e9cie companheira\u201d. Nos termos de Haraway, uma \u201cesp\u00e9cie companheira\u201d n\u00e3o \u00e9 um reflexo familiar do humano, mas uma alteridade significativa, cuja dist\u00e2ncia de n\u00f3s nos permite habitar novas formas de relacionamento e coexist\u00eancia.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-1-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1189\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-1-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-1-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-1-1200x799.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-1.jpg 1440w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Os aer\u00f3bios de Anika Yi (<a href=\"https:\/\/www.tate.org.uk\/whats-on\/tate-modern\/hyundai-commission-anicka-yi\">Tate Modern<\/a>, 2021)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rob\u00f4s s\u00e3o estranhos objetos de investiga\u00e7\u00e3o. Sempre que os encontro em minha pesquisa, me pego ponderando o contraste entre seu impacto insignificante na minha rotina e sua presen\u00e7a imponente na minha imagina\u00e7\u00e3o cultural. \u00c9 claro que os rob\u00f4s industriais j\u00e1 servem a prop\u00f3sitos relevantes, mas sua utilidade n\u00e3o justifica totalmente o apelo que eles exercem sobre n\u00f3s. Al\u00e9m de seu uso pretendido, cada rob\u00f4, em sua individualidade sint\u00e9tica e independente, parece incorporar algo como a quintess\u00eancia do objeto tecnol\u00f3gico. H\u00e1 algo paradigm\u00e1tico e poderoso sobre esses seres que domina nossa imagina\u00e7\u00e3o do futuro. E embora por muito tempo a palavra \u201crob\u00f4\u201d tenha correspondido a uma imagem muito espec\u00edfica (um artefato antropom\u00f3rfico, mec\u00e2nico e r\u00edgido), os aut\u00f4matos voadores de Anicka Yi sinalizam uma mudan\u00e7a mais ampla na forma como esses objetos tecnol\u00f3gicos s\u00e3o imaginados e constru\u00eddos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos vinte anos, a rob\u00f3tica passou por uma transi\u00e7\u00e3o significativa. Um campo antes dominado por corpos antropom\u00f3rficos e materiais r\u00edgidos come\u00e7ou a abra\u00e7ar uma gama muito mais ampla de poss\u00edveis encarna\u00e7\u00f5es, come\u00e7ando com o uso de pl\u00e1sticos e materiais flex\u00edveis para substituir o a\u00e7o e os pol\u00edmeros r\u00edgidos. Cecilia Laschi, uma das figuras mais respeitadas no campo da rob\u00f3tica, <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/scirobotics.aah3690\">frequentemente enfatizou como essa transi\u00e7\u00e3o de rob\u00f4s \u201cr\u00edgidos\u201d para rob\u00f4s \u201cmacios\u201d<\/a> vai muito al\u00e9m de uma simples mudan\u00e7a na escolha de materiais, refletindo, em vez disso, uma transi\u00e7\u00e3o mais ampla em toda a anatomia dos aut\u00f4matos, nas estrat\u00e9gias usadas para control\u00e1-los e na filosofia que impulsiona sua constru\u00e7\u00e3o. A conquista tecnol\u00f3gica mais not\u00e1vel de Laschi e seus colegas do Instituto Sant\u2019Anna em Pisa \u00e9 <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0928493110003450\">um bra\u00e7o rob\u00f3tico, originalmente projetado em 2011, e inspirado na hidrost\u00e1tica muscular do polvo<\/a>. Em polvos, os membros s\u00e3o capazes de comportamentos complexos, como nadar e manipular objetos atrav\u00e9s de deforma\u00e7\u00f5es coordenadas do tecido muscular, sem qualquer necessidade de uma estrutura r\u00edgida. No rob\u00f4 projetado por Laschi e seus colegas, o movimento do membro rob\u00f3tico \u00e9 alcan\u00e7ado de forma semelhante atrav\u00e9s de materiais inteligentes deform\u00e1veis conhecidos como \u201cligas de mem\u00f3ria de forma\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"969\" height=\"591\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1191\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-2.jpg 969w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-2-300x183.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-2-768x468.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 969px) 100vw, 969px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">PoseiDrone, prot\u00f3tipo de rob\u00f4 macio inspirado no polvo (<a href=\"https:\/\/cde.nus.edu.sg\/news-detail\/qa-prof-cecilia-laschi-on-soft-robotics-and-the-octopus\/\">Universidade Nacional de Singapura<\/a>, 2022)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao contr\u00e1rio de um rob\u00f4 convencional, esses movimentos n\u00e3o s\u00e3o pr\u00e9-programados, mas emergem da resposta do material a for\u00e7as externas. Essa nova l\u00f3gica de engenharia faz parte do que Laschi descreve como intelig\u00eancia incorporada, uma abordagem na qual o comportamento do rob\u00f4 emerge da integra\u00e7\u00e3o de sua estrutura f\u00edsica e intera\u00e7\u00e3o com o mundo. O conceito de \u201cincorpora\u00e7\u00e3o\u201d desafia a separa\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica entre corpo e mente, representa\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia. Em vez de conceber a intelig\u00eancia como o produto de uma mente ativa que controla um corpo passivo, a incorpora\u00e7\u00e3o enfatiza a rela\u00e7\u00e3o entre cogni\u00e7\u00e3o e corporalidade. Origin\u00e1rio da filosofia nos \u00faltimos vinte anos, esse conceito come\u00e7ou a se espalhar e se estabelecer no campo da engenharia, abrindo novos caminhos para o design de rob\u00f4s vers\u00e1teis e adapt\u00e1veis. \u201cO polvo \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica de como o comportamento eficaz no mundo real est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 morfologia corporal\u201d, <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0928493110003450\">explicam Laschi e seus colegas de trabalho<\/a>, \u201cum bom exemplo de intelig\u00eancia incorporada, cujos princ\u00edpios derivam da observa\u00e7\u00e3o na natureza de que o comportamento adaptativo emerge da intera\u00e7\u00e3o complexa e din\u00e2mica entre a morfologia corporal, o controle sens\u00f3rio-motor e o ambiente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De volta a Xangai, algum tempo depois de visitar a Galeria Nacional, visitei uma retrospectiva sobre Hajime Sorayama, um artista japon\u00eas famoso por ter cristalizado a imagem do rob\u00f4 do s\u00e9culo XX em um \u00edcone simultaneamente futurista e nost\u00e1lgico. Desde a d\u00e9cada de 1980, Sorayama reproduziu incessantemente a mesma escultura com varia\u00e7\u00f5es m\u00ednimas: uma figura feminina esbelta e curvil\u00ednea coberta de armadura cromada, a meio caminho entre o fetiche er\u00f3tico e a divindade de um futuro h\u00e1 muito perdido. Esses trabalhos, laconicamente rotulados como \u201cSexy Robot\u201d seguidos por um n\u00famero de s\u00e9rie, parecem celebrar e zombar do estere\u00f3tipo modernista do aut\u00f4mato como um triunfo de controle e efici\u00eancia mec\u00e2nica, replicando a miragem sedutora de um progresso brilhante e sem fim. Enquanto as criaturas de Yi nos projetam para um futuro tecnol\u00f3gico alien\u00edgena e ainda nascente, as figuras de Sorayama s\u00e3o cativantes precisamente porque refletem perfeitamente nossas expectativas. Se os aer\u00f3bios de Yi s\u00e3o suaves, sens\u00edveis e radicalmente n\u00e3o humanos, os rob\u00f4s sensuais de Sorayama s\u00e3o sobre-humanos, deslumbrantes e maravilhosamente insens\u00edveis.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-3-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1193\" style=\"aspect-ratio:0.7500000187608067;width:457px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-3-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-3-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-3-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-3.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Rob\u00f4 Sexy, de Hajime Sorayama (Nanzuka Art Institute, Xangai, 2025)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de sua dist\u00e2ncia est\u00e9tica e filos\u00f3fica radical, os rob\u00f4s de Sorayama e Yi t\u00eam pelo menos uma coisa em comum \u2013 sua inutilidade. Mais especificamente, ambos s\u00e3o instrumentos de contempla\u00e7\u00e3o est\u00e9tica em vez de ferramentas funcionais. Rob\u00f4s, nesse sentido, s\u00e3o frequentemente descritos em termos do que podem fazer: como artefatos projetados para facilitar o trabalho, ou ent\u00e3o coloc\u00e1-los em nosso lugar. Essa concep\u00e7\u00e3o, j\u00e1 escrita na etimologia familiar da palavra \u201crob\u00f4\u201d (do tcheco robota, \u201ctrabalho for\u00e7ado\u201d, um termo popularizado pelo escritor de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica Karel \u010capek), est\u00e1 profundamente enraizada na cultura industrial do s\u00e9culo XX. Ainda assim, mesmo antes de serem chamados por esse nome, os rob\u00f4s nem sempre foram apenas ferramentas a servi\u00e7o da produtividade humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um artigo de 1964 intitulado <a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/3101119?seq=1\">\u201cAutomata and the Origins of Mechanism and Mechanistic Pholosophy\u201d<\/a>, o historiador de tecnologia Derek de Solla Price tra\u00e7ou a hist\u00f3ria dos aut\u00f4matos desde a Antiguidade, desafiando a no\u00e7\u00e3o de que tais m\u00e1quinas foram criadas principalmente para servir ao trabalho humano. Os mecanismos, observou ele, funcionavam h\u00e1 muito tempo como dispositivos epist\u00eamicos antes de se tornarem ferramentas \u00fateis: eles agiam como espelhos microc\u00f3smicos para a ordem maior do mundo. Durante s\u00e9culos, os aut\u00f4matos acompanharam a imagina\u00e7\u00e3o humana, ajudando os pensadores a conceber um universo racional governado por mecanismos regulares (bem antes que tais mecanismos pudessem ser praticamente colocados em trabalho). Essa linhagem hist\u00f3rica complica a vis\u00e3o da m\u00e1quina como uma ferramenta puramente instrumental: sua utilidade material era muitas vezes secund\u00e1ria ao seu poder epist\u00eamico. Esse interesse n\u00e3o utilit\u00e1rio em rob\u00f4s tem surgido repetidas vezes nas pr\u00e1ticas art\u00edsticas. Em <em>After Care<\/em>, uma instala\u00e7\u00e3o recentemente exibida no Copenhagen Contemporary, os artistas <a href=\"https:\/\/studiothinkinghand.com\/\">Rhoda Ting e Mikkel Bojesen<\/a> colocaram rob\u00f4s totalmente macios e ativados pneumaticamente para se contorcer e cavar dentro de um grande po\u00e7o de rochas e sujeira. Os visitantes foram convidados a manusear os rob\u00f4s como se estivessem em um \u201czool\u00f3gico de animais de estima\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 interagindo com eles n\u00e3o como instrumentos, mas como \u201cesp\u00e9cies companheiras\u201d alien\u00edgenas, valorizados mais por sua estranheza e presen\u00e7a do que por qualquer uso pr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"819\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-4-819x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1195\" style=\"aspect-ratio:0.7998076794418351;width:457px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-4-819x1024.jpg 819w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-4-240x300.jpg 240w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/tripaldi-4-768x960.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>After Care<\/em>, de Rhoda Ting e Mikkel Bojesen (<a href=\"https:\/\/copenhagencontemporary.org\/en\/soft-robots\/\">Copenhagen Contemporary<\/a>, 2025)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho de Cecilia Laschi e de muitos outros pioneiros da rob\u00f3tica j\u00e1 est\u00e1 demonstrando que esses novos rob\u00f4s macios podem expandir significativamente a funcionalidade, a sustentabilidade e a resili\u00eancia das tecnologias dos s\u00e9culos passados. No entanto, al\u00e9m das aplica\u00e7\u00f5es ainda limitadas desses artefatos, os rob\u00f4s macios do s\u00e9culo XXI parecem sinalizar uma transi\u00e7\u00e3o mais complexa, principalmente epist\u00eamica e cultural, em nossa compreens\u00e3o e relacionamento com o mundo. As criaturas esvoa\u00e7antes de Yi e os moluscos contorcidos de Ting e Bojesen existem em continuidade com uma longa hist\u00f3ria, em que artefatos tecnol\u00f3gicos eram dispositivos filos\u00f3ficos e cosmol\u00f3gicos antes de serem ferramentas programadas para realizar uma tarefa. E se os aut\u00f4matos dos s\u00e9culos passados falavam de esferas celestes e universos orquestrados como um rel\u00f3gio, que mundos os rob\u00f4s macios do s\u00e9culo XXI evocam? Mesmo os rob\u00f4s contempor\u00e2neos, sejam nadando em laborat\u00f3rios de engenharia ou flutuando em galerias de arte, s\u00e3o antes de tudo espelhos cosmol\u00f3gicos, e os mundos que eles evocam s\u00e3o muito diferentes dos de seus ancestrais. O novo aut\u00f4mato, ao que parece, nos fala de continuidade ecol\u00f3gica, profunda alteridade e poss\u00edveis coexist\u00eancias com o que est\u00e1 mais distante de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado no substack <em>Soft Futures<\/em>, em 19 de setembro de 2025. Agradecemos encarecidamente \u00e0 autora por ceder os direitos da tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/softfutures.substack.com\/p\/in-praise-of-useless-robots\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Manoella Deorristt.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"fac4b48a-27df-4fe0-8eb3-c840052fac36\">Doutora em Ci\u00eancia dos Materiais e Nanotecnologia. Escritora e investigadora independente que estuda a intersec\u00e7\u00e3o entre tecnologia e humanidades. Autora do livro <em><a href=\"https:\/\/www.effequ.it\/prodotto\/menti-parallele\/\">Menti Parallele. Scoprire l&#8217;intelligenza dei materiali<\/a><\/em>. <a href=\"#fac4b48a-27df-4fe0-8eb3-c840052fac36-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 13 \u2013 dezembro de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rob\u00f4s macios, futurismos divergentes e a contempla\u00e7\u00e3o est\u00e9tica de m\u00e1quinas<\/p>\n","protected":false},"author":53,"featured_media":1197,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Doutora em Ci\u00eancia dos Materiais e Nanotecnologia. Escritora e investigadora independente que estuda a intersec\u00e7\u00e3o entre tecnologia e humanidades. 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Scoprire l'intelligenza dei materiali<\/a><\/em>.\",\"id\":\"fac4b48a-27df-4fe0-8eb3-c840052fac36\"}]"},"categories":[14,10,7,6],"tags":[88,46,162,158,154],"class_list":["post-1187","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arquivo","category-artigo","category-clima","category-cultura","tag-ecologia","tag-estetica","tag-futurismo","tag-tecnologia","tag-volume-13"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1187","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/users\/53"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1187"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1187\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1202,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1187\/revisions\/1202"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1197"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1187"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1187"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1187"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}