{"id":1223,"date":"2026-01-09T18:12:22","date_gmt":"2026-01-09T21:12:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1223"},"modified":"2026-02-11T19:22:30","modified_gmt":"2026-02-11T22:22:30","slug":"poesia-apos-o-esgotamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/01\/09\/poesia-apos-o-esgotamento\/","title":{"rendered":"Poesia \u2013 Ap\u00f3s o Esgotamento"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Artur de Vargas Giorgi<sup data-fn=\"2c7cfca5-8c72-4cfe-b167-44874fbab571\" class=\"fn\"><a href=\"#2c7cfca5-8c72-4cfe-b167-44874fbab571\" id=\"2c7cfca5-8c72-4cfe-b167-44874fbab571-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui arrisco um panorama. Meu prop\u00f3sito \u00e9 tentar destacar um impasse do presente. N\u00e3o analisarei um poema; n\u00e3o falarei de um autor e sua obra, nem de um livro espec\u00edfico, portanto. Farei, na verdade, uma articula\u00e7\u00e3o entre o que chamamos de poesia e o tempo presente, pensando esse v\u00ednculo em termos mais te\u00f3ricos e pol\u00edticos do que est\u00e9ticos, embora essas inst\u00e2ncias, a rigor, n\u00e3o se separem. Sendo sincero, desde j\u00e1, devo dizer que desconfio do panorama que tra\u00e7o, feito sobretudo de imprecis\u00f5es, lacunas e afirma\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias, que pedem melhor formula\u00e7\u00e3o. Mas como n\u00e3o confio, tamb\u00e9m, no andamento do presente, que se precipita, sem sair do lugar, mais \u00e0s pressas que meu pensamento, penso que, na pior das hip\u00f3teses, esta pode ser uma boa oportunidade para compartilhar uma inquieta\u00e7\u00e3o e, quem sabe, organizar o pessimismo.<sup data-fn=\"182c1ff7-f9d1-45c8-904e-3c863c640515\" class=\"fn\"><a href=\"#182c1ff7-f9d1-45c8-904e-3c863c640515\" id=\"182c1ff7-f9d1-45c8-904e-3c863c640515-link\">2<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A poesia, como bem sabemos, in\u00fameras vezes foi pensada como um modo de desvelamento. Ao menos na tradi\u00e7\u00e3o ocidental, mas desde o mundo antigo, o <em>fazer<\/em> \u2013 \u03c0\u03bf\u03af\u03b7\u03c3\u03b9\u03c2 \u2013 que de modo geral caracteriza o trabalho po\u00e9tico se enla\u00e7a com a abertura de sentido, com a cria\u00e7\u00e3o de mundo, o que Plat\u00e3o, por exemplo, designou em um dos seus di\u00e1logos pela passagem \u201cdo n\u00e3o-ser ao ser\u201d.<sup data-fn=\"d34bd0f6-9960-4828-b04b-9c19bfeec92d\" class=\"fn\"><a href=\"#d34bd0f6-9960-4828-b04b-9c19bfeec92d\" id=\"d34bd0f6-9960-4828-b04b-9c19bfeec92d-link\">3<\/a><\/sup> Ou seja, j\u00e1 na origem, por assim dizer, a poesia se presentifica como elabora\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 por vir e n\u00e3o se dissocia, ela mesma, como um princ\u00edpio inesgot\u00e1vel, do devir. Poesia e ontologia \u2013 ou ainda, est\u00e9tica e \u00e9tica \u2013 se entrela\u00e7am ent\u00e3o nesse endere\u00e7amento origin\u00e1rio e sempre retomado, com o qual o futuro, nunca imobilizado, vem a ser desvelado no fazer presente.<sup data-fn=\"f68857de-7cb7-4c29-87f7-f24025580455\" class=\"fn\"><a href=\"#f68857de-7cb7-4c29-87f7-f24025580455\" id=\"f68857de-7cb7-4c29-87f7-f24025580455-link\">4<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A valoriza\u00e7\u00e3o do engenho e do chiste pela \u201cpoesia universal progressiva\u201d<sup data-fn=\"8820e9d7-71ea-4485-97a3-528169e36cad\" class=\"fn\"><a href=\"#8820e9d7-71ea-4485-97a3-528169e36cad\" id=\"8820e9d7-71ea-4485-97a3-528169e36cad-link\">5<\/a><\/sup> dos rom\u00e2nticos e o apelo \u00e0s evoca\u00e7\u00f5es e \u00e0s correspond\u00eancias dos simbolistas podem ser pensados, nesse sentido, como modula\u00e7\u00f5es modernas dessa quase imemorial voca\u00e7\u00e3o desveladora. Assim como o \u00edmpeto vanguardista, reivindicado de muitas formas ao longo do \u00faltimo s\u00e9culo, com o qual a poesia confina com uma sorte de profecia profana, ou seja, com a arte de abrir caminhos, de rasgar os v\u00e9us que recobrem a percep\u00e7\u00e3o, de empenhar linguagem e corpo no combate \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o e na ruptura com o pr\u00f3prio tempo, enfim, com a arte de conduzir a imagina\u00e7\u00e3o \u00e0 frente, em dire\u00e7\u00e3o a um mundo desejado e vislumbrado, mas esquivo como a linha do horizonte. \u201cA poesia revela este mundo; cria outro\u201d, nos diz uma f\u00f3rmula de Octavio Paz.<sup data-fn=\"33b8588b-85b6-4b96-bab5-9853d80ca9bb\" class=\"fn\"><a href=\"#33b8588b-85b6-4b96-bab5-9853d80ca9bb\" id=\"33b8588b-85b6-4b96-bab5-9853d80ca9bb-link\">6<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De fato, fazer vir o futuro por meio da linguagem era parte do programa compartilhado das vanguardas, embora as vis\u00f5es e os caminhos para esse porvir fossem muitas vezes divergentes, e mesmo enfrentados. Em futuristas italianos, dada\u00edstas e surrealistas, por exemplo, liam-se o descolamento da representa\u00e7\u00e3o do referente e o apelo \u00e0 palavra, ao signo, como objeto significante libertador da mat\u00e9ria<sup data-fn=\"4e08b91a-0b25-4913-933c-521691ad3fdd\" class=\"fn\"><a href=\"#4e08b91a-0b25-4913-933c-521691ad3fdd\" id=\"4e08b91a-0b25-4913-933c-521691ad3fdd-link\">7<\/a><\/sup> e produtor do futuro; e, no entanto, de modo geral, o investimento po\u00e9tico diferia notavelmente entre os grupos e as suas situa\u00e7\u00f5es, estando atrelado a distintas linhas de for\u00e7a: ao titanismo maqu\u00ednico e b\u00e9lico, no futurismo italiano; ao choque aos valores burgueses, no Dada\u00edsmo; ao reencantamento revolucion\u00e1rio do mundo, no Surrealismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, fosse arrogante, ir\u00f4nico ou neorrom\u00e2ntico, certo \u00e9 que entre a poesia e o porvir havia um enlace estreito, uma esp\u00e9cie compromisso inadi\u00e1vel que fez o s\u00e9culo XX, nas palavras de Franco Berardi, ser o s\u00e9culo que acreditou no futuro. Havia, segundo Berardi \u2013 que ali\u00e1s escreve como um veterano dos eventos de maio de 1968, ponto que \u00e9 v\u00e9rtice e ruptura das apostas modernas \u2013, uma confian\u00e7a no futuro: da perspectiva dos modernos, diz o autor, \u201cespera-se do futuro a realiza\u00e7\u00e3o das promessas do presente\u201d.<sup data-fn=\"7689c70e-68ea-42f6-acb1-c7e96a3278a7\" class=\"fn\"><a href=\"#7689c70e-68ea-42f6-acb1-c7e96a3278a7\" id=\"7689c70e-68ea-42f6-acb1-c7e96a3278a7-link\">8<\/a><\/sup> E talvez a grande desventura desse \u00faltimo s\u00e9culo \u2013 que no caso seria n\u00e3o apenas a grande desventura das vanguardas e das neovanguardas, mas sobretudo a enorme desventura do nosso tempo presente \u2013 tenha sido alcan\u00e7ar, em muitos aspectos, a realiza\u00e7\u00e3o desse futuro ansiosamente perseguido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso na medida em que o futuro do mundo moderno muitas vezes se mostrou indissoci\u00e1vel de uma proje\u00e7\u00e3o progressiva. Havia futuro porque fazia parte do imagin\u00e1rio moderno o <em>mais al\u00e9m<\/em>, ou seja, porque ainda havia espa\u00e7o a ser descoberto, invadido e conquistado; porque havia tempo a ser ocupado, disciplinado e acelerado. Havia futuro porque, entre o homem e a m\u00e1quina parecia haver a possibilidade de um avan\u00e7o cont\u00ednuo e coordenado, o que nos levaria \u2013 como esp\u00e9cie que evolui de acordo com uma natureza de segunda ordem \u2013 aos extremos de nossa pot\u00eancia prot\u00e9tica. Havia futuro porque, al\u00e9m da gravidade do mundo material regido pela f\u00edsica cl\u00e1ssica, energias de for\u00e7a inaudita aguardavam o agenciamento da raz\u00e3o esclarecida. E, mesmo em termos progressistas, a dial\u00e9tica afirmava que dependia do pr\u00f3prio avan\u00e7o do capital a cria\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es para a emancipa\u00e7\u00e3o do homem, uma emancipa\u00e7\u00e3o que viria a ser vivida plenamente quando a hist\u00f3ria universal chegasse ao seu momento sab\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Claro, tamb\u00e9m sabemos que, entre os modernos, os mais agudos foram aqueles que leram a contrapelo essa proje\u00e7\u00e3o ascendente: aqueles que, diante do progresso do trem da hist\u00f3ria, alertaram sobre a verdadeira tarefa revolucion\u00e1ria, que consistia em puxar os freios de emerg\u00eancia.<sup data-fn=\"77243b04-2138-4eb6-aac4-70f3b2ef6187\" class=\"fn\"><a href=\"#77243b04-2138-4eb6-aac4-70f3b2ef6187\" id=\"77243b04-2138-4eb6-aac4-70f3b2ef6187-link\">9<\/a><\/sup> Nietzsche, Simmel, Freud, Husserl, Benjamin, Bataille, Artaud, Adorno, Horkheimer \u2013 foram diversos os int\u00e9rpretes do mal-estar moderno; mal-estar que foi muito alimentado por essa vontade de futuro assimilada \u00e0 vontade de progresso. No Brasil, ap\u00f3s os ruidosos versos dos anos 1920, formuladores do buzina\u00e7o de um tempo j\u00e1 apressado, a poesia de Jorge de Lima, de Murilo Mendes, de Drummond registraria sem defasagem o choque diante de um desastre a\u00e9reo j\u00e1 ocorrido, o impasse diante do avan\u00e7o da hist\u00f3ria, a melancolia diante da m\u00e1quina do mundo revelada. O que lemos nesses e em outros poetas, portanto, \u00e9 que, na modernidade ocidental, e sobretudo em nossa tradi\u00e7\u00e3o colonial, futuro e descompasso, desvelamento e desconcerto n\u00e3o se separam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, contudo, foi a realiza\u00e7\u00e3o do futuro dos modernos, enquanto realiza\u00e7\u00e3o de um progresso sem limites, que nutriu, em larga escala, o que hoje se mostra, de muitas maneiras, como o esgotamento de um futuro poss\u00edvel. O esgotamento vem assim ligado aos dois pressupostos apaziguadores do futuro, segundo Berardi: em primeiro lugar, escreve ele, no imagin\u00e1rio moderno o futuro \u201c\u00e9 conhec\u00edvel, porque as tend\u00eancias escritas na hist\u00f3ria se desenvolvem conforme linhas de crescimento lineares e porque a ci\u00eancia pode formular as leis de desenvolvimento da hist\u00f3ria humana, assim como pode compreender as leis dos movimentos dos planetas\u201d. Em segundo lugar, afirma o autor, \u201co futuro \u00e9 modific\u00e1vel pela vontade humana, pela ind\u00fastria, pela t\u00e9cnica, pelo planejamento econ\u00f4mico e pela a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e militar\u201d; assim, o s\u00e9culo XX \u201cacredita no futuro porque cr\u00ea na ci\u00eancia que prev\u00ea e na pol\u00edtica que quer, decide e imp\u00f5e\u201d.<sup data-fn=\"296cdca8-57df-4235-ab15-8fcaf2f25b0b\" class=\"fn\"><a href=\"#296cdca8-57df-4235-ab15-8fcaf2f25b0b\" id=\"296cdca8-57df-4235-ab15-8fcaf2f25b0b-link\">10<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ora, \u00e9 entre a d\u00e9cada de 1960 e come\u00e7o de 1970, momento de emerg\u00eancia das neovanguardas, que entram em eros\u00e3o essas apostas, t\u00e3o sedimentadas no imagin\u00e1rio e no regime de historicidade modernos. Significativamente, tamb\u00e9m \u00e9 quando entra em revis\u00e3o um dos princ\u00edpios operat\u00f3rios de maior rendimento para as vanguardas hist\u00f3ricas, ou seja, a ruptura do paradigma referencial que mantinha a correspond\u00eancia entre o signo e o referente, operando como uma esp\u00e9cie de lastro ontol\u00f3gico. Num esquema muito sum\u00e1rio (portanto fr\u00e1gil e insuficiente), dir\u00edamos que, por um lado, essa revis\u00e3o garante que a ruptura vanguardista seja assimilada e permane\u00e7a \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, mobiliz\u00e1vel como um recurso que j\u00e1 \u00e9 parte do repert\u00f3rio po\u00e9tico compartilhado pelas neovanguardas. No Brasil, v\u00ea-se, nesse sentido, a retomada da fatura oswaldiana pelas experimenta\u00e7\u00f5es concretistas da mat\u00e9ria significante, assim como, em outra chave, v\u00ea-se o apelo da posi\u00e7\u00e3o marginal e da performance ir\u00f4nica ou par\u00f3dica em poemas que jogam com o prosaico.<sup data-fn=\"896875b5-82ec-44dc-a772-6952584189c5\" class=\"fn\"><a href=\"#896875b5-82ec-44dc-a772-6952584189c5\" id=\"896875b5-82ec-44dc-a772-6952584189c5-link\">11<\/a><\/sup> Mas, por outro lado, ainda, essa mesma revis\u00e3o do paradigma referencial relan\u00e7a po\u00e9ticas resistentes \u00e0s experimenta\u00e7\u00f5es formais, mais preocupadas com as coisas do que com as palavras, por assim dizer, em clara retomada do enlace com o referente, respondendo \u00e0s demandas da participa\u00e7\u00e3o e da representa\u00e7\u00e3o, em um per\u00edodo de enorme instabilidade pol\u00edtica. A\u00ed lemos, nos anos 1960, os poemas da den\u00fancia e da luta contra a opress\u00e3o, as composi\u00e7\u00f5es da exalta\u00e7\u00e3o e do chamamento do povo etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seja como for, \u00e9 nesse mesmo per\u00edodo, sobretudo a partir da d\u00e9cada de 1970, que o esgotamento do futuro come\u00e7a a se apresentar com sinais mais evidentes. Um coment\u00e1rio de Alfredo Bosi, ao final do can\u00f4nico <em>Hist\u00f3ria concisa da literatura brasileira<\/em>, nos permite situar o problema que desde ent\u00e3o se coloca, inescap\u00e1vel:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEm paralelo ao que aconteceu com a prosa de fic\u00e7\u00e3o que, de engajada e testemunhal, passou a individualista extremada, a poesia deste fim de mil\u00eanio parece ter cortado as amarras que a pudessem atar a qualquer ideal de unidade, quer \u00e9tico-pol\u00edtico, quer mesmo est\u00e9tico, no sentido moderno de construtivo de um objeto art\u00edstico. Muitos dos seus textos encenam o teatro da dispers\u00e3o p\u00f3s-moderna e suas tend\u00eancias centr\u00edfugas: atomizam-se motivos, misturam-se estilos e as sensibilidades mais agudas exp\u00f5em ao leitor a consci\u00eancia da pr\u00f3pria desintegra\u00e7\u00e3o.\u201d<sup data-fn=\"d61d974f-8e4e-478b-973e-c2111013622a\" class=\"fn\"><a href=\"#d61d974f-8e4e-478b-973e-c2111013622a\" id=\"d61d974f-8e4e-478b-973e-c2111013622a-link\">12<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos ler algo parecido no tamb\u00e9m can\u00f4nico <em>Impress\u00f5es de viagem<\/em>, escrito no final da d\u00e9cada de 1970, em que Helo\u00edsa Buarque de Holanda comenta a vis\u00e3o de mundo expressa pela poesia marginal:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA mudan\u00e7a fundamental vai estar na valoriza\u00e7\u00e3o do presente, do <em>aqui e agora<\/em>. A ideia de Futuro, que como diz Octavio Paz identifica o otimismo da burguesia, dos liberais, dos capitalistas e mesmo do pensamento marxista, perde assim agora seu prest\u00edgio. Esse Futuro que por tanto tempo definiu as conquistas da humanidade, que permanece na vers\u00e3o capitalista, crist\u00e3 ou na marxista como valor mais profundo, num dos sintomas mais importantes das transforma\u00e7\u00f5es que estamos sofrendo, cede lugar ao instante, ao <em>aqui e agora<\/em>.\u201d<sup data-fn=\"e672aece-e69c-4c4c-a1a3-65844ec27ebb\" class=\"fn\"><a href=\"#e672aece-e69c-4c4c-a1a3-65844ec27ebb\" id=\"e672aece-e69c-4c4c-a1a3-65844ec27ebb-link\">13<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outros termos, eu diria que passagens como as de Bosi e de Buarque de Holanda apontam a emerg\u00eancia do que podemos chamar de contempor\u00e2neo, quer dizer, apontam, por um lado, o fim da teleologia e das grandes narrativas, que \u00e9 vivido como <em>curti\u00e7\u00e3o<\/em> do momento e sinal de descren\u00e7a no intelectualismo e nos rigores das linguagens; por outro, marcam a ascens\u00e3o do presente cont\u00ednuo no qual se abre o vertiginoso arquivo dos signos do moderno. Quando relidos, tais signos n\u00e3o s\u00e3o sempre os mesmos, contudo: eles se mostram \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para arranjos e rearranjos sempre pontuais, singulares e a rigor inesgot\u00e1veis, com os quais a hist\u00f3ria pode, sim, se adensar, ganhando renovada complexidade; mas, na mesma medida, parecem cada vez mais estar sob constante risco de, nesse proliferante jogo de releituras e remiss\u00f5es sem fim, derivarem plana e indiferentemente como em um deserto de significantes vazios, em que qualquer lastro \u00e9 ilus\u00f3rio ou prec\u00e1rio, n\u00e3o resultando em experi\u00eancia acumulada, sentido compartilhado ou direcionamento a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse presente que habitamos, n\u00e3o se trata simplesmente do que vem ap\u00f3s o moderno e seu regime hist\u00f3rico, como bem sabemos. O que est\u00e1 em jogo, desde ent\u00e3o, \u00e9 a pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o de um horizonte outro, de uma sa\u00edda para o esgotamento do mundo sob o capitalismo planet\u00e1rio. O que significa, afinal, que est\u00e1 em jogo a percep\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria hist\u00f3rica, isto \u00e9, a percep\u00e7\u00e3o da imensa profundidade do passado, da transitoriedade do agora e da possibilidade do amanh\u00e3. Afinal, em uma conta aproximada, vivemos o contempor\u00e2neo, como uma esp\u00e9cie de presente sem termo, h\u00e1 cerca de sessenta anos&#8230; Sem d\u00favida, seguimos produzindo poesia. Boa, m\u00e1; em maior ou menor quantidade e variedade; com mais ou menos leitores \u2013 n\u00e3o \u00e9 essa a quest\u00e3o que me interessa aqui. Minha inquieta\u00e7\u00e3o \u00e9 mais a seguinte: como, onde podemos reconhecer, na produ\u00e7\u00e3o desse longo presente expandido, uma for\u00e7a desveladora, ou seja, um enlace entre a linguagem empenhada e a afirma\u00e7\u00e3o do futuro em comum, entre a palavra e o que ainda n\u00e3o \u00e9, mas com ela se abre, para vir a ser? \u00c9 como se a poesia ainda acontecesse, sim, mas girando em falso, num tempo hiper-saturado, em que n\u00e3o h\u00e1 nada mais por acontecer; a n\u00e3o ser, \u00e9 claro, o pr\u00f3prio fim de tudo, j\u00e1 t\u00e3o exercitado pelas v\u00e1rias formas do apocalipse global que nos tocam diariamente, inclusive como entretenimento. A meu ver, a s\u00edntese dessa situa\u00e7\u00e3o limite se encontra na m\u00e1xima que nos diz que \u00e9 mais f\u00e1cil imaginar o fim do mundo, hoje, do que o fim do capitalismo.<sup data-fn=\"4b0213f0-19ed-4400-bbc0-31bb711f47d4\" class=\"fn\"><a href=\"#4b0213f0-19ed-4400-bbc0-31bb711f47d4\" id=\"4b0213f0-19ed-4400-bbc0-31bb711f47d4-link\">14<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse quadro que o fim das grandes narrativas e a supera\u00e7\u00e3o da teleologia, inicialmente produtores de desconforto, logo se converteram em promotores de uma acomoda\u00e7\u00e3o ao esgotamento. Principalmente na teoria, junto \u00e0 dilui\u00e7\u00e3o dos objetos est\u00e9ticos promovida pela ascens\u00e3o do culturalismo, consolidou-se uma perspectiva cr\u00edtica das manifesta\u00e7\u00f5es da ontologia e da ideia de progresso, afinada com as possibilidades do mundo sem todo e sem fora: um mundo descont\u00ednuo e espectral, mas leg\u00edvel por meio de conex\u00f5es imediatas entre fen\u00f4menos cada vez mais desterritorializados e sem sentido dado <em>a priori<\/em>. Trata-se de um protocolo de leitura dedicado \u00e0s montagens contingentes, ao jogo do deslizamento pelas redes e \u00e0s variadas constru\u00e7\u00f5es retrospectivas da mem\u00f3ria e das temporalidades.<sup data-fn=\"15b7caae-1603-419f-a763-134fced7abed\" class=\"fn\"><a href=\"#15b7caae-1603-419f-a763-134fced7abed\" id=\"15b7caae-1603-419f-a763-134fced7abed-link\">15<\/a><\/sup> J\u00e1 em 1983, Waly Salom\u00e3o e Paulo Leminski cifravam essa perspectiva em duas posi\u00e7\u00f5es, ao discutir o futuro da poesia numa entrevista gravada pelo programa \u201cOlhar eletr\u00f4nico\u201d. Waly projetava-se, instant\u00e2neo, com a sua acelera\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica: a poesia do futuro come\u00e7a com o sentir-se em casa no mundo eletr\u00f4nico; a morada do ser poeta \u00e9 o mundo eletr\u00f4nico, hoje. Ao que Leminski, num golpe anacr\u00f4nico, replicava um slogan: a poesia do futuro pode estar em Homero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Waly Salom\u00e3o ainda formularia, de forma emblem\u00e1tica, num poema, o que estou tentando descrever. Em \u201cRemix \u2018S\u00e9culo Vinte\u2019\u201d, que encerra o livro <em>Tarifa de Embarque<\/em>, de 2000, lemos a ironia que rege um invent\u00e1rio an\u00e1rquico de signos e assim funciona, ao mesmo tempo, como exposi\u00e7\u00e3o e reivindica\u00e7\u00e3o da est\u00e9tica do fragmento:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cArmar um tabuleiro<br>                             de <em>Palavras-Souvenirs<\/em>.<br>Apanhe e leve algumas palavras como<br><em>souvenirs<\/em>.<br>Fa\u00e7a voc\u00ea mesmo seu microtabuleiro<br>enquanto jogo lingu\u00edstico\u201d.<sup data-fn=\"d516bb3c-8d30-476d-84c4-7e4a9d91d3f3\" class=\"fn\"><a href=\"#d516bb3c-8d30-476d-84c4-7e4a9d91d3f3\" id=\"d516bb3c-8d30-476d-84c4-7e4a9d91d3f3-link\">16<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No poema de Waly, a lista das <em>palavras-souvenirs<\/em> j\u00e1 re\u00fane \u201ccibern\u00e9tica\u201d, \u201ccelular\u201d, \u201cantiv\u00edrus\u201d, \u201cinternet\u201d, \u201cpegpag\u201d e \u201cbiochip\u201d, para terminar com um enorme \u201cFIM\u201d. Ora, n\u00e3o \u00e9 preciso alongar o coment\u00e1rio para vermos que, em muitos aspectos, os modelos cr\u00edticos elaborados por autores como Barthes, Foucault ou Deleuze tiveram grande rendimento, mas encontraram sua realiza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica mais bem-acabada nos protocolos lingu\u00edsticos desenvolvidos por Bill Gates para o acesso inform\u00e1tico, comercializados j\u00e1 no come\u00e7o dos anos 1990.<sup data-fn=\"f4f8bd3d-def4-4d91-9a6b-c93ae31f233e\" class=\"fn\"><a href=\"#f4f8bd3d-def4-4d91-9a6b-c93ae31f233e\" id=\"f4f8bd3d-def4-4d91-9a6b-c93ae31f233e-link\">17<\/a><\/sup> E nesse mesmo sentido poder\u00edamos pensar que n\u00e3o envelheceu muito bem a proposta da <em>rapidez <\/em>liter\u00e1ria, endere\u00e7ada por Italo Calvino para o nosso mil\u00eanio: \u201cimagino imensas cosmologias, sagas, epopeias encerradas nas dimens\u00f5es de um epigrama\u201d, escreveu o autor em 1985. \u201cNos tempos cada vez mais congestionados que nos esperam, a necessidade de literatura dever\u00e1 focalizar-se na m\u00e1xima concentra\u00e7\u00e3o da poesia e do pensamento. Borges e Bioy Casares organizaram uma antologia de <em>Hist\u00f3rias breves e extraordin\u00e1rias. <\/em>De minha parte, gostaria de organizar uma cole\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias de uma s\u00f3 frase, ou de uma linha apenas, se poss\u00edvel\u201d.<sup data-fn=\"8c39d948-71c5-4bbd-b5c1-c550522fb7fd\" class=\"fn\"><a href=\"#8c39d948-71c5-4bbd-b5c1-c550522fb7fd\" id=\"8c39d948-71c5-4bbd-b5c1-c550522fb7fd-link\">18<\/a><\/sup> Enfim, para a nossa infelicidade, n\u00e3o foram os poetas-profetas, mas os desenvolvedores do Twitter, hoje propriedade de Elon Musk, que melhor compreenderam o alcance da concis\u00e3o lingu\u00edstica e dos jogos armados nos microtabuleiros individuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Franco Berardi nos lembra que o \u201csalto tecnol\u00f3gico do capitalismo foi poss\u00edvel por dois fatores: a desregulamenta\u00e7\u00e3o da economia e a constru\u00e7\u00e3o da internet\u201d. \u201cA viola\u00e7\u00e3o das regras\u201d, no entanto, \u201cfoi uma a\u00e7\u00e3o antecipada pelas vanguardas. Violar as regras que aprisionam o mundo no passado para que o futuro possa se libertar\u201d.<sup data-fn=\"608cabc6-f2ea-4adb-b462-fe9f49b25636\" class=\"fn\"><a href=\"#608cabc6-f2ea-4adb-b462-fe9f49b25636\" id=\"608cabc6-f2ea-4adb-b462-fe9f49b25636-link\">19<\/a><\/sup> \u00c9 dessa palavra de ordem \u2013 <em>desregulamenta\u00e7\u00e3o<\/em> \u2013 que se vale o capitalismo neoliberal, desde os anos 1970, para desvincular as grandezas e as for\u00e7as produtivas, inaugurando um regime de flutua\u00e7\u00e3o e aleatoriedade dos valores.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cTodo o sistema precipita-se na indetermina\u00e7\u00e3o a partir do momento em que a correspond\u00eancia entre signo e referente, entre a simula\u00e7\u00e3o e um evento, entre o valor e o tempo de trabalho n\u00e3o \u00e9 mais garantida. A crise do referente abala, ao mesmo tempo, as perspectivas da teoria semiol\u00f3gica e as da teoria econ\u00f4mica. O signo n\u00e3o encontra mais seu fundamento na garantia objetiva de um referente, mas na arquitetura relacional do contexto. O paradigma referencial se desintegra porque os signos se revelam simula\u00e7\u00f5es sem rela\u00e7\u00e3o com nenhum prot\u00f3tipo; s\u00e3o jogos de signos sem nenhum fundamento ontol\u00f3gico.\u201d<sup data-fn=\"4cf60b15-9c8e-457f-8af4-3f70a2ace334\" class=\"fn\"><a href=\"#4cf60b15-9c8e-457f-8af4-3f70a2ace334\" id=\"4cf60b15-9c8e-457f-8af4-3f70a2ace334-link\">20<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como vimos, o programa das vanguardas e das neovanguardas tamb\u00e9m passava por essa ruptura entre signo e referente. Obviamente isso n\u00e3o significa, como frisa Berardi, que \u201cest\u00e1 na vanguarda a origem da desregulamenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica liberal\u201d. Mas, sim, que a \u201cutopia anarquista da vanguarda se realiza e se transforma em seu contr\u00e1rio quando a sociedade internaliza a regra em formas tecnol\u00f3gicas. Nesse ponto, o capital pode renunciar \u00e0 regra jur\u00eddica, \u00e0 racionalidade pol\u00edtica e se deixar conduzir pela aparente anarquia dos automatismos internalizados da biopol\u00edtica, da psicomunica\u00e7\u00e3o, da neuroprograma\u00e7\u00e3o. \u00c9 a forma do poder que vem a seguir\u201d. \u00c9 quando o futuro se transforma em amea\u00e7a, diz Berardi, e \u201ca imagina\u00e7\u00e3o coletiva se torna incapaz de ver possibilidades alternativas para a devasta\u00e7\u00e3o, a mis\u00e9ria e a viol\u00eancia\u201d. \u00c9 quando os automatismos tecnoecon\u00f4micos capturam a pol\u00edtica e paralisam a vontade.<sup data-fn=\"23e813be-e81b-4ff8-80d6-7582a813109d\" class=\"fn\"><a href=\"#23e813be-e81b-4ff8-80d6-7582a813109d\" id=\"23e813be-e81b-4ff8-80d6-7582a813109d-link\">21<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse esgotamento foi formulado por Waly, que escreveu que o \u201cT\u00e9rmino de leitura\/ de um livro de poemas\/ n\u00e3o pode ser o <em>ponto final<\/em>.\/\/ Tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser\/ a pacatez burguesa do\/ <em>ponto seguimento<\/em>\u201d. A \u201cmeta desej\u00e1vel\u201d, para Waly, era \u201calcan\u00e7ar o\/ <em>ponto de ebuli\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d.<sup data-fn=\"75474b51-2214-4eb6-a43b-7ce1585622ac\" class=\"fn\"><a href=\"#75474b51-2214-4eb6-a43b-7ce1585622ac\" id=\"75474b51-2214-4eb6-a43b-7ce1585622ac-link\">22<\/a><\/sup> Leminski, por sua vez, almejava o \u201cinestim\u00e1vel inutens\u00edlio\u201d; o \u201clucro da poesia\u201d que \u201c\u00e9 o surgimento de novos objetos no mundo. Objetos que signifiquem a capacidade da gente de produzir novos mundos\u201d. Ou seja, ele pensava em uma \u201cpol\u00edtica profunda, que \u00e9 cr\u00edtica da pr\u00f3pria pol\u00edtica, enquanto modo limitado de ver a vida\u201d.<sup data-fn=\"2eb51242-923b-4353-9a08-8b9154e150aa\" class=\"fn\"><a href=\"#2eb51242-923b-4353-9a08-8b9154e150aa\" id=\"2eb51242-923b-4353-9a08-8b9154e150aa-link\">23<\/a><\/sup> Diante do esgotamento, do enorme FIM que vivemos, a poesia ainda ecoa sua demanda: ela pede desvelamento, nova abertura do futuro, uma passagem para o que se mostra, hoje, quase imposs\u00edvel.<sup data-fn=\"ea5c7f7c-0efe-4786-9e27-84cdb73b972d\" class=\"fn\"><a href=\"#ea5c7f7c-0efe-4786-9e27-84cdb73b972d\" id=\"ea5c7f7c-0efe-4786-9e27-84cdb73b972d-link\">24<\/a><\/sup> Pergunto se veremos esse dia. Se, enfim, haver\u00e1 tempo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"2c7cfca5-8c72-4cfe-b167-44874fbab571\">Professor de Teoria Liter\u00e1ria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico \u2013 CNPq. <a href=\"#2c7cfca5-8c72-4cfe-b167-44874fbab571-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"182c1ff7-f9d1-45c8-904e-3c863c640515\">Texto apresentado no semin\u00e1rio \u201cPoesia \u2013 h\u00e1 futuro? Express\u00e3o, \u00e9tica, subjetividade\u201d, organizado pelo N\u00facleo de Estudos Liter\u00e1rios &amp; Culturais (NELIC), na Universidade Federal de Santa Catarina, em setembro de 2025. Informa\u00e7\u00f5es <a href=\"https:\/\/seminarionelic.blogspot.com\/\">aqui<\/a>. <a href=\"#182c1ff7-f9d1-45c8-904e-3c863c640515-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"d34bd0f6-9960-4828-b04b-9c19bfeec92d\">Cf. Plat\u00e3o. <em>Di\u00e1logos: O Banquete, F\u00e9don, Sofista, Pol\u00edtico<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Jos\u00e9 Cavalcante de Souza. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1972,p. 43 [205 c]. Trata-se, em <em>O Banquete<\/em>, da passagem em que S\u00f3crates recorda os questionamentos de Diotima sobre os limites e a especificidade da poesia como arte da m\u00fasica e da versifica\u00e7\u00e3o, em paralelo \u00e0 discuss\u00e3o central sobre o amor e as formas de amar. <a href=\"#d34bd0f6-9960-4828-b04b-9c19bfeec92d-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"f68857de-7cb7-4c29-87f7-f24025580455\">Nesse sentido \u2013 e deixando de lado aqui a quest\u00e3o crucial do saber plat\u00f4nico que \u00e9 a distin\u00e7\u00e3o entre a verdade e a falsidade \u2013, poder\u00edamos dizer que nenhuma t\u00e9cnica seria mais po\u00e9tica do que a mai\u00eautica, sendo o pr\u00f3prio S\u00f3crates, o \u201cparteiro das ideias\u201d, um ex\u00edmio poeta. Cf. Plat\u00e3o. <em>Teeteto<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Adriana Manuela Nogueira e Marcelo Boeri. 4 ed. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 2015. <a href=\"#f68857de-7cb7-4c29-87f7-f24025580455-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 4 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"8820e9d7-71ea-4485-97a3-528169e36cad\">Friedrich Schlegel. <em>O dialeto dos fragmentos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: M\u00e1rcio Suzuki. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, p. 64. Trata-se do c\u00e9lebre \u201cfrag. 116\u201d, publicado na revista <em>Athen\u00e4um<\/em>. <a href=\"#8820e9d7-71ea-4485-97a3-528169e36cad-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 5 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"33b8588b-85b6-4b96-bab5-9853d80ca9bb\">Octavio Paz. <em>O arco e a lira<\/em> [1955]. Tradu\u00e7\u00e3o: Ari Roitman e Paulina Wacht. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify; Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, 2012, p. 21. <a href=\"#33b8588b-85b6-4b96-bab5-9853d80ca9bb-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 6 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"4e08b91a-0b25-4913-933c-521691ad3fdd\">\u201cO poeta p\u00f5e sua mat\u00e9ria em liberdade\u201d, escreve o mesmo Paz, no sentido de o poema ser a reconquista da natureza origin\u00e1ria da linguagem, radicalmente significante e plural. <em>Idem<\/em>, p. 30. <a href=\"#4e08b91a-0b25-4913-933c-521691ad3fdd-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 7 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"7689c70e-68ea-42f6-acb1-c7e96a3278a7\">Franco Berardi. <em>Despois do futuro<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Regina Silva. S\u00e3o Paulo: Ubu, 2019, p. 21. <a href=\"#7689c70e-68ea-42f6-acb1-c7e96a3278a7-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 8 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"77243b04-2138-4eb6-aac4-70f3b2ef6187\">Cf. Michel L\u00f6wy. <em>Walter Benjamin: aviso de inc\u00eandio<\/em>. Uma leitura das teses \u201cSobre o conceito de hist\u00f3ria\u201d. Tradu\u00e7\u00e3o: Wanda Nogueira Caldeira Brant. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2005. <a href=\"#77243b04-2138-4eb6-aac4-70f3b2ef6187-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 9 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"296cdca8-57df-4235-ab15-8fcaf2f25b0b\">Franco Berardi, <em>op. cit.<\/em>, p. 94. <a href=\"#296cdca8-57df-4235-ab15-8fcaf2f25b0b-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 10 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"896875b5-82ec-44dc-a772-6952584189c5\">Sobre esse aspecto perform\u00e1tico dos poetas marginais, Bosi j\u00e1 anotava: \u201cComo atitude de desafogo, mais do que como realiza\u00e7\u00e3o formal convincente, a nova po\u00e9tica exprime-se na l\u00edrica dita \u2018marginal\u2019, abertamente an\u00e1rquica, sat\u00edrica, par\u00f3dica, de cad\u00eancias coloquiais e, s\u00f3 aparentemente, antiliter\u00e1rias\u201d. Alfredo Bosi. <em>Hist\u00f3ria concisa da literatura brasileira<\/em>. 49 ed. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 2011, p. 487. <a href=\"#896875b5-82ec-44dc-a772-6952584189c5-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 11 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"d61d974f-8e4e-478b-973e-c2111013622a\"><em>Idem<\/em>, p. 488. <a href=\"#d61d974f-8e4e-478b-973e-c2111013622a-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 12 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e672aece-e69c-4c4c-a1a3-65844ec27ebb\">Helo\u00edsa Buarque de Holanda. <em>Impress\u00f5es de viagem<\/em>: CPC, vanguarda e desbunde (1960\/70). 2 ed. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1981, p. 100. <a href=\"#e672aece-e69c-4c4c-a1a3-65844ec27ebb-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 13 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"4b0213f0-19ed-4400-bbc0-31bb711f47d4\">Frase atribu\u00edda a Fredric Jameson e Slavoj \u017di\u017eek, obviamente em contexto de cr\u00edtica ao p\u00f3s-modernismo. Mark Fisher, ao comentar essa frase em 2009, afirmou que ela traduzia precisamente o que ele entendia por \u201crealismo capitalista\u201d, ou seja, \u201co sentimento disseminado de que o capitalismo \u00e9 o \u00fanico sistema pol\u00edtico e econ\u00f4mico vi\u00e1vel, sendo imposs\u00edvel imaginar uma alternativa a ele\u201d. Mark Fisher. <em>Realismo capitalista<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Rodrigo Gonsalves, Jorge Adeodato, Maikel da Silveira. S\u00e3o Paulo: Autonomia Liter\u00e1ria, 2023, p. 10. <a href=\"#4b0213f0-19ed-4400-bbc0-31bb711f47d4-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 14 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"15b7caae-1603-419f-a763-134fced7abed\">Fredric Jameson mostrou a especularidade entre o funcionamento do mercado financeiro e o que ocorre na arte contempor\u00e2nea. Em ambos os casos est\u00e3o em jogo heterogeneidades que seguem a mesma l\u00f3gica das abstra\u00e7\u00f5es informacionais. Nesse sentido, instala\u00e7\u00f5es e <em>flashmobs<\/em>, por exemplo, n\u00e3o seriam mais da ordem dos objetos, mas sim dos acontecimentos: singularidades que operam, a cada vez, com seus arranjos \u00fanicos, num espa\u00e7o espec\u00edfico e apenas no presente, sem postular padr\u00f5es ou rela\u00e7\u00f5es de continuidade com o passado e o futuro. O mesmo vale para certos instrumentos operados pelo mercado financeiro na era da globaliza\u00e7\u00e3o, como o <em>capital fict\u00edcio<\/em> e os <em>derivados<\/em>: como um <em>site specific<\/em>, uma ocupa\u00e7\u00e3o, uma performance etc., tais instrumentos s\u00e3o arranjos comerciais absolutamente peculiares, complexos e especulativos; em seu car\u00e1ter indecid\u00edvel (ficcional e real) condizem mais com o acontecimento \u00fanico e ef\u00eamero do que com uma estrutura est\u00e1vel, pass\u00edvel de previs\u00e3o e regula\u00e7\u00e3o. Esses dispositivos financeiros, sem verdadeiro lastro material, seriam como um paradigma da <em>heterogeneidade<\/em>, termo afinal car\u00edssimo para a pol\u00edtica, a teoria e a arte contempor\u00e2neas. Hoje, portanto, a pot\u00eancia fabulat\u00f3ria (da arte, da teoria) \u00e9 confrontada com a sua pr\u00f3pria impot\u00eancia diante de um mundo em que o \u201cpens\u00e1vel\u201d \u00e9 mais uma das moedas correntes, uma das mais fortes, ali\u00e1s. Cf. Fredric Jameson. <a href=\"https:\/\/newleftreview.es\/issues\/92\/\">La est\u00e9tica de la singularidad<\/a>. <em>New Left Review<\/em>, p. 109-141, maio-junho. 2015. <a href=\"#15b7caae-1603-419f-a763-134fced7abed-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 15 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"d516bb3c-8d30-476d-84c4-7e4a9d91d3f3\">Waly Salom\u00e3o. <em>Tarifa de embarque<\/em>. Rio de Janeiro: Rocco, 2000, p. 68. <a href=\"#d516bb3c-8d30-476d-84c4-7e4a9d91d3f3-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 16 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"f4f8bd3d-def4-4d91-9a6b-c93ae31f233e\">Franco Berardi, <em>op. cit.<\/em>, p. 116-121. <a href=\"#f4f8bd3d-def4-4d91-9a6b-c93ae31f233e-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 17 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"8c39d948-71c5-4bbd-b5c1-c550522fb7fd\">Italo Calvino. <em>Seis propostas para o pr\u00f3ximo mil\u00eanio<\/em>: li\u00e7\u00f5es americanas. Tradu\u00e7\u00e3o: Ivo Barroso. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 63-64. <a href=\"#8c39d948-71c5-4bbd-b5c1-c550522fb7fd-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 18 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"608cabc6-f2ea-4adb-b462-fe9f49b25636\">Franco Berardi, <em>op. cit<\/em>., p. 103. <a href=\"#608cabc6-f2ea-4adb-b462-fe9f49b25636-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 19 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"4cf60b15-9c8e-457f-8af4-3f70a2ace334\"><em>Idem<\/em>, p. 105. <a href=\"#4cf60b15-9c8e-457f-8af4-3f70a2ace334-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 20 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"23e813be-e81b-4ff8-80d6-7582a813109d\"><em>Idem<\/em>, p. 106-107. <a href=\"#23e813be-e81b-4ff8-80d6-7582a813109d-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 21 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"75474b51-2214-4eb6-a43b-7ce1585622ac\">Waly Salom\u00e3o, <em>op. cit.<\/em>, p. 46. <a href=\"#75474b51-2214-4eb6-a43b-7ce1585622ac-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 22 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"2eb51242-923b-4353-9a08-8b9154e150aa\">Paulo Leminski. <em>Ensaios e anseios cr\u00edpticos<\/em>. Campinas: Unicamp, 2011,p. 87. <a href=\"#2eb51242-923b-4353-9a08-8b9154e150aa-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 23 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"ea5c7f7c-0efe-4786-9e27-84cdb73b972d\">Em outras palavras, n\u00e3o se trata de afirmar, mais uma vez, a prolifera\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as, que se espraiariam como uma virtual cadeia de significantes (um <em>texto<\/em>), sem centro epotencialmente sem fim. Ao contr\u00e1rio dessa livre concorr\u00eancia de heterogeneidades, o imposs\u00edvel do capitalismo \u2013 isto \u00e9, aquilo que n\u00e3o pode ser tolerado em seus marcos, onde se desdobra o espet\u00e1culo da democracia \u2013 reside na afirma\u00e7\u00e3o mais radical da <em>igualdade<\/em>. Cf. Alain Badiou. <em>Em busca do real perdido<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2017, p. 35. <a href=\"#ea5c7f7c-0efe-4786-9e27-84cdb73b972d-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 24 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 14 \u2013 janeiro de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um contexto em que o capitalismo e o mundo d\u00e3o sinais de esgotamento e o futuro se anuncia como incerto, qual o lugar da poesia? <\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":1233,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Professor de Teoria Liter\u00e1ria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico \u2013 CNPq.\",\"id\":\"2c7cfca5-8c72-4cfe-b167-44874fbab571\"},{\"content\":\"Texto apresentado no semin\u00e1rio \u201cPoesia \u2013 h\u00e1 futuro? Express\u00e3o, \u00e9tica, subjetividade\u201d, organizado pelo N\u00facleo de Estudos Liter\u00e1rios &amp; Culturais (NELIC), na Universidade Federal de Santa Catarina, em setembro de 2025. Informa\u00e7\u00f5es <a href=\\\"https:\/\/seminarionelic.blogspot.com\/\\\">aqui<\/a>.\",\"id\":\"182c1ff7-f9d1-45c8-904e-3c863c640515\"},{\"content\":\"Cf. Plat\u00e3o. <em>Di\u00e1logos: O Banquete, F\u00e9don, Sofista, Pol\u00edtico<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Jos\u00e9 Cavalcante de Souza. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1972,p. 43 [205 c]. Trata-se, em <em>O Banquete<\/em>, da passagem em que S\u00f3crates recorda os questionamentos de Diotima sobre os limites e a especificidade da poesia como arte da m\u00fasica e da versifica\u00e7\u00e3o, em paralelo \u00e0 discuss\u00e3o central sobre o amor e as formas de amar.\",\"id\":\"d34bd0f6-9960-4828-b04b-9c19bfeec92d\"},{\"content\":\"Nesse sentido \u2013 e deixando de lado aqui a quest\u00e3o crucial do saber plat\u00f4nico que \u00e9 a distin\u00e7\u00e3o entre a verdade e a falsidade \u2013, poder\u00edamos dizer que nenhuma t\u00e9cnica seria mais po\u00e9tica do que a mai\u00eautica, sendo o pr\u00f3prio S\u00f3crates, o \u201cparteiro das ideias\u201d, um ex\u00edmio poeta. Cf. Plat\u00e3o. <em>Teeteto<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Adriana Manuela Nogueira e Marcelo Boeri. 4 ed. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 2015.\",\"id\":\"f68857de-7cb7-4c29-87f7-f24025580455\"},{\"content\":\"Friedrich Schlegel. <em>O dialeto dos fragmentos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: M\u00e1rcio Suzuki. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, p. 64. Trata-se do c\u00e9lebre \u201cfrag. 116\u201d, publicado na revista <em>Athen\u00e4um<\/em>.\",\"id\":\"8820e9d7-71ea-4485-97a3-528169e36cad\"},{\"content\":\"Octavio Paz. <em>O arco e a lira<\/em> [1955]. Tradu\u00e7\u00e3o: Ari Roitman e Paulina Wacht. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify; Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, 2012, p. 21.\",\"id\":\"33b8588b-85b6-4b96-bab5-9853d80ca9bb\"},{\"content\":\"\u201cO poeta p\u00f5e sua mat\u00e9ria em liberdade\u201d, escreve o mesmo Paz, no sentido de o poema ser a reconquista da natureza origin\u00e1ria da linguagem, radicalmente significante e plural. <em>Idem<\/em>, p. 30.\",\"id\":\"4e08b91a-0b25-4913-933c-521691ad3fdd\"},{\"content\":\"Franco Berardi. <em>Despois do futuro<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Regina Silva. S\u00e3o Paulo: Ubu, 2019, p. 21.\",\"id\":\"7689c70e-68ea-42f6-acb1-c7e96a3278a7\"},{\"content\":\"Cf. Michel L\u00f6wy. <em>Walter Benjamin: aviso de inc\u00eandio<\/em>. Uma leitura das teses \u201cSobre o conceito de hist\u00f3ria\u201d. Tradu\u00e7\u00e3o: Wanda Nogueira Caldeira Brant. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2005.\",\"id\":\"77243b04-2138-4eb6-aac4-70f3b2ef6187\"},{\"content\":\"Franco Berardi, <em>op. cit.<\/em>, p. 94.\",\"id\":\"296cdca8-57df-4235-ab15-8fcaf2f25b0b\"},{\"content\":\"Sobre esse aspecto perform\u00e1tico dos poetas marginais, Bosi j\u00e1 anotava: \u201cComo atitude de desafogo, mais do que como realiza\u00e7\u00e3o formal convincente, a nova po\u00e9tica exprime-se na l\u00edrica dita \u2018marginal\u2019, abertamente an\u00e1rquica, sat\u00edrica, par\u00f3dica, de cad\u00eancias coloquiais e, s\u00f3 aparentemente, antiliter\u00e1rias\u201d. Alfredo Bosi. <em>Hist\u00f3ria concisa da literatura brasileira<\/em>. 49 ed. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 2011, p. 487.\",\"id\":\"896875b5-82ec-44dc-a772-6952584189c5\"},{\"content\":\"<em>Idem<\/em>, p. 488.\",\"id\":\"d61d974f-8e4e-478b-973e-c2111013622a\"},{\"content\":\"Helo\u00edsa Buarque de Holanda. <em>Impress\u00f5es de viagem<\/em>: CPC, vanguarda e desbunde (1960\/70). 2 ed. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1981, p. 100.\",\"id\":\"e672aece-e69c-4c4c-a1a3-65844ec27ebb\"},{\"content\":\"Frase atribu\u00edda a Fredric Jameson e Slavoj \u017di\u017eek, obviamente em contexto de cr\u00edtica ao p\u00f3s-modernismo. Mark Fisher, ao comentar essa frase em 2009, afirmou que ela traduzia precisamente o que ele entendia por \u201crealismo capitalista\u201d, ou seja, \u201co sentimento disseminado de que o capitalismo \u00e9 o \u00fanico sistema pol\u00edtico e econ\u00f4mico vi\u00e1vel, sendo imposs\u00edvel imaginar uma alternativa a ele\u201d. Mark Fisher. <em>Realismo capitalista<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Rodrigo Gonsalves, Jorge Adeodato, Maikel da Silveira. 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O mesmo vale para certos instrumentos operados pelo mercado financeiro na era da globaliza\u00e7\u00e3o, como o <em>capital fict\u00edcio<\/em> e os <em>derivados<\/em>: como um <em>site specific<\/em>, uma ocupa\u00e7\u00e3o, uma performance etc., tais instrumentos s\u00e3o arranjos comerciais absolutamente peculiares, complexos e especulativos; em seu car\u00e1ter indecid\u00edvel (ficcional e real) condizem mais com o acontecimento \u00fanico e ef\u00eamero do que com uma estrutura est\u00e1vel, pass\u00edvel de previs\u00e3o e regula\u00e7\u00e3o. Esses dispositivos financeiros, sem verdadeiro lastro material, seriam como um paradigma da <em>heterogeneidade<\/em>, termo afinal car\u00edssimo para a pol\u00edtica, a teoria e a arte contempor\u00e2neas. 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