{"id":1234,"date":"2026-01-09T18:14:37","date_gmt":"2026-01-09T21:14:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1234"},"modified":"2026-02-11T19:22:25","modified_gmt":"2026-02-11T22:22:25","slug":"aliancas-com-o-ruido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/01\/09\/aliancas-com-o-ruido\/","title":{"rendered":"\u00c9 Poss\u00edvel Estabelecer Alian\u00e7as com o Ru\u00eddo no Antropoceno?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Augusto Cereza Schu<sup data-fn=\"eba77eef-ec90-4ef0-b308-953fc665d024\" class=\"fn\"><a href=\"#eba77eef-ec90-4ef0-b308-953fc665d024\" id=\"eba77eef-ec90-4ef0-b308-953fc665d024-link\">1<\/a><\/sup><br>Marcelo Bergamin Conter<sup data-fn=\"05741beb-775f-41e8-b80d-b265f638358f\" class=\"fn\"><a href=\"#05741beb-775f-41e8-b80d-b265f638358f\" id=\"05741beb-775f-41e8-b80d-b265f638358f-link\">2<\/a><\/sup><br>Gabriel Ximendes Ortega<sup data-fn=\"902adf9e-4c65-4f27-91bb-eb1c4428cc4f\" class=\"fn\"><a href=\"#902adf9e-4c65-4f27-91bb-eb1c4428cc4f\" id=\"902adf9e-4c65-4f27-91bb-eb1c4428cc4f-link\">3<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este ensaio toma como ponto de partida a mesma pergunta que norteia o site em que est\u00e1 hospedado: \u201c\u00c9 poss\u00edvel sentir o Antropoceno?\u201d. Essa quest\u00e3o se aproxima do desafio que colocamos para a nossa pesquisa, \u201cSonoridades do Antropoceno\u201d. Na hist\u00f3ria da m\u00fasica pop, temos ciclos de preocupa\u00e7\u00e3o com o meio ambiente ou com as crises que o capitalismo proporciona. Exemplos n\u00e3o faltam, mas se f\u00f4ssemos cit\u00e1-los aqui, logo notar\u00edamos que essa preocupa\u00e7\u00e3o se expressa nas letras das m\u00fasicas ou em falas dos artistas em entrevistas ou discursos no palco (<a href=\"https:\/\/forskning.ruc.dk\/da\/publications\/music-and-the-climate-crisis\">Fabian <\/a><a href=\"https:\/\/forskning.ruc.dk\/da\/publications\/music-and-the-climate-crisis\">Holt<\/a> escreveu sobre este tema \u2013 h\u00e1 tamb\u00e9m este de <a href=\"https:\/\/hal.science\/hal-02542685\/document\">Fran\u00e7ois Ribac e Paul Karkins<\/a>). Tamb\u00e9m pode ser por outros procedimentos, como <a href=\"https:\/\/pitchfork.com\/news\/massive-attack-say-they-turned-down-coachella-due-to-festivals-environmental-impact\/\">se recusar a tocar em um festival<\/a> por causa do <a href=\"https:\/\/pitchfork.com\/news\/massive-attack-say-they-turned-down-coachella-due-to-festivals-environmental-impact\/\">impacto <\/a><a href=\"https:\/\/pitchfork.com\/news\/massive-attack-say-they-turned-down-coachella-due-to-festivals-environmental-impact\/\">ambiental<\/a>. Mas e quanto \u00e0 sonoridade? Seria poss\u00edvel expressar algo sobre o Antropoceno por meio da dimens\u00e3o s\u00f4nica ou ser\u00e1 que estamos fadados a traduzir a experi\u00eancia de viver no Antropoceno apenas por meio do simb\u00f3lico, isto \u00e9, das letras e de discursos politizados dos m\u00fasicos quando entrevistados?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltados para uma tentativa de compreens\u00e3o da pot\u00eancia da m\u00fasica de expressar o estar e o sentir no Antropoceno por meio de sua materialidade \u00e9 que partimos para uma investiga\u00e7\u00e3o ancorada na dimens\u00e3o afetiva e semi\u00f3tica das sonoridades do Antropoceno na m\u00fasica pop. Como apresentaremos a seguir, uma investiga\u00e7\u00e3o inicial nos levou a um percurso err\u00e1tico de redirecionamentos, nos provocando a revisar as teorias can\u00f4nicas sobre o ru\u00eddo no s\u00e9culo XX para, enfim, pensar sobre como algumas express\u00f5es musicais contempor\u00e2neas t\u00eam arranjado novos modos de perceber e traduzir o ambiente sonoro de um planeta danificado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Deriva: na busca de um objeto de estudo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nosso projeto piloto para iniciar as an\u00e1lises partiu de algo bastante simpl\u00f3rio, mas que nos rendeu um mapeamento curioso. Entramos no Spotify e buscamos pelo termo \u201cAntropoceno\u201d e suas variantes em ingl\u00eas, franc\u00eas, espanhol e italiano como t\u00edtulo de m\u00fasica, o que nos rendeu 180 faixas que catalogamos em uma <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/playlist\/49CRfMP7DSMNtwZaa7RWav?si=e833a4f8673f47d8\">playlist<\/a>. N\u00f3s quer\u00edamos observar o que ocorre em m\u00fasicas que citam nominalmente esta suposta \u00e9poca geol\u00f3gica. Ao ouvir o material, reconhecemos que a maior parte das m\u00fasicas continham letras que estavam mais para algo literal do que po\u00e9tico \u2013&nbsp;ou seja, os artistas pareciam estar mais interessados em informar o Antropoceno, usando suas can\u00e7\u00f5es como canal de transmiss\u00e3o, do que traduzir a experi\u00eancia de viver nele. Algumas letras evocam uma ideia de \u201cnatureza buc\u00f3lica\u201d que foi invadida pela civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, no que diz respeito \u00e0s sonoridades, as m\u00fasicas n\u00e3o efetuam nenhum tipo de desafio em termos de estrutura e de experimenta\u00e7\u00e3o: ou eram uma t\u00edpica m\u00fasica de heavy metal, ou uma t\u00edpica m\u00fasica de pop rock, ou uma t\u00edpica m\u00fasica de hip hop, e assim por diante. O uso de certos instrumentos nos parece remeter ao bin\u00e1rio natureza e cultura: o ru\u00eddo representando a cidade, a ind\u00fastria, a paisagem sonora polu\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ora, o Antropoceno, como um conceito potente para o campo das humanidades, se afasta das dicotomias modernas e projeta outras epistemologias, num esfor\u00e7o por tirar os humanos do centro das narrativas. Na playlist, parece existir uma dificuldade em lidar com o Antropoceno enquanto e al\u00e9m de uma era com mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que decorrem n\u00e3o s\u00f3 das a\u00e7\u00f5es de (certos) humanos, mas um termo que representa uma nova l\u00f3gica afetiva para aprender a viver em um planeta danificado.<sup data-fn=\"2cc23d59-0e79-4554-afe1-8a8d8df1b761\" class=\"fn\"><a href=\"#2cc23d59-0e79-4554-afe1-8a8d8df1b761\" id=\"2cc23d59-0e79-4554-afe1-8a8d8df1b761-link\">4<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bem, nenhuma cr\u00edtica a\u00ed, diga-se de passagem, afinal n\u00e3o \u00e9 tarefa da m\u00fasica pop fazer o que compete \u00e0 Academia. Apenas uma constata\u00e7\u00e3o que, para nossa pesquisa, \u00e9 preciso vasculhar outras partes deste <em>corpus<\/em> que \u00e9 a playlist. Afinal, tamb\u00e9m encontramos ali sete pe\u00e7as instrumentais<sup data-fn=\"229cafdf-c734-4c6a-97eb-78946731b323\" class=\"fn\"><a href=\"#229cafdf-c734-4c6a-97eb-78946731b323\" id=\"229cafdf-c734-4c6a-97eb-78946731b323-link\">5<\/a><\/sup> com elementos sonoros que variam entre o dark ambient, noise e experimental e que nos instigaram a analis\u00e1-las enquanto resultado de um sintoma, de um conjunto de formas conflitantes de observar o mundo. Estes g\u00eaneros musicais est\u00e3o sempre no limiar do que pode ou n\u00e3o ser considerado m\u00fasica, dependendo da perspectiva cultural adotada, assim como podem ou n\u00e3o serem considerados ruidosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao ouvirmos atentamente essas m\u00fasicas, ficamos com a impress\u00e3o inicial de que o \u201cru\u00eddo\u201d \u2013 sons aperi\u00f3dicos, sons enarm\u00f4nicos, sons n\u00e3o-mel\u00f3dicos e assim por diante \u2013&nbsp;contido nelas parece se manifestar a partir de um pressuposto moderno que separa natureza de cultura, sil\u00eancio de ru\u00eddo, pureza de sujeira: inspirados em Marie Thompson,<sup data-fn=\"2eaec940-5f8d-41fb-9e60-1f9d614d1a41\" class=\"fn\"><a href=\"#2eaec940-5f8d-41fb-9e60-1f9d614d1a41\" id=\"2eaec940-5f8d-41fb-9e60-1f9d614d1a41-link\">6<\/a><\/sup> entendemos que, ao inv\u00e9s de trabalhar em uma l\u00f3gica que pensa nas pot\u00eancias e nas possibilidades que o ru\u00eddo pode adicionar, as m\u00fasicas se mostram muito mais interessadas em usar esses tons e timbres ruidosos com um car\u00e1ter negativo e\/ou como se o som dos instrumentos ac\u00fasticos fosse naturalmente melhor, o que implica uma moraliza\u00e7\u00e3o dos ru\u00eddos. Parece que se manifesta no som a epistemologia triunfante nos discursos ocidentais \u2013&nbsp;ainda que n\u00e3o fique claro (por se tratar de pe\u00e7as instrumentais) se h\u00e1 um ju\u00edzo de valor quanto ao ru\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois bem: os sons que ouvimos s\u00e3o uma cr\u00edtica ou um elogio \u00e0s paisagens sonoras contempor\u00e2neas? Ou ser\u00e1 que se trata de tradu\u00e7\u00f5es de um \u201csentir o Antropoceno\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto nos fez levar a pesquisa a um outro caminho, que \u00e9 o de voltar \u00e0 reflex\u00e3o te\u00f3rica e repensar o ru\u00eddo e seu protagonismo na hist\u00f3ria da m\u00fasica moderna e contempor\u00e2nea, revisando e depois desconstruindo sua hist\u00f3ria triunfalista, que est\u00e1 relacionada \u00e0 misoginia, \u00e0 apologia \u00e0s m\u00e1quinas poluentes e de guerra e \u00e0 masculinidade t\u00f3xica. \u00c9 preciso reconhecer uma hist\u00f3ria menor do ru\u00eddo, aquela que \u00e9 tamb\u00e9m feita por pessoas que n\u00e3o s\u00e3o do sexo masculino, bem como n\u00e3o necessariamente estar\u00e1 relacionada a um preju\u00edzo para os mundos e seres que coabitam o planeta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A playlist que elaboramos, assim, perde valor de investiga\u00e7\u00e3o na mesma medida em que nos abriu caminhos mais interessantes para seguir, para procurar, em outros fen\u00f4menos musicais, uma \u201cest\u00e9tica do Antropoceno\u201d, se podemos colocar assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<strong>Algumas formas de ab<\/strong><strong>ordar o ru\u00eddo no s\u00e9culo XX<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Luigi Russolo, enquanto te\u00f3rico, d\u00e1 o primeiro passo para se pensar o ru\u00eddo enquanto forma de express\u00e3o. O autor italiano pensa no ru\u00eddo enquanto algo que acompanha toda manifesta\u00e7\u00e3o de vida,<sup data-fn=\"1da5a8f0-7137-4dff-9640-6e3ee22bf172\" class=\"fn\"><a href=\"#1da5a8f0-7137-4dff-9640-6e3ee22bf172\" id=\"1da5a8f0-7137-4dff-9640-6e3ee22bf172-link\">7<\/a><\/sup> bem como uma marca (civilizat\u00f3ria) do progresso. Para ele, isso tamb\u00e9m pode ser representado dentro da m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO homem do s\u00e9culo XVIII n\u00e3o seria capaz de compreender a complexidade dos acordes de nossa orquestra, mas nossos ouvidos sentem o prazer de tal, visto que j\u00e1 foram educados para a vida moderna. No entanto, nossa audi\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 satisfeita e procura por emo\u00e7\u00f5es ac\u00fasticas ainda maiores.\u201d<sup data-fn=\"3158e884-4e09-4f75-bca1-91949b379572\" class=\"fn\"><a href=\"#3158e884-4e09-4f75-bca1-91949b379572\" id=\"3158e884-4e09-4f75-bca1-91949b379572-link\">8<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, para ele, o ru\u00eddo poderia seguir a linha da m\u00fasica moderna europeia: seria poss\u00edvel retirar esse ru\u00eddo de sua natureza e afin\u00e1-los, regulando-os harm\u00f4nica e ritmicamente; assim, o ru\u00eddo seria uma ferramenta extramusical (ou melhor, que nos ajudaria a aumentar o campo musical). Sua cria\u00e7\u00e3o mais famosa, <em>Intonarumori<\/em>, trata-se de um instrumento que continha v\u00e1rias formas de fazer barulhos, como uivadores, trov\u00f5es, zumbidos, estouros e estalos. Com essa m\u00e1quina, no entanto, Russolo evidencia um problema no pensamento dos futuristas: ele imitava sons que j\u00e1 eram comuns \u00e0 sociedade industrial da \u00e9poca. Mesmo citando possibilidades ilimitadas, infinitas, o autor parecia n\u00e3o conseguir imaginar outros ru\u00eddos que n\u00e3o os j\u00e1 presentes em seu campo ac\u00fastico: \u201c[p]or que, futuristas italianos, voc\u00eas reproduzem servilmente apenas o que \u00e9 superficial e mais tedioso na trepida\u00e7\u00e3o de nossas vidas cotidianas?\u201d.<sup data-fn=\"e88c4959-c612-428b-a9d2-87b13558de1b\" class=\"fn\"><a href=\"#e88c4959-c612-428b-a9d2-87b13558de1b\" id=\"e88c4959-c612-428b-a9d2-87b13558de1b-link\">9<\/a><\/sup> Para Var\u00e8se, a falha de Russolo \u00e9 que ele n\u00e3o conseguia se voltar tanto para o futuro como ele pensava. Apesar disso, ele cria a base na qual o ru\u00eddo enquanto express\u00e3o art\u00edstica funcionar\u00e1, como um dos principais modos de express\u00e3o criativa na m\u00fasica contempor\u00e2nea. Ele pode servir para revitalizar e revigorar a express\u00e3o art\u00edstica, sentir novas sensa\u00e7\u00f5es s\u00f4nicas \u2013 e talvez, seja por parte dessas sensa\u00e7\u00f5es que ele parece ainda incomodar, ser exc\u00eantrico e desagrad\u00e1vel, tamb\u00e9m.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltando para as discuss\u00f5es sobre m\u00fasica e espa\u00e7os urbanos, \u00e9 not\u00e1vel a contribui\u00e7\u00e3o do canadense R. Murray Schafer para a compreens\u00e3o das paisagens sonoras contempor\u00e2neas. O autor desenvolveu o campo de estudos de Ecologia Ac\u00fastica, preocupado com o descaso geral (tanto governamental quanto social ou acad\u00eamico) quanto \u00e0 polui\u00e7\u00e3o sonora, que avan\u00e7ava sem piedade na \u00e9poca em que escreveu <em>A Afina\u00e7\u00e3o do Mundo<\/em>,<sup data-fn=\"785b5188-daad-494f-b4f5-48fc6f5097fe\" class=\"fn\"><a href=\"#785b5188-daad-494f-b4f5-48fc6f5097fe\" id=\"785b5188-daad-494f-b4f5-48fc6f5097fe-link\">10<\/a><\/sup> enquanto a consci\u00eancia ecol\u00f3gica j\u00e1 vinha ganhando for\u00e7a, mas preocupada com a polui\u00e7\u00e3o do ar, do solo e da \u00e1gua. Ao contr\u00e1rio de Russolo, Schafer ir\u00e1 encarar o ru\u00eddo de maneira negativa, algo que ele ir\u00e1 confrontar e criticar de forma obsessiva em seu tratado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conceito de paisagem sonora, <em>soundscape <\/em>no original, \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o livre do termo paisagem visual<em>, landscape<\/em>. Com isto, ele aplica \u00e0 audi\u00e7\u00e3o uma epistemologia esc\u00f3pica, o que a nosso ver implica, de sa\u00edda, em um problema epistemol\u00f3gico. Ora, a vis\u00e3o como sentido implica necessariamente em um ponto de vista, que hierarquiza elementos e cria um modo de ver o mundo que \u00e9 privilegiado em rela\u00e7\u00e3o a outros. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que suas teses sobre a ecologia ac\u00fastica v\u00e3o se apoiar em dicotomias, em especial entre lo-fi e hi-fi. As paisagens naturais e rurais s\u00e3o hi-fi, de alta fidelidade, porque nelas podemos escutar com nitidez os sons que as comp\u00f5em, elas n\u00e3o se sobrep\u00f5em o tempo todo e podemos estimar a dist\u00e2ncia de cada fonte sonora. As paisagens urbanas s\u00e3o lo-fi, de baixa fidelidade, porque os sons se sobrep\u00f5em e h\u00e1 ru\u00eddo de toda sorte, em especial maqu\u00ednicos (curiosamente os termos hi-fi e lo-fi dev\u00eam do l\u00e9xico das tecnologias fonogr\u00e1ficas, dos aparelhos de som da \u00e9poca e que, como sabemos, integram toda uma cadeia de produ\u00e7\u00e3o de extra\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios e petr\u00f3leo para se sustentar).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Schafer, qualquer ru\u00eddo \u00e9 considerado indesej\u00e1vel, salvo raras exce\u00e7\u00f5es da natureza, como ondas quebrando no mar ou o silvo que o vento produz nos pinheiros dos montes alpinos.<sup data-fn=\"8bef4d45-25af-4388-8dda-d4c11a008762\" class=\"fn\"><a href=\"#8bef4d45-25af-4388-8dda-d4c11a008762\" id=\"8bef4d45-25af-4388-8dda-d4c11a008762-link\">11<\/a><\/sup> A escolha por uma natureza domesticada do Norte Global \u00e9 algo que precisa ser revisado criticamente em sua obra. Mas, fora sons deste tipo, quando falamos de sons humanos como tiros de espingarda, motoserras, aparelhos de ar-condicionado, autom\u00f3veis, estes destroem e nos impedem de ver a paisagem sonora de maneira ideal, limpa. Com isso, ele cria um ideal quase que antitecnol\u00f3gico, se opondo aos ru\u00eddos dos maquin\u00e1rios que come\u00e7am a surgir no s\u00e9culo XVIII. Essas tecnologias seriam hostis tanto para a vida humana, quanto para a natureza, nos impedindo de viver da melhor maneira poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contempor\u00e2neo a Schafer, o compositor estadunidense John Cage<sup data-fn=\"01b94ca4-0631-4dd7-b325-d84c2a161ac1\" class=\"fn\"><a href=\"#01b94ca4-0631-4dd7-b325-d84c2a161ac1\" id=\"01b94ca4-0631-4dd7-b325-d84c2a161ac1-link\">12<\/a><\/sup> estabelece uma empreitada bem distinta. Para o m\u00fasico, o caminho para o futuro da m\u00fasica n\u00e3o se d\u00e1 pela domestica\u00e7\u00e3o, cataloga\u00e7\u00e3o, controle e silenciamento de certos sons, mas pela indetermina\u00e7\u00e3o. Ao sair da c\u00e2mera anec\u00f3ica de Harvard, Cage percebeu que at\u00e9 no lugar dito como o mais silencioso do mundo ainda havia propaga\u00e7\u00e3o de som: o dos seus sistemas nervoso e seu sangue circulando. \u201cUm som n\u00e3o realiza nada: sem ele, a vida n\u00e3o duraria o instante\u201d.<sup data-fn=\"33965970-762d-4646-965f-487e583286ad\" class=\"fn\"><a href=\"#33965970-762d-4646-965f-487e583286ad\" id=\"33965970-762d-4646-965f-487e583286ad-link\">13<\/a><\/sup> Propunha ainda desvincul\u00e1-los de significado pr\u00e9-atribu\u00eddos:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAs pessoas esperam que a escuta seja mais que escutar. Ent\u00e3o \u00e0s vezes eles falam de escuta interna, ou do sentido do som. Quando eu falo de m\u00fasica, finalmente as pessoas se d\u00e3o conta de que falo sobre um som que n\u00e3o significa nada, que n\u00e3o \u00e9 interior, mas apenas exterior. Ent\u00e3o quando essas pessoas que entendem isso finalmente dizem: \u2018voc\u00ea quer dizer que s\u00e3o apenas sons?\u2019 \u2013 pensando que algo ser t\u00e3o somente um som algo in\u00fatil. Enquanto que eu amo sons exatamente como s\u00e3o. E n\u00e3o tenho a necessidade de que eles sejam mais do que s\u00e3o. N\u00e3o quero que eles sejam psicol\u00f3gicos, n\u00e3o quero que o som pretenda ser um balde ou que seja presidente, ou que esteja apaixonado por outro som. S\u00f3 quero que seja um som.\u201d<sup data-fn=\"08a21f0b-161b-4bb6-b6de-6f0c312ef59c\" class=\"fn\"><a href=\"#08a21f0b-161b-4bb6-b6de-6f0c312ef59c\" id=\"08a21f0b-161b-4bb6-b6de-6f0c312ef59c-link\">14<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com isso temos tamb\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o de desordem \u2013 e n\u00e3o mais relacional ou compositiva \u2013 entre a m\u00fasica, o sil\u00eancio e o ru\u00eddo. Tudo \u00e9 sobre inten\u00e7\u00e3o: sons intencionais, sil\u00eancio n\u00e3o-intencional. Um de seus trabalhos mais not\u00e1veis \u00e9 a pe\u00e7a<em> 4\u201933\u201d<\/em>. Aqui, parece que ele consegue conectar todas suas refer\u00eancias, desde a \u201cexpans\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o\u201d zen budista, que atenua a atividade do Eu e de suas inten\u00e7\u00f5es, abrindo espa\u00e7o para a aprecia\u00e7\u00e3o dos sons e das situa\u00e7\u00f5es de sil\u00eancio \u201cn\u00e3o intencional\u201d do cotidiano. Cage consegue, portanto, borrar os limites do som e do sil\u00eancio, do ru\u00eddo e do sinal, de maneiras que Russolo n\u00e3o foi capaz de lograr. Cage projeta os limites da linguagem musical para al\u00e9m dos limiares do tonalismo, do atonalismo, do microtonalismo, em dire\u00e7\u00e3o a uma alian\u00e7a \u00faltima da m\u00fasica com o el\u00e3 vital, com a dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra performance de Cage que \u00e9 interessante de evocar \u00e9 <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=gXOIkT1-QWY\"><em>Water Walk<\/em><\/a>. Transmitida no programa de televis\u00e3o <em>I\u2019ve Got A Secret!<\/em>, ele utiliza de diversos objetos do cotidiano para criar uma pe\u00e7a musical cheia de acaso e ru\u00eddo. Tudo parece ser tocado sem ordem aparente, e ele utiliza desses sons presentes para criar uma nova forma de m\u00fasica, parecendo que o pensamento de Cage, tamb\u00e9m, gira em torno de uma ruptura da ordem musical at\u00e9 ent\u00e3o estabelecida. Parece que sua obra, e ele enquanto artista, foca mais em seu papel na forma\u00e7\u00e3o discursiva acima de tudo, em sua busca por trazer essa audi\u00e7\u00e3o expandida para o grande p\u00fablico. Como fez ao se apresentar num programa com plateia, ele visa ensinar outra escuta que n\u00e3o a moderna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez aqui possamos pensar se essa n\u00e3o seria uma das chaves para pensar o Antropoceno, ou, ao menos, come\u00e7ar a pensar, com um primeiro passo que envolve desprender-nos de concep\u00e7\u00f5es modernas, disciplinares e domesticadoras, e permitir o devir, a diferen\u00e7a. Circula nas discuss\u00f5es sobre Antropoceno nas humanidades o neologismo <em>response-ability<\/em>, que aparece na introdu\u00e7\u00e3o do livro <em>Ficar com o problema <\/em>de Donna Haraway.<sup data-fn=\"fb85f2db-b8ea-4ded-aeb6-2adf3211a3b6\" class=\"fn\"><a href=\"#fb85f2db-b8ea-4ded-aeb6-2adf3211a3b6\" id=\"fb85f2db-b8ea-4ded-aeb6-2adf3211a3b6-link\">15<\/a><\/sup> Essa ideia aparecia tamb\u00e9m em Cage, em seu ensaio sobre m\u00fasica experimental: \u00e9 preciso que n\u00f3s, como espectadores de m\u00fasica, desenvolvamos <em>respons-abilidade<\/em>, uma capacidade de permitir que \u201cos sons sejam eles mesmos, em vez de ve\u00edculos para teorias ou express\u00f5es de sentimentos humanos\u201d.<sup data-fn=\"a5784c0c-67a9-4d51-8bc2-9ff0ba16b170\" class=\"fn\"><a href=\"#a5784c0c-67a9-4d51-8bc2-9ff0ba16b170\" id=\"a5784c0c-67a9-4d51-8bc2-9ff0ba16b170-link\">16<\/a><\/sup> Cage diz que n\u00e3o devemos nos alardear com esta ideia: \u201ca emo\u00e7\u00e3o acontece na pessoa que sente a emo\u00e7\u00e3o. E os sons, quando permitimos que sejam eles mesmos, n\u00e3o exigem que a pessoa que os escuta o fa\u00e7a t\u00e3o desafetadamente\u201d.<sup data-fn=\"50e27e13-0a35-4dae-a84a-c739f489337f\" class=\"fn\"><a href=\"#50e27e13-0a35-4dae-a84a-c739f489337f\" id=\"50e27e13-0a35-4dae-a84a-c739f489337f-link\">17<\/a><\/sup> Se ao menos tentarmos nos despir dos sentidos que v\u00eam antes das sensa\u00e7\u00f5es que os sons nos proporcionam, ent\u00e3o um som supostamente ruidoso n\u00e3o mais ser\u00e1 necessariamente indesejado ou, ainda, que deveria ser ignorado ou eliminado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses autores, todos homens, comp\u00f5em junto de alguns outros o c\u00e2none do s\u00e9culo XX quando o assunto \u00e9 ru\u00eddo. A seguir, partimos para uma revis\u00e3o no intuito de problematizar estas teorias diante das quest\u00f5es que o Antropoceno coloca para as artes e as humanidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Alian\u00e7as com o ru\u00eddo no Antropoceno<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No livro <em>Beyond Unwanted Sound<\/em>, Marie Thompson prop\u00f5e que o ru\u00eddo n\u00e3o precisa de n\u00f3s e n\u00e3o nos caberia\u00a0pens\u00e1-lo enquanto desej\u00e1vel, necess\u00e1rio, positivo ou negativo.<sup data-fn=\"fd5b71ac-cd4a-40f3-a8ad-573ee001cb41\" class=\"fn\"><a href=\"#fd5b71ac-cd4a-40f3-a8ad-573ee001cb41\" id=\"fd5b71ac-cd4a-40f3-a8ad-573ee001cb41-link\">18<\/a><\/sup> O ru\u00eddo \u00e9 uma for\u00e7a n\u00e3o-humana e n\u00e3o conseguimos control\u00e1-lo: sua capacidade na m\u00fasica se exerce enquanto transforma\u00e7\u00e3o e transgress\u00e3o (al\u00e9m de outros poss\u00edveis usos). No entanto, quando resgatamos a hist\u00f3ria do c\u00e2none te\u00f3rico sobre ru\u00eddo no s\u00e9culo XX, logo temos que n\u00e3o s\u00f3 ela \u00e9 contada prioritariamente por homens como, tamb\u00e9m, ela se ancora volta e meia em discursos mis\u00f3ginos, como ocorre os futuristas, grupo do qual Russolo fazia parte: em seu manifesto, glorificam a guerra, o militarismo, o patriotismo, as belas ideias pelas quais se morre e, como se n\u00e3o bastasse tudo isso, o desprezo pela mulher<em>. <\/em>Mas n\u00e3o ocorre s\u00f3 quando a misoginia \u00e9 expressa deliberadamente. Em Cage, ainda que se trate de um compositor com ideais avessos aos dos futuristas, essa perspectiva poderia ser observada pelo silenciamento do executor. Thompson tamb\u00e9m sugere que a filosofia de Cage virou uma unanimidade no campo musical, e que isso pode acabar por despolitizar os sons: \u201c[Cage] \u00e9 o \u00e1pice da m\u00fasica experimental ocidental, seu nascimento e seu limite\u201d.<sup data-fn=\"418a40da-c920-4e3d-bcec-10458b03c184\" class=\"fn\"><a href=\"#418a40da-c920-4e3d-bcec-10458b03c184\" id=\"418a40da-c920-4e3d-bcec-10458b03c184-link\">19<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cabe lembrar ainda que h\u00e1 muito tempo (talvez at\u00e9 por mil\u00eanios), a compreens\u00e3o de sons ruidosos nas sociedades tem conota\u00e7\u00f5es mis\u00f3ginas. S\u00e3o ru\u00eddos produzidos por homens, aqueles aceitos pela normatividade (o grito do mach\u00e3o, os desmandos do patriarca, o torcedor apaixonado, o artista de <em>noise<\/em>); quando produzidos por mulheres, devem ser evitados ou combatidos (\u00e9 histeria, \u00e9 inveja, ci\u00fame, loucura, querendo aparecer). Pela perspectiva de Shannon e Weaver, o ru\u00eddo feminino torna-se a por\u00e7\u00e3o esp\u00faria da mensagem. Felizmente, isso \u00e9 algo que vem sendo desconstru\u00eddo recentemente, tanto nas pr\u00e1ticas musicais quanto no \u00e2mbito da pesquisa, como vimos em especial com Thompson.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De certa maneira, Donna Haraway nos ajuda a analisar e\/ou reutilizar algumas das ideias trazidas por esses c\u00e2nones. Em <em>Ficar com o problema<\/em>, ela utiliza da tese de Gilbert Simondon para analisar criticamente o pensamento de Claude Shannon. O ru\u00eddo, enquanto informa\u00e7\u00e3o, se torna indesej\u00e1vel. Quando n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel decodific\u00e1-lo e transform\u00e1-lo em humano, o que resta para tal \u00e9 ser mat\u00e9ria. <em>Mat\u00e9ria, mater, mother, mutter<\/em>.<sup data-fn=\"c64d604e-283d-47f2-8c05-753775de844c\" class=\"fn\"><a href=\"#c64d604e-283d-47f2-8c05-753775de844c\" id=\"c64d604e-283d-47f2-8c05-753775de844c-link\">20<\/a><\/sup> Para Haraway, em seu feminismo que mistura fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, fabula\u00e7\u00e3o especulativa, figuras de barbante, feminismo especulativo, fato cient\u00edfico e o at\u00e9 agora, essa mesma mat\u00e9ria\u201cnunca \u00e9 \u2018mero\u2019 meio para a semente que a \u2018informa\u2019; antes, misturados na bolsa da terra,&nbsp;parentes e prog\u00eanie comp\u00f5em uma congrega\u00e7\u00e3o muito abundante para a mundifica\u00e7\u00e3o\u201d.<sup data-fn=\"61d8ecb6-a52d-45a7-8f9a-72f7ef668103\" class=\"fn\"><a href=\"#61d8ecb6-a52d-45a7-8f9a-72f7ef668103\" id=\"61d8ecb6-a52d-45a7-8f9a-72f7ef668103-link\">21<\/a><\/sup> Parece que esse murm\u00fario feminino, que constantemente se busca calar, se torna parte dessa recupera\u00e7\u00e3o multiesp\u00e9cie e multi-espa\u00e7o-tempo da Terra, antes que seja tarde demais. A mat\u00e9ria e Gaia tamb\u00e9m, trazidas por Donna Haraway e Simondon, trazem isso enquanto fonte, solo e fundamento para filhos da Terra. Aqui, pela recusa do pensamento por g\u00eaneros e esp\u00e9cies, do Simondon, e pela mundifica\u00e7\u00e3o, pensada por Haraway.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cage escreveu principalmente entre os anos 1960 e 1990, e isso demonstra como muitos de seus pensamentos giram ao redor das ecologias. Ainda assim, eles parecem ter conte\u00fado o suficiente, quase que alguns signos dispersos do Antropoceno dentro de sua obra. Temos, por exemplo, a ideia j\u00e1 citada anteriormente de <em>respons-abilidade<\/em>. Criada por Cage e desenvolvida em suas escritas sobre Sil\u00eancio, num jogo de palavras, trata-se justamente da habilidade de responder e reagir de maneira consequente aos acontecimentos. <em>Essa virada psicol\u00f3gica<\/em>, como diz Cage, <em>leva para um mundo natural, onde gradualmente ou de repente, natureza e humanidade <\/em>(ou cultura, possivelmente)<em>n\u00e3o est\u00e3o separadas e sim juntas no mundo<\/em>. Herdada por Haraway (e herdada aqui no sentido que a pr\u00f3pria pensa, <em>exigindo pensamento e compromisso \u2013 um ato que clama pela transforma\u00e7\u00e3o<\/em>, que aqui pensamos dentro da forma\u00e7\u00e3o discursiva), a palavra se torna um lema para pensarmos na multiespecidade do Antropoceno. Ficar com o problema \u00e9 fazer esse florescimento multiesp\u00e9cie, sejam seres humanos ou alteridades n\u00e3o humanas para termos alguma chance na Terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com tudo isso, voltamos \u00e0s perguntas iniciais: e quanto \u00e0 sonoridade? Seria poss\u00edvel expressar algo sobre o Antropoceno por meio da dimens\u00e3o s\u00f4nica ou ser\u00e1 que estamos fadados a limitar a experi\u00eancia de viver no Antropoceno apenas ao simb\u00f3lico? Certamente que n\u00e3o. Na playlist, ficou evidente que as m\u00fasicas com letra acabaram por operar como transmissoras de informa\u00e7\u00e3o muito mais do que elaborar formas afetivas e est\u00e9ticas que digam respeito \u00e0 proposi\u00e7\u00e3o de <em>sentir<\/em> o Antropoceno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o existam exemplos que apontam para outra dire\u00e7\u00e3o.&nbsp; H\u00e1 movimentos e fen\u00f4menos sonoros contempor\u00e2neos que parecem se apropriar do ru\u00eddo, se utilizar dele para criar novas pot\u00eancias afetivas. Dando continuidade \u00e0 nossa pesquisa, fomos atr\u00e1s de composi\u00e7\u00f5es e cenas musicais em que o ambiente ac\u00fastico \u00e9 ocupado por sonoridades ruidosas. \u00c0 luz do referencial te\u00f3rico aqui exposto, gostar\u00edamos de apresentar apenas um exemplo. Estamos iniciando uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o uso do tuim no Funk Bruxaria, reparando em ambival\u00eancias e poss\u00edveis alian\u00e7as que podem ser tra\u00e7adas entre o tuim e a quest\u00e3o do ru\u00eddo no Antropoceno. O tuim, um som agudo e estridente, chamado tamb\u00e9m como \u201cestoura t\u00edmpano\u201d, surge primeiro como express\u00e3o usada para traduzir a experi\u00eancia psicoac\u00fastica de alucina\u00e7\u00e3o auditiva provocada no uso de lan\u00e7a-perfume, similar ao tinnitus. A primeira m\u00fasica que empregou o tinido agudo foi <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=a6Urzl_VDfE\"><em>Lan\u00e7a de Coco \u2013 Passinho do Romano<\/em><\/a>, de MC Bin Laden. Por\u00e9m, com o passar do tempo, o efeito se tornou cada vez mais presente no funk experimental, e, com isso, traduzindo as constantes disputas pelo territ\u00f3rio sonoro nas grandes metr\u00f3poles. O tuim \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia de escuta individual \u2013 ningu\u00e9m pode ouvir o tinnitus que eu tenho, eu posso apenas descrev\u00ea-lo ou tentar reproduzi-lo com sintetizadores sonoros. Em contrapartida, MC Bin Laden consegue produzir um tinnitus coletivo, um registro po\u00e9tico da alta intensidade de sons que nos acomete cotidianamente na experi\u00eancia urbana. Mas sua m\u00fasica n\u00e3o se pretende cr\u00edtica, n\u00e3o moraliza o ru\u00eddo; pelo contr\u00e1rio, o tuim vem como uma forma de intensificar o efeito do lol\u00f3, de aumentar os efeitos das \u201csubst\u00e2ncias do sentir\u201d. Uma forma bastante curiosa de se aliar com um ru\u00eddo, ainda mais um que causa danos auditivos permanentes. Talvez seja em casos extremos como este que seja poss\u00edvel sentir o Antropoceno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"eba77eef-ec90-4ef0-b308-953fc665d024\">Graduando do curso de Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bolsista volunt\u00e1rio de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica sobre Musicalidades no Antropoceno no N\u00facleo de Semi\u00f3tica e Sonoridades, e integrante do Grupo de Pesquisa em Semi\u00f3tica e Culturas da Comunica\u00e7\u00e3o (GPESC). <a href=\"#eba77eef-ec90-4ef0-b308-953fc665d024-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"05741beb-775f-41e8-b80d-b265f638358f\">Professor na Faculdade de Biblioteconomia e Comunica\u00e7\u00e3o da UFRGS. Integra o Grupo de Pesquisa Semi\u00f3tica e Culturas da Comunica\u00e7\u00e3o (GPESC\/UFRGS), no qual coordena o N\u00facleo de Pesquisa Semi\u00f3tica e Sonoridades (SemSono). Tamb\u00e9m integra o Grupo de Estudos em Imagem, Sonoridades e Tecnologias (GEIST\/UFF). <a href=\"#05741beb-775f-41e8-b80d-b265f638358f-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"902adf9e-4c65-4f27-91bb-eb1c4428cc4f\">Estudante de Jornalismo na UFRGS. Bolsista de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica do N\u00facleo de Pesquisa Semi\u00f3tica e Sonoridades (SemSono). <a href=\"#902adf9e-4c65-4f27-91bb-eb1c4428cc4f-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"2cc23d59-0e79-4554-afe1-8a8d8df1b761\">Heather Swanson <em>et alii<\/em> (orgs.). <em>Arts of Living on a Damaged Planet<\/em>: Ghosts of the Anthropocene; Monsters of the Anthropocene. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2017. <a href=\"#2cc23d59-0e79-4554-afe1-8a8d8df1b761-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 4 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"229cafdf-c734-4c6a-97eb-78946731b323\">As m\u00fasicas selecionadas foram <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/track\/0PWIQJs46aC7pFoljOK9Y3?si=34835b4fc0b34dc7\">O Antropoceno \u2013 Deafkids, Petbrick<\/a>; <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/track\/45AcReBJl9KgZ1ioqtvclH?si=51c1f4483a174143\">Anthropocene \u2013 Burning House<\/a>; <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/track\/2ZR0iNWVcRS8MLYU5SHKfw?si=83864ecbcce24b5d\">Anthropocene \u2013 Blackmont Project<\/a>; <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/track\/2Ug8YvLaMiLSECRtqHWi1J?si=64aaafd6255b4e63\">Anthropocene \u2013 Ron Ractive<\/a>; <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/track\/0hy5uxUGJVZDQVmsfm5GuY?si=08672480f94642d3\">The Anthropocene\u00a0 (An Act Of Letting Go In Five Movements) \u2013 Captain Bill<\/a>; <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/track\/4yNPxPFUQt0qgfUr574JIX?si=fbe5df3fea5f4e2b\">Anthropocene \u2013 Face the Radio<\/a>; <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/track\/2gN15EvwYWHNyRuB3maKy2?si=d08fa151e15e4abb\">Antropoceno \u2013 C\u00c1USTICO<\/a>. <a href=\"#229cafdf-c734-4c6a-97eb-78946731b323-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 5 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"2eaec940-5f8d-41fb-9e60-1f9d614d1a41\">Marie Thopmson. <em>Beyond Unwanted Sound:<\/em> Noise, Affect and Aesthetic Moralism. Nova York: Bloomsbury Academic, 2017, p. 42-43. <a href=\"#2eaec940-5f8d-41fb-9e60-1f9d614d1a41-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 6 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"1da5a8f0-7137-4dff-9640-6e3ee22bf172\">Luigi Russolo. <em>The art of noises<\/em>. Nova York: Pendragon Press, 1986, p. 9. <a href=\"#1da5a8f0-7137-4dff-9640-6e3ee22bf172-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 7 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"3158e884-4e09-4f75-bca1-91949b379572\"><em>Idem<\/em>, p. 24, tradu\u00e7\u00e3o nossa. <a href=\"#3158e884-4e09-4f75-bca1-91949b379572-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 8 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e88c4959-c612-428b-a9d2-87b13558de1b\">Edgar Var\u00e8se, <em>apud <\/em>Marie Thompson, <em>op. cit.<\/em>, p. 134. <a href=\"#e88c4959-c612-428b-a9d2-87b13558de1b-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 9 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"785b5188-daad-494f-b4f5-48fc6f5097fe\">R. Murray Schafer. <em>A afina\u00e7\u00e3o do mundo<\/em>: uma explora\u00e7\u00e3o pioneira pela hist\u00f3ria passada e pelo atual estado do mais negligenciado aspecto do nosso ambiente: a paisagem sonora. Tradu\u00e7\u00e3o: Marisa Trench de Oliveira Fonterrada. S\u00e3o Paulo:\u00a0 Editora da UNESP, 2001. <a href=\"#785b5188-daad-494f-b4f5-48fc6f5097fe-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 10 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"8bef4d45-25af-4388-8dda-d4c11a008762\"><em>Idem<\/em>, p. 43. <a href=\"#8bef4d45-25af-4388-8dda-d4c11a008762-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 11 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"01b94ca4-0631-4dd7-b325-d84c2a161ac1\">John Cage. <em>Sil\u00eancio<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Mariano Marovatto. Rio de Janeiro: Cobog\u00f3, 2019. <a href=\"#01b94ca4-0631-4dd7-b325-d84c2a161ac1-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 12 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"33965970-762d-4646-965f-487e583286ad\"><em>Idem<\/em>, p. 14. <a href=\"#33965970-762d-4646-965f-487e583286ad-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 13 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"08a21f0b-161b-4bb6-b6de-6f0c312ef59c\">John Cage, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=pcHnL7aS64Y\">em entrevista realizada em 1991<\/a>, tradu\u00e7\u00e3o nossa. <a href=\"#08a21f0b-161b-4bb6-b6de-6f0c312ef59c-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 14 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"fb85f2db-b8ea-4ded-aeb6-2adf3211a3b6\">Donna Haraway. <em>Ficar com o problema<\/em>: fazer parentes no Chthuluceno. Tradu\u00e7\u00e3o: Ana Luiza Braga. S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es, 2023. <a href=\"#fb85f2db-b8ea-4ded-aeb6-2adf3211a3b6-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 15 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"a5784c0c-67a9-4d51-8bc2-9ff0ba16b170\">John Cage, <em>op. cit.<\/em>, p. 10. <a href=\"#a5784c0c-67a9-4d51-8bc2-9ff0ba16b170-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 16 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"50e27e13-0a35-4dae-a84a-c739f489337f\"><em>Idem<\/em>, <em>ibidem<\/em>. <a href=\"#50e27e13-0a35-4dae-a84a-c739f489337f-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 17 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"fd5b71ac-cd4a-40f3-a8ad-573ee001cb41\">Marie Thompson, <em>op. cit.<\/em>, p. 6. <a href=\"#fd5b71ac-cd4a-40f3-a8ad-573ee001cb41-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 18 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"418a40da-c920-4e3d-bcec-10458b03c184\">Marie Thompson. Gossips, Sirens, Hi-Fi Wives: Feminizing the Threat of Noise. In: M Goddard; B. Halligan; N. Spelman (orgs.). <em>Resonances<\/em>: Noise and Contemporary Music. Norfolk: Bloomsbury, 2013, p. 298. <a href=\"#418a40da-c920-4e3d-bcec-10458b03c184-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 19 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"c64d604e-283d-47f2-8c05-753775de844c\">Donna Haraway, <em>op. cit.<\/em>, p. 240. <a href=\"#c64d604e-283d-47f2-8c05-753775de844c-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 20 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"61d8ecb6-a52d-45a7-8f9a-72f7ef668103\"><em>Idem<\/em>, p. 241. <a href=\"#61d8ecb6-a52d-45a7-8f9a-72f7ef668103-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 21 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 14 \u2013 janeiro de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Percursos err\u00e1ticos em busca de um objeto de pesquisa<\/p>\n","protected":false},"author":54,"featured_media":1244,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Graduando do curso de Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 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