{"id":1245,"date":"2026-01-09T18:11:23","date_gmt":"2026-01-09T21:11:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1245"},"modified":"2026-02-11T19:22:36","modified_gmt":"2026-02-11T22:22:36","slug":"criando-parentescos-com-a-quimera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/01\/09\/criando-parentescos-com-a-quimera\/","title":{"rendered":"Criando Parentescos com a Quimera"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Resenha do livro:&nbsp; <a href=\"https:\/\/circulodepoemas.com.br\/produto\/quimera-de-prisca-agustoni\/\">AGUSTONI, Prisca. <em>Quimera<\/em>. S\u00e3o Paulo: C\u00edrculo de Poemas, 2025<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Gustavo Primo<sup data-fn=\"654df6df-cc80-4c82-a9da-f135232c457d\" class=\"fn\"><a href=\"#654df6df-cc80-4c82-a9da-f135232c457d\" id=\"654df6df-cc80-4c82-a9da-f135232c457d-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Quimera<\/em>, livro de Prisca Agustoni, publicado pela C\u00edrculo de Poemas em 2025, \u00e9 uma amostra da tend\u00eancia contempor\u00e2nea de escrever sobre a crise clim\u00e1tica utilizando como estrat\u00e9gia a dissolu\u00e7\u00e3o de qualquer fronteira r\u00edgida entre as esp\u00e9cies de seres existentes. O livro se alinha, em sua estrutura geral e na tem\u00e1tica de cada poema, com aquilo que David Farrier chama de po\u00e9tica do parentesco (ou <em>poetics of kin-making<\/em>, no original) no Antropoceno:<sup data-fn=\"12b5e9c3-14c6-4abc-96e6-a9536d3bc9c9\" class=\"fn\"><a href=\"#12b5e9c3-14c6-4abc-96e6-a9536d3bc9c9\" id=\"12b5e9c3-14c6-4abc-96e6-a9536d3bc9c9-link\">2<\/a><\/sup> uma escrita que enfrenta a crise ecol\u00f3gica pela rede de conex\u00e3o entre os seres existentes, destacando v\u00ednculos multiesp\u00e9cies e de diferentes temporalidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais ainda, essa conex\u00e3o entre seres acontece, segundo Farrier, de uma maneira err\u00e1tica e aleat\u00f3ria, na forma de tor\u00e7\u00f5es, desvios produtivos, buscas errantes que geram parentescos, abrindo conex\u00f5es novas entre formas de vida e escalas de tempo. Essa din\u00e2mica err\u00e1tica tamb\u00e9m pode ser chamada clin\u00e2men, ideia popularizada pelo fil\u00f3sofo epicurista Lucr\u00e9cio (94-50 a.C.). Lido \u00e0 luz dessas ideias trazidas por Farrier e ecoando tamb\u00e9m Donna Haraway em <em>Ficar com o problema<\/em>,<sup data-fn=\"71ebbed2-bc75-4a9b-af75-0811e88f78bf\" class=\"fn\"><a href=\"#71ebbed2-bc75-4a9b-af75-0811e88f78bf\" id=\"71ebbed2-bc75-4a9b-af75-0811e88f78bf-link\">3<\/a><\/sup> o livro de poemas <em>Quimera<\/em> revela uma cole\u00e7\u00e3o de imagens dessa busca errante: composi\u00e7\u00f5es porosas, vozes deslocadas (inclusive n\u00e3o\u2011humanas), imagens que emergem da litosfera terrestre e a ela retornam, al\u00e9m de uma sintaxe que se deixa contaminar pelo ritmo do que se observa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pr\u00f3pria trajet\u00f3ria de Agustoni tem algo de clin\u00e2men em si: nascida em Lugano (1975), a poeta vive <a href=\"https:\/\/www.swissinfo.ch\/por\/cultura\/o-sonho-brasileiro-de-prisca-augustoni\/49112074\">\u201centre pa\u00edses, l\u00ednguas e realidades\u201d<\/a>, transitando entre Su\u00ed\u00e7a e Brasil, lecionando Literaturas Italiana e Comparada na UFJF (Minas Gerais), escrevendo e traduzindo em italiano, franc\u00eas, portugu\u00eas e espanhol. Em 2023, ganhou o Pr\u00eamio Su\u00ed\u00e7o de Literatura por <em>Verso la ruggine<\/em> e, em dezembro, o Pr\u00eamio Oceanos (poesia) por <em>O gosto amargo dos metais <\/em>(7Letras, 2022), livro quenasce do luto socioambiental dos desastres de Mariana, 2015, e Brumadinho, 2019. Essa biografia multiterritorial e o engajamento com infraestruturas de dano (minera\u00e7\u00e3o, colapso h\u00eddrico, gelo alpino) fazem da obra um laborat\u00f3rio de cria\u00e7\u00e3o de parentescos, em que uma voz migrante e multilingue \u201cdesvia\u201d de centralidades geogr\u00e1ficas, humanas e disciplinares para fazer parentesco entre quintais e <em>permafrosts<\/em>, f\u00f3sseis e fotografias, musgos e arquivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como a quimera da mitologia grega, composta por partes de diferentes animais, ou a express\u00e3o figurativa que se refere a um desafio dif\u00edcil de se transpor, o livro se comp\u00f5e de cinco se\u00e7\u00f5es diversas que se emaranham tematicamente e re\u00fanem poemas escritos em outros contextos geogr\u00e1ficos e temporais em que a autora viveu. O recurso abundante \u00e0 ep\u00edgrafe tamb\u00e9m evidencia a multiculturalidade caracter\u00edstica da poeta, bem como uma maneira de realizar o clin\u00e2men \u201cem dire\u00e7\u00e3o a\u201d outros autores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na primeira se\u00e7\u00e3o, a sequ\u00eancia de poemas reunida sob o t\u00edtulo \u201cTempo verde\u201d instala um campo de for\u00e7as no qual o corpo humano \u00e9 apenas um dos elementos, intercambi\u00e1vel com o vegetal, o mineral e o atmosf\u00e9rico.&nbsp; O poema<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201co quintal \u00e9 meu outro<br>fora de mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando estou nele<br>\u00e9 como estar dentro de algu\u00e9m\u201d (p. 35)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">trata n\u00e3o de um jogo de intimidade dom\u00e9stica, mas de um reposicionamento ontol\u00f3gico: o quintal, com suas camadas de solo, plantas e insetos, \u00e9 entendido como um outro sujeito, dotado de interioridade e ag\u00eancia. Uma zona liminar entre o dom\u00e9stico da casa e o selvagem da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em vez de comparar quintal e corpo, Agustoni os alinha na mesma gram\u00e1tica de ser, abrindo um campo de parentesco. Em outros poemas desta se\u00e7\u00e3o, a escolha de termos concretos, como folhas, umidade, musgo, ra\u00edzes, funciona como ancoragem material, mas o ritmo dos versos \u00e9 deliberadamente perme\u00e1vel, imitando a infiltra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e luz. Essa porosidade formal tamb\u00e9m \u00e9 um recurso de criar parentescos, porque permite que a sintaxe se contamine de elementos n\u00e3o humanos. Al\u00e9m disso, o \u201cverdejar\u201d que aparece nos poemas n\u00e3o se limita a um gesto contemplativo: h\u00e1 uma dimens\u00e3o de repara\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica frente ao colapso ecol\u00f3gico. Quando a poeta afirma, no poema de abertura, que quer \u201cverdejar o mundo\/ nem que seja na linguagem\u201d (p. 13), ela explicita a consci\u00eancia de que o ato po\u00e9tico \u00e9 simultaneamente insuficiente (n\u00e3o salva rios ou florestas por si s\u00f3) e imprescind\u00edvel (mant\u00e9m vivo o imagin\u00e1rio de mundos que resistem). \u00c9 nesse ponto que \u201cTempo verde\u201d se aproxima do que Farrier chama de imagina\u00e7\u00e3o apocal\u00edptica produtiva: n\u00e3o um fim absoluto, mas uma revela\u00e7\u00e3o de conex\u00f5es ainda poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 na segunda se\u00e7\u00e3o, \u201cEu tamb\u00e9m sou a fera\u201d, o ciclo \u201cMon\u00f3logo do taxidermista\u201d coloca o leitor diante de uma pr\u00e1tica ambivalente: preservar a forma de um animal morto, suspendendo sua decomposi\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo que se esvazia o corpo de sua vida. Agustoni transforma essa ambival\u00eancia em mat\u00e9ria l\u00edrica ao narrar a experi\u00eancia de manipular peles, ossos e olhos v\u00edtreos com uma voz que ora descreve tecnicamente o gesto, ora se deixa arrastar por uma empatia visceral. Aqui, o parentesco se d\u00e1 pela imers\u00e3o no corpo morto, uma conviv\u00eancia mediada pelo toque e pela reconstru\u00e7\u00e3o manual e minuciosa do que outrora foi vivo. Em vez de partir de um olhar \u00e0 dist\u00e2ncia, a poeta escolhe o ponto de vista de quem habita a fronteira entre mat\u00e9ria org\u00e2nica e artif\u00edcio, entre biologia e escultura. O taxidermista-poeta \u201cmigra para dentro\/ do mist\u00e9rio de outros seres\u201d (p. 47), e essa migra\u00e7\u00e3o \u00e9 menos uma met\u00e1fora que um processo f\u00edsico: a manipula\u00e7\u00e3o da pele, o enchimento com fibras, o ajuste das fei\u00e7\u00f5es, tudo isso se converte em tradu\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. A escolha tipogr\u00e1fica de enquadrar a express\u00e3o \u201c:fabrico quimeras:\u201d entre dois pontos refor\u00e7a visualmente a ideia de montagem e hibridismo. Cada pe\u00e7a de taxidermia \u00e9, afinal, uma criatura nova e, nesse sentido, um parentesco inventado. Esse gesto se alinha \u00e0 proposta de <em>simpoi\u00e9sis<\/em> de Donna Haraway,<sup data-fn=\"f3b1f8ce-26b1-43cf-bf25-e7e607fb6e66\" class=\"fn\"><a href=\"#f3b1f8ce-26b1-43cf-bf25-e7e607fb6e66\" id=\"f3b1f8ce-26b1-43cf-bf25-e7e607fb6e66-link\">4<\/a><\/sup> trabalhada por Farrier: um \u201cfazer com\u201d que \u00e9 coletivo e composicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A terceira se\u00e7\u00e3o, intitulada \u201cAs quimeras\u201d, re\u00fane textos que funcionam como um besti\u00e1rio expandido, pela variedade de esp\u00e9cies retratadas e pela maneira como o poema incorpora vozes e not\u00edcias vindas de fora da esfera estritamente liter\u00e1ria. \u00c9 um exemplo claro de como Agustoni opera no entrelugar da poesia e do jornalismo, criando o que poder\u00edamos chamar de \u201cpoemas-not\u00edcia\u201d. O ponto de partida s\u00e3o acontecimentos factuais, como a descoberta de f\u00f3sseis, o registro de esp\u00e9cies amea\u00e7adas e o resgate de animais urbanos que, uma vez transpostos para a p\u00e1gina, deixam de ser reportagens para se tornarem encena\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas da cria\u00e7\u00e3o de parentesco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um caso emblem\u00e1tico \u00e9 o poema em que o f\u00f3ssil de <em>Hyneria udlezinye<\/em> (o maior peixe \u00f3sseo da Pr\u00e9-Hist\u00f3ria) toma a palavra e narra sua pr\u00f3pria sa\u00edda da \u00e1gua:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cfoi l\u00e1 que todos come\u00e7aram<br>comigo<br>a dar os primeiros passos<br>fora da \u00e1gua.\u201d (p. 75)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui, a voz l\u00edrica abdica do protagonismo humano para assumir o ponto de vista de um peixe pr\u00e9-hist\u00f3rico, uma voz do <em>tempo profundo<\/em>, como diria Farrier, na qual o poema se torna um condutor entre escalas geol\u00f3gicas e biogr\u00e1ficas. \u00c9 uma opera\u00e7\u00e3o de arqueologia imaginativa: o f\u00f3ssil, silencioso por milh\u00f5es de anos, \u00e9 reinserido na conversa contempor\u00e2nea como testemunha e ancestral comum. Essa parte do livro tamb\u00e9m articula uma cr\u00edtica \u00e0s formas de domestica\u00e7\u00e3o, como no poema que descreve o processo de converter \u201co ser c\u00e3o em ser adorno\u201d (p. 74). O verso sintetiza a redu\u00e7\u00e3o de um organismo vivo a objeto de consumo, para fins est\u00e9ticos, mais uma mostra da longa hist\u00f3ria de controle e instrumentaliza\u00e7\u00e3o das outras esp\u00e9cies que caracterizam o Antropoceno.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"277\" height=\"414\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Prisca-Agustoni.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1256\" style=\"aspect-ratio:0.6690891070482187;width:398px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Prisca-Agustoni.png 277w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Prisca-Agustoni-201x300.png 201w\" sizes=\"auto, (max-width: 277px) 100vw, 277px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Capa do livro de Prisca Agustoni<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u201cSeres rupestres\u201d, quarta se\u00e7\u00e3o do livro, Agustoni volta-se de modo mais expl\u00edcito para o campo do mineral e do arqueol\u00f3gico. A presen\u00e7a de f\u00f3sseis, ossos e esculturas pr\u00e9-hist\u00f3ricas, como o tr\u00edptico de Laussel, n\u00e3o \u00e9 apenas ilustrativa: trata-se de um conjunto de poemas que l\u00ea o mundo como um arquivo. Aqui, a mat\u00e9ria \u00e9 ao mesmo tempo documento e met\u00e1fora: um \u201cregistro sedimentado\u201d que carrega, em sua composi\u00e7\u00e3o f\u00edsica, narrativas que excedem qualquer testemunho humano. Para Farrier, o tempo profundo se manifesta em formas materiais (sedimentos, f\u00f3sseis, vest\u00edgios) que ativam conex\u00f5es com futuros poss\u00edveis. Agustoni parece praticar essa leitura arqueol\u00f3gica em escala l\u00edrica: cada poema \u00e9 uma escava\u00e7\u00e3o que traz \u00e0 superf\u00edcie novos afetos e hip\u00f3teses sobre os dados encontrados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos momentos mais expressivos dessa se\u00e7\u00e3o \u00e9 a s\u00e9rie de descri\u00e7\u00f5es da superf\u00edcie de Marte, que se repete tediosamente (pedras, areia, ferrugem, fuligem) at\u00e9 que a palavra \u201c\u00e1gua\u201d irrompa como conclus\u00e3o. O olhar come\u00e7a com o inerte, se perde na repeti\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que a \u00e1gua desvie e reconfigure todo o sentido da observa\u00e7\u00e3o que as sondas espaciais costumam executar. A palavra final funciona como uma revela\u00e7\u00e3o, o desvelar de uma possibilidade de vida. Ao associar Marte \u00e0 \u00e1gua, a poeta reinscreve a busca por parentesco e habitabilidade para al\u00e9m da Terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cC\u00e9u extinto\u201d, \u00faltima se\u00e7\u00e3o de <em>Quimera<\/em>, concentra-se no gelo, que se mostra como um agente narrativo, mais que um cen\u00e1rio inerte. Por exemplo, ao dar voz ao permafrost em derretimento, Agustoni leva ao extremo o gesto de descentraliza\u00e7\u00e3o do humano que Farrier identifica como n\u00facleo da po\u00e9tica do parentesco. Nesse poema, o pr\u00f3prio permafrost \u00e9 o enunciador, e diz<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEscutem:<br>\u00e9 um rugir rouco<br>meu lamento.\u201d (p. 131)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trata-se de uma estrat\u00e9gia deliberada de inverter o vetor da enuncia\u00e7\u00e3o, colocando o leitor na posi\u00e7\u00e3o de receptor de uma fala n\u00e3o-humana, carregada de urg\u00eancia. A escolha do permafrost como voz \u00e9 significativa no contexto do Antropoceno. Esse solo permanentemente congelado, encontrado em regi\u00f5es \u00e1rticas e alpinas, \u00e9 um arquivo geol\u00f3gico e biol\u00f3gico de milhares de anos, contendo gases, mat\u00e9ria org\u00e2nica e microrganismos preservados. Ao derreter, ele altera o clima global e libera conte\u00fados antes encerrados num tempo profundo. Ao transformar esse processo f\u00edsico em fala po\u00e9tica, Agustoni encena essa responsabilidade: n\u00e3o estamos apenas assistindo ao degelo, somos interpelados por ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, a se\u00e7\u00e3o constr\u00f3i um campo de resson\u00e2ncia sonora e sem\u00e2ntica que imita o fen\u00f4meno que descreve. O \u201crugir rouco\u201d ecoa como um som grave e cont\u00ednuo, lembrando o estalo e o deslocamento de grandes massas de gelo, uma voz cansada de quem est\u00e1 prestes a se extinguir. A estrutura versal curta e fragmentada acentua a sensa\u00e7\u00e3o de interrup\u00e7\u00e3o e instabilidade. Cada quebra de verso \u00e9 como uma fissura na superf\u00edcie congelada. O sentido avan\u00e7a, mas \u00e9 constantemente desviado, como fluxos de \u00e1gua encontrando novas rotas sob o gelo derretido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u201cC\u00e9u extinto\u201d, h\u00e1 tamb\u00e9m um componente autobiogr\u00e1fico sutil, j\u00e1 que Agustoni, vivendo entre Brasil e Su\u00ed\u00e7a, testemunha de perto o derretimento das geleiras alpinas. Essa proximidade geogr\u00e1fica transforma o gelo em vizinho, em parente amea\u00e7ado. A\u00ed, estamos criando parentesco n\u00e3o por escolha, mas por conviv\u00eancia for\u00e7ada: estar implicado no destino de outra forma de exist\u00eancia pela simples partilha de um territ\u00f3rio e de um tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Quimera<\/em> se mostra, ent\u00e3o, como um livro que responde \u00e0s inquieta\u00e7\u00f5es do Antropoceno e o faz por meio de uma estrat\u00e9gia po\u00e9tica criar parentescos pelo clin\u00e2men: um movimento aleat\u00f3rio como ponto de partida para encontrar o outro. O parentesco que emerge aqui n\u00e3o \u00e9 rom\u00e2ntico nem idealizado; \u00e9 constru\u00eddo na fric\u00e7\u00e3o entre o humano e o n\u00e3o humano, a informa\u00e7\u00e3o (jornal\u00edstica, cient\u00edfica, pessoal) e sua interpreta\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. As cinco partes do livro funcionam como est\u00e1gios de um mesmo gesto: \u201cTempo verde\u201d inscreve o corpo no vegetal; \u201cEu tamb\u00e9m sou a fera\u201d habita a pele reconstitu\u00edda do animal; \u201cAs quimeras\u201d mistura jornalismo e arqueologia evolutiva; \u201cSeres rupestres\u201d l\u00ea o mineral como arquivo; e \u201cC\u00e9u extinto\u201d ouve o gelo como voz urgente. Essa progress\u00e3o configura um mapeamento de v\u00ednculos que atravessam escalas e dom\u00ednios, tentativas de encontrar parentescos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como ocorre em obras situadas no campo da ecopoesia (embora a autora n\u00e3o se limite formalmente a essa filia\u00e7\u00e3o), <em>Quimera<\/em> transita por uma linha t\u00eanue entre inova\u00e7\u00e3o e recorr\u00eancia. Na maior parte do tempo, Agustoni evita imagens desgastadas que frequentemente permeiam a literatura ambiental, como mares \u201cinfinitos\u201d, florestas \u201cintocadas\u201d e p\u00e1ssaros \u201clivres\u201d, e prefere usar uma imag\u00e9tica que s\u00f3 agora come\u00e7a a se decantar entre os poetas contempor\u00e2neos preocupados com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas: os animais em extin\u00e7\u00e3o, as geleiras derretendo, o dado cient\u00edfico emergindo como disparador po\u00e9tico. \u00c9 m\u00e9rito da autora, contudo, que esses momentos, quando surgem, sejam recontextualizados por meio de associa\u00e7\u00f5es inesperadas ou pelo contraste com imagens concretas e espec\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O di\u00e1logo que busquei fazer com o texto de Farrier fortalece a dimens\u00e3o cr\u00edtica da obra. Quando Agustoni se det\u00e9m em detalhes mais concretos e tang\u00edveis, como o musgo no quintal, a pele costurada do animal e a rachadura no gelo, a rela\u00e7\u00e3o multiesp\u00e9cie se torna palp\u00e1vel, e a linguagem se abre para a multiplicidade de mundos que Farrier identifica como essenciais \u00e0 travessia do Antropoceno. \u00c9 nessa concretude, e n\u00e3o em abstra\u00e7\u00f5es excessivamente l\u00edricas, que o livro alcan\u00e7a sua maior pot\u00eancia. Ao recusar solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis e preferir habitar zonas de contato inc\u00f4modas, Agustoni se aproxima do que Farrier descreve como imagina\u00e7\u00e3o apocal\u00edptica reveladora, reconhecendo as perdas iminentes e percebendo as rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis que podem emergir de seus escombros. Num presente inst\u00e1vel, talvez esse seja o gesto mais urgente: n\u00e3o apenas narrar o mundo que temos, mas treinar a linguagem para participar da cria\u00e7\u00e3o de mundos ainda por vir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"654df6df-cc80-4c82-a9da-f135232c457d\">Doutorando em Estudos Liter\u00e1rios Aplicados: Literatura, Ensino e Escrita Criativa pela UFRGS. <a href=\"#654df6df-cc80-4c82-a9da-f135232c457d-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"12b5e9c3-14c6-4abc-96e6-a9536d3bc9c9\">David Farrier. <em>Anthropocene Poetics<\/em>: Deep Time, Sacrifice Zones, and Extinction. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2019. <a href=\"#12b5e9c3-14c6-4abc-96e6-a9536d3bc9c9-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"71ebbed2-bc75-4a9b-af75-0811e88f78bf\">Donna Haraway. <em>Ficar com o problema<\/em>: fazer parentes no Chthluceno. Tradu\u00e7\u00e3o: Ana Luiza Braga. S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es, 2023. <a href=\"#71ebbed2-bc75-4a9b-af75-0811e88f78bf-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"f3b1f8ce-26b1-43cf-bf25-e7e607fb6e66\">Donna Haraway, <em>op. cit.<\/em> <a href=\"#f3b1f8ce-26b1-43cf-bf25-e7e607fb6e66-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 4 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 14 \u2013 janeiro de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Quimera&#8221;, livro de poemas de Prisca Agustoni, contempla novas formas de parentesco que transitam pelos meandros do Antropoceno<\/p>\n","protected":false},"author":55,"featured_media":1258,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Doutorando em Estudos Liter\u00e1rios Aplicados: Literatura, Ensino e Escrita Criativa pela UFRGS.\",\"id\":\"654df6df-cc80-4c82-a9da-f135232c457d\"},{\"content\":\"David Farrier. <em>Anthropocene Poetics<\/em>: Deep Time, Sacrifice Zones, and Extinction. 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