{"id":1259,"date":"2026-01-09T18:15:16","date_gmt":"2026-01-09T21:15:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1259"},"modified":"2026-02-11T19:22:20","modified_gmt":"2026-02-11T22:22:20","slug":"a-grande-apropriacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/01\/09\/a-grande-apropriacao\/","title":{"rendered":"Venezuela, a Grande Apropria\u00e7\u00e3o do Petr\u00f3leo e a Compensa\u00e7\u00e3o Indevida"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Sabrina Fernandes<sup data-fn=\"9038939b-e084-4db9-8998-1d769a88f9e0\" class=\"fn\"><a href=\"#9038939b-e084-4db9-8998-1d769a88f9e0\" id=\"9038939b-e084-4db9-8998-1d769a88f9e0-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os governos de esquerda na Am\u00e9rica Latina, \u00e9 fundamental deter o roubo extrativista dos recursos naturais viabilizado pelo legado colonial, pela legisla\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil e por contratos corruptos que autorizam corpora\u00e7\u00f5es estrangeiras a perfurar e extrair min\u00e9rio \u00e0 vontade. \u00c9 por isso que a nacionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 prefer\u00edvel em detrimento dos royalties.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nossa regi\u00e3o \u00e9 abundante em riquezas consideradas \u201cestrat\u00e9gicas\u201d ou \u201ccr\u00edticas\u201d para o restante do mundo. <a href=\"https:\/\/www.break-down.org\/where-capital-and-nature-meet\/\">Thea Riofrancos, autora do livro <em>Extraction<\/em><\/a>, destaca que esses termos n\u00e3o s\u00e3o aleat\u00f3rios, e sim que elas t\u00eam uma origem b\u00e9lica. Os minerais e os combust\u00edveis s\u00e3o estrat\u00e9gicos n\u00e3o apenas porque eles podem ser usados para tecnologias importantes e para as finalidades do desenvolvimento, mas tamb\u00e9m porque eles n\u00e3o s\u00e3o distribu\u00eddos de maneira igualit\u00e1ria. Alguns territ\u00f3rios \u2013 e, consequentemente, alguns pa\u00edses \u2013 disp\u00f5em de mais de alguns desses recursos do que de outros. Portanto, no terreno geopol\u00edtico, tamb\u00e9m \u00e9 importante garantir acesso a esses recursos, mesmo se eles est\u00e3o depositados em terras que n\u00e3o s\u00e3o as suas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Obviamente, conhecendo a hist\u00f3ria das guerras modernas, sabemos que os combust\u00edveis f\u00f3sseis cumpriram um papel decisivo na m\u00e1quina mort\u00edfera pelos recursos. Frequentemente, por\u00e9m, esses atos n\u00e3o s\u00e3o justificados com base na busca pelo petr\u00f3leo. Embora o imperialismo seja profundamente iliberal, dado que ele opera por meio da viol\u00eancia, do autoritarismo e da domina\u00e7\u00e3o, testemunhamos um longo per\u00edodo de interven\u00e7\u00e3o imperialista respaldada em termos liberais. As na\u00e7\u00f5es europeias que foram respons\u00e1veis por fatiar territ\u00f3rios inteiros, separando pessoas e saqueando os recursos naturais durante o per\u00edodo colonial, preferiram posteriormente apoiar incurs\u00f5es de guerra, espionagem e agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em nome da liberdade, dos direitos humanos, da democracia e da estabilidade. Pouco importava o modo como esses termos eram definidos, contanto que se pudesse atribuir-lhes uma grande import\u00e2ncia e us\u00e1-los para dar legitimidade a atos amplamente ileg\u00edtimos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os Estados Unidos, no entanto, foram o pa\u00eds que aperfei\u00e7oou esse sistema. Ao mesmo tempo que derrubaram governos democr\u00e1ticos no Sul Global a fim de instaurar ditaduras favor\u00e1veis a eles, os Estados Unidos instrumentalizaram o fantasma do comunismo, alegando que a verdadeira liberdade era a liberdade capitalista, tendo os Estados Unidos como a sua maior representante. Essa l\u00f3gica sustentou uma narrativa que ainda sobrevive fortemente na cabe\u00e7a das pessoas. Enquanto outros pa\u00edses deveriam respeitar a soberania de cada um e evitar uma interven\u00e7\u00e3o \u2013 a menos que fosse feita coletivamente por meio do multilateralismo e da diplomacia \u2013, os Estados Unidos eram diferentes. Os seus super-her\u00f3is da fic\u00e7\u00e3o eram respons\u00e1veis pelo mundo inteiro. Quando um meteoro se aproxima, cabe ao presidente dos Estados Unidos anunciar o fato ao planeta. Quando os alien\u00edgenas chegam, eles querem conhecer os pol\u00edticos e os cientistas estadunidenses. Nosso planeta fict\u00edcio \u00e9 baseado em uma vers\u00e3o da realidade em que os Estados Unidos se autoproclamaram respons\u00e1veis pelo mundo, apenas para poderem domin\u00e1-lo por inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Venezuela<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que me leva ao caso da Venezuela. Embora muitas hist\u00f3rias sobre os \u00faltimos anos na Venezuela tenham tratado das elei\u00e7\u00f5es de 2024 e tenham questionado se Maduro de fato ganhou a presid\u00eancia, os atos recentes de Donald Trump mostram que ele n\u00e3o est\u00e1 nada preocupado em fingir que ele derrubou um ditador para instaurar a democracia, tal como afirmava a ret\u00f3rica da interven\u00e7\u00e3o no Sul Global utilizada pelos seus precursores. At\u00e9 mesmo Maria Corina Machado, a l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o de direita venezuelana, foi escanteada por Trump, que afirmou que ela n\u00e3o tem o apoio necess\u00e1rio para governar a Venezuela neste momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se Trump estivesse convencido de que a narrativa de levar a democracia fosse importante, ele com certeza enalteceria Machado e promoveria Edmundo Gonz\u00e1lez Urrutia como o leg\u00edtimo vencedor das elei\u00e7\u00f5es de 2024, afirmando que ele seria o pr\u00f3ximo presidente. Foi o que Macron fez, afinal de contas, e isso estaria alinhado com a estrat\u00e9gia encampada poucos anos antes por Juan Guaid\u00f3, que foi tratado como o presidente venezuelano por muitos pa\u00edses, mesmo que ele tenha de fato governado o pa\u00eds tanto quanto eu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que suas amea\u00e7as de mais ataques militares contra a Venezuela pudessem ter sido suficientes para impor Edmundo Gonz\u00e1lez Urrutia como presidente \u2013 que teria aceitado de bom grado o papel de marionete leal de Trump \u2013, Trump claramente tem outros planos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As a\u00e7\u00f5es do seu segundo mandato n\u00e3o s\u00e3o justificadas segundo a ordem liberal padr\u00e3o. Ele n\u00e3o est\u00e1 preocupado com a apar\u00eancia de levar a democracia a lugar nenhum \u2013 e muito menos com o respeito aos direitos humanos. Pelo contr\u00e1rio, seu objetivo \u00e9 muito bin\u00e1rio: direitos s\u00e3o direitos capitalistas, e aqueles que se op\u00f5em aos seus planos capitalistas fisiologistas n\u00e3o devem gozar de direito algum. Obviamente isso \u00e9 terr\u00edvel para os estadunidenses, principalmente a classe trabalhadora que n\u00e3o consegue pagar as contas, enquanto o presidente se assegura de que os seus amigos se tornam mais ricos a cada minuto. E \u00e9 p\u00e9ssimo para o resto de n\u00f3s, principalmente na periferia, uma vez que, agora, esse imperialismo pode ser legitimado por meio de um punhado de outros instrumentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acontece que n\u00e3o precisamos mais viver sob um governo controverso (verdadeiramente autorit\u00e1rio ou pretensamente autorit\u00e1rio) para justificar a interven\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos. Os est\u00fapidos cidad\u00e3os do mundo que ajudaram a apoiar os EUA como pol\u00edcia do mundo, como sistema jur\u00eddico mundial e como salvadores da p\u00e1tria, certamente ficar\u00e3o decepcionados ao descobrir que n\u00e3o, Trump n\u00e3o vai salvar Jair Bolsonaro da condena\u00e7\u00e3o e da pris\u00e3o decorrentes de seus crimes contra a democracia brasileira. Por que Trump faria isso, quando o que ele quer s\u00e3o nossa carne, nosso caf\u00e9, nossos min\u00e9rios? Nunca se tratou de qualquer vers\u00e3o estadunidense de democracia; sempre se tratou de mercadorias, e Trump n\u00e3o tem medo de afirmar isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu discurso p\u00fablico sobre a incurs\u00e3o militar na Venezuela e o rapto de Maduro \u2013 que era, gostemos dele ou n\u00e3o, o presidente <em>em exerc\u00edcio<\/em> do pa\u00eds \u2013 seguiram uma vers\u00e3o completamente diferente comparada com o que algu\u00e9m como Bush teria feito. Os venezuelanos deveriam ficar contentes com a sa\u00edda de Maduro, porque, de acordo com Trump, muitos deles queriam o Maduro fora de qualquer jeito, e porque agora, com o controle dos Estados Unidos, eles ser\u00e3o felizes, eles ver\u00e3o que as coisas v\u00e3o melhorar e eles se beneficiar\u00e3o de todo o petr\u00f3leo que Trump e as empresas estadunidenses ir\u00e3o extrair e vender em prol dos venezuelanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maduro ficou no caminho da apropria\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo, portanto ele tinha que ser removido. N\u00e3o teve nada a ver com o jeito como Maduro estava governando, nem com o medo do Socialismo do S\u00e9culo XXI chavista e o que ele representou. N\u00e3o \u00e9 como na Guerra Fria \u2013 por mais que essa interpreta\u00e7\u00e3o possa ser popular entre a esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A nacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo venezuelano foi uma empreitada muito mais antiga, que data de 1976, quando o presidente Carlos Andr\u00e9s P\u00e9rez assumiu o controle da ind\u00fastria do petr\u00f3leo. Foi uma \u00e9poca em que outros pa\u00edses tamb\u00e9m estavam nacionalizando seu suprimento de petr\u00f3leo, como, por exemplo, a L\u00edbia, a Arg\u00e9lia e o Iraque. Para os Estados Unidos, isso foi uma p\u00e9ssima not\u00edcia. Por mais que o pa\u00eds seja um produtor de petr\u00f3leo, suas reservas n\u00e3o s\u00e3o nada se comparadas \u00e0s da Ar\u00e1bia Saudita, por exemplo, e mais tarde n\u00e3o seriam p\u00e1reo para a Venezuela e suas gigantescas reservas de petr\u00f3leo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, esse processo de nacionaliza\u00e7\u00e3o foi bem organizado. Houve expropria\u00e7\u00e3o e anula\u00e7\u00e3o de contratos, com claras perdas em termos de lucros futuros para as empresas estadunidenses envolvidas, mas tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/www.caracaschronicles.com\/2025\/12\/26\/the-theft-that-never-was-inside-venezuelas-1976-oil-takeover\/\">houve acordos e algum n\u00edvel de coopera\u00e7\u00e3o<\/a>. Em termos capitalistas, a expropria\u00e7\u00e3o deixou o Estado venezuelano em d\u00edvida com as empresas petroleiras estrangeiras devido aos contratos rompidos. Em termos de repara\u00e7\u00e3o anti-imperialista, as empresas j\u00e1 tinham se beneficiado de concess\u00f5es e favores em demasia, portanto, qualquer valor pago \u00e0 \u00e9poca j\u00e1 deveria t\u00ea-las deixado quites.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A grande apropria\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, os Estados Unidos est\u00e3o usando o epis\u00f3dio da nacionaliza\u00e7\u00e3o para justificar seus pr\u00f3ximos passos na Venezuela. Mesmo que uma guerra \u00e0s drogas fict\u00edcia seja \u00fatil para perseguir l\u00edderes de Estado \u2013 assim como fez parte do argumento para indiciar Maduro e \u00e9 tamb\u00e9m um elemento nas acusa\u00e7\u00f5es que Trump faz a Gustavo Petro, na Col\u00f4mbia \u2013, ela \u00e9 muito fr\u00e1gil para garantir a apropria\u00e7\u00e3o do setor de commodities da Venezuela e para coloc\u00e1-lo sob o controle dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dado que a interven\u00e7\u00e3o de Trump n\u00e3o tem nada a ver com ajudar realmente a oposi\u00e7\u00e3o venezuelana \u2013 foi, na verdade, essa oposi\u00e7\u00e3o que ajudou o Trump em todo o processo \u2013, o objetivo \u00e9 estabelecer um argumento que permitisse aos Estados Unidos se apoderarem da ind\u00fastria do petr\u00f3leo venezuelana. Para Trump, isso \u00e9 apenas tomar de volta o que o Estado venezuelano tirou das empresas estadunidenses. Em vez de tentar cobrar uma suposta d\u00edvida em nome das corpora\u00e7\u00f5es petroleiras, Trump quer acesso total ao solo venezuelano. N\u00e3o se trata de lucros perdidos devido \u00e0 nacionaliza\u00e7\u00e3o; trata-se de uma mensagem clara de que, se algu\u00e9m nacionalizar e impedir o acesso dos Estados Unidos aos recursos, eles podem encontrar uma desculpa para assumir o controle de tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estranhamente, na Am\u00e9rica Latina, \u00e9 muito comum vermos a esquerda desenvolvimentista alegar que \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio extrair o combust\u00edvel f\u00f3ssil, pois, se n\u00e3o o fizermos, o imperialista vir\u00e1 tom\u00e1-lo de n\u00f3s. Existe a fantasia de que os imperialistas s\u00f3 podem tomar o que ainda n\u00e3o foi desenvolvido, e n\u00e3o ind\u00fastrias inteiras. O caso da Venezuela \u00e9 a prova de que isso n\u00e3o tem import\u00e2ncia. Enquanto o mundo for movido por combust\u00edveis f\u00f3sseis, os imperialistas podem declarar guerra e dar golpes a fim de tom\u00e1-los para si.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora, \u00e9 claro, isso nos obrigue a desenvolver uma melhor estrat\u00e9gia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 soberania \u2013 que foi elaborada por mim como <a href=\"https:\/\/the.ecocene.blog\/p\/ecological-sovereignty-from-mutual\">soberania ecol\u00f3gica em um texto anterior<\/a> \u2013, eu gostaria de chamar a aten\u00e7\u00e3o para outro ponto. Dado que a corrida por minerais cr\u00edticos tamb\u00e9m \u00e9 determinante na geopol\u00edtica, especialmente em uma transi\u00e7\u00e3o verde marcada por interesses capitalistas e pela tecnologia, muitos pa\u00edses est\u00e3o ansiosos para nacionalizarem seu l\u00edtio e seus minerais de terras raras antes que seja tarde demais. O Brasil, por exemplo, dadas as suas vastas reservas, vem trabalhando em uma pol\u00edtica das terras raras; por\u00e9m, empresas estrangeiras j\u00e1 est\u00e3o operando no pa\u00eds antes mesmo de que possamos dizer \u201co neod\u00edmio \u00e9 nosso\u201d!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De fato, assim como no caso do petr\u00f3leo, est\u00e1 em jogo, aqui, uma batalha pelo futuro ecol\u00f3gico do planeta. Evidentemente, um pouco de extra\u00e7\u00e3o e minera\u00e7\u00e3o tem que ocorrer para viabilizar a transi\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica; por\u00e9m, o sistema atual \u00e9 descoordenado e baseado nos objetivos capitalistas; n\u00e3o \u00e9 um sistema que poderia determinar quanta extra\u00e7\u00e3o \u00e9 permitida, a que pre\u00e7o, em que condi\u00e7\u00f5es e para quais finalidades. Da forma como o extrativismo capitalista se d\u00e1 hoje, tudo est\u00e1 \u00e0 merc\u00ea da apropria\u00e7\u00e3o. Zonas de sacrif\u00edcio s\u00e3o normalizadas, e a \u00fanica coisa que importa \u00e9 o quanto os pa\u00edses v\u00e3o conseguir negociar com corpora\u00e7\u00f5es nacionais e multinacionais para determinar a sua fatia do bolo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Compensa\u00e7\u00e3o indevida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que, mais recentemente, tentativas de nacionalizar os recursos naturais, de interromper empreendimentos danosos ou de ao menos determinar a forma e o objetivo da extra\u00e7\u00e3o t\u00eam enfrentado uma s\u00e9rie de instrumentos de press\u00e3o por parte das empresas estrangeiras e seus respectivos pa\u00edses. Quando a popula\u00e7\u00e3o do Panam\u00e1 decidiu que n\u00e3o queria que uma mina de cobre canadense continuasse em funcionamento, dado que o contrato conflitava com a pol\u00edtica nacional de minera\u00e7\u00e3o e com as leis ambientais do pa\u00eds, a empresa entrou com um processo de arbitragem reivindicando indeniza\u00e7\u00f5es que poderiam afundar a economia panamenha se o pa\u00eds tivesse que ressarcir integralmente a empresa. Como resultado, o pa\u00eds est\u00e1, agora, inclinado a estender o funcionamento da empresa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outros pa\u00edses, como Honduras, t\u00eam sido um grande alvo desse tipo de processo judicial, conhecido como arbitragem de lit\u00edgios investidor-Estado. Assim, quando Trump decidiu apoiar diretamente um candidato em Honduras, n\u00e3o foi porque ele estava preocupado com o governo de Xiomara Castro ou at\u00e9 mesmo com o fato de que a esquerda estava se reorganizando no pa\u00eds. Honduras n\u00e3o significa tanto assim para Trump, ideologicamente falando. Mas quando Honduras diz n\u00e3o \u00e0s zonas econ\u00f4micas especiais e \u00e0 minera\u00e7\u00e3o irrestrita, ela se coloca no caminho do fluxo de mercadorias. E Trump se importa bastante com o fluxo de mercadorias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os interesses de Trump na Argentina, na Col\u00f4mbia, no Chile, entre outros, est\u00e3o todos alinhados. Obviamente, \u00e9 vantajoso para Trump ter parceiros ideol\u00f3gicos na regi\u00e3o, mas n\u00e3o lhe serviria de nada se tudo o que Kast fizesse no Chile fosse elogiar Trump e falar bobagem sobre os imigrantes. Trump quer o l\u00edtio tanto quanto ele quer que o petr\u00f3leo continue fluindo como se n\u00e3o houvesse mudan\u00e7a clim\u00e1tica alguma. N\u00e3o \u00e9 preciso ser um capitalista verde para querer se apoderar de todo min\u00e9rio estrat\u00e9gico poss\u00edvel; basta ser um capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por isso que \u00e9 t\u00e3o importante que Trump esteja usando como justificativa para ocupar a Venezuela economicamente e politicamente por um tempo \u2013 talvez por um longo per\u00edodo \u2013 (1) o pagamento como compensa\u00e7\u00e3o devida \u00e0 nacionaliza\u00e7\u00e3o e (2) o poder de verdadeiramente produzir e desenvolver ao m\u00e1ximo o recurso em quest\u00e3o. Ele consegue se apropriar de recursos com um valor muito maior do que as receitas que qualquer uma das empresas supostamente perdeu, ao mesmo tempo que fortalece o poder monopolista que vai silenciar a dissid\u00eancia de outras na\u00e7\u00f5es interessadas em comprar esse recurso. Se, antes, n\u00e3o se podia comprar o petr\u00f3leo venezuelano por causa das san\u00e7\u00f5es, agora \u00e9 poss\u00edvel compr\u00e1-lo da mesma na\u00e7\u00e3o que aplicou essas san\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma jogada de mestre capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa jogada envia uma mensagem sobre a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos recursos. Do ponto de vista ecol\u00f3gico, ela mostra que nacionalizar os recursos n\u00e3o \u00e9 suficiente para garantir a soberania, ao mesmo tempo que aprofunda a l\u00f3gica destrutiva da produ\u00e7\u00e3o global. Do ponto de vista da seguran\u00e7a, ela mostra que qualquer pa\u00eds pode se tornar um alvo se nacionalizar ind\u00fastrias em que houve investimento pr\u00e9vio dos Estados Unidos. Ela envia uma mensagem sobre pol\u00edticas internas que tratam o petr\u00f3leo e os min\u00e9rios como recursos nacionais, cedidos, por\u00e9m, a corpora\u00e7\u00f5es multinacionais tamb\u00e9m por meio de contratos de parceria. Aparentemente, nacionalizar qualquer coisa que foi tocada antes pelo diabo faz com que o diabo volte para se apoderar de tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso nos incita a levar a solidariedade internacional ao pr\u00f3ximo patamar. Por mais que a situa\u00e7\u00e3o atual tenha a ver com a Venezuela, ela claramente <em>n\u00e3o \u00e9 somente<\/em> sobre a Venezuela. A nacionaliza\u00e7\u00e3o de recursos nos deixa vulner\u00e1veis a processos legais, san\u00e7\u00f5es e guerras. Muitos pa\u00edses passaram por v\u00e1rias modalidades disso por terem simplesmente negado acesso irrestrito \u00e0s empresas estadunidenses. Contudo, se no passado os Estados Unidos tiveram que orquestrar golpes elaborados ou se dar ao trabalho de fingir alterar um regime em nome da democracia, agora a mudan\u00e7a de regime e a mudan\u00e7a de propriedade dos recursos podem ir de m\u00e3os dadas \u00e0s claras. Para sobrevivermos a isso precisamos reafirmar nossa soberania, sim, mas tamb\u00e9m precisamos realmente de uma mudan\u00e7a no paradigma de produ\u00e7\u00e3o global, em que as ind\u00fastrias e os bens sejam remodelados de acordo com uma l\u00f3gica p\u00f3s-extrativista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na situa\u00e7\u00e3o atual, enquanto houver v\u00e1rios compradores para esses recursos, sem preocupa\u00e7\u00e3o alguma acerca de como eles foram apropriados e extra\u00eddos, haver\u00e1 um imperialista \u00e0 espreita. No contexto atual, ter uma democracia liberal saud\u00e1vel tampouco nos protege (as tarifas s\u00e3o a prova disso!). Para frear o imperialismo dos Estados Unidos precisamos enfrentar Trump hoje, enquanto ele procura expandir sua zona de influ\u00eancia; mas para realmente det\u00ea-lo, precisamos de uma transi\u00e7\u00e3o ecossocialista que revalorize os recursos e o seu uso, e que torne alguns deles \u2013 principalmente os combust\u00edveis f\u00f3sseis \u2013 t\u00e3o obsoletos para a produ\u00e7\u00e3o mundial que n\u00e3o valer\u00e1 mais a pena declarar guerra por eles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado no substack <em>Ecocene<\/em>, em 4 de janeiro de 2026. Agradecemos encarecidamente \u00e0 autora por ceder os direitos da tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/the.ecocene.blog\/p\/venezuela-the-big-oil-grab-and-undue\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Barros.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"9038939b-e084-4db9-8998-1d769a88f9e0\">Mestra em Economia Pol\u00edtica e doutora em Sociologia pela Carleton University. Atualmente, \u00e9 a diretora de pesquisa do <a href=\"https:\/\/alameda.institute\/\">Alameda Institute<\/a>. \u00c9 tamb\u00e9m autora do livro <a href=\"https:\/\/www.planetadelivros.com.br\/livro-se-quiser-mudar-o-mundo\/324410\"><em>Se quiser mudar o mundo: um guia pol\u00edtico para quem se importa<\/em><\/a>. <a href=\"#9038939b-e084-4db9-8998-1d769a88f9e0-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 14 \u2013 janeiro de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota sobre o imperialismo extrativista e por que ele \u00e9 o inimigo da paz<\/p>\n","protected":false},"author":56,"featured_media":1262,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Mestra em Economia Pol\u00edtica e doutora em Sociologia pela Carleton University. 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