{"id":1264,"date":"2026-01-09T18:15:38","date_gmt":"2026-01-09T21:15:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1264"},"modified":"2026-02-11T19:22:16","modified_gmt":"2026-02-11T22:22:16","slug":"entrevista-com-augusto-quenard","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/01\/09\/entrevista-com-augusto-quenard\/","title":{"rendered":"Entrevista com Augusto Quenard"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que significa escrever poesia em tempos de crise clim\u00e1tica? Augusto Quenard n\u00e3o apenas responde a essa pergunta, como tamb\u00e9m apresenta, com louvor, um livro de poemas ao mesmo tempo singelo e impactante, em que a rela\u00e7\u00e3o entre o humano e o meio rural aparece de forma renovada, em intertextualidade com a poesia buc\u00f3lica e a poesia campestre que marcaram tanto o Romantismo liter\u00e1rio em sua origem, quanto a cultura gaud\u00e9ria na qual o poeta orgulhosamente se insere. <em>Campo Sem\u00e2ntico<\/em><sup data-fn=\"164829d8-7d97-4c9c-a6ae-7632c80b4f86\" class=\"fn\"><a href=\"#164829d8-7d97-4c9c-a6ae-7632c80b4f86\" id=\"164829d8-7d97-4c9c-a6ae-7632c80b4f86-link\">1<\/a><\/sup> \u00e9, pois, um exemplo brilhante de como a poesia pode reagir ao contexto, trabalhando a linguagem a fim de elaborar uma vis\u00e3o l\u00edrica sobre os compromissos ecol\u00f3gicos de toda uma gera\u00e7\u00e3o que \u00e9 marcada pelo acirramento do aquecimento global e seus efeitos, pela revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e pelas mudan\u00e7as muitas vezes cru\u00e9is nas formas de vida das grandes cidades. De fato, no livro de Quenard encontramos uma variedade de formas po\u00e9ticas que d\u00e3o testemunho da sua habilidade de escritor. Os sonetos que abrem cada uma das tr\u00eas partes do livro s\u00e3o mesclados com formas mais breves, outras mais populares, algumas citacionais, sempre com dom\u00ednio t\u00e9cnico e sem o empolamento e a despretens\u00e3o que marcam a produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica contempor\u00e2nea. Mas, acima de tudo isso, \u00e9 na tem\u00e1tica que o livro deixa sua impress\u00e3o mais forte: as plantas, os animais, o trabalho na lavoura e um olhar fresco sobre o campo s\u00e3o acompanhados de personagens, algo inusual na poesia em geral. Ad\u00e3o e Pedro \u2013 seriam os patriarcas do catolicismo, ou apenas uma coincid\u00eancia de nomes? \u2013 surgem dos poemas como lavradores, homens simples e dignos, que acompanham o eu-l\u00edrico em sua lida no campo e o ensinam a ler a terra e as plantas, desviando a aten\u00e7\u00e3o do leitor para o essencial: o ciclo de vida e morte que, ao se renovar, alimenta a humanidade, seus triunfos e suas ang\u00fastias. Tamb\u00e9m o tema do trabalho est\u00e1 presente no livro, de modo que, em meio aos elementos naturais que se destacam nos versos, v\u00ea-se a labuta como meio de subsist\u00eancia e, ao mesmo tempo, forma de se relacionar com a terra e com a natureza. Por tudo isso, os poemas de Quenard apontam para a ecologia e se tornam ainda mais valiosos \u00e0 luz das incessantes cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas que abatem o Sul do Brasil. \u00c9 para falar desses e de outros assuntos que o autor t\u00e3o gentilmente atendeu o pedido do <em>Carbono<\/em> para uma entrevista. Nas respostas abaixo, podemos desfrutar de sua vis\u00e3o sobre a poesia e as quest\u00f5es ecol\u00f3gicas, bem como notar a acuidade do seu pensamento e a maturidade de sua escrita.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Seu livro parece querer trazer de volta o campo para o centro da poesia. Ainda que n\u00e3o sejam buc\u00f3licos, seus poemas esbanjam temas ligados ao \u00e2mbito rural, numa tradi\u00e7\u00e3o que remete a Wordsworth, Whitman, Caeiro. Qual a import\u00e2ncia de se recuperar esses temas no mundo urbanizado, fren\u00e9tico, consumista de hoje em dia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>AUGUSTO QUENARD:<\/strong> N\u00e3o saberia dizer sobre a import\u00e2ncia, mas acho que tem v\u00e1rios temas do campo que t\u00eam sido colocados entre as aspira\u00e7\u00f5es de um esp\u00edrito coletivo contempor\u00e2neo. E digo \u201caspira\u00e7\u00e3o\u201d e n\u00e3o \u201canseio\u201d porque me refiro ao que ressoa com a primeira palavra, e evito o que ressoa com a segunda. Acho que a faceta do campo com a que a gente se relaciona num ambiente j\u00e1 domesticado n\u00e3o \u00e9 tanto a da qualidade indiferente, amea\u00e7ante ou ca\u00f3tica da natureza; no contexto rural habitado, a rela\u00e7\u00e3o com as plantas e os animais \u00e9 bastante simbi\u00f3tica, no sentido de que os seres vivos que nos favorecem tamb\u00e9m podem se beneficiar do nosso cuidado (embora haja claramente uma sele\u00e7\u00e3o unilateral nisso), e, no entanto, por mais que as pessoas queiram as coisas \u00e0 sua maneira, tem algumas regras que s\u00e3o impostas pela natureza: como o tempo. Eu lembro, por exemplo, do encantamento que me causava pensar no tempo do feij\u00e3o. A gente pode usar m\u00e1quinas e produtos para melhorar sua efici\u00eancia, mas a complexidade da semente \u00e9 insubstitu\u00edvel, e ela imp\u00f5e seu ritmo, subjuga quem deseja seu fruto a uma espera regular, que se parece com um respiro dilatado. Isso, o ritmo que podemos chamar de \u201cdas plantas\u201d (ainda que j\u00e1 seja tradu\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa linguagem) me parece algo ao que se tem dado import\u00e2ncia no contexto urbano, inclusive como forma de lidar com as v\u00e1rias ang\u00fastias. Para mim, est\u00e1 intimamente ligado a outro tema que nos importa atualmente: os ciclos, respeitar os momentos de produtividade e descanso. No campo a gente pode ver isso em tudo que nos rodeia, parece como se a gesta\u00e7\u00e3o de tudo o que faz existir o campo fosse uma teia muito imbricada de ciclos que se influenciam reciprocamente: o dia e a noite, as esta\u00e7\u00f5es, a reprodu\u00e7\u00e3o, a flora\u00e7\u00e3o, as migra\u00e7\u00f5es animais, as hiberna\u00e7\u00f5es, as cheias dos rios, os momentos prop\u00edcios para lavrar, plantar, colher etc. O que nos leva a outros temas: a espera e a humildade, ou o aprendizado da frustra\u00e7\u00e3o. Tudo est\u00e1 posto nessa rela\u00e7\u00e3o espinhenta mas amplamente f\u00e9rtil entre o homem e sua linguagem e a natureza e sua introvers\u00e3o, logicamente, quando se olha para o campo com um intuito de conv\u00edvio mais do que de dom\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Destaco outros dois aspectos, sem me aprofundar, de natureza humana. Primeiro, o lado sens\u00edvel da gente de campo. Aqui no Sul temos uma tradi\u00e7\u00e3o da identidade ga\u00facha que de modo geral se fundamenta em \u201cqualidades\u201d como coragem, for\u00e7a, resist\u00eancia, honra, determina\u00e7\u00e3o e por a\u00ed vai. Por\u00e9m, quando a gente convive com pessoas de mais idade, vemos que o pessoal do interior tamb\u00e9m est\u00e1 mergulhado em experi\u00eancias de carinho, beleza, sensibilidade, compaix\u00e3o. S\u00f3 que talvez ainda persista uma grade de t\u00f3picos e experi\u00eancias public\u00e1veis ou \u00edntimas que responde a modelos do passado. Me aproximando de algumas pessoas, vi como muitos cultivos particulares s\u00e3o feitos por um desejo de beleza, por exemplo, e n\u00e3o de autossufici\u00eancia alimentar, vi como as rela\u00e7\u00f5es interesp\u00e9cies s\u00e3o evidentemente sens\u00edveis e n\u00e3o de servid\u00e3o, vi como o cuidado do outro \u00e9 um h\u00e1bito amplamente praticado entre os vizinhos, assim como a necessidade de participar de um \u00e2mbito coletivo e comunit\u00e1rio. Acho que tudo isso nos importa hoje diante desse cen\u00e1rio fren\u00e9tico de produ\u00e7\u00e3o e consumo, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0s refer\u00eancias dos temas rurais, acho que intimamente acabam sendo mais latinas, como Maria L\u00facia Alvim, Jo\u00e3o Cabral, Leonardo Fr\u00f3es, Lara de Lemos, Alice Ruiz, Mercedes Sosa, Atahualpa Yupanqui\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: O livro tem um tra\u00e7o marcante e caracter\u00edstico, que \u00e9 a presen\u00e7a de personagens, como Ad\u00e3o e Pedro. Isso faz com que os poemas se conectem como numa cronologia sem narrativa, mas como parte de algo que \u00e9 c\u00edclico. Voc\u00ea diria que a ideia \u00e9 recuperar alguma sensa\u00e7\u00e3o de tempo que nos conectaria de novo aos elementos da natureza?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>AUGUSTO QUENARD: <\/strong>Sim, de algum modo antecipei isso na resposta anterior. A ideia de personagens que v\u00e3o se apresentando \u2013 e uso essa palavra porque os poemas que tratam de personagens se referem principalmente aos primeiros contatos com elas \u2013 tem a ver com o passo do tempo de uma hipot\u00e9tica viv\u00eancia no campo, que inicia com a migra\u00e7\u00e3o e finaliza com uma volta \u00e0 origem que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel depois da transforma\u00e7\u00e3o subjetiva; com o nascimento e a morte como met\u00e1fora maior de um ciclo. A rela\u00e7\u00e3o com a morte, inclusive, se transforma radicalmente quando se observa a natureza. A morte perde seu matiz tr\u00e1gico para se tornar indispens\u00e1vel para a coexist\u00eancia de tanta diversidade. A interpreta\u00e7\u00e3o da morte que d\u00e1 lugar a outras formas de vida parece realmente pr\u00f3xima de uma no\u00e7\u00e3o de unidade do universo, poeticamente falando. Acho que \u00e9 fundamental esse tema quando pensamos em conex\u00e3o com a natureza. Isso, entre outros milagres que \u00e0s vezes esquecemos. Num poema falo, justamente, da maravilha das ra\u00edzes e troncos que transformam essa massa preta que \u00e9 a terra em algo t\u00e3o diferente e fant\u00e1stico como uma laranja. E para isso acontecer o tempo \u00e9 fundamental. Acredito que de v\u00e1rias formas tentei fazer men\u00e7\u00e3o \u00e0 contiguidade nocional que pode haver entre tempo e crescimento, matura\u00e7\u00e3o, esta\u00e7\u00f5es, frutifica\u00e7\u00e3o, nascimento, \u00e1gua, ar, terra etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Seus poemas dedicam-se \u00e0 observa\u00e7\u00e3o lenta e cuidadosa dos elementos, da terra, das plantas, mas especialmente dos animais. A \u201cOde I\u201d, por exemplo, \u00e9 dedicada \u00e0 minhoca, e \u201c<em>Bombus<\/em>\u201d trata da abelha. Voc\u00ea acha que, ao fazer isso, sua poesia oferece ao leitor algum tipo de consci\u00eancia ecol\u00f3gica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>AUGUSTO QUENARD: <\/strong>Eu espero que sim. \u00c9 evidente que em todas as cenas do livro que se menciona uma rela\u00e7\u00e3o entre o ser humano e outras esp\u00e9cies a estrat\u00e9gia do efeito est\u00e9tico repousa numa quase personifica\u00e7\u00e3o dos outros seres. O que tentei foi, sem perder de vista o poema em sua forma e sua gra\u00e7a, tamb\u00e9m colocar uma lupa sobre a complexidade singular de outras formas de vida, como se apontasse para uma rotina, para um \u201cmodo de ser\u201d dos animais e das plantas com um objetivo secund\u00e1rio de, primeiramente, sensibilizar com a poesia, e, em seguida, aproximar a pessoa que l\u00ea dessas outras exist\u00eancias diminutas e aparentemente mudas das quais no fundo, tamb\u00e9m dependemos. Tinha em vista questionar um pouco a excepcionalidade humana, como diz a Donna Haraway, enfraquecer \u201ca premissa de que apenas a humanidade n\u00e3o \u00e9 uma teia espacial e temporal de depend\u00eancias interesp\u00e9cies\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Outro tema que me parece central nos seus poemas \u00e9 o trabalho. H\u00e1 no livro uma consci\u00eancia da import\u00e2ncia e da dureza do trabalho na lavoura, da qual \u201cAd\u00e3ogogia\u201d e \u201cBuffet aquilo\u201d s\u00e3o exemplos marcantes. O que significa, para voc\u00ea, pensar nesse tipo de trabalho hoje em dia, \u00e0 luz das revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas no mercado de trabalho? De que modo seus poemas se op\u00f5em a essas revolu\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>AUGUSTO QUENARD: <\/strong>Acho que isso passa por mais uma perspectiva, complementar, da primeira e segunda perguntas. Esse trabalho do campo, na maioria das vezes, infelizmente, acaba sendo desvalorizado, desconsiderado por uma no\u00e7\u00e3o de progresso global que avan\u00e7a para um \u201cmelhor\u201d relativo, question\u00e1vel e talvez m\u00edope. Acho que pensar no esfor\u00e7o do trabalho no campo tamb\u00e9m \u00e9 dizer sobre termos um corpo que ainda \u00e9 regido majoritariamente por mecanismos naturais. Mesmo num per\u00edodo em que a fic\u00e7\u00e3o e a ci\u00eancia vislumbram um transumanismo espetacular, ainda temos e teremos, no que diz respeito \u00e0 experi\u00eancia de estarmos vivos, as regras ditadas pela dimens\u00e3o natural do nosso corpo. Outra vez, nascimento, reprodu\u00e7\u00e3o, crescimento, morte, n\u00e3o estamos ainda num ponto em que possamos sair desse ciclo, nessa pretens\u00e3o poderia haver a semeadura de muito sofrimento. O trabalho do campo e sua dureza me lembram que \u00e9 necess\u00e1rio cuidar de nossos ossos, de nossos m\u00fasculos e \u00f3rg\u00e3os, e entender que a pausa, o descanso, \u00e9 fundamental para o bem-estar individual e o bem-estar social. V\u00e1rios poemas, nesse sentido, se referem ao bin\u00f4mio profundamente entrela\u00e7ado de trabalho e alimento. E isso me desenha na imagina\u00e7\u00e3o mais um ciclo, que poderia parecer absurdo, mas talvez seja intranspon\u00edvel, o de comer e descansar para ter for\u00e7a para trabalhar para comer e descansar. Claro que no dizer idealizado do livro, a harmonia desse ciclo \u00e9 de fertilidade da experi\u00eancia de vida, n\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o numa vida sem sentido. Em outras palavras, como se eu acreditasse que o esfor\u00e7o f\u00edsico, a repeti\u00e7\u00e3o \u2013 talvez \u00e0 maneira dos koans \u2013 n\u00e3o s\u00f3 do trabalho em si, mas da atividade, \u00e9 fundamental para se estar em paz, e, consequentemente, com frequ\u00eancia, feliz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: O seu livro \u00e9 uma esp\u00e9cie de tr\u00edptico \u2013 a Terra, as Ra\u00edzes e os Frutos \u2013, uma subdivis\u00e3o que remete \u00e0 planta e ao seu desenvolvimento. Voc\u00ea parece insinuar que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre o cultivo da planta e o cultivo da poesia. Est\u00e1 correta essa impress\u00e3o? Voc\u00ea poderia nos falar mais a respeito disso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>AUGUSTO QUENARD: <\/strong>Acho que fui respondendo cada vez mais sobre o aspecto humano que deu origem ao livro do que o aspecto liter\u00e1rio. N\u00e3o quero deixar de lado o primeiro, mas quero ser breve. Talvez a inten\u00e7\u00e3o desse tr\u00edptico no meu projeto da obra tenha sido n\u00e3o do cultivo da poesia, mas sim do cultivo de um certo estilo de vida. A migra\u00e7\u00e3o, de que fala o primeiro poema, eu gostaria que tamb\u00e9m funcionasse como met\u00e1fora de fim de ciclo, uma sa\u00edda n\u00e3o s\u00f3 da pr\u00f3pria terra, mas de uma fase, de uma idade, de uma rela\u00e7\u00e3o, inclusive, por que n\u00e3o? Assim, o desenvolvimento da planta poderia representar um guia para a desacelera\u00e7\u00e3o dos momentos de mudan\u00e7a pessoal, e o acompanhamento paciente de cada fase.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No que se refere \u00e0 poesia, acho que mais do que o cultivo eu quis elaborar uma est\u00e9tica espec\u00edfica para o livro que fosse mediadora da nossa linguagem e da linguagem da natureza. Nesse sentido, sem d\u00favida, uma das leitura poss\u00edveis \u00e9 que a poesia pode ser cultivada, mas, mais do que isso, eu gostaria que o livro insinuasse que no campo a poesia j\u00e1 est\u00e1 em centenas de cenas pequenas, objetivas e subjetivas, como se dissesse h\u00e1 de se ir ao campo com esse olhar, com esse mecanismo de tradu\u00e7\u00e3o que o livro prop\u00f5e, para se ter uma frui\u00e7\u00e3o est\u00e9tica da observa\u00e7\u00e3o da natureza bastante semelhante \u00e0 que se tem com a leitura de um poema que nos toca. Agora, com essa pergunta, penso que isso pode ser visto tamb\u00e9m como cultivar um olhar que colhe poesia, n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, ainda dentro da concep\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, tamb\u00e9m penso num cultivo, mas n\u00e3o num sentido lato de agrega\u00e7\u00e3o progressiva de leituras, e sim numa ideia de trabalho \u2013 \u201ctrabalho a palavra\/ e n\u00e3o pego na p\u00e1\u201d \u2013, de \u201cobra\u201d em sua ambiguidade liter\u00e1ria ou construtiva. De novo, seria como dizer que a poesia d\u00e1 trabalho, um trabalho duro de ro\u00e7a e paci\u00eancia, mas \u00e9 um trabalho inevit\u00e1vel para experimentar o prazer do texto com sua forma definitiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Por fim, os poemas da parte final se revestem, a meu ver, de uma melancolia que n\u00e3o se encontra nas primeiras partes: a morte de Pedro, a morte do tatu, o poema metaf\u00edsico sobre o rio e o \u00faltimo poema nos d\u00e3o uma sensa\u00e7\u00e3o de perda, de desalento. \u00c9 isso o que nos reserva o final do <em>Campo Sem\u00e2ntico<\/em>? Ou \u00e9 uma fatalidade da poesia, na sua opini\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>AUGUSTO QUENARD: <\/strong>\u00c9 verdade, eu devo dizer que tamb\u00e9m tenho esse sentimento vinculado \u00e0 terceira parte. Mas acho que tamb\u00e9m devo afirmar que n\u00e3o foi intencional. Talvez tenha tido a ver com essa ideia de ciclo de vida e morte que j\u00e1 repeti algumas vezes. Talvez tenha a ver com uma rela\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o do livro e uma concep\u00e7\u00e3o de fim da leitura, fim da obra \u2013 e ainda antes disso, de fim como algo necessariamente melanc\u00f3lico. Eu n\u00e3o escrevi os poemas nessa ordem, evidentemente, mas por algum motivo lembro de ter achado muito interessante colocar os poemas de morte na parte dos \u201cfrutos\u201d. Me pareceu que isso levantava uma quest\u00e3o principalmente para mim, e, no melhor dos casos, tamb\u00e9m para quem lesse. Por que uma morte seria um fruto? Acho que n\u00e3o sei, mas o vazio dessa resposta me causa algo muito instigante, e n\u00e3o quis deixar de propor \u2013 ou me propor \u2013 essa postula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acho que o final do <em>Campo Sem\u00e2ntico<\/em> gostaria de reservar a quem o ler a ideia j\u00e1 conhecida de que a poesia \u00e9 um jeito de olhar \u2013 e que ler o campo \u00e9 tamb\u00e9m faz\u00ea-lo existir em n\u00f3s, \u201co mato\/ s\u00f3 vive\/ no mundo ide\u00e1rio\/ se lido\u201d \u2013 que pode ser superado ou neutralizado por diversos fatores de ordem concreta, mas que \u00e9 facilmente prof\u00edcuo no campo, e que os poemas que as cenas do campo oferecem s\u00e3o uma semente de harmonia para quem est\u00e1 disposto a se dar o tempo dessa leitura, e que essa harmonia tamb\u00e9m inclui momentos taciturnos. Nas outras partes, a busca \u00e9 parecida, mas as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o outras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"164829d8-7d97-4c9c-a6ae-7632c80b4f86\"><a href=\"https:\/\/www.editoracontratempo.com.br\/product-page\/campo-semantico\">QUENARD, Augusto. <em>Campo Sem\u00e2ntico<\/em>. Porto Alegre: Contratempo, 2025<\/a>. <a href=\"#164829d8-7d97-4c9c-a6ae-7632c80b4f86-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 14 \u2013 janeiro de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Romancista e poeta, o escritor Augusto Quenard fala sobre seu \u00faltimo lan\u00e7amento, o livro de poemas &#8220;Campo Sem\u00e2ntico&#8221;, no qual desenvolve uma po\u00e9tica inclinada para a consci\u00eancia ecol\u00f3gica<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1272,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"<a href=\\\"https:\/\/www.editoracontratempo.com.br\/product-page\/campo-semantico\\\">QUENARD, Augusto. <em>Campo Sem\u00e2ntico<\/em>. 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