{"id":1323,"date":"2026-02-11T22:22:12","date_gmt":"2026-02-12T01:22:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1323"},"modified":"2026-03-11T17:59:19","modified_gmt":"2026-03-11T20:59:19","slug":"o-quao-pior-a-internet-pode-ficar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/02\/11\/o-quao-pior-a-internet-pode-ficar\/","title":{"rendered":"O Qu\u00e3o Pior a Internet Pode Ficar?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Resenha do livro: <a href=\"https:\/\/www.mcdbooks.com\/books\/enshittification\">DOCTOROW, Cory. <em>Enshittification<\/em>. Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It. Nova York: MCD, 2025<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Jacob Bacharach<sup data-fn=\"d899df72-977e-4a2f-ab5e-e6b135d4b54e\" class=\"fn\"><a href=\"#d899df72-977e-4a2f-ab5e-e6b135d4b54e\" id=\"d899df72-977e-4a2f-ab5e-e6b135d4b54e-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa \u00faltima primavera, fui ao Texas visitar uma querida amiga. Ela e seu parceiro fazem parte da classe de estadunidenses que Kurt Vonnegut chamou de \u201cfabulosamente bem-de-vida\u201d, e, no segundo dia da minha visita, decidimos dar um pulo em seu t\u00eanis clube para almo\u00e7ar. Minha amiga dirige um Tesla. Quando entramos, o painel de controle a alertou: o carro precisava de algum tipo de atualiza\u00e7\u00e3o de software. Est\u00e1vamos com fome. Ela recusou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vinte minutos depois, chegamos ao clube e descobrimos que o restaurante estava fechado. Paci\u00eancia. Caminhamos de volta at\u00e9 o estacionamento e conversamos sobre outras op\u00e7\u00f5es. Havia um lugar que ambos gostavam a alguns quil\u00f4metros dali. No Texas, tudo fica a pelo menos alguns quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Entramos no carro. Ele tinha, como se por pura e petulante vontade pr\u00f3pria, iniciado a atualiza\u00e7\u00e3o de software que ela tinha recusado h\u00e1 pouco, e ficaria indirig\u00edvel por 45 minutos. N\u00f3s ficamos sobre o asfalto escaldante, derrotados pelo bem inanimado. Poderia ter sido pior. Tivemos sorte de ficar apenas presos no estacionamento no meio da cidade, e n\u00e3o empenhados em algum acostamento a milhares de quil\u00f4metros de casa, como <a href=\"https:\/\/insideevs.com\/news\/763717\/tesla-doors-lock-road-trip\/\">foi o caso<\/a> em outros relatos tr\u00e1gicos envolvendo Teslas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As tribula\u00e7\u00f5es e pequenas inconveni\u00eancias dos abastados dificilmente s\u00e3o motivo para revolu\u00e7\u00f5es \u2013 a menos, suponho, que voc\u00ea considere a nossa revolu\u00e7\u00e3o americana original \u2013, mas parece v\u00e1lido observar que o design horroroso, est\u00fapido e p\u00e9ssimo, bem como o prec\u00e1rio atendimento ao cliente dessas espalhafatosas maravilhas tecnol\u00f3gicas que deveriam trazer o futuro at\u00e9 n\u00f3s, agora afetam at\u00e9 mesmo os ricos, e parece mais e mais como se n\u00f3s, em vez disso, tiv\u00e9ssemos sido levados at\u00e9 o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mecanismos de busca <a href=\"https:\/\/www.404media.co\/google-search-really-has-gotten-worse-researchers-find\/\">ficaram piores<\/a>, os resultados de quase toda pesquisa s\u00e3o am\u00e1lgamas inutiliz\u00e1veis de an\u00fancios de produtos e baboseira de IA. A intelig\u00eancia artificial em si (ou ao menos os modelos de linguagem em larga escala que foram batizados como IA), que deveria ser o pren\u00fancio de avan\u00e7os inimagin\u00e1veis na ci\u00eancia, na medicina, no conhecimento e na produtividade, at\u00e9 agora revelou-se como uma m\u00e1quina para trapacear, seja em sua <a href=\"https:\/\/www.axios.com\/2025\/05\/26\/ai-chatgpt-cheating-college-teachers\">li\u00e7\u00e3o de casa<\/a> ou no <a href=\"https:\/\/www.thecut.com\/article\/is-ai-boyfriend-cheating-chatbot-chatgpt-relationship.html\">relacionamento<\/a>. Muitos dos produtos em seus sites de compra favoritos s\u00e3o falsos. Os que n\u00e3o s\u00e3o? Bom, as avalia\u00e7\u00f5es dos clientes sobre eles <a href=\"https:\/\/apnews.com\/article\/fake-online-reviews-generative-ai-40f5000346b1894a778434ba295a0496\">podem ser<\/a>. \u00c9 dif\u00edcil e trabalhoso entrar em contato com o Facebook para remover os perfis de parentes falecidos. Os agricultores t\u00eam dificuldade em reparar seus pr\u00f3prios equipamentos agr\u00edcolas, e o mec\u00e2nico da esquina <a href=\"https:\/\/www.wired.com\/story\/high-tech-cars-killing-the-traditional-auto-repair-shop\/\">n\u00e3o consegue mais<\/a> fazer a manuten\u00e7\u00e3o do seu carro. Existem empresas inteiras cujo \u00fanico objetivo \u00e9 comprar ou criar patentes d\u00fabias e, em seguida, processar outras empresas por viol\u00e1-las. As redes sociais que prometiam nos conectar com nossos amigos e familiares, interagir com nossos jornalistas e celebridades favoritos, transformaram-se de inocentes <em>timelines<\/em> em m\u00e1quinas de indigna\u00e7\u00e3o movidas por algoritmos, disseminando viol\u00eancia expl\u00edcita, pornografia indesejada e coment\u00e1rios pol\u00edticos t\u00f3xicos. O que se pode fazer?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cory Doctorow \u2013 escritor, especialista, professor, fil\u00f3sofo e ativista de ONG \u2013 vem apontando o decl\u00ednio da internet e das tecnologias relacionadas a ela h\u00e1 algum tempo. Em 2022, na busca de uma express\u00e3o simples, explicativa e de f\u00e1cil populariza\u00e7\u00e3o, cunhou o termo \u201c<em>enshittification<\/em>\u201d. O termo pegou. O apresentador Chris Hayes o invocou em seu livro <a href=\"https:\/\/bookshop.org\/p\/books\/the-sirens-call-how-attention-became-the-world-s-most-endangered-resource-chris-hayes\/4df976ee7b35f6a8?utm_source=google&amp;utm_medium=pmax&amp;utm_campaign=16243454879&amp;utm_content=&amp;utm_term=%7bsearchterm%7d&amp;gad_source=1&amp;gad_campaignid=16243514117&amp;gbraid=0AAAAACfld41IFUzTJBUwxY1tS0pXimdHw&amp;gclid=Cj0KCQjw3aLHBhDTARIsAIRij5_0L7ZzrNqc599ollLj8h3IpSadntgsB7G5uI_kch9qnDNytd6P7CgaAjINEALw_wcB\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>The Sirens\u2019 Call: How Attention Became the World\u2019s Most Endangered Resource<\/em><\/a><em>,<\/em> (\u201c<em>O Canto das Sereias: Como a Aten\u00e7\u00e3o se Tornou o Recurso Mais Amea\u00e7ado do Mundo<\/em>\u201d), ao observar como \u201co \u2018sonho de conex\u00e3o\u2019 que as companhias de tecnologia prometeram e anunciaram\u201d falhou, deixando americanos viciados em telefone \u201cmais isolados e menos sociais\u201d que antes. O economista Paul Krugman usou o <a href=\"https:\/\/paulkrugman.substack.com\/p\/the-general-theory-of-enshittification\">termo para explicar<\/a> por que a \u201cind\u00fastria da tecnologia caiu em desgra\u00e7a aos olhos do p\u00fablico\u201d e seus l\u00edderes t\u00eam demonstrado um \u201c\u00f3dio cada vez mais antidemocr\u00e1tico\u201d. A express\u00e3o foi eleita a palavra do ano por v\u00e1rios dicion\u00e1rios em 2023 e 2024. Segundo Doctorow, \u201cela \u00e9 provocativa e engra\u00e7ada de se dizer\u201d. N\u00e3o tenho certeza do qu\u00e3o provocativa ela \u00e9. Sim, restam alguns grandes jornais americanos que ainda seguem rigorosamente seus padr\u00f5es estil\u00edsticos quando se trata de palavr\u00f5es, o que n\u00e3o se aplica ao resto de n\u00f3s. De qualquer forma, a express\u00e3o se desenrola na l\u00edngua com maior facilidade e \u00e9 certamente mais evocativa que o conceito que ela descreve, o qual Doctorow, <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/technology\/2025\/oct\/05\/way-past-its-prime-how-did-amazon-get-so-rubbish\">de forma mais cl\u00ednica<\/a>, chama de \u201cs\u00fabito colapso da plataforma\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recentemente ele escreveu um livro sobre o tema, \u201c<a href=\"https:\/\/bookshop.org\/p\/books\/enshittification-why-everything-suddenly-got-worse-and-what-to-do-about-it-cory-doctorow\/d3f8483b158906ce\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Enshittification: Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It<\/em><\/a>\u201d (\u201c<em>Enshitification: Por Que Tudo Piorou de Repente e o Que Fazer Agora\u201d<\/em>). Podemos questionar o uso de \u201cde repente\u201d, mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que se trata de uma tend\u00eancia em acelera\u00e7\u00e3o, ainda que n\u00e3o seja nova. Os sites e plataformas que antes eram lugares relativamente agrad\u00e1veis para postar fotos de f\u00e9rias e convites para festas agora est\u00e3o inundados por uma enxurrada incompreens\u00edvel de <em>AI<\/em> <em>slop<\/em> (outro termo evocativo de cria\u00e7\u00e3o recente) e por uma fervilhante verborragia de ofensas pol\u00edticas; as lojas online onde antes compr\u00e1vamos livros e camisas-polo agora est\u00e3o cheias de livros falsos gerados por LLM (<em>Large Language Model<\/em>) e produtos falsificados de marcas que voc\u00ea adora, como <em>MAGCOMSEN<\/em>, <em>LETSEE<\/em> ou <em>TELALEO<\/em>; a corrida barata de Uber at\u00e9 o aeroporto agora pode ser mais cara que a de um t\u00e1xi (lembra-se deles?); sua pesquisa online agora tem tanta probabilidade de mostrar resumos de alucina\u00e7\u00f5es de IA quanto uma cita\u00e7\u00e3o que voc\u00ea estava tentando lembrar ou uma receita que estava procurando anteriormente. Como o cartaz do protesto de Occupy Wall Street memoravelmente <a href=\"https:\/\/spencerart.ku.edu\/art\/collections-online\/object\/45960\">proclamou<\/a>: <em>\u201cEssa merda \u00e9 falsa e fodida.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A caracter\u00edstica mais proeminente do diagn\u00f3stico de Doctorow \u00e9 de que o decl\u00ednio n\u00e3o \u00e9 repentino, tampouco acidental, mas sim <em>deliberado<\/em>. N\u00e3o se trata de um processo natural de evolu\u00e7\u00e3o, nem da lenta derrocada rumo \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o, que chamar\u00edamos simplesmente de <em>deprecia\u00e7\u00e3o<\/em> no mundo real e f\u00edsico. Doctorow acredita que as \u201cplataformas\u201d, ou seja, as empresas, os sistemas e os dispositivos que atuam como meios e intermedi\u00e1rios em \u201cmercados bilaterais\u201d, conectando \u201cclientes empresariais e usu\u00e1rios finais\u201d, induzem usu\u00e1rios e empresas a entrar em ecossistemas tecnol\u00f3gicos por meio de vantagens, incentivos, conveni\u00eancia e bons designs \u2013 todos subsidiados pelo capital excedente dos investidores \u2013 antes de, proposital e gradualmente, extrair todo o valor e lucro do sistema por meio da redu\u00e7\u00e3o ou elimina\u00e7\u00e3o do investimento em servi\u00e7os e suporte. Nessa altura, j\u00e1 \u00e9 tarde demais. Os usu\u00e1rios e as empresas est\u00e3o presos e, seja devido aos custos de transfer\u00eancia demasiadamente elevados ou porque a monopoliza\u00e7\u00e3o eliminou alternativas, s\u00e3o incapazes de escapar.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"750\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/doctorow.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1326\" style=\"width:456px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/doctorow.jpg 500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/doctorow-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Capa do livro de Cory Doctorow<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Doctorow utiliza uma abordagem cl\u00ednica como dispositivo estruturante. Ele divide o livro em quatro partes: \u201cA Hist\u00f3ria Natural\u201d, \u201cA Patologia\u201d, \u201cA Epidemiologia\u201d, e \u201cA Cura\u201d. O plano geral \u00e9 bastante direto. A plataforma levanta capital \u2013 excedente \u2013 de investidores e o utiliza em detrimento de seus usu\u00e1rios finais. No caso de uma rede social como o Facebook, ela promete n\u00e3o espionar, fiscalizar e vender os dados dos usu\u00e1rios; no caso da Amazon ou Uber, operam em d\u00e9ficit e criam promo\u00e7\u00f5es que prejudicam seus competidores. Assim que os clientes ficam presos, as plataformas come\u00e7am a ferrar os usu\u00e1rios de modo a oferecer vantagens aos seus parceiros. Subitamente as plataformas <em>de fato<\/em> come\u00e7am a espionar, fiscalizar e vender dados. Subitamente elas oferecem oportunidade de manipular algoritmos e colocar seus pr\u00f3prios produtos no topo de <a href=\"https:\/\/themarkup.org\/amazons-advantage\/2023\/09\/28\/amazon-ranks-its-own-products-first-ftc-lawsuit-says\">cada busca<\/a>. E, finalmente, quando as pr\u00f3prias empresas tamb\u00e9m ficam presas, as plataformas cobram taxas de acesso exorbitantes e resgatam todo o valor para si e para seus s\u00f3cios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No passado, a variedade de mecanismos disciplinares pode ter imposto restri\u00e7\u00f5es \u00e0 capacidade das empresas de tecnologia de piorar seus pr\u00f3prios produtos. A competi\u00e7\u00e3o de mercado implicava que usu\u00e1rios iriam migrar para melhores plataformas, produtos e servi\u00e7os assim que estes entrassem no mercado. A regulamenta\u00e7\u00e3o teria impedido o excesso de concentra\u00e7\u00e3o. O \u201cdireito de consertar\u201d implicava que usu\u00e1rios e clientes poderiam resolver os seus pr\u00f3prios problemas, limitados apenas pelo conhecimento t\u00e9cnico pr\u00f3prio ou da aptid\u00e3o de um terceiro. Durante um tempo, trabalhadores da \u00e1rea de tecnologia \u2013 os programadores e desenvolvedores que exerceram o trabalho que de fato ergueu essas plataformas e empresas \u2013 tiveram uma tremenda for\u00e7a de trabalho derivada de suas habilidades relativamente escassas e singularmente port\u00e1teis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 certo ponto, essas observa\u00e7\u00f5es s\u00e3o todas verdadeiras, mas elas n\u00e3o deixam de transparecer um certo tom de teoria econ\u00f4mica b\u00e1sica, e a pr\u00f3pria an\u00e1lise de Doctorow enfraquece qualquer no\u00e7\u00e3o de que esses fatores tenham de fato restringido o setor de tecnologia. Ele mostra os funcion\u00e1rios do Google ocasionalmente enfrentando seus chefes, especialmente nos intensos movimentos sociais da d\u00e9cada de 2010, enquanto a empresa se via confrontada por uma for\u00e7a de trabalho que, comicamente, <em>acreditava<\/em> no agora abandonado slogan corporativo: \u201cN\u00e3o seja mau\u201d. Todavia, o que suas a\u00e7\u00f5es alcan\u00e7aram? As maiores companhias de tecnologia sempre operaram de forma predat\u00f3ria e inescrupulosa. Mesmo quando o Google estava no seu \u00e1pice de efic\u00e1cia enquanto ferramenta de busca no in\u00edcio do s\u00e9culo, ele atraiu intenso <a href=\"https:\/\/www.compasslexecon.com\/cases\/ftc-investigation-of-googles-search-practices\">escrut\u00ednio<\/a> do Congresso e da &nbsp;Federal Trade Comission (Comiss\u00e3o Federal de Com\u00e9rcio) por suas pr\u00e1ticas monopolistas em pesquisa e an\u00fancios online. A Apple usou seu <a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/technology\/2024\/01\/17\/apple-app-store-payments-iphone-lawsuit\/\">controle absoluto <\/a>sobre sua App Store para extrair monstruosas taxas de vendedores e desenvolvedores desde o advento da era do smartphone. E os \u00e9ticos do Google? Doctorow tamb\u00e9m documenta uma din\u00e2mica viciada, em que os funcion\u00e1rios anunciavam empresas subsidi\u00e1rias especificamente para que elas fossem adquiridas por milh\u00f5es por seu antigo empregador, para o qual eles, imediatamente, voltavam a trabalhar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro <em>Enshittification<\/em> \u00e9 uma leitura breve e divertida, embora muitas vezes revoltante. Seus estudos de caso do Facebook, Amazon, iPhone e Twitter n\u00e3o trazem nenhuma novidade a n\u00edvel jornal\u00edstico. Se voc\u00ea l\u00ea <em>Wired<\/em>, <em>The Wall Street Journal<\/em> ou <em>The New York Times<\/em>, voc\u00ea provavelmente est\u00e1 familiarizado com muitos dos casos de planejado, deliberado e estrat\u00e9gico abuso de usu\u00e1rios, clientes e parceiros comerciais. No entanto, muitos dos detalhes ainda s\u00e3o chocantes: Doctorow relata, por exemplo, como a Uber usa a arbitragem salarial algor\u00edtmica para punir e disciplinar seus motoristas. \u00c9 engenhoso e diab\u00f3lico. Se os motoristas forem muito seletivos com as corridas que aceitam, a Uber come\u00e7a a oferecer pagamentos mais altos para induzi-los a aceitar mais passageiros e fazerem mais corridas. A Uber n\u00e3o quer motoristas exigentes, ela quer volume. De forma aleat\u00f3ria, mas constante, \u00e0 medida que os motoristas respondem e se tornam menos criteriosos, o aplicativo come\u00e7a a reduzir os pagamentos. Isso os incentiva a trabalhar mais e, quando o fazem, a empresa lhes paga menos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De todos as hist\u00f3rias presentes no livro, talvez a mais s\u00f3rdida e dist\u00f3pica seja o caso de como a Adobe usou seu dom\u00ednio de mercado para negar a artistas, fot\u00f3grafos e designers o acesso \u00e0s <em>cores em si. <\/em>A empresa, que domina o mercado de ilustra\u00e7\u00e3o e design gr\u00e1fico, promoveu uma campanha de uma d\u00e9cada para convencer seus usu\u00e1rios a migrarem das vers\u00f5es de compra individual e de uso local de seu software para sua vers\u00e3o baseada na nuvem, o Adobe Creative Cloud. E ent\u00e3o, em 2022, ela anunciou que, a partir daquele momento, eles teriam que pagar uma taxa de assinatura mensal para ter acesso \u00e0 gama completa de cores Pantone \u2013 um tipo especial de cores que s\u00e3o essenciais ao trabalho de ilustra\u00e7\u00e3o e design. Alertaram que, sem essa assinatura, quaisquer pixels contendo cores Pantone em imagens criadas pelos usu\u00e1rios seriam substitu\u00eddos pela cor preta. Receber produtos de baixa qualidade da Amazon \u00e9 uma coisa, extorquir dinheiro por cores \u00e9 digno dos vil\u00f5es marcianos de <em>O Vingador do Futuro<\/em>, for\u00e7ando os pobres e oprimidos a pagar pelo ar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso tudo inevitavelmente leva ao que Doctorow e outros chamam de \u201ctecnofeudalismo\u201d, um termo que far\u00e1 com que qualquer medievalista que esteja lendo este artigo jogue sua c\u00f3pia do livro longe, uma vez que se baseia em uma compreens\u00e3o bastante desacreditada da Europa pr\u00e9-moderna. A compara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de Doctorow parece omitir certa forma de servid\u00e3o associada \u00e0 situa\u00e7\u00e3o dos arrendat\u00e1rios na Inglaterra do s\u00e9culo XVIII. Ele compara esses sistemas antigos, nos quais latifundi\u00e1rios extra\u00edam renda de uma classe de arrendat\u00e1rios que estava legal ou informalmente vinculada \u00e0 terra, com a economia atual, na qual tudo \u00e9, de alguma forma, um servi\u00e7o de assinatura. At\u00e9 recentemente, as empresas dependiam do consumo \u2013 da compra \u2013 e do lucro. Mas agora voc\u00ea n\u00e3o mais <em>compra<\/em> realmente um produto, seja os e-books que voc\u00ea aluga (porque o gerenciamento de direitos digitais, ou DRM, impede o empr\u00e9stimo, a doa\u00e7\u00e3o ou a livre revenda da obra), o iPhone pelo qual voc\u00ea paga uma mensalidade \u00e0 sua operadora, o conte\u00fado que <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/tv-and-radio\/2023\/jun\/28\/why-are-movies-and-tv-shows-disappearing-from-streaming-services\">desaparece rapidamente<\/a> da sua plataforma de streaming favorita, ou mesmo o seu editor de texto ou planilha, que voc\u00ea tamb\u00e9m aluga de algum lugar na nuvem. Voc\u00ea \u00e9 como um campon\u00eas, acorrentado a um conjunto de propriedades digitais sobrepostas, pagando mensalmente a um senhor distante pelo seu direito de ser um influenciador, um vendedor ou um telespectador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o tenho certeza se essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma novidade para o capitalismo tal qual <em>Enshittification<\/em> faz parecer, e esse \u00e9 um aspecto frustrante do livro. O que foi a crise da hipoteca de alto risco, para citar um exemplo recente, sen\u00e3o um esquema para prender devedores a hipotecas inicialmente atraentes e, em seguida, gradualmente aumentar suas taxas e custos a fim de extrair mais dinheiro? O que eram os golpes da metade do s\u00e9culo, como o Columbia House, cujos modelos de cobran\u00e7a de \u201cop\u00e7\u00e3o negativa\u201d (onde eles enviavam um produto e voc\u00ea era cobrado a n\u00e3o ser que o devolvesse), que precederam os modelos de assinatura online de hoje em dia, os quais facilitam a ades\u00e3o e tornam o cancelamento quase imposs\u00edvel? O que s\u00e3o aqueles nossos cl\u00e1ssicos programas de marketing multin\u00edvel, de Mary Kay \u00e0 Amway, sen\u00e3o modelos de explora\u00e7\u00e3o estilo \u201ctodos s\u00e3o empreendedores, ningu\u00e9m \u00e9 empregado\u201d de empresas atuais como Uber, DoorDash, ou mesmo as atividades de influencer impulsionadas pelas redes sociais?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Doctorow \u00e9 um escritor e pensador de esquerda que expressou profundo ceticismo acerca de se \u201c<a href=\"https:\/\/jacobin.com\/2016\/02\/cory-doctorow-boing-boing-homeland-little-brother-snowden-poitras\">o capitalismo tem futuro<\/a>\u201d, mas tanto seus diagn\u00f3sticos quanto os tratamentos que recomenda tendem a circular uma no\u00e7\u00e3o bastante nost\u00e1lgica de um capitalismo americano sindicalizado, altamente regulamentado, quase como o de meados do s\u00e9culo, ou talvez apenas uma social-democracia europeia pr\u00e9-AfD, pr\u00e9-Reuni\u00e3o Nacional, de mercado comum; nenhum dos quais parece particularmente adequado ao presente momento. Ele tamb\u00e9m consegue ser frustrantemente descuidado com seus termos. Ele escreve sobre monop\u00f3lio e monops\u00f4nio, palavras com significados bastante espec\u00edficos, de uma forma despojada e coloquial (e, em uma nota de rodap\u00e9 bem-humorada, explica que o faz dessa forma pois os termos alternativos, mais precisos, s\u00e3o dif\u00edceis de pronunciar). Ele se refere \u00e0 \u201c<a href=\"https:\/\/www.investopedia.com\/terms\/e\/efficientmarkethypothesis.asp\">hip\u00f3tese do mercado eficiente<\/a>\u201d em uma reflex\u00e3o bastante interessante a respeito dos abusos de direitos autorais e leis de propriedade intelectual, mas a hip\u00f3tese do mercado eficiente n\u00e3o trata de consumidores ou mercados <em>business-to-business<\/em>; ela \u00e9, na verdade, a hip\u00f3tese sobre a natureza e a precis\u00e3o dos pre\u00e7os de ativos nos mercados de capital. Ele usa \u201cordens de magnitude\u201d para expressar a ideia de \u201cmuito\u201d, em vez de uma escala com base em m\u00faltiplos de 10, o que \u00e9 um pecado menor, mas frustrante, vindo de um autor que normalmente \u00e9 fluente em termos t\u00e9cnicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que os diagn\u00f3sticos de Doctorow sejam contundentes e revoltantes, sua prescri\u00e7\u00e3o \u00e9 permeada por uma vis\u00e3o sentimental do que ele chama, sem ironia aparente, de \u201ca boa e velha internet\u201d. Eu sou uma d\u00e9cada mais jovem que Doctorow, mas tamb\u00e9m fui um usu\u00e1rio bastante precoce, e compreendo essa nostalgia. Eu tamb\u00e9m fiz amizades nas primeiras salas de bate-papo, explorei minha sexualidade, participei de debates, adotei e descartei toda sorte de ideologias pol\u00edticas e linhas intelectuais esquisitas que nunca teria conhecido de outra forma. Eu sinto falta dessa internet, mas voltaria para ela? Seria capaz?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cReduzir as barreiras \u00e0 participa\u00e7\u00e3o na vida digital \u00e9 algo totalmente positivo\u201d, escreve Doctorow. De forma simples: n\u00e3o. Na verdade, bem pelo contr\u00e1rio. Licencie-a como um carro. Ou uma arma de fogo. Se existe algo que as \u00faltimas d\u00e9cadas nos mostraram, \u00e9 que a \u201cvida digital\u201d \u2013 o acesso a ferramentas de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o mais potentes e universais que qualquer outra j\u00e1 inventada ou dispon\u00edvel at\u00e9 agora \u2013 \u00e9 algo que a maioria dos indiv\u00edduos, e talvez at\u00e9 mesmo os mais respons\u00e1veis entre n\u00f3s, simplesmente n\u00e3o deveria possuir. Sua capacidade de propiciar demagogia, de dissolver ideologias, de promover conspira\u00e7\u00f5es e de encorajar viol\u00eancia e comportamento antissocial \u00e9 perigosa e desenfreada. Os algoritmos corporativos s\u00e3o os \u00fanicos a se culpar? Talvez pelo seu tio racista, pela sua tia ativista de hashtags eternamente revoltada, pelo seu pai f\u00e3 da Fox News e por sua m\u00e3e f\u00e3 da MSNBC. Mas e quanto ao jovem desiludido, revoltado e sem futuro, que se esconde em algum canal estranho do Discord ou cria insultos raciais intraduz\u00edveis para provocar seus companheiros gamers? Muito antes de Elon Musk ter comprado o Twitter, antes do YouTube transformar <em>pick up artists<\/em> da \u201c<a href=\"https:\/\/www.unwomen.org\/en\/articles\/explainer\/what-is-the-manosphere-and-why-should-we-care\">machosfera<\/a>\u201d em celebridades, antes de um grupo do Facebook convencer seu vizinho de que vacinas causam autismo, a internet j\u00e1 provava ser um terreno f\u00e9rtil para esquisit\u00f5es fan\u00e1ticos se encontrarem e fortalecerem suas cren\u00e7as estranhas. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje n\u00e3o \u00e9 diferente, seja no Discord, em algum dos \u201cchans\u201d ou nas profundezas do Reddit, onde, longe de qualquer algoritmo corporativo, \u00f3dio, bile, viol\u00eancia, e f\u00faria se manifestam independentemente. Quando o organizador e influencer conservador Charlie Kirk foi morto com um tiro em setembro e foi revelado que seu assassino havia inscrito mensagens nas balas, um dos aspectos mais alarmantes n\u00e3o foi a quest\u00e3o da ideologia pol\u00edtica do atirador, que dominou as not\u00edcias, mas o fato de que a mensagem \u2013 obscuro jarg\u00e3o gamer carregado de ironia \u2013 <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/technology\/2025\/sep\/17\/charlie-kirk-suspect-online-memes#:~:text=Bullet%20casings%20from%20the%20gun,LMAO%E2%80%9D%2C%20%E2%80%9CHey%20Fascist!\"><em>vinha da internet<\/em><\/a>. Estou cada vez mais convencido de que dar acesso \u00e0 internet \u00e0 maioria de n\u00f3s \u00e9 como entregar uma arma a uma crian\u00e7a. O problema \u00e9 entreg\u00e1-la a uma crian\u00e7a. Mas o problema tamb\u00e9m \u00e9 que <em>se trata de uma<\/em> <em>arma<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Enshittification<\/em>&nbsp;baseia-se na ideia de que n\u00f3s criamos uma maravilha tecnol\u00f3gica (ou um conjunto delas) e que, depois, a gan\u00e2ncia e a avareza das empresas a arruinaram. Mas e se n\u00e3o for esse o caso? E se, tal como aconteceu com as armas nucleares, tivermos criado uma tecnologia que ainda n\u00e3o estamos suficientemente maduros para utilizar? E se, na nossa busca por energia infinita, tivermos constru\u00eddo uma bomba?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Doctorow sugere que o problema com a internet consiste no fato de que as plataformas se tornaram muito poderosas. Eu simpatizo com essa ideia. \u201cE se mud\u00e1ssemos nosso foco em \u2018tornar as plataformas mais agrad\u00e1veis\u2019 para \u2018tornar as plataformas menos importantes\u2019?\u201d, ele pergunta. E se fosse mais f\u00e1cil de deix\u00e1-las sem perder amigos, clientes, conex\u00f5es? Ele utiliza alternativas descentralizadas do Twitter como o Mastodon como exemplos de uma poss\u00edvel internet melhor (esque\u00e7a o Mastodon, para usar um termo t\u00e9cnico: \u00e9 uma porcaria). \u00c9 tentador acreditar que se os Zuckerbergs e Musks do mundo baixassem a bola, se a modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado melhorasse, se o modelo europeu de regulamenta\u00e7\u00e3o se tornasse norma em mais pa\u00edses, ent\u00e3o talvez ter\u00edamos um pouco de equidade e utilidade retornando aos nossos mundos virtuais, e voltar\u00edamos \u00e0s fotos de beb\u00ea, \u00e0s compras de livros e \u00e0s piadas toscas. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ser\u00e1 que voltar\u00edamos? Eu duvido muito. Eu penso que a vaca j\u00e1 foi pro brejo. Largaram o boi com as cordas. E ele est\u00e1 correndo em dire\u00e7\u00e3o ao horizonte, rumo a um futuro que ainda n\u00e3o conseguimos imaginar, e acho que n\u00e3o podemos simplesmente chamar ele de volta. A computa\u00e7\u00e3o digital foi uma inven\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria; a constela\u00e7\u00e3o de tecnologias que hoje chamamos simplesmente de \u201cinternet\u201d \u00e9 ainda mais; os grandes mecanismos de concatena\u00e7\u00e3o de textos da \u201cintelig\u00eancia artificial\u201d de modelos de linguagem de grande escala, que tiram seu poder do treinamento com textos e imagens quase infinitos da internet, s\u00e3o alguns dos mais impressionantes at\u00e9 hoje. Mas a pergunta que <em>Enshittification<\/em> n\u00e3o faz, n\u00e3o quer fazer, \u00e9: e se nada disso fosse uma boa ideia para in\u00edcio de conversa?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado na <em>The New Republic<\/em>, em 13 de novembro de 2025. Agradecemos encarecidamente ao autor por ceder os direitos da tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/newrepublic.com\/article\/202796\/enshittification-doctorow-review-worse-internet\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Roger Gregory Silveira.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"d899df72-977e-4a2f-ab5e-e6b135d4b54e\">Romancista e ensa\u00edsta estadunidense. Seu livro mais recente \u00e9 <em><em><a href=\"https:\/\/jacobbacharach.com\/portfolio\/a-cool-customer\/\">A Cool Customer: Joan Didion\u2019s The Year of Magical Thinking<\/a><\/em><\/em>. <a href=\"#d899df72-977e-4a2f-ab5e-e6b135d4b54e-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 15 \u2013 fevereiro de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A teoria da enshittification de Cory Doctorow parte da premissa de que criamos uma maravilha tecnol\u00f3gica e que a gan\u00e2ncia corporativa a arruinou. 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