{"id":141,"date":"2024-12-08T14:10:54","date_gmt":"2024-12-08T17:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=141"},"modified":"2025-02-14T12:18:16","modified_gmt":"2025-02-14T15:18:16","slug":"e-o-lucro-estupido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2024\/12\/08\/e-o-lucro-estupido\/","title":{"rendered":"\u00c9 o lucro, est\u00fapido!"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left has-small-font-size wp-block-paragraph\">Resenha do livro: <a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/en-gb\/products\/3069-the-price-is-wrong?srsltid=AfmBOoosAj3lOZa51xLlQ87lIWKXbflIuArFIgC_qlIUtnhr69mpAoqa\">CHRISTOPHERS, Brett. <em>The Price is Wrong<\/em>. Why Capitalism Won&#8217;t Save the Planet. Londres e Nova York: Verso, 2024.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Antonio Barros<sup data-fn=\"8d96459b-db31-4ccd-aae0-3cf523a7baef\" class=\"fn\"><a href=\"#8d96459b-db31-4ccd-aae0-3cf523a7baef\" id=\"8d96459b-db31-4ccd-aae0-3cf523a7baef-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste contexto de agravamento dos efeitos nocivos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e diante da total falta de pol\u00edticas para a interrup\u00e7\u00e3o e a mitiga\u00e7\u00e3o do aquecimento global, muitas possibilidades de a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica s\u00e3o sugeridas e colocadas em perspectiva. A algumas falta a complexidade necess\u00e1ria para se apresentar de fato como uma proposta eficiente em escala global; j\u00e1 outras n\u00e3o se mostram fact\u00edveis em um cen\u00e1rio de corros\u00e3o social e de amplia\u00e7\u00e3o do consenso neoliberal. Entre as alternativas ditas \u201clocais\u201d, impulsionadas pela for\u00e7a das comunidades organizadas em torno da luta pela terra e pela autonomia, e as op\u00e7\u00f5es \u201cglobais\u201d, mais parecidas com ideias tiradas de utopias infantis e tecnofilias toscas, \u00e9 sempre muito salutar acolher uma reflex\u00e3o que, n\u00e3o propondo na verdade um caminho espec\u00edfico para a sa\u00edda da crise clim\u00e1tica global, enfrenta, n\u00e3o obstante, os obst\u00e1culos concretos para a implementa\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es mundiais efetivas. Nesse sentido, o livro de Brett Christophers, professor do Departamento de Geografia Humana da Universidade de Uppsala, na Su\u00e9cia, \u00e9, possivelmente, a melhor leitura do ano de 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Comecemos por um fato importante, que ajuda a situar o tema do livro e as raz\u00f5es por que ele \u00e9 imprescind\u00edvel nesse debate. Com efeito, uma das causas do aquecimento global e de suas consequ\u00eancias \u00e9 a maior concentra\u00e7\u00e3o de gases do efeito estufa na atmosfera terrestre, decorrente da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis desde a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Entender onde se concentra essa queima \u00e9 crucial para se chegar \u00e0 raiz do problema. Quando observamos que, de acordo com a Ag\u00eancia Internacional de Energia (IEA) e com o Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7a do Clima (IPCC), 75% dos gases do efeito estufa correspondem \u00e0 emiss\u00e3o de CO<sub>2<\/sub>, e que, desse montante, 75% s\u00e3o o produto da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis, dos quais 37,5% se originam no setor el\u00e9trico, percebemos que \u00e9 no \u00e2mbito da produ\u00e7\u00e3o e consumo de energia el\u00e9trica que se concentra o maior desafio para a descarboniza\u00e7\u00e3o e a transi\u00e7\u00e3o verde. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 alternativa s\u00e9ria ao aquecimento global se ela n\u00e3o almejar a diminui\u00e7\u00e3o significativa at\u00e9 a total parada da queima dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, e isso n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel sem se mirar o setor de energia el\u00e9trica no mundo todo. Uma sa\u00edda, ent\u00e3o, seria obviamente investir em produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica por meio de fontes renov\u00e1veis, sendo que duas delas se mostram as mais seguras e confi\u00e1veis: a energia solar e a energia e\u00f3lica (a energia nuclear imp\u00f5e ao menos dois problemas, um ambiental, o outro geopol\u00edtico \u2013 o descarte dos res\u00edduos radioativos e o fato de que usinas nucleares podem ser alvos preferenciais de na\u00e7\u00f5es inimigas). E, de fato, alguns pa\u00edses e empresas assumiram o encargo de ampliar as usinas de produ\u00e7\u00e3o de energia solar e e\u00f3lica ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, menos por ansiedade clim\u00e1tica e mais por senso de oportunidade de neg\u00f3cios. Em todo caso, como mostra o livro de Christophers, \u00e9 ainda muito t\u00edmido o crescimento desse tipo de matriz energ\u00e9tica nos pa\u00edses desenvolvidos, sobretudo \u00e0 luz da urg\u00eancia clim\u00e1tica; em pa\u00edses do Sul Global, por sua vez, ele \u00e9 quase inexistente. Como se pode notar pelos dados arrolados no livro, a t\u00e3o esperada revolu\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica n\u00e3o vem acontecendo, mesmo ap\u00f3s o barateamento substancial dos componentes indispens\u00e1veis para a instala\u00e7\u00e3o de usinas solares e e\u00f3licas. E isso, segundo o autor, deve-se a um conjunto de quest\u00f5es que, de maneira geral, se resumem a um \u00fanico ponto: n\u00e3o \u00e9 o pre\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o de energia limpa que impede o alastramento das usinas solares e e\u00f3licas pelo planeta, mas, sim, outro fator, a saber, o lucro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D\u00e9cadas ap\u00f3s o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico na produ\u00e7\u00e3o de energia solar e e\u00f3lica, produzir energia limpa ficou mais barato. Se, antes, o pre\u00e7o dos componentes (estes ainda em fase de desenvolvimento e sob desconfian\u00e7a geral dos pa\u00edses, dos mercados e dos consumidores) afugentava os investidores, agora \u00e9 relativamente barato captar a energia solar e aproveitar a for\u00e7a dos ventos para abastecer as cidades com eletricidade. Na verdade, como mostra Christophers, existe ainda uma vantagem competitiva que torna a energia solar e e\u00f3lica mais atraente do ponto de vista do pre\u00e7o: o fato de que tanto o sol quanto o vento n\u00e3o apenas s\u00e3o fontes inesgot\u00e1veis e presentes em todos os pa\u00edses, como tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o comodificadas. Isto \u00e9, diferentemente das usinas que funcionam a carv\u00e3o ou a g\u00e1s natural \u2013 as que, portanto, s\u00e3o respons\u00e1veis diretas pelo aquecimento global \u2013, dependentes das flutua\u00e7\u00f5es nos pre\u00e7os dessas commodities, as esta\u00e7\u00f5es de energia solar e e\u00f3lica n\u00e3o ficam sujeitas a qualquer lei de mercado incidindo sobre a mat\u00e9ria-prima essencial para sua produ\u00e7\u00e3o. Logo, uma vez instaladas, essas esta\u00e7\u00f5es, que necessitam de pouco reparo e manuten\u00e7\u00e3o, podem dar lucro por muito tempo, sem que parte desse ganho seja comida pela aquisi\u00e7\u00e3o de suprimentos. Mas isso apenas em tese&#8230; Confrontando os dados, Christophers observa que, a despeito do pre\u00e7o mais barato e das vantagens competitivas desse tipo de produ\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, a transi\u00e7\u00e3o verde caminhou a passos muito lentos e t\u00edmidos, n\u00e3o cumprindo seu papel ap\u00f3s a assinatura dos acordos de Paris.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A raz\u00e3o disso, segundo Christophers, \u00e9 que a energia el\u00e9trica, como uma commodity peculiar, passou por muitas transforma\u00e7\u00f5es ao longo dos \u00faltimos dec\u00eanios, ficando muito mais atrelada aos interesses do mercado do que aos princ\u00edpios geopol\u00edticos da coopera\u00e7\u00e3o internacional e \u00e0 urg\u00eancia da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. O livro mostra, portanto, que o que dirigiu a transi\u00e7\u00e3o at\u00e9 aqui foram dois fatores: primeiramente, os subs\u00eddios dos governos dos pa\u00edses desenvolvidos, que, embora de modo err\u00e1tico e vacilante, fez prosperar usinas solares e e\u00f3licas em complementa\u00e7\u00e3o ao seu parque energ\u00e9tico majoritariamente \u201csujo\u201d; em segundo lugar, onde a renova\u00e7\u00e3o da matriz energ\u00e9tica ficou sob a incumb\u00eancia do mercado, os agentes privados se mobilizaram em fun\u00e7\u00e3o dos lucros obtidos na venda da energia el\u00e9trica, e n\u00e3o pelo baixo custo de sua produ\u00e7\u00e3o. Ocorre que, com a gradual suspens\u00e3o dos subs\u00eddios governamentais nos anos recentes, o capital assumiu a frente desse processo. E, novamente, norteando-se pelo lucro mais do que pelo pre\u00e7o, as empresas que investem em energia negaram-se a realizar a transi\u00e7\u00e3o de modo mais r\u00e1pido, pois viram na manuten\u00e7\u00e3o do sistema de produ\u00e7\u00e3o \u201csujo\u201d mais vantagens econ\u00f4micas. Christophers destrincha o porqu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, alguns fatores contribuem para essa situa\u00e7\u00e3o \u2013 todos eles ligados \u00e0 desregulamenta\u00e7\u00e3o dos mercados e \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o das companhias el\u00e9tricas, seja no polo da gera\u00e7\u00e3o, seja, principalmente, no polo da distribui\u00e7\u00e3o. Como observa o autor do livro, at\u00e9 mais ou menos a d\u00e9cada de 1990, antes do predom\u00ednio da ideologia neoliberal, os pa\u00edses apresentavam um modelo de produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica verticalizado \u2013 isto \u00e9, da gera\u00e7\u00e3o \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o, uma empresa apenas cuidava de toda a cadeia comercial. Com isso, o controle sobre os pre\u00e7os finais seguia prop\u00f3sitos mais estrat\u00e9gicos do ponto de vista territorial. Por\u00e9m, com a desregulamenta\u00e7\u00e3o geral promovida pelo consenso neoliberal, houve uma desverticaliza\u00e7\u00e3o ampla no setor de energia el\u00e9trica, fazendo com que a produ\u00e7\u00e3o ficasse sob responsabilidade de apenas uma ou de poucas companhias (em muitos casos, estatais), mas a distribui\u00e7\u00e3o passasse ao controle do setor privado, a fim de, entre outras coisas, incentivar a concorr\u00eancia e supostamente diminuir os custos finais no varejo. Em alguns pa\u00edses \u2013 como nos EUA, por exemplo \u2013, at\u00e9 mesmo a produ\u00e7\u00e3o de energia passou a admitir a concorr\u00eancia entre empresas, fazendo com que houvesse, inclusive, com\u00e9rcio de energia el\u00e9trica entre pontos distantes do territ\u00f3rio nacional. Desse modo, aponta Christophers, as leis do capitalismo de mercado se impuseram sobre o que antes era o controle vertical, fazendo com que o lucro se tornasse o fator predeterminante na formata\u00e7\u00e3o do sistema el\u00e9trico.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"418\" height=\"635\" data-id=\"146\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/price-wrong.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-146\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/price-wrong.png 418w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/price-wrong-197x300.png 197w\" sizes=\"auto, (max-width: 418px) 100vw, 418px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Capa do livro de Brett Christophers<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa curta, por\u00e9m vertiginosa, hist\u00f3ria da desregulamenta\u00e7\u00e3o neoliberal alguns momentos se destacam em raz\u00e3o do quanto s\u00e3o decisivos para o encorpamento da produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica dependente de combust\u00edveis f\u00f3sseis e para a obstru\u00e7\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Destaco apenas tr\u00eas. O primeiro, decorrente da desverticaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 o fato de que as corpora\u00e7\u00f5es envolvidas com a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica s\u00e3o muitas vezes um bra\u00e7o das companhias petroleiras. N\u00e3o \u00e9 raro vermos, na Europa e nos EUA, multinacionais como a Exxon dominarem o mercado, impondo, portanto, seus interesses, que obviamente conflitam com as ambi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas dos movimentos verdes e dos acordos clim\u00e1ticos globais. Essas empresas preferem distribuir dividendos aos seus acionistas em vez de reinvestir o capital em produ\u00e7\u00e3o de energia limpa, apesar dos clamores sociais em contr\u00e1rio. Isso se deve tamb\u00e9m ao fato de que o capitalismo financeiro atual favorece a circula\u00e7\u00e3o de capitais em detrimento dos planejamentos estrat\u00e9gicos dos pa\u00edses comprometidos com a descarboniza\u00e7\u00e3o da economia. Nesse sentido, n\u00e3o h\u00e1 incentivo para a constru\u00e7\u00e3o de usinas solares ou e\u00f3licas, uma vez que \u00e9 muito mais atraente, do ponto de vista capitalista, manter os altos lucros das usinas termoel\u00e9tricas, que, al\u00e9m disso, recompensam essas mesmas companhias pelo uso do combust\u00edvel f\u00f3ssil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ademais, de acordo com Christophers, h\u00e1 impedimentos comerciais para a transi\u00e7\u00e3o que t\u00eam a ver com v\u00edcios desse sistema energ\u00e9tico fortemente dependente do carbono. Como fica demonstrado no livro, a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, por mais bem sucedida, depende da conviv\u00eancia entre usinas termoel\u00e9tricas e usinas solares e e\u00f3licas em seu in\u00edcio. Assim, o suprimento de energia fica sujeito ao quanto as termoel\u00e9tricas podem de fato produzir em escala, uma vez que tanto a energia solar quanto a e\u00f3lica podem passar por per\u00edodos de intermit\u00eancia e de baixa produ\u00e7\u00e3o. Para o n\u00edvel de consumo do nosso sistema capitalista (aceleracionista e ininterrupto), uma gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica totalmente dependente da matriz limpa \u00e9, por assim dizer, uma estrutura teoricamente ineficaz, uma vez que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel controlar a oferta de energia ou a sua qualidade. Diante da potencial escassez, portanto, as termoel\u00e9tricas passam a ser garantidoras de um suprimento constante e confi\u00e1vel. E, dado que elas demoram muito para serem acionadas, teriam que se manter em funcionamento em alguns cen\u00e1rios, a fim de que n\u00e3o houvesse desabastecimento total ou mesmo parcial de energia el\u00e9trica. A imprevisibilidade cada vez maior do clima tamb\u00e9m agrava o cen\u00e1rio, pois traz inseguran\u00e7a para o planejamento da distribui\u00e7\u00e3o de energia. Logo, a depend\u00eancia em algum grau dessa matriz energ\u00e9tica faz com que o lobby das companhias petroleiras e das usinas termoel\u00e9tricas suba consideravelmente; n\u00e3o apenas isso: tamb\u00e9m seu poder de interferir nos pre\u00e7os finais torna-se maior, conforme a necessidade de salvaguardas energ\u00e9ticas se intensifica em situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia clim\u00e1tica. Em um contexto em que o mundo se torna cada vez mais dependente da energia el\u00e9trica (e, inclusive, no contexto futuro da transi\u00e7\u00e3o verde, em que parte consider\u00e1vel do transporte, por exemplo, ser\u00e1 substitu\u00edda por ve\u00edculos el\u00e9tricos), muitos pa\u00edses n\u00e3o querem assumir esse risco, mantendo, portanto, as usinas \u201csujas\u201d em seu planejamento estrat\u00e9gico. Com isso, enfim, independentemente de o pre\u00e7o da tecnologia limpa ser mais convidativo para os investidores, os lucros que elas podem fornecer ainda s\u00e3o muito inferiores aos lucros garantidos pela gera\u00e7\u00e3o por combust\u00edvel f\u00f3ssil, de modo que, no fim das contas, sobretudo se a transi\u00e7\u00e3o fica pendente das iniciativas privadas, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o, do ponto de vista capitalista, para investimentos na gera\u00e7\u00e3o de energia renov\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Some-se a isso o fato de que, como observa Christophers, em muitos pa\u00edses, especialmente os que demandam mais eletricidade, o sistema energ\u00e9tico n\u00e3o verticalizado admite o mercado de energia no varejo. Nos EUA, por exemplo, existe a possibilidade de um consumidor comprar energia produzida em outro estado, gra\u00e7as a uma malha hiperconectada de pontos que ligam diferentes produtores a diferentes distribuidores e, logicamente, a diferentes consumidores. Esse modelo, que em princ\u00edpio poderia ser ben\u00e9fico para as empresas dispostas a investir em energia renov\u00e1vel, mostra-se, na opini\u00e3o de Christophers, uma quimera. E isso se deve \u00e0s armadilhas do capitalismo, mais uma vez: o baixo custo de gera\u00e7\u00e3o de energia por parte das usinas mantidas por recursos renov\u00e1veis \u2013 que lhes permitiria comercializar uma energia mais barata nacionalmente, uma vez que se poderia reduzir a margem de lucro na mesma propor\u00e7\u00e3o do custo de gera\u00e7\u00e3o \u2013 enfrenta o problema de sua incapacidade de suprir a demanda. Com isso, quem determina os pre\u00e7os finais \u2013 e, consequentemente, as margens de lucro \u2013 n\u00e3o \u00e9 o custo da energia limpa, mas sim o custo geral da energia total no varejo, ainda fortemente atrelado \u00e0s outras matrizes energ\u00e9ticas. A solu\u00e7\u00e3o seria, portanto, ampliar a rede de fornecimento de energia limpa, em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0s usinas \u201csujas\u201d; por\u00e9m, al\u00e9m do problema colocado mais acima, e consideradas as imperfectibilidades desse mercado, o capital financeiro \u2013 uma vari\u00e1vel crucial nessa equa\u00e7\u00e3o, uma vez que disp\u00f5e dos fundos monet\u00e1rios para viabilizar a constru\u00e7\u00e3o das usinas solares e e\u00f3licas \u2013 reluta em financiar empreendimentos em energia limpa. Na verdade, como demonstra Christophers, a equa\u00e7\u00e3o \u00e9 complexa: se as taxas de lucro se mant\u00eam altas em fun\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a das termoel\u00e9tricas, ent\u00e3o o financiamento das usinas limpas seria n\u00e3o apenas desej\u00e1vel ecologicamente falando, mas tamb\u00e9m muito rent\u00e1vel, posto que o pre\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 menor. Contudo, a maior presen\u00e7a dessa energia no sistema el\u00e9trico eliminaria a vari\u00e1vel determinante para os altos lucros dessa commodity. Um sistema majoritariamente mantido por energia renov\u00e1vel faria com que os lucros atuais se mostrassem extorsivos, e s\u00f3 poderiam ser mantidos nas condi\u00e7\u00f5es de monop\u00f3lios privados ou estatais. N\u00e3o sendo assim, a derrubada nos pre\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o acarretaria uma diminui\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel nos lucros, tornando esses empreendimentos menos atraentes ao capital financeiro. Por outro lado, mantido o sistema atual, no qual as usinas \u201csujas\u201d ditam as margens de lucro para todos as empresas, h\u00e1 pouco interesse do capital financeiro em financiar usinas solares ou e\u00f3licas, uma vez que elas n\u00e3o competir\u00e3o em p\u00e9 de igualdade com as outras, n\u00e3o podendo, assim, garantir o retorno do investimento a m\u00e9dio e longo prazo \u2013 o que aumenta o risco do investimento e, consequentemente, o custo do capital, desincentivando, portanto, o empreendimento privado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como forma de driblar esse obst\u00e1culo, muitas usinas de produ\u00e7\u00e3o de energia por fontes renov\u00e1veis optam por firmar acordos pr\u00e9vios que estipulam o pre\u00e7o base do Kw para consumidores finais \u2013 os chamados Acordos de Compra de Energia (Power Purchase Agreements). Em muitos casos, como no exemplo da Amazon, que adquire energia a pre\u00e7os fixos de geradoras desse tipo, o valor estipulado com anteced\u00eancia limita a capacidade de reinvestimento do capital, diminuindo, assim, a sua possibilidade de expans\u00e3o. No entanto, essa \u00e9 uma maneira relativamente segura de se ingressar no neg\u00f3cio, uma vez que isso viabiliza, entre outras coisas, o empr\u00e9stimo banc\u00e1rio fundamental para a constru\u00e7\u00e3o da geradora. Mas, novamente, essa alternativa, que parece menos arriscada do que se lan\u00e7ar de cabe\u00e7a no mercado, inibe investidores privados, que veem chances de competi\u00e7\u00e3o frustradas desde o in\u00edcio, dado que muitas vezes o pre\u00e7o final fixado depende mais da vontade do contratante do que das oscila\u00e7\u00f5es do mercado. Al\u00e9m disso, esse modelo torna as geradoras limpas ref\u00e9ns de megaempresas, as \u00fanicas capazes de consumir no atacado, pagando pre\u00e7os abaixo dos de varejo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em face disso, fica claro que n\u00e3o \u00e9 o baixo custo da produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica limpa que impulsiona ou dificulta a expans\u00e3o da presen\u00e7a das usinas solar e e\u00f3lica no sistema energ\u00e9tico. Desde que os governos suspenderam os subs\u00eddios, tornou-se impratic\u00e1vel, do ponto de vista do capitalismo, investir e ampliar a oferta de energia por fontes renov\u00e1veis. Como mostra Christophers, na medida em que os atores ligados \u00e0 queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis determinam os pre\u00e7os da energia el\u00e9trica, ampliando a sua margem de lucro, os empreendimentos verdes, pouco competitivos, perdem incentivos e esbarram nas leis do mercado. A descarboniza\u00e7\u00e3o do sistema energ\u00e9tico, portanto, fica obstada pela seguran\u00e7a financeira que os combust\u00edveis f\u00f3sseis trazem para os capitalistas envolvidos no neg\u00f3cio. \u00c9 curioso notar, nesse sentido, que mesmo em um momento de crise os governos e os investidores privados n\u00e3o foram capazes de romper com essa l\u00f3gica. Quando a Europa se viu diante da eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os do g\u00e1s natural (principal fonte de energia das usinas europeias) ap\u00f3s a invas\u00e3o russa na Ucr\u00e2nia, alguns pa\u00edses sentiram a necessidade urgente de investir em energia solar e e\u00f3lica como substitutivo \u00e0s termoel\u00e9tricas. Christophers, no entanto, nota que os pre\u00e7os finais ao consumidor, que se elevaram em fun\u00e7\u00e3o do custo do g\u00e1s natural, n\u00e3o impulsionaram lucros substancialmente maiores, porque houve de fato uma redu\u00e7\u00e3o no consumo total \u2013 o que aponta para o fato de que a energia el\u00e9trica \u00e9 uma commodity exc\u00eantrica, n\u00e3o totalmente suscet\u00edvel \u00e0s leis b\u00e1sicas de mercado, como sugere Christophers a partir de sua leitura de Karl Polanyi. Mais do que isso, a urg\u00eancia em trocar a matriz energ\u00e9tica nesse contexto de risco tinha mais a ver com a subsist\u00eancia energ\u00e9tica nacional do que com as emerg\u00eancias clim\u00e1ticas: nesse caso, n\u00e3o foi o lucro pontualmente excepcional que permitiu com que agentes p\u00fablicos e privados entrassem na corrida por produ\u00e7\u00e3o de energia limpa, mas sim a incerteza em rela\u00e7\u00e3o ao fornecimento b\u00e1sico. Em outros termos, o que impulsionou a mais recente transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica na Europa foi o p\u00e2nico de ficar sem energia alguma, mais do que o senso de oportunismo capitalista. Diante disso, Christophers alega: n\u00e3o \u00e9 o capitalismo que vai salvar o mundo do aquecimento global. Deixados por conta dos capitalistas e das regras do mercado, continuaremos a consumir energia el\u00e9trica de fontes n\u00e3o renov\u00e1veis e sujas. E, mesmo que a Europa e os EUA, que s\u00e3o capazes de executar uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica mais ampla e r\u00e1pida, consigam efetuar a descarboniza\u00e7\u00e3o do sistema energ\u00e9tico a despeito das distor\u00e7\u00f5es impostas pelo capitalismo, ainda assim restar\u00e1 todo um planeta para fazer a transi\u00e7\u00e3o. Bangladesh, Egito, Nig\u00e9ria e Indon\u00e9sia s\u00e3o apenas alguns dos pa\u00edses que s\u00e3o quase que integralmente dependentes de combust\u00edveis f\u00f3sseis para a produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica. E, em breve, o crescimento econ\u00f4mico desses pa\u00edses far\u00e1 a demanda por energia el\u00e9trica crescer exponencialmente. Se essas na\u00e7\u00f5es confiarem nas leis de mercado para efetuar realizar a transi\u00e7\u00e3o, seguramente n\u00e3o conseguir\u00e3o consum\u00e1-la, mesmo que os custos de instala\u00e7\u00e3o e os gastos operacionais das geradoras de energia solar e e\u00f3lica caiam ainda mais. Logo, Christophers insiste em um retorno ao keynesianismo, algo na linha do Green New Deal, que d\u00ea aos estados nacionais o controle sobre o processo de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, seja por meio do restabelecimento dos subs\u00eddios ao capital privado, seja pela pr\u00f3pria indu\u00e7\u00e3o p\u00fablica na instala\u00e7\u00e3o de geradores de energia limpa. Ausente, pelo menos por ora, qualquer perspectiva revolucion\u00e1ria, e mantidas as normas vigentes do capitalismo de mercado, \u00e9 nos subs\u00eddios e no controle estatal que reside a maior esperan\u00e7a de uma transi\u00e7\u00e3o verde dentro dos acordos multilaterais firmados. Naturalmente, essa aposta ainda \u00e9 feita com base na consci\u00eancia de que o capitalismo \u00e9 e ainda ser\u00e1 a for\u00e7a condutora da sociedade nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. E repousa, outrossim, em uma estrutura geopol\u00edtica esclerosada \u2013 o Estado-na\u00e7\u00e3o, que tem sido muito antes uma insistente barreira \u00e0 transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e aos acordos multilaterais, do que um trunfo na corrida pela descarboniza\u00e7\u00e3o. Mas, pelo menos, o livro de Christophers n\u00e3o ilude o leitor com solu\u00e7\u00f5es simplistas ou expectativas v\u00e3s, nem o conclama \u00e0 a\u00e7\u00e3o sem t\u00e1tica ou sem dire\u00e7\u00e3o. A obra apenas elucida o estado atual da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e de suas armadilhas. E isso n\u00e3o \u00e9 pouco, em vista da complexidade do que est\u00e1 em vigor, da urg\u00eancia da transforma\u00e7\u00e3o e de tudo o mais que est\u00e1 em jogo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"8d96459b-db31-4ccd-aae0-3cf523a7baef\">Professor de Teoria Liter\u00e1ria no Instituto de Letras e no PPG-Letras da UFRGS. Editor do site Carbono. Bluesky: <a href=\"https:\/\/bsky.app\/profile\/antbarros.bsky.social\">antbarros.bsky.social<\/a>. <a href=\"#8d96459b-db31-4ccd-aae0-3cf523a7baef-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 1 &#8211; dezembro de 2024.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ou por que o capitalismo n\u00e3o vai salvar o planeta.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":169,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Professor de Teoria Liter\u00e1ria no Instituto de Letras e no PPG-Letras da UFRGS. Editor do site Carbono. 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