{"id":1471,"date":"2026-03-12T18:01:14","date_gmt":"2026-03-12T21:01:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1471"},"modified":"2026-04-11T10:55:21","modified_gmt":"2026-04-11T13:55:21","slug":"a-teoria-da-floresta-sombria-da-internet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/03\/12\/a-teoria-da-floresta-sombria-da-internet\/","title":{"rendered":"A Teoria da Floresta Sombria da Internet"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Bogna Konior<sup data-fn=\"f7f3836c-263d-4343-a98b-5bcc39e78e70\" class=\"fn\"><a href=\"#f7f3836c-263d-4343-a98b-5bcc39e78e70\" id=\"f7f3836c-263d-4343-a98b-5bcc39e78e70-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-right has-small-font-size\"><blockquote><p><em>\u201cAonde vamos?\u201d perguntou Shi Qiang.<\/em><br><em>\u201cPara o lugar mais escuro.\u201d<\/em><sup data-fn=\"5f533ebb-3793-4ddd-9462-cacee882678b\" class=\"fn\"><a href=\"#5f533ebb-3793-4ddd-9462-cacee882678b\" id=\"5f533ebb-3793-4ddd-9462-cacee882678b-link\">2<\/a><\/sup><br><br>\u201c<em>Existe um enigma na l\u00edngua qu\u00edchua:\u00a0 El que me nombra, me rompe. Aquilo que me nomeia, me quebra. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9, obviamente, o &#8216;sil\u00eancio&#8217;. Mas a verdade \u00e9 que qualquer pessoa que saiba o seu nome pode lhe partir ao meio.<\/em>\u201d<sup data-fn=\"90c868e0-8389-4655-9f8f-6051fff8444c\" class=\"fn\"><a href=\"#90c868e0-8389-4655-9f8f-6051fff8444c\" id=\"90c868e0-8389-4655-9f8f-6051fff8444c-link\">3<\/a><\/sup><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A internet \u00e9 uma floresta sombria. Suas ra\u00edzes crescem para cima, a copa se estende para baixo: envolvendo o planeta, a internet circula entre sat\u00e9lites e cabos submarinos. A internet \u00e9 um espa\u00e7o tang\u00edvel, sim, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma extens\u00e3o mental. Feita para o sonambulismo, para o del\u00edrio mundano. Para rituais de sacrif\u00edcio. Pessoas se perdem nela ao emitirem luz nos lugares errados, expondo demais de si mesmas, comunicando-se impulsiva e imprudentemente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea pode acess\u00e1-la atrav\u00e9s de uma interface, mas tamb\u00e9m pelo seu pr\u00f3prio bolso. Voc\u00ea pode entrar por meio de uma tela, mas voc\u00ea precisa exibir algo de si pr\u00f3prio em troca. Uma viajante que adentra a floresta nunca est\u00e1 s\u00f3; olhos envolvem-na como fita isolante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe somente um simples enigma a se responder na entrada para a internet: <em>O que voc\u00ea est\u00e1 pensando?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um enigma que precisamos responder de novo e de novo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma simples pergunta. O que voc\u00ea est\u00e1 pensando?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um convite para se comunicar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos anos 1990, a abordagem filos\u00f3fica do romance cyberpunk de Mark Fisher nos proporcionou uma teoria persuasiva do ciberespa\u00e7o como uma pr\u00f3tese da humanidade, uma natureza cibern\u00e9tica, uma extens\u00e3o do sistema nervoso humano. Para Fisher, assim como os personagens no intoxicante cl\u00e1ssico de William Gibson, <em>Neuromancer,<\/em> n\u00f3s somos possu\u00eddos pela internet; t\u00e3o vivos quanto a corrente digital que circula em nossas veias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Somos destitu\u00eddos de vontade e inertes como as m\u00e1quinas com as quais nos tornamos neurologicamente \u00edntimos, permitindo que invadam nossos canais de endorfina e impulsos sociais, viciados em seus estimulantes.<sup data-fn=\"e63fabc1-a8f3-42ff-a409-d5f0a869c11a\" class=\"fn\"><a href=\"#e63fabc1-a8f3-42ff-a409-d5f0a869c11a\" id=\"e63fabc1-a8f3-42ff-a409-d5f0a869c11a-link\">4<\/a><\/sup> Nossas neuroses, emo\u00e7\u00f5es e aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o reguladas por nossos computadores. Como se estiv\u00e9ssemos em transe, seguimos o padr\u00e3o coletivo de sentimentos que nos \u00e9 transmitido \u2013 hipnose coletiva, um sentimento de indigna\u00e7\u00e3o compartilhada, medo, raiva, alegria, catarse, justi\u00e7a, vingan\u00e7a, prazer. Online, todos os impessoais eventos mundanos s\u00e3o vivenciados como intensamente pessoais, mesmo que n\u00e3o tenhamos parte alguma neles. Internalizamos tudo, lutamos para ver al\u00e9m de n\u00f3s mesmos, para ver os mecanismos que n\u00e3o est\u00e3o centrados em n\u00f3s. A internet \u00e9 uma claustrofobia de interioridade que apenas parece ser nossa. Ela \u201cn\u00e3o funciona por supress\u00e3o ou repress\u00e3o, mas por meio de um processo participativo&#8230; [Ela] n\u00e3o representa, nem mesmo \u2018manipula\u2019, a opini\u00e3o p\u00fablica, mas a substitui\u201d.<sup data-fn=\"023d02e5-5c68-4205-8911-0b66f5a3bd96\" class=\"fn\"><a href=\"#023d02e5-5c68-4205-8911-0b66f5a3bd96\" id=\"023d02e5-5c68-4205-8911-0b66f5a3bd96-link\">5<\/a><\/sup> Todas as a\u00e7\u00f5es s\u00e3o rea\u00e7\u00f5es, rea\u00e7\u00f5es previs\u00edveis, infinitos sistemas nervosos oscilando no mesmo ritmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A maior parte do sofrimento humano vem de uma cren\u00e7a exagerada na capacidade de a\u00e7\u00e3o e no prop\u00f3sito, uma cren\u00e7a que o aspecto personalizado da <em>Web 2.0<\/em> acentua. \u201cO que deve ser feito e quem sou eu?\u201d \u00e9 a pergunta que ela repetidamente nos apresenta, como se a resposta fosse importante. O que estou pensando? Onde est\u00e1 minha mente? O que vejo na tela \u00e9 uma express\u00e3o da minha mente? A filosofia da cultura digital est\u00e1 perpetuamente dividida entre dois extremos: declarar a internet um lugar aben\u00e7oado de esquizofrenia produtiva, onde perdemos nossa pr\u00f3pria autoimport\u00e2ncia para nos comunicarmos com o mundo, ou, ao contr\u00e1rio, conden\u00e1-la como um del\u00edrio narcisista, onde tudo que fazemos fortalece nossa autoimport\u00e2ncia.<sup data-fn=\"17eb2757-e2da-4b5a-b3dd-9dc64352205d\" class=\"fn\"><a href=\"#17eb2757-e2da-4b5a-b3dd-9dc64352205d\" id=\"17eb2757-e2da-4b5a-b3dd-9dc64352205d-link\">6<\/a><\/sup> Benjamin Bratton resume esse paradoxo contempor\u00e2neo ao observar que \u201cparanoia e narcisismo s\u00e3o&#8230; duas fun\u00e7\u00f5es da mesma m\u00e1scara\u201d.<sup data-fn=\"cc7980a3-e5d8-420b-a19f-ac23315d0994\" class=\"fn\"><a href=\"#cc7980a3-e5d8-420b-a19f-ac23315d0994\" id=\"cc7980a3-e5d8-420b-a19f-ac23315d0994-link\">7<\/a><\/sup> O que deve ser feito e quem sou eu?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por um lado, nos sentimos pluralizados, misturados, coletivos, constantemente impactados pela diversidade das naturezas humanas expostas em nossas telas, nos sentimos implicados no destino dos outros. Por\u00e9m h\u00e1 simplesmente muita diversidade, e decidimos n\u00e3o confiar nela. Esse caos amea\u00e7ador estreita as barreiras ao redor do eu, em vez de dissolv\u00ea-lo em um encontro com o outro. Instala-se a paranoia epistemol\u00f3gica: o que \u00e9 verdade? Quem est\u00e1 do meu lado? Onde est\u00e1 o meu lado?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, nos \u00e9 vendida a integridade ilus\u00f3ria do mundo e do eu: livre arb\u00edtrio, poder de a\u00e7\u00e3o, causalidade e \u00e9tica. Tudo parece pessoal, at\u00e9 mesmo o destino do mundo, o qual aparece para n\u00f3s como um mundo \u00fanico e comum, simplificado em nossos individualizados feeds de not\u00edcia. Parece n\u00e3o haver nada fora dessa narrativa que abarque tudo, mas que, ainda assim, concentre-se em n\u00f3s. Cada um dos milh\u00f5es de usu\u00e1rios \u00e9 injetado diariamente com c\u00f3smicas tarefas globais atrav\u00e9s de feeds supostamente individualizados e \u00fanicos que comunicam todos a mesma informa\u00e7\u00e3o.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada novo meio de comunica\u00e7\u00e3o simultaneamente expande e destr\u00f3i o ego humano, nos mostrando mais do universo e, em seguida, reduzindo tudo a n\u00f3s mesmos. Fadado a descobrir que n\u00e3o pode inserir-se numa rede social ativa e esperar por um exerc\u00edcio franco de escolha e \u00e9tica, \u201ccada gera\u00e7\u00e3o \u00e9 obrigada a constatar novamente o horror por si pr\u00f3pria, e descobrir que \u00e9 impotente\u201d.<sup data-fn=\"66b2b3ee-893f-4e56-97e7-66c40d68cc31\" class=\"fn\"><a href=\"#66b2b3ee-893f-4e56-97e7-66c40d68cc31\" id=\"66b2b3ee-893f-4e56-97e7-66c40d68cc31-link\">8<\/a><\/sup>&nbsp;Quanto mais o mundo pode ser descrito atrav\u00e9s da teoria da complexidade e do comportamento emergente extra-humano, mais a ci\u00eancia nos diz que no\u00e7\u00f5es como livre arb\u00edtrio e causalidade podem ser inst\u00e1veis, e, como uma solu\u00e7\u00e3o desesperada, mais dogmaticamente os humanos reafirmam descri\u00e7\u00f5es textuais detalhadas de pensamento e moral individuais. Na pris\u00e3o da interioridade que \u00e9 a internet, tudo depende de n\u00f3s, mas nenhum entre n\u00f3s consegue concretizar a mudan\u00e7a que deseja. N\u00e3o \u00e9 de se admirar a neurose subjacente a esse paradoxo: tudo \u00e9 internalizado, at\u00e9 o clima e o destino do planeta dependem de n\u00f3s, por\u00e9m s\u00f3 podemos fazer o que o ve\u00edculo nos permite: externalizar, comunicar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-right has-small-font-size\"><blockquote><p><em>\u201cEu poderia decidir me comunicar com voc\u00ea.\u201d<\/em><br><em>\u201cSe fizer isso, precisa saber o pre\u00e7o que vai pagar: assim voc\u00ea revelar\u00e1 sua exist\u00eancia para mim.\u201d<\/em><sup data-fn=\"e1b930ff-311b-4ec0-81fc-35952ae60b22\" class=\"fn\"><a href=\"#e1b930ff-311b-4ec0-81fc-35952ae60b22\" id=\"e1b930ff-311b-4ec0-81fc-35952ae60b22-link\">9<\/a><\/sup><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A teoria da floresta sombria da internet trata da trag\u00e9dia da comunica\u00e7\u00e3o, sua compuls\u00e3o, necessidade, futilidade e risco. \u00c9 um experimento com o \u201csevero hiper-niilismo sobrevivencialista\u201d,<sup data-fn=\"5c20ff46-6f85-440d-9eb8-592448dc4070\" class=\"fn\"><a href=\"#5c20ff46-6f85-440d-9eb8-592448dc4070\" id=\"5c20ff46-6f85-440d-9eb8-592448dc4070-link\">10<\/a><\/sup> com sci-fi metaf\u00edsico, em vez do cyberpunk, como modelo para o ciberespa\u00e7o. Enquanto Mark Fisher pretendia destilar a singularidade da internet, meu objetivo \u00e9 descrever sua natureza gen\u00e9rica em um n\u00edvel c\u00f3smico. Quero capturar a brutalidade de nossa situa\u00e7\u00e3o: a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma compuls\u00e3o e, ao mesmo tempo, a fonte dos conflitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O escritor de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, Cixin Liu, desenvolve sua teoria da floresta sombria na trilogia <em>Mem\u00f3rias do Passado da Terra<\/em> como resposta ao paradoxo de Fermi: se estamos rodeados por vida, por que o universo \u00e9 t\u00e3o silencioso? O universo inteiro n\u00e3o deveria ser como um feed barulhento de rede social, com todos disputando a aten\u00e7\u00e3o uns dos outros? A teoria da floresta sombria inverte essa suposi\u00e7\u00e3o, explicando que a comunica\u00e7\u00e3o, por revelar nossa exist\u00eancia aos outros, \u00e9 um sinal de estupidez, n\u00e3o de intelig\u00eancia. Isso n\u00e3o se deve ao fato de todas as civiliza\u00e7\u00f5es alien\u00edgenas serem hostis, mas porque as leis do universo exigem um conflito mortal entre todas as civiliza\u00e7\u00f5es que compartilham a mesma dimens\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sobreviv\u00eancia \u00e9 a necessidade primordial de todas as civiliza\u00e7\u00f5es. Elas se expandem e sua necessidade de recursos cresce, mas a mat\u00e9ria total no cosmos permanece constante. \u201cExponenciais s\u00e3o os dem\u00f4nios na matem\u00e1tica\u201d.<sup data-fn=\"8acc989a-1eb5-49e1-b410-5f1b017bbf29\" class=\"fn\"><a href=\"#8acc989a-1eb5-49e1-b410-5f1b017bbf29\" id=\"8acc989a-1eb5-49e1-b410-5f1b017bbf29-link\">11<\/a><\/sup> Se a vida continua crescendo e lutando por sua pr\u00f3pria exist\u00eancia enquanto os recursos n\u00e3o se expandem, \u00e9 preciso lutar por eles. \u201cO universo inteiro recebeu essa m\u00e3o morta\u201d.<sup data-fn=\"e6561676-ecb6-4f79-9d91-890238f28eac\" class=\"fn\"><a href=\"#e6561676-ecb6-4f79-9d91-890238f28eac\" id=\"e6561676-ecb6-4f79-9d91-890238f28eac-link\">12<\/a><\/sup> O universo \u00e9 um campo de batalha. A exist\u00eancia \u00e9 uma guerra. Na escurid\u00e3o do universo existem muitas civiliza\u00e7\u00f5es, todas ca\u00e7adoras e presas. Na escurid\u00e3o, \u00e9 melhor permanecer em sil\u00eancio. A comunica\u00e7\u00e3o pode atrair a aten\u00e7\u00e3o de outra civiliza\u00e7\u00e3o. Quando duas se percebem, irrevogavelmente uma delas deve morrer pelas m\u00e3os da outra. A mais inteligente permanece em sil\u00eancio ou ataca primeiro. Por que uma solu\u00e7\u00e3o t\u00e3o brutal? Dada a limitada disponibilidade de recursos, presumir a benevol\u00eancia do outro \u00e9 uma aposta muito arriscada dentro da \u201ccadeia c\u00f3smica de desconfian\u00e7a\u201d, onde a comunica\u00e7\u00e3o interc\u00f3smica \u00e9 necessariamente arriscada. Alien\u00edgenas podem ter uma defini\u00e7\u00e3o muito diferente de verdade, \u00e9tica ou bem comum. Claro, voc\u00ea <em>pode<\/em> ser \u201cbenevolente\u201d, como eu entendo, mas eu arriscaria toda uma sociedade planet\u00e1ria com base nessa suposi\u00e7\u00e3o? E voc\u00ea arriscaria a sua, dando-me a oportunidade de explicar para voc\u00ea minha ideia de \u201cbenevol\u00eancia\u201d? E se um de n\u00f3s mentir? Comportamentos interdependentes tornam-se complexos rapidamente, mas o resultado \u00e9 impiedosamente constante: um de n\u00f3s morrer\u00e1. Essa trilogia considera v\u00e1rios cen\u00e1rios que poderiam impedir esse resultado, acabando por refutar todos eles. A humanidade faz essa descoberta cient\u00edfica monumental tardiamente, por\u00e9m, para as civiliza\u00e7\u00f5es c\u00f3smicas, a teoria da floresta sombria \u00e9 t\u00e3o fundamental quanto qualquer outra da f\u00edsica. \u00c9 automatizada, irrefletida, independente de emo\u00e7\u00e3o, vontade ou \u00e9tica. \u201cA entropia no universo aumenta, a ordem diminui&#8230; No que diz respeito a um significado mais elevado, \u00e9 in\u00fatil pensar sobre isso\u201d.<sup data-fn=\"28ceba5a-a98f-4549-b760-c068fd9ff6ba\" class=\"fn\"><a href=\"#28ceba5a-a98f-4549-b760-c068fd9ff6ba\" id=\"28ceba5a-a98f-4549-b760-c068fd9ff6ba-link\">13<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns podem se opor \u00e0 fria an\u00e1lise da teoria da floresta sombria de Liu. No entanto, ela nada mais faz do que generalizar as leis da f\u00edsica para chegar a uma c\u00f3smica teoria dos jogos do desenvolvimento civilizacional. A suposi\u00e7\u00e3o de que toda a exist\u00eancia est\u00e1 suspensa entre conatus e entropia refor\u00e7a as leis \u00e0s quais a humanidade est\u00e1 subordinada, assim como qualquer outra forma de complexidade (poder\u00edamos desejar um mundo diferente, mas \u00e9 o que temos). Na concep\u00e7\u00e3o de entropia fornecida pela mec\u00e2nica estat\u00edstica, muitos sistemas, sejam eles biol\u00f3gicos ou sociais, podem ser compreendidos com as mesmas ferramentas que usamos para entender a entropia na F\u00edsica. Todo sistema isolado tende a progredir em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 desordem \u2013 a op\u00e7\u00e3o de alta entropia. De uma forma ou de outra, o conflito e a dissipa\u00e7\u00e3o de energia est\u00e3o entrela\u00e7ados na estrutura da exist\u00eancia. \u00c9 uma quest\u00e3o de \u201ccomo\u201d e \u201cquando\u201d, n\u00e3o de \u201cse\u201d. Uma an\u00e1lise recente de mais de seiscentos anos de hist\u00f3ria humana confirma que cada \u201csistema humano\u201d deve se livrar do seu pr\u00f3prio excesso; com o aumento da complexidade, h\u00e1 tamb\u00e9m o aumento da entropia. \u201cA guerra \u00e9 simplesmente um dos m\u00e9todos que o sistema tem para dissipar a entropia na maior velocidade poss\u00edvel\u201d.<sup data-fn=\"34e97cf9-b182-4cd1-8a13-2502f050fb48\" class=\"fn\"><a href=\"#34e97cf9-b182-4cd1-8a13-2502f050fb48\" id=\"34e97cf9-b182-4cd1-8a13-2502f050fb48-link\">14<\/a><\/sup> A dissipa\u00e7\u00e3o de energia n\u00e3o \u00e9 simplesmente um resultado de \u201cm\u00e1s escolhas\u201d ou \u201ca\u00e7\u00f5es anti\u00e9ticas\u201d, mas uma probabilidade estat\u00edstica inevit\u00e1vel ligada \u00e0 complexidade. Quanto mais complexa e inteligente a vida se torna, maior \u00e9 o pre\u00e7o que ela pode vir a ter que pagar em conflitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-right has-small-font-size\"><blockquote><p>\u201c<em>A desconfian\u00e7a em cadeia n\u00e3o tem qualquer rela\u00e7\u00e3o com a moralidade nem com a estrutura social de cada civiliza\u00e7\u00e3o. Basta pensar em cada civiliza\u00e7\u00e3o como pontos nas extremidades de um segmento. Mesmo se, internamente, as civiliza\u00e7\u00f5es forem benevolentes ou maliciosas, s\u00e3o todas id\u00eanticas quando entram na trama formada pela desconfian\u00e7a em cadeia&#8230; Resumindo: tanto deixar voc\u00ea saber que eu existo quanto deixar que voc\u00ea continue existindo s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es perigosas para mim.\u201d<\/em><sup data-fn=\"b39c647f-78da-41a2-9405-04f852f1c376\" class=\"fn\"><a href=\"#b39c647f-78da-41a2-9405-04f852f1c376\" id=\"b39c647f-78da-41a2-9405-04f852f1c376-link\">15<\/a><\/sup><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Teoria da Floresta sombria da internet trata do risco associado ao pr\u00f3prio passaporte de que precisamos para entrar no nosso ciberespa\u00e7o cotidiano: comunica\u00e7\u00e3o, filtragem do eu, falar a verdade sobre n\u00f3s mesmos, e revela\u00e7\u00e3o ou oculta\u00e7\u00e3o de nossas coordenadas. N\u00e3o se trata um plano de jogo vencedor ou um projeto para a \u201cmudan\u00e7a\u201d, mas sim de uma descri\u00e7\u00e3o (as teorias normativas sobre como o mundo <em>deveria<\/em> ser em seu estado ideal devem ser deixadas para padres e utopistas). A Web 2.0 se baseia em dois axiomas. Primeiro, a sociabilidade \u00e9 uma necessidade humana prim\u00e1ria, a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para a sobreviv\u00eancia. Segundo, a sociabilidade \u00e9 a portadora de todos os conflitos humanos. Quanto mais sociabilidade, mais entropia. Nossos sistemas nervosos n\u00e3o conseguem distinguir entre sociabilidade e sobreviv\u00eancia, e por isso estamos condenados uns aos outros. Toda a internet recebeu essa m\u00e3o morta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dado que comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 tudo, os pensamentos, expressos na linguagem, s\u00e3o dotados de um poder \u00fanico. N\u00f3s os desenhamos como mapas que devem levar os outros \u00e0s nossas mentes e cora\u00e7\u00f5es. Mas pensamentos s\u00e3o realmente representa\u00e7\u00f5es verdadeiras de nossas cren\u00e7as ou de n\u00f3s mesmos? Pensamentos s\u00e3o experi\u00eancias cerebrais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eles s\u00e3o o que nos levam de um momento ao pr\u00f3ximo, o que nos fazem vivenciar o passar do tempo. N\u00e3o precisam ser gravados em n\u00f3s, mesmo quando cada um deles \u00e9 imortalizado no brilho inerte do ciberespa\u00e7o. Ainda assim, congelados, eles fortalecem a alucina\u00e7\u00e3o do eu \u2013 uma \u201cprova concreta\u201d de que ele \u201cexiste\u201d, acredita em coisas, tem convic\u00e7\u00f5es e coisas a fazer. Uma alucina\u00e7\u00e3o transcendental comum a todos n\u00f3s, sustentada pela interface comunicativa atrav\u00e9s da qual vivemos nossas vidas. Ao prestarmos indevida aten\u00e7\u00e3o aos pensamentos, especialmente \u00e0queles que acreditamos ser nossos, \u201cn\u00e3o s\u00f3 nos enganamos; mas estamos enganados quanto a possuir um eu\u201d.<sup data-fn=\"6c7ff156-765c-47e5-9240-8d36149cc9e2\" class=\"fn\"><a href=\"#6c7ff156-765c-47e5-9240-8d36149cc9e2\" id=\"6c7ff156-765c-47e5-9240-8d36149cc9e2-link\">16<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A teoria da floresta sombria da internet contorna essa fal\u00e1cia e, em vez disso, descreve din\u00e2micas automatizadas ligadas \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o. Como um sistema isolado, ela tende para a op\u00e7\u00e3o de alta entropia. Conex\u00e3o produz conflito. Inten\u00e7\u00e3o, hostilidade ou benevol\u00eancia interna n\u00e3o importam quando um de n\u00f3s \u00e9 reduzido a um elo na desconfian\u00e7a em cadeia cibern\u00e9tica. Para sinalizar uma socialidade \u201csegura\u201d, cada usu\u00e1rio precisa ser leg\u00edvel em sua pr\u00e1tica de autorrepresenta\u00e7\u00e3o; todos precisam se apresentar. O sistema-floresta precisa ser capaz de nos ler, assim como os outros usu\u00e1rios. O que voc\u00ea est\u00e1 pensando? Descrevemos nossos pensamentos incessante e detalhadamente. Mas essa legibilidade significa que nossas coordenadas est\u00e3o expostas. Podemos ser vistos, atacados e governados. Quanto mais detalhadas forem as nossas descri\u00e7\u00f5es, mais f\u00e1ceis seremos de governar. Quanto mais somos vistos, mais facilmente nos tornamos alvo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na floresta sombria c\u00f3smica, aqueles que se manifestam apostam contra a entropia, atraem olhares, provocam ataques. Outros se concentram em ataques preventivos: ataque antes que eles ataquem voc\u00ea. Liu, de forma otimista, cr\u00ea que, para os humanos, em contraste com sociedades alien\u00edgenas que s\u00e3o metafisicamente distantes demais para se comunicarem efetivamente, a desconfian\u00e7a em cadeia \u201cse estender\u00e1 apenas por um ou dois n\u00edveis at\u00e9 ser resolvida pela comunica\u00e7\u00e3o\u201d.<sup data-fn=\"6261f880-9ab3-4801-9f7b-72328e589d3b\" class=\"fn\"><a href=\"#6261f880-9ab3-4801-9f7b-72328e589d3b\" id=\"6261f880-9ab3-4801-9f7b-72328e589d3b-link\">17<\/a><\/sup> Mas isso pressup\u00f5e que a comunica\u00e7\u00e3o entre humanos \u00e9 verdadeira. \u00c9 por isso que determinar a <em>verdade<\/em> \u00e9 a paranoia que guia a internet \u2013 <em>o que ela realmente pensa; mas quem s\u00e3o eles, realmente, l\u00e1 no fundo, que sequer eles mesmos conhecem <\/em>\u2013, bem como fazer infind\u00e1veis interpreta\u00e7\u00f5es, autoexposi\u00e7\u00f5es e declara\u00e7\u00f5es para que <em>n\u00e3o haja d\u00favida <\/em>sobre as inten\u00e7\u00f5es do outro, ou das nossas pr\u00f3prias. Se ao menos descrev\u00eassemos as coisas de forma suficientemente clara, se ao menos nos comunic\u00e1ssemos incansavelmente, excessivamente, ent\u00e3o certamente poder\u00edamos provar nossa benevol\u00eancia e nos libertar da desconfian\u00e7a em cadeia. E, assim, cada troca \u00e9 projetada para obter o m\u00e1ximo de clareza, a fim de antecipar questionamentos; por\u00e9m, mesmo assim, ela requer in\u00fameras ressalvas. Conex\u00e3o produz complexidade, complexidade produz conflito: um mecanismo autossustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a entropia tamb\u00e9m flui atrav\u00e9s de n\u00f3s. A desintegra\u00e7\u00e3o \u00e9 ins\u00edpida, previs\u00edvel, nos abate suavemente. Todo sistema oscila entre a ordem e o caos. Na pris\u00e3o da interioridade que \u00e9 a internet, algu\u00e9m sempre tem que ser descartado: direcionando a entropia para longe do eu, em dire\u00e7\u00e3o ao outro. A complexidade (de argumentos, de grupos humanos) aumenta at\u00e9 se torne excessiva, e algum sacrif\u00edcio precisa ser feito para retornar ao ef\u00eamero equil\u00edbrio, onde a ilus\u00e3o de uma comunica\u00e7\u00e3o benevolente ainda pode ser mantida. O que \u00e9 uma \u201ccomunidade\u201d online sen\u00e3o uma forma sofisticada de destrui\u00e7\u00e3o m\u00fatua assegurada, suspensa entre a neurose e o narcisismo, ligadas \u00e0 inegoci\u00e1vel necessidade de se comunicar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-right has-small-font-size\"><blockquote><p>\u201c<em>Loucura, caos, vandalismo er\u00f3tico, devasta\u00e7\u00e3o de in\u00fameras almas \u2013 enquanto gritamos e perecemos, a Hist\u00f3ria lambe o dedo e vira a p\u00e1gina.\u201d<\/em><sup data-fn=\"36fd36b2-2be7-43e0-9e4c-611fa24c9aba\" class=\"fn\"><a href=\"#36fd36b2-2be7-43e0-9e4c-611fa24c9aba\" id=\"36fd36b2-2be7-43e0-9e4c-611fa24c9aba-link\">18<\/a><\/sup><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Simb\u00f3lica e materialmente, a exist\u00eancia \u00e9 um conflito, uma disc\u00f3rdia que produz complexidade. A teoria da floresta sombria generaliza, em n\u00edvel c\u00f3smico, a natureza entr\u00f3pica da comunica\u00e7\u00e3o. Suas \u00e1rvores se enra\u00edzam por toda parte. Patrulhamos a floresta, ouvindo os passos uns dos outros, todos n\u00f3s somos ca\u00e7adores e presas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em algumas ontologias amer\u00edndias, a preda\u00e7\u00e3o, a guerra e o canibalismo est\u00e3o na base das rela\u00e7\u00f5es entre os seres humanos e outras esp\u00e9cies. \u201cNa Amaz\u00f4nia, o xamanismo \u00e9 violento tanto quanto a guerra \u00e9 sobrenatural. Ambos guardam uma refer\u00eancia \u00e0 ca\u00e7a enquanto modelo de agonismo [&#8230;], marcado por uma convic\u00e7\u00e3o profunda de que toda atividade vital \u00e9 uma forma de expans\u00e3o predat\u00f3ria\u201d.<sup data-fn=\"92bc0b93-0837-4fb0-a5fc-d048007c9763\" class=\"fn\"><a href=\"#92bc0b93-0837-4fb0-a5fc-d048007c9763\" id=\"92bc0b93-0837-4fb0-a5fc-d048007c9763-link\">19<\/a><\/sup> Existir como planta ou animal \u00e9 estar em um conflito definido pelo consumo, pela guerra material e espiritual, onde uma esp\u00e9cie pode possuir o corpo e a mente da outra. Ca\u00e7ador e presa. A entropia reside no consumo necess\u00e1rio de outras almas. No \u201coutro\u201d lado do espectro espiritual, o te\u00f3logo crist\u00e3o Pierre Teilhard de Chardin admite que o conflito \u00e9 metafisicamente necess\u00e1rio para a natureza humana; ele \u00e9 \u201cum <em>fen\u00f4meno de antropog\u00eanese<\/em> org\u00e2nico\u201d, onde a humanidade se eleva apenas em conflito com outros.<sup data-fn=\"2f8df341-b0e0-432b-b9ae-861ff7c90485\" class=\"fn\"><a href=\"#2f8df341-b0e0-432b-b9ae-861ff7c90485\" id=\"2f8df341-b0e0-432b-b9ae-861ff7c90485-link\">20<\/a><\/sup>Humanos ca\u00e7am uns aos outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O atrito produz significado em um ciclo cont\u00ednuo, assim como opini\u00f5es muitas vezes se formam em nega\u00e7\u00e3o da realidade existente, tornando-nos, de forma interdependente, quem somos. A solidariedade e benevol\u00eancia existem, mas geralmente em defesa de um grupo contra outro, e, dessa forma, mesmo as melhores partes da natureza s\u00e3o pagas com entropia e o conflito que resulta na elimina\u00e7\u00e3o (simb\u00f3lica ou real) do outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns fil\u00f3sofos, como Georges Bataille, acreditavam que podemos nos livrar desse excesso de outra maneira, que poder\u00edamos utilizar esse conflito subjacente. Seu conceito bacanal e an\u00e1rquico de disp\u00eandio \u201cpode ser definido como o impulso il\u00f3gico e irresist\u00edvel \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o dos bens materiais ou morais que teria sido poss\u00edvel utilizar racionalmente\u201d, de modo que o que \u00e9 permitido na ordem social ganha significado e valor \u201csomente quando as for\u00e7as ordenadas e reservadas se liberam e se perdem para fins que n\u00e3o podem ser sujeitados a nada de que seja poss\u00edvel prestar contas.\u201d<sup data-fn=\"66952269-def0-4b7d-a5b6-be03fea9077f\" class=\"fn\"><a href=\"#66952269-def0-4b7d-a5b6-be03fea9077f\" id=\"66952269-def0-4b7d-a5b6-be03fea9077f-link\">21<\/a><\/sup>A destrui\u00e7\u00e3o de bens materiais e a submiss\u00e3o ao caos desumano s\u00e3o formas de entropia que, segundo ele, poderiam liberar parte da energia que circula em uma rede social complexa. Mas <em>alguma<\/em> forma de destrui\u00e7\u00e3o seguia sendo necess\u00e1ria, mesmo para Bataille.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A humanidade \u00e9 uma forma de energia \u2013 como todas as formas de energia \u2013 que responde \u00e0 entropia. A escritura da floresta sombria \u00e9 t\u00e3o adequada \u00e0 teoria dos jogos intergal\u00e1cticos quanto \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o personalizada na Web 2.0. N\u00f3s alucinamos o eu dentro de seu mecanismo, mas o processo pouco se importa com o eu. A interface da floresta pode nos ler bem, com suas plantas liberando o g\u00e1s estimulante e alucin\u00f3geno da subjetividade. Cada elemento na desconfian\u00e7a em cadeia no meio cibern\u00e9tico, sustentado pela interface comunicativa, se pergunta: o que deve ser feito e quem sou eu? Respondemos, repetidamente, por meio de interfaces cada vez mais sofisticadas. Uma vez que a floresta sombria \u00e9 posta em movimento, podemos perder o que est\u00e1 por tr\u00e1s da espessa n\u00e9voa da subjetividade \u2013 um processo de extra\u00e7\u00e3o automatizado que reduz cada um de n\u00f3s \u2013 \u00e0 complexidade que geramos, medindo nosso potencial de entropia, colocando um elemento contra o outro, projetando padr\u00f5es de desordem. Nessa floresta, \u00e9 melhor ficar em sil\u00eancio ou se preparar para o conflito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O que voc\u00ea est\u00e1 pensando?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<strong><br><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado em e-book pela FlugSchrifiten, em 2020. Agradecemos encarecidamente \u00e0 autora por ceder os direitos da tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/www.google.com\/url?sa=t&amp;source=web&amp;rct=j&amp;opi=89978449&amp;url=https:\/\/flugschriften.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/flugschriften-6-bogna-konior-the-dark-forest-theory-of-the-internet-v.2.pdf&amp;ved=2ahUKEwjmqJvS5ZiTAxU5A7kGHbcrGGMQFnoECBMQAQ&amp;usg=AOvVaw1aqXj4s-OXb2q7dW1U74b1\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Roger Gregory Silveira.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"f7f3836c-263d-4343-a98b-5bcc39e78e70\">P\u00f3s-doutoranda no Departamento de M\u00eddia Interativa na NYU Shangai. Autora do livro <em><a href=\"https:\/\/www.politybooks.com\/bookdetail?book_slug=the-dark-forest-theory-of-the-internet--9781509569250\">The Dark Forest Theory of the Internet<\/a><\/em>.  <a href=\"#f7f3836c-263d-4343-a98b-5bcc39e78e70-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"5f533ebb-3793-4ddd-9462-cacee882678b\">Cixin Liu. <em>A floresta sombria. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o: Leonardo Alves. S\u00e3o Paulo: Suma, 2017<em>.<\/em> <a href=\"#5f533ebb-3793-4ddd-9462-cacee882678b-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"90c868e0-8389-4655-9f8f-6051fff8444c\">Carmen Maria Machado. Na casa dos sonhos. Tradu\u00e7\u00e3o: Ana Guadalupe. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2021. <a href=\"#90c868e0-8389-4655-9f8f-6051fff8444c-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e63fabc1-a8f3-42ff-a409-d5f0a869c11a\">Mark Fisher. <em>Flatline Constructs: <\/em>Gothic Materialism and Cybernetic Theory-Fiction. Nova York: Exmilitary Press, 2018. <a href=\"#e63fabc1-a8f3-42ff-a409-d5f0a869c11a-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 4 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"023d02e5-5c68-4205-8911-0b66f5a3bd96\">Este \u00e9 o Fisher discutindo o exemplo da pesquisa de opini\u00e3o, dado por Jean Baudrillard, mas eu acredito que ele diria que o exemplo \u00e9 aplic\u00e1vel ao ciberespa\u00e7o como um todo. Ver: Mark Fisher, <em>op. cit.<\/em>, p. 24. <a href=\"#023d02e5-5c68-4205-8911-0b66f5a3bd96-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 5 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"17eb2757-e2da-4b5a-b3dd-9dc64352205d\">Um exemplo desse debate em curso \u00e9 a condena\u00e7\u00e3o heideggeriana que Byung-Chul Han faz do otimismo digital de Vil\u00e9m Flusser. Ver: Byung-Chul Han. <em>No enxame: <\/em>perspectivas do digital. Editora Vozes, 2018. <a href=\"#17eb2757-e2da-4b5a-b3dd-9dc64352205d-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 6 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"cc7980a3-e5d8-420b-a19f-ac23315d0994\">Benjamin Bratton. \u201cThe Black Stack\u201d, <em>e-flux journal<\/em>, n. 53, 2014, p. 9. <a href=\"#cc7980a3-e5d8-420b-a19f-ac23315d0994-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 7 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"66b2b3ee-893f-4e56-97e7-66c40d68cc31\">Elena Ferrante. <em>Frantumaglia: <\/em>os caminhos de uma escritora. Tradu\u00e7\u00e3o: Marcello Lino. S\u00e3o Paulo: Editora Intrinseca, 2017<em>.<\/em> <a href=\"#66b2b3ee-893f-4e56-97e7-66c40d68cc31-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 8 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e1b930ff-311b-4ec0-81fc-35952ae60b22\">Cixin Liu, <em>op. cit<\/em>. <a href=\"#e1b930ff-311b-4ec0-81fc-35952ae60b22-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 9 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"5c20ff46-6f85-440d-9eb8-592448dc4070\">Mark Fisher, <em>op. cit.<\/em>, p. 17. <a href=\"#5c20ff46-6f85-440d-9eb8-592448dc4070-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 10 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"8acc989a-1eb5-49e1-b410-5f1b017bbf29\">Cixin Liu, <em>op. cit<\/em>. Al\u00e9m disso, \u201cno come\u00e7o dos anos 1990, Cixin Liu escreveu um programa de computador no qual cada civiliza\u00e7\u00e3o inteligente no universo era reduzida e um \u00fanico ponto. Naquela altura, ele havia programado 350.000 civiliza\u00e7\u00f5es em um raio de cem mil anos-luz e tinha colocado o seu computador 286 para trabalhar durante horas a fim de calcular a evolu\u00e7\u00e3o dessas civiliza\u00e7\u00f5es. Embora a conclus\u00e3o final do programa fosse algo ing\u00eanua, ela formou a base e deu forma \u00e0 sua vis\u00e3o de mundo\u201d. Este \u00e9 um excerto da revista <em>Peregrine<\/em>, citado em: Ann Vandermeer; Jeff Vandermeer (orgs.). <em>The Big Book of Science Fiction<\/em>. Nova York: Vintage Books, Penguin Random House LLC, 2016. (e-book). <a href=\"#8acc989a-1eb5-49e1-b410-5f1b017bbf29-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 11 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e6561676-ecb6-4f79-9d91-890238f28eac\"><em>Idem, ibidem<\/em>. <a href=\"#e6561676-ecb6-4f79-9d91-890238f28eac-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 12 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"28ceba5a-a98f-4549-b760-c068fd9ff6ba\">Cixin Liu. <em>Death\u2019s End<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Ken Liu. Nova York: Tor Books, 2016. (e-book) <a href=\"#28ceba5a-a98f-4549-b760-c068fd9ff6ba-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 13 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"34e97cf9-b182-4cd1-8a13-2502f050fb48\">Gianluca Martelloni; Francesca Di Patti; Ugo Bardi. <a href=\"https:\/\/arxiv.org\/abs\/1812.08071\">\u201cPattern Analysis of World Conflicts over the past 600 Years\u201d<\/a>. <em>arXiv<\/em>, <em>e-prints<\/em>, 2018. <a href=\"#34e97cf9-b182-4cd1-8a13-2502f050fb48-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 14 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"b39c647f-78da-41a2-9405-04f852f1c376\">Cixin Liu. <em>A Floresta sombria<\/em>. <a href=\"#b39c647f-78da-41a2-9405-04f852f1c376-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 15 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"6c7ff156-765c-47e5-9240-8d36149cc9e2\">Mark Fisher. <em>Fantasmas da minha vida.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o: Guilherme Ziggy.Autonomia Liter\u00e1ria, 2023<em>.<\/em> <a href=\"#6c7ff156-765c-47e5-9240-8d36149cc9e2-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 16 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"6261f880-9ab3-4801-9f7b-72328e589d3b\">Cixin Liu. <em>A Floresta sombria<\/em>. <a href=\"#6261f880-9ab3-4801-9f7b-72328e589d3b-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 17 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"36fd36b2-2be7-43e0-9e4c-611fa24c9aba\">Thomas Ligotti. \u201cProfessor Nobody\u2019s Little Lectures on Supernatural Horror\u201d. In: Thomas Ligotti. <em>Song of a Dead Dreamer and Grimscribe<\/em>. Nova York: Penguin Classics, 2011. (e-book) <a href=\"#36fd36b2-2be7-43e0-9e4c-611fa24c9aba-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 18 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"92bc0b93-0837-4fb0-a5fc-d048007c9763\">Eduardo Viveiros de Castro. <em>Metaf\u00edsicas canibais: <\/em>elementos para uma antropologia p\u00f3s-estrutural. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2015. Ver tamb\u00e9m: Rane Willerslev. <em>Soul Hunters: <\/em>Hunting, Animism, and Personhood among the Siberian Yukaghirs. Berkley: University of California Press, 2007. <a href=\"#92bc0b93-0837-4fb0-a5fc-d048007c9763-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 19 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"2f8df341-b0e0-432b-b9ae-861ff7c90485\">Paul Virilio. <em>Speed and Politics<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Marc Polizzotti. Los Angeles: Semiotext(e), 2007, p. 130. <a href=\"#2f8df341-b0e0-432b-b9ae-861ff7c90485-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 20 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"66952269-def0-4b7d-a5b6-be03fea9077f\">Georges Bataille. <em>A parte maldita<\/em>: Precedida de \u201cA no\u00e7\u00e3o de disp\u00eandio\u201d. Tradu\u00e7\u00e3o: J\u00falio Casta\u00f1\u00f3n Guimar\u00e3es. S\u00e3o Paulo: Aut\u00eantica, 2014. <a href=\"#66952269-def0-4b7d-a5b6-be03fea9077f-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 21 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 16 \u2013 mar\u00e7o de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de Cixin Liu \u00e9 a base para uma teoria instigante acerca de como a internet nos exp\u00f5e a certos riscos<\/p>\n","protected":false},"author":62,"featured_media":1482,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"P\u00f3s-doutoranda no Departamento de M\u00eddia Interativa na NYU Shangai. Autora do livro <em><a href=\\\"https:\/\/www.politybooks.com\/bookdetail?book_slug=the-dark-forest-theory-of-the-internet--9781509569250\\\">The Dark Forest Theory of the Internet<\/a><\/em>. \",\"id\":\"f7f3836c-263d-4343-a98b-5bcc39e78e70\"},{\"content\":\"Cixin Liu. <em>A floresta sombria. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o: Leonardo Alves. S\u00e3o Paulo: Suma, 2017<em>.<\/em>\",\"id\":\"5f533ebb-3793-4ddd-9462-cacee882678b\"},{\"content\":\"Carmen Maria Machado. Na casa dos sonhos. Tradu\u00e7\u00e3o: Ana Guadalupe. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2021.\",\"id\":\"90c868e0-8389-4655-9f8f-6051fff8444c\"},{\"content\":\"Mark Fisher. <em>Flatline Constructs: <\/em>Gothic Materialism and Cybernetic Theory-Fiction. Nova York: Exmilitary Press, 2018.\",\"id\":\"e63fabc1-a8f3-42ff-a409-d5f0a869c11a\"},{\"content\":\"Este \u00e9 o Fisher discutindo o exemplo da pesquisa de opini\u00e3o, dado por Jean Baudrillard, mas eu acredito que ele diria que o exemplo \u00e9 aplic\u00e1vel ao ciberespa\u00e7o como um todo. Ver: Mark Fisher, <em>op. cit.<\/em>, p. 24.\",\"id\":\"023d02e5-5c68-4205-8911-0b66f5a3bd96\"},{\"content\":\"Um exemplo desse debate em curso \u00e9 a condena\u00e7\u00e3o heideggeriana que Byung-Chul Han faz do otimismo digital de Vil\u00e9m Flusser. Ver: Byung-Chul Han. <em>No enxame: <\/em>perspectivas do digital. Editora Vozes, 2018.\",\"id\":\"17eb2757-e2da-4b5a-b3dd-9dc64352205d\"},{\"content\":\"Benjamin Bratton. \u201cThe Black Stack\u201d, <em>e-flux journal<\/em>, n. 53, 2014, p. 9.\",\"id\":\"cc7980a3-e5d8-420b-a19f-ac23315d0994\"},{\"content\":\"Elena Ferrante. <em>Frantumaglia: <\/em>os caminhos de uma escritora. Tradu\u00e7\u00e3o: Marcello Lino. S\u00e3o Paulo: Editora Intrinseca, 2017<em>.<\/em>\",\"id\":\"66b2b3ee-893f-4e56-97e7-66c40d68cc31\"},{\"content\":\"Cixin Liu, <em>op. cit<\/em>.\",\"id\":\"e1b930ff-311b-4ec0-81fc-35952ae60b22\"},{\"content\":\"Mark Fisher, <em>op. cit.<\/em>, p. 17.\",\"id\":\"5c20ff46-6f85-440d-9eb8-592448dc4070\"},{\"content\":\"Cixin Liu, <em>op. cit<\/em>. Al\u00e9m disso, \u201cno come\u00e7o dos anos 1990, Cixin Liu escreveu um programa de computador no qual cada civiliza\u00e7\u00e3o inteligente no universo era reduzida e um \u00fanico ponto. Naquela altura, ele havia programado 350.000 civiliza\u00e7\u00f5es em um raio de cem mil anos-luz e tinha colocado o seu computador 286 para trabalhar durante horas a fim de calcular a evolu\u00e7\u00e3o dessas civiliza\u00e7\u00f5es. Embora a conclus\u00e3o final do programa fosse algo ing\u00eanua, ela formou a base e deu forma \u00e0 sua vis\u00e3o de mundo\u201d. Este \u00e9 um excerto da revista <em>Peregrine<\/em>, citado em: Ann Vandermeer; Jeff Vandermeer (orgs.). <em>The Big Book of Science Fiction<\/em>. Nova York: Vintage Books, Penguin Random House LLC, 2016. (e-book).\",\"id\":\"8acc989a-1eb5-49e1-b410-5f1b017bbf29\"},{\"content\":\"<em>Idem, ibidem<\/em>.\",\"id\":\"e6561676-ecb6-4f79-9d91-890238f28eac\"},{\"content\":\"Cixin Liu. <em>Death\u2019s End<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Ken Liu. Nova York: Tor Books, 2016. 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