{"id":1483,"date":"2026-03-12T18:00:26","date_gmt":"2026-03-12T21:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1483"},"modified":"2026-04-11T10:55:14","modified_gmt":"2026-04-11T13:55:14","slug":"aventuras-no-porao-me-mostraram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/03\/12\/aventuras-no-porao-me-mostraram\/","title":{"rendered":"Aventuras no Subsolo me Mostraram Por Que o ChatGPT Sempre Ser\u00e1 um Lixo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Surekha Davies<sup data-fn=\"df7708c8-d1f7-45af-af5f-0724464d5d64\" class=\"fn\"><a href=\"#df7708c8-d1f7-45af-af5f-0724464d5d64\" id=\"df7708c8-d1f7-45af-af5f-0724464d5d64-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Insights de (quando eu me forcei a ir ao) subsolo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu comecei o meu doutorado em 2002, no in\u00edcio da era digital da pesquisa: as c\u00e2meras digitais, os dispositivos de armazenamento remotos que voc\u00ea podia guardar no bolso e principalmente os laptops, mas ainda n\u00e3o os smartphones. Eu adotei cedo a tecnologia na pesquisa, embora n\u00e3o a internet recreativa com suas tocas-de-coelho, que desde sempre pareciam chatas. Mas sempre me pareceu \u00f3bvio que os computadores e os softwares eram somente <em>ferramentas entre outras.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha experi\u00eancia direta com fontes hist\u00f3ricas e reposit\u00f3rios revelaria coisas que eu nunca imaginaria se eu s\u00f3 usasse esses intermedi\u00e1rios. E o processo de se sentar com as fontes \u2013 mesmo na forma digitalizada (se fiel e completa) e certamente com artefatos originais \u2013 foi o que me ajudou a dizer algo novo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante os primeiros quatro anos do doutorado, eu trabalhei meio-per\u00edodo como curadora na Biblioteca de Mapas da Biblioteca Brit\u00e2nica.<sup data-fn=\"dca68253-92d5-400a-93f7-ee0c6eca7d7b\" class=\"fn\"><a href=\"#dca68253-92d5-400a-93f7-ee0c6eca7d7b\" id=\"dca68253-92d5-400a-93f7-ee0c6eca7d7b-link\">2<\/a><\/sup> Eu estava pesquisando imagens e descri\u00e7\u00f5es de pessoas das Am\u00e9ricas na cartografia europeia, nos escritos de viagem e nas obras geogr\u00e1ficas entre 1492 e cerca de 1650.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu queria entender como e por qu\u00ea os cart\u00f3grafos inventavam e colocavam em seus mapas imagens caracter\u00edsticas e descri\u00e7\u00f5es de pessoas e sociedades nas Am\u00e9ricas \u2013 imagens como os canibais brasileiros, os gigantes da Patag\u00f4nia e as cidades mexicanas \u2013, e o que isso nos dizia a respeito da experi\u00eancia europeia ao encontrar (diretamente ou no papel) pessoas naquilo que elas chamavam de Novo Mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Primeiro passo: ver todos os mapas. Eu vasculhei o cat\u00e1logo de mapas da Biblioteca Brit\u00e2nica, curiosamente armazenado, naquele momento, em um CR-Rom. Havia provavelmente 1.500 mapas e atlas que recobriam o mundo, a Am\u00e9rica do Norte ou do Sul, ou grandes por\u00e7\u00f5es das Am\u00e9ricas, como o Brasil, entre o fim do s\u00e9culo XV e meados do s\u00e9culo XVII. Esses mapas seriam meu principal conjunto de evid\u00eancias. Eu adicionaria a eles mapas e atlas de que a Biblioteca Brit\u00e2nica n\u00e3o dispunha, mas que eu poderia acessar atrav\u00e9s de outras importantes bibliotecas de mapas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o queria solicitar 1.500 coisas na Sala de Leitura de Mapas \u2013 cujo limite era de quinze itens por dia \u2013 s\u00f3 para devolver 90% em segundos, vendo que eles n\u00e3o continham nada relevante. Eu achava que os funcion\u00e1rios da Biblioteca de Mapas iam querer buscar esses mapas bem menos do que eu gostaria de solicit\u00e1-los. Ent\u00e3o, eu negociei uma autoriza\u00e7\u00e3o para eu mesma ir ao reposit\u00f3rio no subsolo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Biblioteca Brit\u00e2nica tem quatro andares acima do n\u00edvel do solo, mas OITO andares no subsolo. No subsolo existem quatro andares com p\u00e9-direito duplo. O subsolo dos mapas fica no andar mais abaixo. A temperatura dos subsolos \u00e9 configurada para o frio, por motivo de preserva\u00e7\u00e3o, mas eles n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o frios como o subsolo da Biblioteca Folger Shakespeare (antes da reforma de 2024), que uma vez um amigo chamou de frigor\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes que me deixassem descer aos subsolos da Biblioteca Brit\u00e2nica, eu tive que declarar que eu poderia subir oito lances de escada em cinco minutos. Em outras palavras, se houvesse uma simula\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia, eu seria capaz de picar a mula do Hades rapidinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a declara\u00e7\u00e3o preenchida, eu me encaminhava para as entranhas da biblioteca para passar a maior parte do dia, alguns dias da semana, um m\u00eas inteiro. Eu levava impressa comigo a lista di\u00e1ria das etiquetas das estantes \u2013 sequ\u00eancias de itens que eu ia conferir aquele dia. A maioria dos mapas estava guardada em bandejas largas e grandes. Eu puxava uma bandeja, tirava os itens, prendia-os em uma superf\u00edcie plana e conferia se eles continham anota\u00e7\u00f5es escritas ou desenhadas. Se eles tivessem, eu gravava as etiquetas da estante. Depois eu pedia os itens na Sala de Leitura, a fim de estud\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Livros e atlas s\u00e3o guardados no que s\u00e3o conhecidas como estantes m\u00f3veis: estantes de livros sobre trilhos, comprimidas umas nas outras. H\u00e1 uma roda grande na extremidade de cada estante de livros. Girar a roda faz mover a estante de livros, que ent\u00e3o esbarra contra a estante vizinha; continue girando, e v\u00e1rias estantes abrem caminho. Assim, um monte de estantes compartilha um mesmo espa\u00e7o de circula\u00e7\u00e3o. Ao girar as rodas, voc\u00ea pode separar um par de estante de livros a fim de criar espa\u00e7o o bastante para entrar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso parecia perigoso? \u00c9 porque mais ou menos <em>era<\/em>. Incutiram em mim a import\u00e2ncia de levar um banquinho ao entrar em um corredor com estantes. Isso impediria que as estantes se fechassem sobre mim caso algu\u00e9m girasse a roda sem antes averiguar se havia algu\u00e9m entre as estantes e eu ficasse petrificada de medo e n\u00e3o conseguisse gritar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa experi\u00eancia foi memor\u00e1vel, e n\u00e3o por causa do risco de virar panqueca. Lidar com centenas de mapas para encontrar aqueles que continham informa\u00e7\u00f5es sobre as pessoas das Am\u00e9ricas tinha muitas vantagens em rela\u00e7\u00e3o a depender de outras fontes \u2013 livros existentes e cat\u00e1logos de biblioteca \u2013 que podiam me dar essa informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em primeiro lugar, quase ningu\u00e9m nos anos 2000 parecia acreditar que imagens em mapas do s\u00e9culo XVI poderiam ser outra coisa al\u00e9m de \u201cdecora\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cpropaganda\u201d ou, no melhor dos casos, evid\u00eancia de nada mais do que uma \u201cc\u00f3pia\u201d \u2013 outra palavra devastadora que torna superficiais as escolhas humanas e as tomadas de decis\u00e3o, enquadrando-as como irrefletidas. S\u00e3o incont\u00e1veis as vezes que curadores, negociantes, colecionadores e estudiosos de mapas me disseram ao saber do meu projeto \u201cah, n\u00e3o tem nada para estudar aqui, \u00e9 s\u00f3 decora\u00e7\u00e3o\u201d, ou algo do tipo.<sup data-fn=\"282883d9-f4e2-4b18-8c2e-47bf59fc4c11\" class=\"fn\"><a href=\"#282883d9-f4e2-4b18-8c2e-47bf59fc4c11\" id=\"282883d9-f4e2-4b18-8c2e-47bf59fc4c11-link\">3<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eles fizeram o estudo? Eles analisaram? Nada disso. Ent\u00e3o por que eu deveria presumir que os mapas ilustrados presentes nos livros existentes constituem a soma total dos mapas que poderiam ser relevantes para o <em>meu<\/em> projeto de pesquisa?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De algum modo, veio a calhar o fato de que eu estava trabalhando com mapas do mundo e mapas das Am\u00e9ricas da \u00e9poca da explora\u00e7\u00e3o. Muitos desses mapas e atlas impressos e manuscritos eram lindamente ilustrados, artefatos espetaculares. Havia muitas reprodu\u00e7\u00f5es em formato grande, tomos de enciclop\u00e9dia e livros de decora\u00e7\u00e3o. Mas as pessoas que reproduziram mapas ilustrados em seus livros \u2013 porque eles continham o que elas achavam que eram \u201cfotos lindas\u201d que os tornariam mais valiosos \u2013 n\u00e3o necessariamente estavam interessadas no que vinha escrito nos mapas. \u00c0s vezes, eu consultava livros de mapas chamativos, que continham reprodu\u00e7\u00f5es de mapas, mas que cortavam as bordas do mapa porque elas continham textos, n\u00e3o ilustra\u00e7\u00f5es. E, no entanto, aquele texto era uma mina de ouro para mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em rela\u00e7\u00e3o ao atlas que tem aqueles famosos c\u00edrculos no mapa, feito pelo cart\u00f3grafo franc\u00eas do s\u00e9culo XVI, Guillaume Le Testu \u2013 um magn\u00edfico volume abrigado no Ch\u00e2teau de Vincennes, nos sub\u00farbios de Paris \u2013, eu li tudo o que eu pude ter nas m\u00e3os. Uma das ex-diretoras da Biblioteca de Mapas da Biblioteca Brit\u00e2nica, Helen Wallis, encomendou fotografias em preto-e-branco do que parecia ter sido o atlas inteiro muitos anos antes. Eu internamente a agradeci, enquanto escaneava as fotos e dava zoom na tela do meu computador. E depois eu me dei conta de um coment\u00e1rio despretensioso em um artigo. Ele dizia que o atlas tinha p\u00e1ginas de texto. Mas que p\u00e1ginas de texto?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o havia p\u00e1ginas de texto nas fotos do atlas. Nenhum outro documento sobre o atlas reproduzia ou at\u00e9 mesmo mencionava qualquer p\u00e1gina de texto. Por\u00e9m, parecia que havia partes do atlas cujas reprodu\u00e7\u00f5es eu n\u00e3o havia visto em nenhum outro lugar.<sup data-fn=\"9f506ab7-f0ef-4963-be00-a23b2e2be45b\" class=\"fn\"><a href=\"#9f506ab7-f0ef-4963-be00-a23b2e2be45b\" id=\"9f506ab7-f0ef-4963-be00-a23b2e2be45b-link\">4<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu fui para Paris.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para encurtar a hist\u00f3ria (que tem outro subsolo), no final das contas cada mapa desse incr\u00edvel atlas tinha uma P\u00c1GINA DE TEXTO que o acompanhava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como voc\u00ea pode imaginar agora, o \u00fanico jeito de eu saber se um mapa ou um atlas seria relevante para o meu projeto era ver por mim mesma ou solicitando uma fotografia do item completo. O material que as outras pessoas juntaram por seus pr\u00f3prios motivos s\u00f3 poderia ser um <em>corpus<\/em> preliminar de exemplos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E quanto ao cat\u00e1logo da Biblioteca Brit\u00e2nica? Ent\u00e3o, veja bem, algumas das entradas do cat\u00e1logo dizem \u201cill.\u201d, a abrevia\u00e7\u00e3o de \u201cilustra\u00e7\u00e3o\/ilustra\u00e7\u00f5es\u201d. Oba! Eu posso pedir essas e ver se as imagens s\u00e3o relevantes, certo? Eu n\u00e3o preciso ir ao por\u00e3o fazer espeleologia ou pedir para receber todos os mapas, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Devagar com o andor. Os cat\u00e1logos de bibliotecas, principalmente em bibliotecas gigantes como a Biblioteca Brit\u00e2nica, s\u00e3o metam\u00f3rficos e hidras de m\u00faltiplas cabe\u00e7as. A Biblioteca Brit\u00e2nica det\u00e9m mais de 150 milh\u00f5es de itens, colecionados durante s\u00e9culos, parcialmente adquiridos de bibliotecas anteriores que foram compradas ou doadas s\u00e9culos antes. Essas bibliotecas s\u00e3o maravilhosas\u2026 Mas elas n\u00e3o t\u00eam e nem podem ter um cat\u00e1logo de registro completo e consistente ao longo de suas posses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">V\u00e1rios registros do cat\u00e1logo da Biblioteca Brit\u00e2nica nos anos 2000 haviam sido escritos d\u00e9cadas antes, talvez at\u00e9 mesmo no s\u00e9culo XIX ou mais atr\u00e1s. Quando o cat\u00e1logo de computador surgiu por volta de 1975, os conte\u00fados de um punhado de velhos cat\u00e1logos impressos e em cart\u00e3o foram jogados l\u00e1 com pouca altera\u00e7\u00e3o.<sup data-fn=\"ced41549-e016-4a0b-9e04-8f6716dc9e76\" class=\"fn\"><a href=\"#ced41549-e016-4a0b-9e04-8f6716dc9e76\" id=\"ced41549-e016-4a0b-9e04-8f6716dc9e76-link\">5<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dezenas de pessoas diferentes devem ter catalogado esses mapas. Elas provavelmente fizeram diferentes ju\u00edzos sobre o fato de um mapa conter ou n\u00e3o ilustra\u00e7\u00f5es dignas de serem imortalizadas com a palavra \u201cill.\u201d. E as conven\u00e7\u00f5es catalogr\u00e1ficas mudaram com o passar do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o havia uma l\u00f3gica consistente \u2013 n\u00e3o era obra de uma s\u00f3 cabe\u00e7a \u2013 que pudesse fazer ju\u00edzos ao registrar a presen\u00e7a de ilustra\u00e7\u00f5es. O por\u00e3o poderia estar repleto de mapas contendo ilustra\u00e7\u00f5es, mas que n\u00e3o apresentavam o \u201cill.\u201d na entrada do cat\u00e1logo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E eu tamb\u00e9m estava interessada das descri\u00e7\u00f5es textuais nos mapas \u2013 frases, par\u00e1grafos, coment\u00e1rios sobre as Am\u00e9ricas. Isso n\u00e3o \u00e9 algo que os registros catalogr\u00e1ficos observavam frequentemente. Essa \u00e9 mais uma raz\u00e3o por que eu n\u00e3o podia supor que o vest\u00edgio da coisa que me interessava poderia ser garimpado a partir dos materiais criados para outras finalidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu obstinadamente compilei uma lista de mapas da Biblioteca Brit\u00e2nica (e de mapas em outros lugares) que continham imagens ou descri\u00e7\u00f5es das pessoas das Am\u00e9ricas. No meio disso, eu criei uma base de dados no FileMaker por meio da qual eu rastreava os mapas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os campos eram simples: t\u00edtulo, autor, data; um menu suspenso para a regi\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o (Fran\u00e7a, Espanha, Portugal, Holanda, Alemanha, Inglaterra, outra); um menu suspenso para rastrear os temas comuns (gigantes, canibalismo, cidades\u2026); uma caixa de verifica\u00e7\u00e3o para dizer se era impresso ou manuscrito; um campo em que eu listava livros e artigos que falavam sobre o mapa; e alguns campos livres para inser\u00e7\u00e3o de texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu planejava acrescentar uma miniatura de cada mapa em cada um dos registros. Mas, uma vez que eu tinha visto os mapas, completado as entradas da minha base de dados, feito anota\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas e transcrito legendas e blocos de texto, os duzentos-e-pouco itens estavam t\u00e3o n\u00edtidos na minha cabe\u00e7a que bastava ler o autor, o t\u00edtulo e a data para lembrar qual mapa era qual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tendo terminado isso, era f\u00e1cil procurar, digamos, todos os mapas espanh\u00f3is que continham alguma imagem de canibais, classific\u00e1-los na ordem crescente de data e depois analis\u00e1-los em ordem cronol\u00f3gica. Rapidamente eu podia ter uma ideia de quantos entre esses duzentos mapas continham um tipo espec\u00edfico de imagem. O primeiro rascunho de um cap\u00edtulo qualquer estava praticamente escrito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu revisei e reescrevi os cap\u00edtulos MUITAS vezes. Eu consultei um monte de material que n\u00e3o eram mapas, comparei livros e impressos aos mapas e s\u00f3 ent\u00e3o entendi o que os mapas diziam. Havia muitas tocas-de-coelho, muitas das quais com descobertas legais no final (contanto que voc\u00ea pisasse com cuidado ao longo do percurso).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que essa arqueologia da biblioteca \u2013 e o c\u00e9rebro de uma estudante de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u2013 revela? Como os pesquisadores fazem pesquisa. Essa \u00e9 a anatomia de um processo de pesquisa. \u00c9 como algu\u00e9m que est\u00e1 interessado em aprender mais sobre algo, ou em resolver um enigma hist\u00f3rico, tem que pensar e fazer escolhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pesquisadores descrevem sua l\u00f3gica a fim de que outros possam entender como eles chegaram \u00e0s suas descobertas. As publica\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas incluem se\u00e7\u00f5es em que os autores descrevem a sua fonte e a l\u00f3gica com a qual eles a abordaram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitas vezes, os historiadores d\u00e3o uma ideia daquilo que n\u00e3o sobreviveu \u2013 mapas que desapareceram no terremoto de Lisboa em 1755, por exemplo. O que sobrevive ao tempo n\u00e3o \u00e9 uma amostra representativa do que existiu. Diferentemente de outros experimentos cient\u00edficos controlados, nos quais um cientista pode (at\u00e9 certo ponto) produzir um retrato representativo e bastante fiel do que quer que ele est\u00e1 tentando analisar, o que sobrevive ao tempo n\u00e3o \u00e9 representativo e nem pode ser controlado. E, portanto, os tipos de hist\u00f3rias que podemos revelar, os modos pelos quais temos que pensar e trabalhar com os vest\u00edgios que essas hist\u00f3rias deixam, e como escrevemos sobre nossas descobertas, tudo tem que mostrar isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o o estudo, a an\u00e1lise, a decis\u00e3o e a sele\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 relevante para a quest\u00e3o que transformam uma montanha de material amorfo em uma explica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica consistente. \u00c9 esse processo de mostrar onde voc\u00ea encontrou as diferentes pe\u00e7as da sua fonte prim\u00e1ria que permite os pares e os leitores avaliarem se existe ou n\u00e3o uma rela\u00e7\u00e3o entre as quest\u00f5es que voc\u00ea prop\u00f4s, as fontes que voc\u00ea examinou e o modo como voc\u00ea as analisou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Adiantando a fita at\u00e9 o presente, at\u00e9 o mundo apocal\u00edptico da IA generativa baseada em grandes modelos de linguagem (LLMs).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se voc\u00ea pedir para a IA generativa te dar um esbo\u00e7o, uma \u201cinspira\u00e7\u00e3o\u201d (\u00e9 s\u00e9rio?) ou um conte\u00fado, n\u00e3o \u00e9 o que voc\u00ea recebe. Algo que n\u00e3o tem um c\u00e9rebro vasculhou e achou coisas que <em>parecem <\/em>um conte\u00fado, mas n\u00e3o s\u00e3o, porque elas n\u00e3o foram analisadas e escritas por uma pessoa. Uns tro\u00e7os copia-e-cola tipo o monstro do Frankenstein tirados de um monte de lugares diferentes? Isso n\u00e3o \u00e9 um sum\u00e1rio. \u00c9 uma salada de palavras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s deixamos de lado, por nossa conta e risco, o corpo e aquilo que ele aprende por estar no mundo \u2013 o mundo f\u00edsico. Ao tocar, olhar, ouvir, cheirar e at\u00e9 saborear (geologia de graduandos e gastronomia para adultos), a gente n\u00e3o apenas re\u00fane \u201cdados\u201d, essa palavra insossa que solapa tudo o que n\u00e3o pode ser descrito em n\u00fameros. Se refletirmos e sentirmos o que vivenciamos ao nos movimentarmos pelo mundo, se ponderarmos e compararmos o que ressoa com nosso pr\u00f3prio conhecimento e nossas mem\u00f3rias, se analisarmos tudo isso utilizando as perspectivas e sensibilidades adquiridas por meio da educa\u00e7\u00e3o e da experi\u00eancia de vida, ent\u00e3o o que tivermos a dizer ser\u00e1 <em>\u00fanico<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso \u00e9 o que \u00e9 preciso para realizar algo significativo que ainda n\u00e3o existe no mundo. Ningu\u00e9m est\u00e1 na sua pele quando sai mundo afora. Ningu\u00e9m al\u00e9m de voc\u00ea pode contribuir com <em>precisamente<\/em> aquilo que voc\u00ea entende e com aquilo que voc\u00ea diz com a sua pr\u00f3pria voz. Essas s\u00e3o coisas que a misteriosa conex\u00e3o entre o seu c\u00e9rebro, suas mem\u00f3rias e o mundo pode realizar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por \u201cningu\u00e9m\u201d eu n\u00e3o me refiro apenas a qualquer outra pessoa. Eu tamb\u00e9m digo ningu\u00e9m tamb\u00e9m no sentido de que <em>certamente<\/em> n\u00e3o as m\u00e1quinas de pl\u00e1gio ecocidas popularmente conhecidas como IA generativa, abutres digitais estufados de livros roubados que eles misturam e regurgitam na forma de imita\u00e7\u00f5es de palavras provenientes de c\u00e9rebros pensantes e sencientes de fato. E, no entanto, os defensores da IA insistem seriamente que pegar todas as cores na caixa de tintas, mistur\u00e1-las e jog\u00e1-las na tela cria arte, e n\u00e3o lixo multicolorido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado no substack <em>Strange and Wondrous: Notes from a Science Historian<\/em> em 21 de janeiro de 2025. Agradecemos encarecidamente \u00e0 autora por ceder os direitos da tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/buttondown.com\/surekhadavies\/archive\/basement-adventures-showed-me-why-chatgpt-can\/\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Barros.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"df7708c8-d1f7-45af-af5f-0724464d5d64\">Professora e historiadora da ci\u00eancia. Autora do livro <a href=\"https:\/\/www.ucpress.edu\/books\/humans\/hardcover\"><em>Humans: A Monstrous History<\/em><\/a>. <a href=\"#df7708c8-d1f7-45af-af5f-0724464d5d64-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"dca68253-92d5-400a-93f7-ee0c6eca7d7b\">As concorr\u00eancias por financiamento de pesquisa de doutorado no Reino Unido nunca me recompensaram com bolsa de estudo \u2013 nem mesmo depois de eu ter conclu\u00eddo quatro anos de curso em meio per\u00edodo e publicado artigos em revistas acad\u00eamicas. Vai entender. <a href=\"#dca68253-92d5-400a-93f7-ee0c6eca7d7b-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"282883d9-f4e2-4b18-8c2e-47bf59fc4c11\">Se voc\u00ea est\u00e1 se sentindo desencorajado(a), saiba que o final da est\u00f3ria da tese foi feliz: eu obtive o doutorado e depois ele se tornou um baita de um livro: <a href=\"https:\/\/www.surekhadavies.org\/renaissance-ethnography-and-the-invention-of-the-human?utm_source=surekhadavies&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=basement-adventures-showed-me-why-chatgpt-can\"><em>Renaissance Ethnography and the Invention of the Human: New Worlds, Maps and Monsters<\/em><\/a>. Se voc\u00ea gosta de mapas, monstros e explora\u00e7\u00f5es nerd, clique no link. <a href=\"#282883d9-f4e2-4b18-8c2e-47bf59fc4c11-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"9f506ab7-f0ef-4963-be00-a23b2e2be45b\">Nos anos posteriores a esse per\u00edodo jur\u00e1ssico, apareceu uma publica\u00e7\u00e3o em fac-s\u00edmile do atlas. Voc\u00ea pode at\u00e9 consultar as imagens digitais no site da Biblioth\u00e8que Nationale de France, <a href=\"https:\/\/gallica.bnf.fr\/ark:\/12148\/btv1b8447838j?utm_source=surekhadavies&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=basement-adventures-showed-me-why-chatgpt-can\">Gallica<\/a>. <a href=\"#9f506ab7-f0ef-4963-be00-a23b2e2be45b-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 4 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"ced41549-e016-4a0b-9e04-8f6716dc9e76\">Ok, n\u00e3o exatamente jogados. Mas ningu\u00e9m foi l\u00e1 e recatalogou os milh\u00f5es de itens dentro dos padr\u00f5es dos anos 1970. Isso teria levado um bocado de tempo. <a href=\"#ced41549-e016-4a0b-9e04-8f6716dc9e76-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 5 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 16 \u2013 mar\u00e7o de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A historiadora faz uma provoca\u00e7\u00e3o aos defensores da ferramenta de IA a partir de sua experi\u00eancia de pesquisa com mapas e fontes prim\u00e1rias em subsolos de bibliotecas<\/p>\n","protected":false},"author":63,"featured_media":1488,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Professora e historiadora da ci\u00eancia. 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