{"id":1491,"date":"2026-03-12T18:02:29","date_gmt":"2026-03-12T21:02:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1491"},"modified":"2026-04-11T10:55:31","modified_gmt":"2026-04-11T13:55:31","slug":"entrevista-com-elizabeth-povinelli","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/03\/12\/entrevista-com-elizabeth-povinelli\/","title":{"rendered":"Entrevista com Elizabeth Povinelli"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos recentes estudos sobre o Antropoceno, poucos livros foram t\u00e3o influentes quanto <em>Geontologias<\/em>,<sup data-fn=\"dc0bea6b-c526-49fc-85fa-b8128e46575a\" class=\"fn\"><a href=\"#dc0bea6b-c526-49fc-85fa-b8128e46575a\" id=\"dc0bea6b-c526-49fc-85fa-b8128e46575a-link\">1<\/a><\/sup> da antrop\u00f3loga e professora estadunidense Elizabeth A. Povinelli, da Universidade de Columbia. Lan\u00e7ado em 2016, o livro desafiou as taxonomias vigentes do campo da Antropologia e da Ci\u00eancia Pol\u00edtica ao estipular o conceito de geontologia. Desviando-se da no\u00e7\u00e3o liberal de biopoder, t\u00e3o marcantemente presente nos estudos sobre sociedade, popula\u00e7\u00f5es e Estado ao longo das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI, Povinelli tenta mostrar que o liberalismo (e o seu sucessor, o liberalismo tardio, ou neoliberalismo), que opera por uma l\u00f3gica segundo a qual o controle sobre a vida \u2013 o biopoder \u2013, \u00e9 complementado por uma vis\u00e3o mais abrangente e fundamental, que instaura a distin\u00e7\u00e3o entre a Vida e a N\u00e3o Vida \u2013 o geontopoder. Com isso, se o biopoder, com sua governan\u00e7a da vida e suas t\u00e1ticas de morte, estipula quem pode viver e quem merece morrer, o geontopoder se caracteriza por ser um conjunto de discursos, afetos e t\u00e1ticas usados no liberalismo tardio para for\u00e7ar a distin\u00e7\u00e3o entre aquilo que est\u00e1 vivo e aquilo que n\u00e3o est\u00e1 vivo em determinados espa\u00e7os de governan\u00e7a. Dentro dessa l\u00f3gica, o geontopoder enquadra agentes e rela\u00e7\u00f5es distintas daquelas tradicionalmente analisadas no liberalismo, abrindo espa\u00e7o para figuras que exercem algum poder na forma como as sociedades e a pol\u00edtica se organizam, mas que, de certo modo, escapam do controle sobre a vida da l\u00f3gica do biopoder. N\u00e3o se trata, portanto, de conceitualizar um poder que emerge somente agora e que emana de objetos e rela\u00e7\u00f5es antes inexistentes; pelo contr\u00e1rio, trata-se de tornar vis\u00edvel as rela\u00e7\u00f5es de poder e as ontologias que se situam no espa\u00e7o ex\u00edguo onde ocorrem as fric\u00e7\u00f5es entre o capitalismo do liberalismo tardio e as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas que o enfrentam. Nesses territ\u00f3rios, tr\u00eas figuras se destacam, segundo Povinelli: o Deserto \u2013 marcado pela presen\u00e7a do f\u00f3ssil e do elemento geol\u00f3gico que motivam a procura pela vida em meio \u00e0 aridez; o Animista \u2013 para quem a pr\u00f3pria diferen\u00e7a entre Vida e N\u00e3o Vida se desfaz em meio ao vitalismo que reconhece a ag\u00eancia e d\u00e1 import\u00e2ncia pol\u00edtica para entidades n\u00e3o humanas ou n\u00e3o biol\u00f3gicas; e, por fim, o V\u00edrus \u2013 que borra as distin\u00e7\u00f5es entre Vida e N\u00e3o Vida ao mostrar, no cont\u00e1gio, que tudo est\u00e1 vivo, a despeito das fronteiras f\u00edsicas e militares e das barreiras sanit\u00e1rias impostas \u00e0s popula\u00e7\u00f5es (tal como ficou claro na epidemia de covid-19, que ocorreu quatro anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do livro). S\u00e3o essas, pois, as figuras que permitem avan\u00e7ar o conceito de geontologias como um importante instrumento para a an\u00e1lise das rela\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas do mundo em colapso clim\u00e1tico e das crises humanit\u00e1rias decorrentes dele. Povinelli nos concedeu uma entrevista em fun\u00e7\u00e3o do lan\u00e7amento da edi\u00e7\u00e3o brasileira de <em>Geontologias<\/em>. Agradecemos \u00e0 antrop\u00f3loga por sua generosidade e aten\u00e7\u00e3o, deixando os leitores com as iluminadoras respostas a seguir, que, entre outras coisas, d\u00e1 uma ideia dos pr\u00f3ximos trabalhos da autora.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: O seu livro parte da ideia de que o conceito de biopoder n\u00e3o reflete mais pol\u00edtica que governa a vida no \u00e2mbito do liberalismo. Com o agravamento da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, voc\u00ea mostra a relev\u00e2ncia de um novo paradigma, o geontopoder. \u00c9 correto dizer que, no geontopoder, n\u00e3o se trata mais de \u201cviver e n\u00e3o deixar morrer\u201d, mas sim de distinguir a Vida da N\u00e3o Vida a fim de melhor exercer o biopoder?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ELIZABETH POVINELLI: <\/strong>Eu n\u00e3o diria que o conceito de biopoder n\u00e3o \u00e9 mais relevante para a governan\u00e7a no liberalismo colonial. Ele ainda \u00e9 bastante relevante. O argumento que eu defendo em <em>Geontologias<\/em> e em ensaios anteriores, como \u201cDo Rocks Listen?\u201d (\u201cAs Rochas Escutam?\u201d), \u00e9 o de que a biopol\u00edtica \u2013 e a soberania \u2013 \u00e9 mobilizada por uma governan\u00e7a obscura mediante a divis\u00e3o entre Vida e N\u00e3o Vida. A primeira coisa a se observar \u00e9 que o conceito de geontopoder pretende tornar vis\u00edvel, para aqueles que n\u00e3o percebem, como uma antiga divis\u00e3o na episteme ocidental foi instrumentalizada durante as invas\u00f5es coloniais. O argumento \u00e9 o de que a governan\u00e7a colonial se apoiou nessa divis\u00e3o entre o din\u00e2mico e o inerte, o org\u00e2nico e o inorg\u00e2nico, a Vida e a N\u00e3o Vida, a fim de produzir estruturas de justifica\u00e7\u00e3o para sistemas pol\u00edticos, b\u00e9licos, legais e \u00e9ticos cuja fun\u00e7\u00e3o era extrair e passar para as m\u00e3os e os territ\u00f3rios da Europa qualquer coisa que ela considerasse valiosa, assim como afastar das m\u00e3os e dos territ\u00f3rios europeus as condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o t\u00f3xicas. As pessoas e seus respectivos mundos foram hierarquicamente empilhados e avaliados e, depois, reempilhados, entrela\u00e7ados e reentrela\u00e7ados de acordo com as necessidades espec\u00edficas em lugares espec\u00edficos imprescind\u00edveis para a manuten\u00e7\u00e3o dessa rota colonial de valor e toxicidade. Assim, o foco do geontopoder estava na governan\u00e7a dessa divis\u00e3o e em quem e o qu\u00ea cabia de um lado ou de outro dessa divis\u00e3o, em que existia uma hierarquia que atravessava a di\u00e1spora da governan\u00e7a colonial de povoamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: De acordo com o livro, para entender melhor essa dicotomia entre Vida e N\u00e3o Vida \u00e9 preciso n\u00e3o olhar para a Humanidade na sua escala planet\u00e1ria, mas sim para locais espec\u00edficos onde o Antropoceno se materializa nas rela\u00e7\u00f5es entre determinadas popula\u00e7\u00f5es e seu territ\u00f3rio. E, no entanto, a crise ecol\u00f3gica \u00e9 planet\u00e1ria. Que li\u00e7\u00f5es podemos tirar da observa\u00e7\u00e3o desses locais para uma pol\u00edtica planet\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ELIZABETH POVINELLI: <\/strong>Isso est\u00e1 correto e incorreto. <em>Geontologias<\/em> pretende demonstrar como a governan\u00e7a dos colonizadores se manifesta quando se consideram seus efeitos disciplinares no norte da Austr\u00e1lia ind\u00edgena. E os ensaios anteriores e subsequentes argumentam que abstra\u00e7\u00f5es como \u201co planet\u00e1rio\u201d e \u201cliberalismo\u201d desviam a aten\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica de formas de entrela\u00e7amento que tiveram in\u00edcio durante as longas invas\u00f5es do s\u00e9culo XVI. Por\u00e9m, n\u00e3o, isso n\u00e3o torna a an\u00e1lise sobre o geontopoder uma manifesta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica dos meus colegas Karrabing do Belyuen. Eu compreendo que \u00e9 muito dif\u00edcil para algumas pessoas se desprender das amarras do geral e do particular, do universal e do particular, do comum e do espec\u00edfico. Mas esses imagin\u00e1rios escalares n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos imagin\u00e1rios espaciais dispon\u00edveis. De fato, as teorias acerca de materializa\u00e7\u00f5es diferenciais que surgiram durante o per\u00edodo colonial n\u00e3o funcionam assim. A quest\u00e3o que vem surgindo no contexto decolonial \u00e9 como interromper e redirecionar o circuito cont\u00ednuo que leva para um lado tudo o que \u00e9 considerado de valor material ou abstrato, enquanto leva para o outro lado as toxicidades necess\u00e1rias para sua produ\u00e7\u00e3o. Esse circuito \u00e9 de sedimenta\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, uma dispers\u00e3o, um vazamento dentro das infraestruturas destinadas a distribuir o fardo das condi\u00e7\u00f5es t\u00f3xicas. O ponto de vista que parte de lugar nenhum, inerente ao planet\u00e1rio, apenas p\u00f5e entre par\u00eanteses (e obscurece) o fato de que todos n\u00f3s conhecemos, agimos e intervimos a partir de algum lugar dentro desse entrela\u00e7amento imanente cont\u00ednuo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Voc\u00ea elenca tr\u00eas figuras, o Deserto, o Animista e o V\u00edrus, que embaralham a dicotomia Vida e N\u00e3o Vida. Cada uma dessas figuras aponta para uma ontologia pr\u00f3pria: o biol\u00f3gico <em>versus <\/em>o geol\u00f3gico do Imagin\u00e1rio do Carbono, o materialismo vitalista das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e a constitui\u00e7\u00e3o zumbinesca, estrangeira e amea\u00e7adora do v\u00edrus. Voc\u00ea poderia comentar cada uma delas em sua rela\u00e7\u00e3o com o capitalismo na sua fase atual?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ELIZABETH POVINELLI<\/strong>: As figuras, como voc\u00ea sabe, s\u00e3o condensa\u00e7\u00f5es discursivas e sintomas do surgimento do geontopoder n\u00e3o apenas como uma forma de governan\u00e7a em lugar de uma descri\u00e7\u00e3o do que existe, mas tamb\u00e9m como a causa do colapso ecol\u00f3gico e clim\u00e1tico. S\u00f3 esclarecendo, e como eu observei em <em>Cat\u00e1strofe ancestral<\/em>: para algumas pessoas, o atual colapso clim\u00e1tico e ecol\u00f3gico \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o ancestral da cat\u00e1strofe colonial. Eu joguei com a no\u00e7\u00e3o de quantas e quais figuras condensavam, na minha opini\u00e3o, as reorganiza\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e art\u00edsticas que estavam ocorrendo durante as grandes revela\u00e7\u00f5es ocidentais agrupadas em torno do conceito de Antropoceno. O Terrorista era originalmente a figura que se tornou o V\u00edrus. Eu n\u00e3o estava interessada nessas figuras como sa\u00eddas para a cat\u00e1strofe ancestral que agora inunda as \u00e1reas supostamente isentas da infind\u00e1vel extra\u00e7\u00e3o capitalista. Elas n\u00e3o eram. Elas n\u00e3o s\u00e3o. Portanto, eu tentei mostrar como o capitalismo operava na forma de todas elas. A ideologia capitalista da destrui\u00e7\u00e3o criativa \u2013 tal como estamos presenciando nos discursos e nas ansiedades em torno da IA \u2013 assume a responsabilidade sobre tudo o que ela aterroriza no af\u00e3 de criar novas formas de acumula\u00e7\u00e3o. Os capitalistas tamb\u00e9m podem afirmar serem eles os maiores crentes no animismo, na medida em que qualquer coisa pode ser transformada na energia vital do capital. E os techbros e as techbabes seguem insistindo que os m\u00e9todos que produziram essa cat\u00e1strofe podem ser redefinidos para consert\u00e1-la. Portanto, o que importava nessas figuras emergentes do geontopoder n\u00e3o era nenhuma qualidade ou capacidade inerente de resistir ao capitalismo e sua m\u00e1quina de justifica\u00e7\u00e3o. Em vez disso, a quest\u00e3o \u00e9 como e se elas podem ser mobilizadas para desorganiz\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Voc\u00ea faz uma periodiza\u00e7\u00e3o no cap\u00edtulo final, diferenciando o liberalismo do liberalismo tardio e do neoliberalismo e mostrando como o geontopoder atravessa cada uma dessas fases. \u00c9 poss\u00edvel dizer que o geontopoder se radicaliza diante da perspectiva da Sexta Extin\u00e7\u00e3o? Como tirar o geontopoder das m\u00e3os das for\u00e7as que destroem os ecossistemas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ELIZABETH POVINELLI: <\/strong>Seria insano pedir aos leitores de um dos meus livros que, para entend\u00ea-lo, lessem tamb\u00e9m todos os demais. Infelizmente, como eu afirmei em outros contextos, eu s\u00f3 estou escrevendo um livro. S\u00f3 que os cap\u00edtulos t\u00eam a extens\u00e3o de um livro! Esse coment\u00e1rio \u00e9 fundamental para responder essa quest\u00e3o. Quando eu comecei a trabalhar com as fam\u00edlias ind\u00edgenas no Belyuen h\u00e1 aproximadamente quarenta anos, elas me pediram para ser uma antrop\u00f3loga por duas raz\u00f5es em particular. Primeiramente, porque a Lei dos Direitos da Terra exigia que a reivindica\u00e7\u00e3o, feita por elas, de pertencer \u00e0s terras e ao mar em torno do Belyuen fosse representada \u2013 em ambos os sentidos que Gayatri Spivak discutiu em <em>Pode o subalterno falar? <\/em>\u2013 por um advogado e um antrop\u00f3logo. E, principalmente, elas me pediram para orientar meu pensamento para a sua luta, a fim de entender e interromper a governan\u00e7a colonial. Assim, meus quatro primeiros livros se concentraram n\u00e3o no que \u00e9 o liberalismo \u2013 como se se tratasse de uma coisa que pode ser definida e ent\u00e3o usada como uma r\u00e9gua para medir se algo \u00e9 ou n\u00e3o liberalismo \u2013, mas sim em como a men\u00e7\u00e3o ao liberalismo funcionava para justificar formas cont\u00ednuas de despossess\u00e3o colonial e as rotas da acumula\u00e7\u00e3o capitalista na di\u00e1spora europeia. Eu considero, como muitos outros, que o liberalismo e o capitalismo s\u00e3o uma deriva\u00e7\u00e3o regressiva das longas invas\u00f5es do s\u00e9culo XVI. Eles surgiram dessas invas\u00f5es como uma forma de organizar e justificar a acumula\u00e7\u00e3o por meio da despossess\u00e3o e da subsequente distribui\u00e7\u00e3o das toxicidades necess\u00e1rias para isso. Por\u00e9m, uma vez que os que foram invadidos continuaram e continuam a recusar esses discursos legitimadores, os pr\u00f3prios discursos foram distorcidos. Desse modo, o liberalismo civilizacional, o liberalismo tardio ou o que quer que esteja surgindo \u00e0 nossa volta s\u00e3o as deriva\u00e7\u00f5es regressivas que surgiram para reterritorializar o poder e a \u201cjusti\u00e7a\u201d durante a cont\u00ednua acumula\u00e7\u00e3o gerada pela despossess\u00e3o. Mas todas essas estruturas de justifica\u00e7\u00e3o surgem dos territ\u00f3rios espec\u00edficos nos quais elas s\u00e3o elaboradas. Por exemplo, o modo como o liberalismo tardio se manifesta na Austr\u00e1lia \u00e9 diferente do modo como ele se manifesta na It\u00e1lia e no Brasil, porque ele tem que funcionar de acordo com as rela\u00e7\u00f5es sociais de sua inser\u00e7\u00e3o e surgimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu diria o mesmo para o geontopoder e essas deriva\u00e7\u00f5es regressivas, com uma ressalva. A instrumentaliza\u00e7\u00e3o colonial da governan\u00e7a baseada na separa\u00e7\u00e3o entre Vida e N\u00e3o Vida foi usada para governar as pessoas, e seus mundos mais-que-humanos tamb\u00e9m se manifestam de formas distintas ao longo dos determinados momentos e das determinadas regi\u00f5es em que houve a invas\u00e3o. Se o liberalismo \u00e9 diasp\u00f3rico, o geontopoder tamb\u00e9m \u00e9. A ressalva \u00e9 que o que era vis\u00edvel enquanto forma de poder em \u201cum dos lados\u201d dos entrela\u00e7amentos forjados pelo longo s\u00e9culo XVI era vivido por muitos \u201cdo outro lado\u201d como uma mera descri\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia em si. Quando o isolamento das condi\u00e7\u00f5es t\u00f3xicas do poder colonial liberal n\u00e3o se sustenta mais \u2013 quando a cat\u00e1strofe ancestral da invas\u00e3o \u00e9 vivida como a chegada do colapso clim\u00e1tico e ecol\u00f3gico por aqueles que se beneficiaram da experi\u00eancia da invas\u00e3o \u2013, o geontopoder se torna vis\u00edvel e palp\u00e1vel enquanto uma forma de governan\u00e7a do mundo em vez de uma descri\u00e7\u00e3o dele. Assim como muitos outros, eu estou tentando compreender a deriva\u00e7\u00e3o regressiva nova e disseminada que a Sexta Extin\u00e7\u00e3o est\u00e1 produzindo na governan\u00e7a p\u00f3s-colonial. E a coisa n\u00e3o me parece nada boa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Dez anos ap\u00f3s o lan\u00e7amento do livro, quais mudan\u00e7as voc\u00ea percebe no geontopoder? Al\u00e9m das tr\u00eas j\u00e1 citadas, existem novas figuras que podem ser destacadas? Como o recrudescimento do extrativismo tem operado a l\u00f3gica da Vida e N\u00e3o Vida nos velhos e novos lugares do planeta? E como as novas tecnologias t\u00eam aprofundado essa dicotomia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ELIZABETH POVINELLI: <\/strong>J\u00e1 faz dez anos? Eu acho que minha resposta para essa pergunta est\u00e1 inserida na resposta anterior. \u00c0 medida que as l\u00f3gicas governamentais do \u201cliberalismo\u201d se reorganizam para restabelecer as rotas diferenciais do valor e da toxicidade, bem como os encargos de sua produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o, novas figuras e sintomas do geontopoder surgir\u00e3o \u2013 ou ressurgir\u00e3o. Posso apenas dizer que \u00e9 nisso que estou trabalhando no momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"dc0bea6b-c526-49fc-85fa-b8128e46575a\"><a href=\"https:\/\/www.ubueditora.com.br\/geontologias.html\">POVINELLI, Elizabeth A. <em>Geontologias<\/em>: um r\u00e9quiem para o liberalismo tardio. Tradu\u00e7\u00e3o: Mariana Ruggieri. S\u00e3o Paulo: Ubu Editora, 2023<\/a>. <a href=\"#dc0bea6b-c526-49fc-85fa-b8128e46575a-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 16 \u2013 mar\u00e7o de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar de ter sido publicado h\u00e1 dez anos, o livro da antrop\u00f3loga de Columbia, Elizabeth A. Povinelli, que recebeu uma tradu\u00e7\u00e3o recente no Brasil, continua sendo fonte imprescind\u00edvel para o entendimento do Antropoceno<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1535,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"<a href=\\\"https:\/\/www.ubueditora.com.br\/geontologias.html\\\">POVINELLI, Elizabeth A. <em>Geontologias<\/em>: um r\u00e9quiem para o liberalismo tardio. Tradu\u00e7\u00e3o: Mariana Ruggieri. 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