{"id":1558,"date":"2026-04-11T11:55:57","date_gmt":"2026-04-11T14:55:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1558"},"modified":"2026-05-12T20:22:25","modified_gmt":"2026-05-12T23:22:25","slug":"entrevista-com-clarissa-tossin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/04\/11\/entrevista-com-clarissa-tossin\/","title":{"rendered":"Entrevista com Clarissa Tossin"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem esteve no Museu de Arte de S\u00e3o Paulo, o MASP, entre os dias 10 de outubro de 2025 e 1\u00b0 de fevereiro de 2026 p\u00f4de prestigiar, com entusiasmo, a exposi\u00e7\u00e3o de parte da obra da artista pl\u00e1stica Clarissa Tossin, sob o t\u00edtulo <em>Ponto Sem Retorno<\/em>, com curadoria de Adriano Pedrosa e Guilherme Giufrida. Situada em uma das alas do pr\u00e9dio mais antigo e tradicional do Museu, as obras de Tossin se espalhavam pelo espa\u00e7o, agrupando-se tematicamente sob a perspectiva de uma quest\u00e3o importante para a artista e extremamente pungente no nosso cotidiano marcado pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e pelas cat\u00e1strofes ambientais associadas a elas. Ao adentrar a exposi\u00e7\u00e3o, o espectador j\u00e1 se deparava com um ambiente de paredes brancas, pintadas, por\u00e9m, com a terra de tr\u00eas localidades que sofreram com as hist\u00f3ricas enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 \u2013 uma faixa de tons marrons que se elevava \u00e0 altura das marcas deixadas pelas \u00e1guas do Gua\u00edba nas fachadas dos lugares mais afetados de Porto Alegre. Trata-se da obra <em>Volume morto<\/em> (2025), que j\u00e1 definia o tom da amostra, que seguia com outras obras que problematizavam as rela\u00e7\u00f5es entre a cultura do consumo, o capitalismo globalizado, as fronteiras geogr\u00e1ficas e os riscos para o meio ambiente. Nesse sentido, destacava-se <em>Death by Heat Wave<\/em> (2021), um modelo em escala real de uma \u00e1rvore morta por uma onda de calor, feito de silicone, pigmento e casca de \u00e1rvore. A disposi\u00e7\u00e3o horizontal do molde da \u00e1rvore, toda em branco, sugeria n\u00e3o apenas a sua mumifica\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m o seu sepultamento devido ao calor extremo. Em uma s\u00e9rie de obras que lan\u00e7a m\u00e3o de caixas de papel\u00e3o da Amazon, Tossin imprimiu mapas cartogr\u00e1ficos de diferentes \u00e9pocas, aproximando cronologicamente os diferentes per\u00edodos da expans\u00e3o mar\u00edtima colonial da Europa e a atual coloniza\u00e7\u00e3o e polui\u00e7\u00e3o do mundo pela empresa de varejo eletr\u00f4nico (dos quais o exemplo mais marcante era <em>Facs\u00edmil de la disputada carta portulana de Crist\u00f3bal Col\u00f3n<\/em>, de 2023). Essa dimens\u00e3o planet\u00e1ria se repetia na obra <em>We Are Stardust<\/em> (2024), um conjunto de bandeiras de pa\u00edses que t\u00eam no mito de sua funda\u00e7\u00e3o a presen\u00e7a de astros e estrelas, numa tentativa de evidenciar n\u00e3o apenas o car\u00e1ter global e transfronteiri\u00e7o da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, mas tamb\u00e9m no intuito de manejar as escalas do problema ecol\u00f3gico, ao apontar para o espa\u00e7o sideral e a excepcionalidade da Terra como lugar da vida em meio \u00e0 aridez da Lua e outros planetas. Depois de percorrer o espa\u00e7o \u2013 povoado de pinturas com decalques do pr\u00f3prio corpo da artista e do corpo de sua m\u00e3e (as s\u00e9ries <em>Mortalha <\/em>e <em>Piante vagabonde<\/em>) \u2013, o espectador retornava \u00e0 sa\u00edda, onde encontrava uma obra que, pelo seu m\u00e9todo e pelo tema, resumia a exposi\u00e7\u00e3o: <em>Future Fossil<\/em> (2018) \u00e9 uma esfera que simula um planeta \u2013 que se assemelha a Marte, mas pode perfeitamente ser a Terra no futuro \u2013, feita de terra, areia, cimento, silicone, espuma, resina, papel-alum\u00ednio e lixo eletr\u00f4nico, submetidos a temperaturas de fus\u00e3o e manipulados no formato esf\u00e9rico. Por tudo o que se viu na exposi\u00e7\u00e3o, torna-se n\u00edtida a preocupa\u00e7\u00e3o da artista com as quest\u00f5es clim\u00e1ticas e o destino do planeta. Essas e outras quest\u00f5es foram respondidas a convite do <em>Carbono<\/em>, na entrevista que Clarissa Tossin, nascida em Porto Alegre, mas residente nos EUA h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, concedeu t\u00e3o amavelmente. Agradecemos a ela e recomendamos ao leitor que acompanhe as obras da artista.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Podemos come\u00e7ar pelo subt\u00edtulo da exposi\u00e7\u00e3o, \u201cPonto sem retorno\u201d. Trata-se de uma afirma\u00e7\u00e3o que antecipa os progn\u00f3sticos cient\u00edficos, se mantidas as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas vigentes. Voc\u00ea acredita que j\u00e1 atingimos esse ponto? Como voc\u00ea tentou materializar isso em suas obras?<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLARISSA TOSSIN:<\/strong> Possivelmente, mas a no\u00e7\u00e3o de um \u201cponto sem retorno\u201d n\u00e3o me paralisa; pelo contr\u00e1rio, ela clarifica as minhas prioridades. Parei de esperar mudan\u00e7as sist\u00eamicas. Aceitar pontos de inflex\u00e3o irrevers\u00edveis nos liberta da ilus\u00e3o de retornar a um equil\u00edbrio anterior e muda o foco para as rela\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas que queremos nutrir no mundo que habitamos. A fragilidade da vida humana e n\u00e3o humana \u00e9 um fio condutor do meu trabalho, explorado por meio de materiais e estrat\u00e9gias variadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Uma das pe\u00e7as centrais da exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 o conjunto de obras que utiliza embalagens da Amazon. Elas est\u00e3o presentes, por exemplo, servindo de suporte para a s\u00e9rie de cartas n\u00e1uticas do tempo das plantations, e em <em>Future Geography<\/em>, entrela\u00e7adas com reprodu\u00e7\u00f5es de imagens de gal\u00e1xias. Voc\u00ea poderia comentar mais sobre a escolha dessa empresa como um s\u00edmbolo das rela\u00e7\u00f5es comerciais que ligam o passado ao futuro clim\u00e1<\/strong><strong>tico?<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLARISSA TOSSIN:<\/strong> Seguindo uma \u00e9tica ecol\u00f3gica na escolha de materiais, frequentemente reaproveito res\u00edduos do consumo. Desde 2016, reaproveito caixas de entrega da Amazon em elaboradas tecelagens, criando obras que contrap\u00f5em a vastid\u00e3o do espa\u00e7o sideral aos detritos descart\u00e1veis que se tornaram emblem\u00e1ticos do nosso mundo movido pelo consumo. No processo lento e laborioso de achatar caixas, cort\u00e1-las em tiras e tec\u00ea-las, encontro um contraponto aos ciclos r\u00e1pidos e desperdi\u00e7adores da extra\u00e7\u00e3o e do consumo em massa que constru\u00edram e destroem nosso mundo. Na s\u00e9rie <em>Geografia Futura <\/em>[<em>Future Geography<\/em>], fotografias espaciais da NASA de locais como a Cratera Shackleton \u2013 proposta como a primeira mina de gelo lunar dos Estados Unidos \u2013, a Cratera Jezero, em Marte \u2013 apelidada de \u201cAterrissagem de Octavia E. Butler\u201d, onde o rover Perseverance pousou em 2021 \u2013, e imagens recentes do Telesc\u00f3pio James Webb s\u00e3o entrela\u00e7adas com caixas descartadas da Amazon, chamando aten\u00e7\u00e3o para como o mapeamento de territ\u00f3rios inexplorados se torna o primeiro passo para planejar futuras extra\u00e7\u00f5es \u2013 da mesma forma que os mapas europeus da era das navega\u00e7\u00f5es serviram \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o. Esse gesto de reaproveitar materiais descartados refor\u00e7a a ideia do impulso colonizador e extrativista presente na privatiza\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o espacial no s\u00e9culo XXI.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Sua exposi\u00e7\u00e3o trabalha bastante com a ideia de escala. De um lado, o olhar se volta aos astros, como em <em>We Are Stardust<\/em>, para salientar o car\u00e1ter transnacional das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas; de outro, na s\u00e9rie <em>Mortalhas<\/em>, a ancestralidade e o corpo s\u00e3o invocados para lembrar os efeitos concretos do clima nas diferentes gera\u00e7\u00f5es. Como \u00e9 o trabalho de conjugar essas diferentes escalas em um objeto de arte?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLARISSA TOSSIN:<\/strong> Minha pr\u00e1tica est\u00e1 enraizada no pensamento ecol\u00f3gico e em geografias moldadas pela coloniza\u00e7\u00e3o e pela extra\u00e7\u00e3o. Por meio de uma perspectiva ecofeminista, entrela\u00e7o narrativas m\u00edticas, ind\u00edgenas, feministas, pessoais e especulativas para questionar sistemas de domina\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos anos, meu trabalho se deslocou dos grandes \u201chiperobjetos\u201d \u2013 minera\u00e7\u00e3o celeste, devasta\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nica, res\u00edduos sint\u00e9ticos \u2013 em dire\u00e7\u00e3o ao microcosmos do meu pr\u00f3prio corpo e ao cultivo de v\u00ednculos com os seres e materiais do meu ecossistema imediato. Essa virada para o interior abriu uma nova linha de investiga\u00e7\u00e3o na minha pr\u00e1tica, em que a representa\u00e7\u00e3o do corpo feminino e da natureza \u00e9 interrogada nas s\u00e9ries <em>Mortalhas<\/em> e <em>Piante vagabonde<\/em>. Esse novo corpo de trabalho emerge da complexa interse\u00e7\u00e3o entre explora\u00e7\u00e3o ambiental no Antropoceno e opress\u00e3o sist\u00eamica do feminino. A perigosa fic\u00e7\u00e3o de juventude e renova\u00e7\u00e3o infinitas, projetada tanto nos corpos das mulheres quanto nos recursos naturais, tem levado nossos ecossistemas ao ponto de ruptura. \u00c0 medida que vivencio os est\u00e1gios iniciais da menopausa (meu pr\u00f3prio ponto sem retorno, minha pr\u00f3pria mudan\u00e7a clim\u00e1tica), sinto a for\u00e7a da natureza de dentro para fora, de maneira an\u00e1loga \u00e0s perturba\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas que se desenrolam para al\u00e9m da minha pele. No meu microcosmo corporal, descubro padr\u00f5es de resist\u00eancia, adapta\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o que refletem a resposta do planeta ao estresse ecol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"696\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-1-696x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1565\" style=\"aspect-ratio:0.6796909758601924;width:325px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-1-696x1024.jpeg 696w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-1-204x300.jpeg 204w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-1.jpeg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 696px) 100vw, 696px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Death by Heat Wave<\/em> (2021). Foto: Camila Cardozo (acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"461\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-3-1024x461.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1567\" style=\"aspect-ratio:2.2212781288370387;width:510px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-3-1024x461.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-3-300x135.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-3-768x346.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-3-1536x691.jpeg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-3-1200x540.jpeg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-3.jpeg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>We Are Stardust <\/em>(2024). Foto: Camila Cardozo (acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: A exposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m trabalha com os elementos. O calor est\u00e1 presente em <em>Death by Heat Wave<\/em>, que usa um molde em silicone de uma \u00e1rvore morta pelo calor excessivo. E temos a presen\u00e7a da \u00e1gua e da lama em <em>Volume morto<\/em>, que usa res\u00edduos da enchente de 2024, no Rio Grande do Sul, para cobrir as paredes da galeria. Voc\u00ea poderia nos falar um pouco mais sobre como a percep\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas impactou seu processo criativo?<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLARISSA TOSSIN:<\/strong> O \u00faltimo ano foi profundamente desestabilizador, pois testemunhei perturba\u00e7\u00f5es ambientais tanto em esferas \u00edntimas quanto em grande escala. As enchentes no Rio Grande do Sul deslocaram membros da minha fam\u00edlia e devastaram comunidades que conhe\u00e7o intimamente. Acompanhar a cat\u00e1strofe pela m\u00eddia me fez sentir impotente. Poucos meses depois, em janeiro de 2025, os inc\u00eandios de Eaton e Palisades devastaram Los Angeles, consumindo bairros inteiros. Uma das minhas obras foi destru\u00edda no inc\u00eandio de Palisades, e esse epis\u00f3dio gerou uma nova obra na exposi\u00e7\u00e3o: <em>Inc\u00eandio de Palisades (\u00c9 preciso criar seus pr\u00f3prios mundos)<\/em> (2019), presente apenas como legenda \u2014 um verbete-obitu\u00e1rio sem objeto f\u00edsico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00e9 a realidade do s\u00e9culo XXI, onde eventos clim\u00e1ticos extremos continuam a se intensificar e nossos ecossistemas desestabilizados gritam, por meio de cat\u00e1strofes, por uma mudan\u00e7a de paradigma. <em>Volume morto <\/em>surgiu dessas experi\u00eancias emocionalmente exaustivas. Quis levar para o espa\u00e7o expositivo esse profundo sentimento de perda e a realidade de viver entre estilha\u00e7os. Procurei criar uma obra fenomenol\u00f3gica capaz de provocar uma resposta emocional imediata, ao mesmo tempo que oferecesse camadas mais profundas de significado para os espectadores curiosos.<em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A instala\u00e7\u00e3o transforma as paredes da galeria em um testemunho da mem\u00f3ria das enchentes. Pedi \u00e0 minha prima Cec\u00edlia Daudt que coletasse terra saturada por \u00e1guas das enchentes na Cidade Baixa e Sarandi (bairros de Porto Alegre) e em Eldorado do Sul. Ela enviou vinte quilos dessas terras para S\u00e3o Paulo, onde meu amigo de longa data e artista Frank Dezeuxis as secou e triturou, transformando-as em um pigmento fino para a prepara\u00e7\u00e3o da tinta. Essa tinta-terra foi usada para replicar as linhas d\u2019\u00e1gua deixadas nos edif\u00edcios ap\u00f3s o recuo das enchentes lamacentas, os rastros f\u00edsicos do trauma inscritos nas paredes. O t\u00edtulo, <em>Volume morto<\/em>, surgiu numa conversa com Guilherme Giufrida, co-curador da exposi\u00e7\u00e3o, sobre a crise h\u00eddrica de S\u00e3o Paulo, quando essa express\u00e3o era usada para descrever o sedimento lamacento no fundo dos reservat\u00f3rios ap\u00f3s a \u00e1gua pot\u00e1vel desaparecer. Por meio de seu material e t\u00edtulo, a instala\u00e7\u00e3o condensa aus\u00eancia e excesso, as for\u00e7as antag\u00f4nicas que desencadear\u00e3o nosso futuro clim\u00e1tico. A reconstru\u00e7\u00e3o sempre come\u00e7a entre os res\u00edduos, e eu quis que essas marcas das enchentes se transformassem em solo f\u00e9rtil para o crescimento das demais obras na exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: <em>The Only Lasting True is Change<\/em>, uma esfera formada por materiais derretidos e que se assemelha a uma miniatura de planeta est\u00e9ril, me parece uma imagem figurativa do que a Terra se tornar\u00e1 devido \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Voc\u00ea poderia nos falar um pouco mais sobre o uso do calor e dos materiais na composi\u00e7\u00e3o dessa obra, e de como ela sintetiza bem o processo de ruptura ecol\u00f3gica atual?<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLARISSA TOSSIN:<\/strong> Meus objetos-f\u00f3sseis partem de moldes de silicone de \u00e1rvores mortas por falta de umidade ou de partes do meu pr\u00f3prio corpo. Em <em>F\u00f3ssil do futuro <\/em>[<em>Future f\u00f3ssil<\/em>], derreti e reciclei meu lixo pl\u00e1stico em camadas que evocam um n\u00facleo amostral do futuro; em <em>Devir mineral<\/em> (2021), fiz m\u00e1scaras mortu\u00e1rias do meu rosto com argila do ateli\u00ea durante o lockdown. <em>A \u00fanica verdade duradoura \u00e9 a mudan\u00e7a<\/em> [<em>The Only Lasting True is Change<\/em>] aprofunda essa l\u00f3gica, combinando camadas de restos de materiais do ateli\u00ea para evocar mais um futuro fossilizado. O t\u00edtulo vem das primeiras frases de <em>A par\u00e1bola do semeador<\/em> (1993), de Octavia E. Butler \u2013 cuja distopia prof\u00e9tica da Calif\u00f3rnia de 2024, marcada por colapso ecol\u00f3gico, desigualdade e regime autorit\u00e1rio, ressoa de forma perturbadora com o presente. O que me atrai em Butler \u00e9 sua recusa do fatalismo tecnol\u00f3gico: ela foca na psicologia humana e nas rela\u00e7\u00f5es sociais para oferecer modelos de adapta\u00e7\u00e3o em meio \u00e0 cat\u00e1strofe.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"733\" height=\"663\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-4.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1568\" style=\"aspect-ratio:1.1055731762573628;width:433px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-4.jpeg 733w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-4-300x271.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 733px) 100vw, 733px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Future Geography<\/em> (2023). Foto: Camila Cardozo (acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"949\" height=\"665\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-2.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1566\" style=\"aspect-ratio:1.4270674525201614;width:437px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-2.jpeg 949w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-2-300x210.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/tossin-2-768x538.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 949px) 100vw, 949px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>O pior ano <\/em>(2024). Foto: Camila Cardozo (acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Para finalizar, seu trabalho \u00e9 important\u00edssimo para criar consci\u00eancia sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Como voc\u00ea tem acompanhado a evolu\u00e7\u00e3o das formas art\u00edsticas nessa rela\u00e7\u00e3o com os movimentos ecol\u00f3gicos e as pol\u00edticas clim\u00e1ticas? Como voc\u00ea situa a sua obra nesse panorama?<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CLARISSA TOSSIN:<\/strong> Estou em conversa constante com muitos artistas que lidam com temas ecol\u00f3gicos, mas em vez de tentar resumir essas quest\u00f5es complexas ainda em aberto como pr\u00e1ticas art\u00edsticas do presente, sugiro a leitura de dois textos que as abordam com muito mais precis\u00e3o do que eu conseguiria fazer aqui. O primeiro \u00e9 o ensaio \u201cPonto sem retorno: As escalas do Antropoceno em Clarissa Tossin\u201d, do co-curador da exposi\u00e7\u00e3o no MASP, Guilherme Giufrida, escrito para o <a href=\"https:\/\/www.lojamasp.com.br\/clarissa-tossin\">cat\u00e1logo<\/a>. O segundo \u00e9 o ensaio cr\u00edtico \u201c<a href=\"https:\/\/www.newcitybrazil.com\/2025\/11\/10\/gaia-in-exhaustion-clarissa-tossin-ponders-how-we-walk-down-a-path-of-no-return\/\">Gaia in Exhaustion: Clarissa Tossin Ponders How We Walk Down a Path of No Return<\/a>\u201d, de Luiz Armando Bagolin, publicado na <em>New City Brazil<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 17 \u2013 abril de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A artista pl\u00e1stica porto-alegrense assina obras de arte que refletem as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e o futuro do planeta. 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