{"id":1660,"date":"2026-05-12T23:14:55","date_gmt":"2026-05-13T02:14:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1660"},"modified":"2026-06-10T16:29:27","modified_gmt":"2026-06-10T19:29:27","slug":"alphaville-1965-e-la-jetee-1962-no-eclipse-da-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/05\/12\/alphaville-1965-e-la-jetee-1962-no-eclipse-da-sociedade\/","title":{"rendered":"&#8220;Alphaville&#8221; (1965) e &#8220;La Jet\u00e9e&#8221; (1962) no Eclipse da Sociedade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Manoella Deorristt<sup data-fn=\"54803c5b-aa35-4467-a483-4517f71023eb\" class=\"fn\"><a href=\"#54803c5b-aa35-4467-a483-4517f71023eb\" id=\"54803c5b-aa35-4467-a483-4517f71023eb-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os filmes <em>Alphaville<\/em> (1965), de Jean-Luc Godard, e <em>La Jet\u00e9e<\/em> (1962), de Chris Marker se prop\u00f5em a imaginar o futuro e reinventar o presente atrav\u00e9s daquilo que, talvez, seja o nosso tra\u00e7o mais humano de todos: a linguagem. Em sociedades tecnocratas e capitalistas em que o estatuto humano est\u00e1 amea\u00e7ado de desaparecer, os dois filmes transformam a subjetividade do ser-humano em um dispositivo de subvers\u00e3o do fascismo, e convidam o p\u00fablico a refletir sobre as quest\u00f5es \u00e9ticas e morais da tecnologia e a import\u00e2ncia da autenticidade art\u00edstica na experi\u00eancia humana nos dias atuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Alphaville de Jean-Luc Godard \u00e9 uma cidade perdida no tempo e no espa\u00e7o, apesar do telespectador sentir a imin\u00eancia de um futuro em terras n\u00e3o t\u00e3o distantes assim. A atmosfera futur\u00edstica \u00e9 atribu\u00edda ao computador Alpha 60, uma esp\u00e9cie de intelig\u00eancia artificial projetada por m\u00e3os humanas com o objetivo de controlar as vontades individuais dos cidad\u00e3os, e proibi-los de expressarem pensamentos classificados como irracionais. Para suprimir qualquer vest\u00edgio de heterogeneidade social, a linguagem \u00e9 usurpada por aqueles que dominam a realidade e esvaziada de sentido; a palavra, desprovida de significado, passa a ser apenas seu significante, uma \u201ccoisa\u201d deslocada do real (\u201cjornalista come\u00e7a com a letra jota\u201d, diz o protagonista Lemmy Caution ao segurar uma c\u00e2mera na m\u00e3o). Em Alphaville, a linguagem n\u00e3o \u00e9 mais uma capacidade humana que compartilha de uma historicidade coletiva; ela est\u00e1 sob o poder de um maquin\u00e1rio monstruoso, controlado por poderosos que impossibilitam todas as significa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sartre compreendia que a \u201crecusa da linguagem\u201d \u00e9 na verdade uma atitude po\u00e9tica.<sup data-fn=\"54178887-21f3-4b3c-a53e-6df0a50d3e62\" class=\"fn\"><a href=\"#54178887-21f3-4b3c-a53e-6df0a50d3e62\" id=\"54178887-21f3-4b3c-a53e-6df0a50d3e62-link\">2<\/a><\/sup> De forma ir\u00f4nica ou n\u00e3o, talvez n\u00e3o seja \u00e0 toa que a obra <em>Capitale de la douleur<\/em>, do poeta surrealista Paul \u00c9luard, \u00e9 declamada durante o filme. Mas em <em>Alphaville<\/em>, ao contr\u00e1rio do que o fil\u00f3sofo existencialista formulava em <em>Que \u00e9 a literatura?,<\/em> a poesia possui, sim, um valor simb\u00f3lico, ou seja, o engajamento que Sartre se referia em suas observa\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias. A partir dessa perspectiva de an\u00e1lise, um poema seria capaz de comunicar o incomunic\u00e1vel tanto do mundo interior (individual e inconsciente), quanto do mundo exterior (coletivo e material), como imaginado pelo Surrealismo do qual \u00c9luard era membro. Como uma rea\u00e7\u00e3o ao tecnicismo e ao racionalismo do s\u00e9culo XX, os surrealistas, em uma tentativa de salvar a arte da degrada\u00e7\u00e3o que as m\u00e1quinas provocariam, procuraram no inconsciente maneiras de elev\u00e1-la. Esse projeto s\u00f3 se tornou poss\u00edvel devido \u00e0 atitude quase anarquista de modelar a linguagem ao limite de suas formas e dimens\u00f5es, para, desse modo, libertar o ser-humano da realidade e o levar \u00e0 surrealidade atrav\u00e9s das palavras. Jean-Luc Godard idealiza algo parecido em <em>Alphaville<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A linguagem, para Godard, tal como representada no filme, seria um agente ideol\u00f3gico capaz de organizar e destruir uma sociedade. Essa discuss\u00e3o aparece no filme atrav\u00e9s de um regime totalit\u00e1rio governado pela t\u00e9cnica; os cidad\u00e3os s\u00e3o proibidos de sentir qualquer emo\u00e7\u00e3o ou sentimento e passam a se assemelhar \u00e0 pr\u00f3pria m\u00e1quina que os governa, em um processo de uniformiza\u00e7\u00e3o social. Os sujeitos que divergem das normas impostas s\u00e3o aniquilados num estilo similar aos mecanismos de viol\u00eancia utilizados por governos fascistas: capturados por \u201cmau uso\u201d da linguagem e das emo\u00e7\u00f5es, eles s\u00e3o fuzilados, eliminando n\u00e3o s\u00f3 o indiv\u00edduo, mas todos os desejos humanos. Se a desumaniza\u00e7\u00e3o causada pela t\u00e9cnica n\u00e3o \u00e9 o suficiente para tornar algu\u00e9m menos humano, o sujeito an\u00f4malo ironicamente encontra o destino mais mortal de todos: a pr\u00f3pria morte. Mas a mensagem do filme \u00e9 simples e quase ing\u00eanua: a poesia, linguagem capaz de sustentar todos os sentimentos humanos, \u00e9 o que simbolizaria a liberdade para esses sujeitos quase aut\u00f4matos e a destrui\u00e7\u00e3o desse governo totalit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 esse cen\u00e1rio dist\u00f3pico que o jornalista Lemmy Caution (Eddie Constantine) encontra quando chega em Alphaville. O her\u00f3i do filme viaja \u00e0 cidade com o objetivo de relatar \u00e0s Terras Exteriores o que ocorre l\u00e1 dentro, e de, consequentemente, evitar uma guerra intergal\u00e1tica, ao passo que tamb\u00e9m tenta destruir o aparato de domina\u00e7\u00e3o j\u00e1 estabelecido. L\u00e1, ele conhece Natasha Von Braun (Anna Karina), filha do professor Von Braun, criador do Alpha 60; Caution fica obcecado pela enigm\u00e1tica mulher que vive alheia \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia. Sendo assim, \u00e9 poss\u00edvel dizer que existem dois planos em articula\u00e7\u00e3o: no plano da poesia, os dois ir\u00e3o se apaixonar \u00e0 medida que a linguagem \u00e9 \u201cdevolvida\u201d a Natasha; no \u00e2mbito pol\u00edtico, Caution tenta derrubar os planos do professor Von Braun.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante do imp\u00e9rio da l\u00f3gica contra a humanidade, Caution personifica o estere\u00f3tipo burgu\u00eas do revolucion\u00e1rio franc\u00eas \u2013 e simultaneamente o poeta Paul \u00c9luard. Em uma atitude surrealista, e tamb\u00e9m pol\u00edtica, de subverter a ordem utilizando a pr\u00f3pria linguagem, ele destr\u00f3i a m\u00e1quina e seu criador, emancipando, por fim, a popula\u00e7\u00e3o do discurso fascista engendrado pelas pol\u00edticas de guerra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O personagem de Lemmy Caution lembra muito o poeta\/jornalista Paulo Martins (Jardel Filho), protagonista de <em>Terra em Transe (1967), <\/em>do brasileiro Glauber Rocha. Em <em>Terra em Transe<\/em> nos deparamos com outra cidade fict\u00edcia, Eldorado, e com o retrato de uma crise pol\u00edtica tipicamente latino-americana e populista. No entanto, as semelhan\u00e7as v\u00e3o muito al\u00e9m do retrato documental da realidade, pois em <em>Terra em Transe<\/em>, assim como em <em>Alphaville<\/em>, a poesia possui uma enorme import\u00e2ncia na trama, j\u00e1 que Paulo Martins se v\u00ea dividido entre a pol\u00edtica (realidade) e a poesia (linguagem). Mas o que \u00e9 interessante em <em>Alphaville<\/em> \u00e9 que o poeta \u00e9 uma figura quase mitol\u00f3gica: \u00e9 ele que est\u00e1 destinado a salvar a sociedade da barb\u00e1rie total e trazer luz aos pensamentos dos cidad\u00e3os. De certa forma, Alphaville \u00e9 a vit\u00f3ria do indiv\u00edduo diante das m\u00e1quinas.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"602\" height=\"285\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/manoella-artigo-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1664\" style=\"aspect-ratio:2.112310326738704;width:610px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/manoella-artigo-2.jpg 602w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/manoella-artigo-2-300x142.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cena do filme <em>Alphaville<\/em>, de Jean-Luc Godard<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de <em>Alphaville<\/em> n\u00e3o se encaixar dentro de um c\u00e2none cinematogr\u00e1fico por conta de sua forma n\u00e3o-tradicional, o contexto mundial dos anos 1960 foi prol\u00edfico para a produ\u00e7\u00e3o de filmes de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que levantavam hip\u00f3teses sobre um futuro em que as m\u00e1quinas instrumentalizam os homens. Em <em>La Jet\u00e9e<\/em> (1962), de Chris Marker, o telespectador \u00e9 levado a uma Paris destru\u00edda ap\u00f3s o advento de uma Terceira Guerra Mundial. Nos subsolos de Paris os sobreviventes s\u00e3o condenados a viver sob o jugo da pol\u00edcia do tempo; essa organiza\u00e7\u00e3o lan\u00e7a m\u00e3o da tecnologia para fazer experimentos na mente e espionar at\u00e9 mesmo os sonhos das pessoas. A dimens\u00e3o dos sonhos que os surrealistas julgavam estar fora do alcance dos homens \u00e9 aqui utilizada pelo imp\u00e9rio da t\u00e9cnica; at\u00e9 mesmo as mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia do protagonista s\u00e3o usadas como iscas; a subjetividade n\u00e3o est\u00e1 mais a salvo. A forma do filme de Marker difere da forma do filme de Godard, sobretudo pelo modo como o telespectador experimenta os dois. Enquanto <em>Alphaville<\/em> se apresenta de forma jornal\u00edstica ao assumir um car\u00e1ter quase document\u00e1rio sobre o futuro, partilhando da hist\u00f3ria do mundo, <em>La Jet\u00e9e<\/em> \u00e9 narrado atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de imagens est\u00e1ticas, fotografias que, como diz Roland Barthes, \u201cpungem\u201d<sup data-fn=\"108efdc1-d37f-44c6-b70e-418b6faba59d\" class=\"fn\"><a href=\"#108efdc1-d37f-44c6-b70e-418b6faba59d\" id=\"108efdc1-d37f-44c6-b70e-418b6faba59d-link\">3<\/a><\/sup> individualmente aqueles que assistem: \u201cPor uma vez, a fotografia me dava um sentimento t\u00e3o seguro quanto a lembran\u00e7a\u201d.<sup data-fn=\"caecd42d-5f8a-40a0-ab06-bddfad5f28c6\" class=\"fn\"><a href=\"#caecd42d-5f8a-40a0-ab06-bddfad5f28c6\" id=\"caecd42d-5f8a-40a0-ab06-bddfad5f28c6-link\">4<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"451\" height=\"275\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/manoella-artigo-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1665\" style=\"width:610px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/manoella-artigo-3.jpg 451w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/manoella-artigo-3-300x183.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 451px) 100vw, 451px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cena do filme <em>La Jet\u00e9e<\/em>, de Chris Marker<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As lembran\u00e7as individuais do protagonista de <em>La Jet\u00e9e<\/em> s\u00e3o o que permite com que ele navegue entre o passado e o futuro em prol do presente, e s\u00e3o tamb\u00e9m o que confere humanidade aos cidad\u00e3os de Alphaville. Assim como em <em>La Jet\u00e9e<\/em> \u00e9 imposs\u00edvel fugir do tempo, em <em>Alphaville<\/em> a anula\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, coletiva e individual, \u00e9 um mecanismo de controle utilizado pelo Estado para que os habitantes da cidade neguem suas exist\u00eancias. Como diz uma personagem: \u201cO presente \u00e9 a forma de toda a vida [&#8230;] antes de n\u00f3s nada existiu aqui\u201d. As lembran\u00e7as de um passado, antes da Alpha 60, s\u00e3o negadas, a pr\u00f3pria hist\u00f3ria compartilhada \u00e9 apagada, e o homem quase-m\u00e1quina n\u00e3o encontra mais asilo nem em sua pr\u00f3pria mente, j\u00e1 que a subjetividade e a linguagem s\u00e3o aniquiladas pela t\u00e9cnica. Tanto no filme de Godard quanto no filme de Marker n\u00e3o existe uma experi\u00eancia plena e total; se n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de uma transforma\u00e7\u00e3o social, todos os caminhos levam ao esfacelamento do sujeito e da exist\u00eancia humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante conceber esse cinema dos anos 1960 n\u00e3o como um fen\u00f4meno est\u00e9tico isolado, mas como um contra-sintoma dos eventos que ocorreram na segunda metade do s\u00e9culo XX, e que se alastrou por todo o mundo como um verdadeiro plano pol\u00edtico que tomava forma atrav\u00e9s da arte cinematogr\u00e1fica. Seja no formato de Nouvelle Vague na Fran\u00e7a, ou de Cinema Novo no Brasil, essa nova onda de diretores foi respons\u00e1vel por criar um cinema verdadeiramente engajado politicamente, que tornava a pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o como forma e a realidade como tema. Em particular na Fran\u00e7a, os jovens cineastas que escreviam para a <em>Cahiers du Cin\u00e9ma<\/em>,<sup data-fn=\"2536a418-7bd6-40a4-896c-b621426f3d67\" class=\"fn\"><a href=\"#2536a418-7bd6-40a4-896c-b621426f3d67\" id=\"2536a418-7bd6-40a4-896c-b621426f3d67-link\">5<\/a><\/sup> entre eles o pr\u00f3prio Godard, lan\u00e7aram as suas ideias em um campo extremamente f\u00e9rtil; inspirados pelo esp\u00edrito contestat\u00f3rio que desejava derrubar o governo gaullista, e pelo Neorrealismo italiano, eles tinham como prop\u00f3sito criar um cinema mais acess\u00edvel e revolucion\u00e1rio em ideias e t\u00e9cnicas. Eles estavam dispostos a quebrar com os c\u00e2nones da linguagem do cinema hollywoodiano, e convocar o p\u00fablico a pensar sobre a mensagem idealizada na tela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa perspectiva, \u00e9 poss\u00edvel relacionar isso com o que Walter Benjamin compreendia como politiza\u00e7\u00e3o da arte e o car\u00e1ter positivo do cinema na era da reprodu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Na forma de teoria de cinema, Benjamin acreditava que seria poss\u00edvel utilizar o cinema como um meio de aproxima\u00e7\u00e3o e dom\u00ednio da monstruosa aparelhagem t\u00e9cnica de nossos tempos. A t\u00e9cnica do cinema, portanto, seria uma esp\u00e9cie de ant\u00edtese do espet\u00e1culo fascista de uma primeira t\u00e9cnica que faz uso da guerra, do genoc\u00eddio, das cat\u00e1strofes para gerar medo e paranoia. O cinema nos ensinaria a lidar com os choques e com os aparelhos que dominam o cotidiano ao testar nossas capacidades de sobreviv\u00eancia e empatia, nos afastando da barb\u00e1rie e nos levando \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAo fim da tarde, as mesmas massas preenchem os cinemas para vivenciar como o ator de cinema tem a sua revanche por eles, n\u00e3o apenas ao afirmar a sua humanidade (ou o que aparece a eles como tal) diante do aparato, mas colocando o aparato mesmo a servi\u00e7o de seu pr\u00f3prio triunfo.\u201d<sup data-fn=\"92c03949-9799-41c3-ad4e-c6c4728d8c5d\" class=\"fn\"><a href=\"#92c03949-9799-41c3-ad4e-c6c4728d8c5d\" id=\"92c03949-9799-41c3-ad4e-c6c4728d8c5d-link\">6<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, com a chegada da era digital no s\u00e9culo XXI, seria ing\u00eanuo pensar que a arte do cinema, quanto mais a nossa subjetividade, como pensado pelos surrealistas, est\u00e1 a salvo do avan\u00e7o tecnol\u00f3gico desenfreado. Assim como nas fic\u00e7\u00f5es cient\u00edficas dos anos 1960, o estatuto da arte e tudo aquilo que existe de mais humano est\u00e1 amea\u00e7ado de extin\u00e7\u00e3o pela intelig\u00eancia artificial e pelo imperialismo, que encontram na guerra um meio de suprir suas crises de produ\u00e7\u00e3o, extraindo recursos de pa\u00edses do Sul Global. O cinema e a literatura j\u00e1 foram h\u00e1 muito tempo assimilados pela l\u00f3gica capitalista de mercado, que transforma toda arte em mercadoria. Os poderosos encontraram na IA uma forma de instrumentalizar a linguagem humana e controlar os meios de comunica\u00e7\u00e3o, o que torna dif\u00edcil de avaliar o que \u00e9 real ou o que \u00e9 gerado por um computador. O s\u00e9culo XXI \u00e9 como o manifesto futurista mais reacion\u00e1rio; a popula\u00e7\u00e3o vive numa eterna paranoia coletiva, e ningu\u00e9m sabe o dia de amanh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As distopias de Godard e Marker n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o distantes da nossa realidade, e a pergunta que permanece \u00e9 o que a arte, principalmente o cinema e a literatura, tem a nos dizer no meio do caos? O otimismo intelectual e art\u00edstico do s\u00e9culo XX foi esmagado pela aparelhagem imperialista, e, mesmo depois de quase trinta anos adentro no s\u00e9culo XXI, parece que ainda n\u00e3o nos recuperamos do choque, apesar das tentativas. Ao contr\u00e1rio, parece que estamos nos encaminhando para a total destrui\u00e7\u00e3o das ideias e da pr\u00f3pria linguagem. Todos os dias, o trabalho criativo de milhares de artistas \u00e9 substitu\u00eddo por intelig\u00eancias artificiais, e passivamente assistimos \u00e0 alma do mundo se dissipar e se transformar em pl\u00e1stico na prateleira de uma loja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A arte com certeza tem alguma coisa a nos dizer ainda, mas \u00e9 preciso recuperar o esp\u00edrito cr\u00edtico (n\u00e3o exatamente o otimismo de outrora) e contestar a ind\u00fastria cultural esmagadora a que fomos assimilados. Filmes como <em>Alphaville<\/em> e <em>La Jet\u00e9e<\/em>, por mais simples que sejam no seu conte\u00fado, possuem em sua forma o poder revolucion\u00e1rio de fazer o p\u00fablico refletir em seu presente. Talvez seja isso que Benjamin contava como a capacidade do cinema de imaginar o futuro, e aquilo que Sartre compreendia como mensagem na fic\u00e7\u00e3o \u2013 aquilo que ainda \u00e9 vis\u00edvel mesmo com a passagem dos anos, ou com a morte do autor. \u00c9 a finalidade narrativa que todo texto ou obra ficcional carrega apesar das apar\u00eancias, e a afirma\u00e7\u00e3o da nossa irredut\u00edvel humanidade. E \u00e9 o que est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil de encontrar nos dias atuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"54803c5b-aa35-4467-a483-4517f71023eb\">Estudante de Licenciatura em Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Integrante do <em>Carbono<\/em>. <a href=\"#54803c5b-aa35-4467-a483-4517f71023eb-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"54178887-21f3-4b3c-a53e-6df0a50d3e62\">Jean-Paul Sartre. <em>Que \u00e9 a literatura?. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o: Carlos Felipe Mois\u00e9s. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1999, p. 20. <a href=\"#54178887-21f3-4b3c-a53e-6df0a50d3e62-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"108efdc1-d37f-44c6-b70e-418b6faba59d\">Roland Barthes. <em>A c\u00e2mara clara<\/em>: notas sobre a fotografia. Tradu\u00e7\u00e3o: J\u00falio Casta\u00f1on Guimar\u00e3es. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 31. <a href=\"#108efdc1-d37f-44c6-b70e-418b6faba59d-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"caecd42d-5f8a-40a0-ab06-bddfad5f28c6\"><em>Idem<\/em>, p. 64. <a href=\"#caecd42d-5f8a-40a0-ab06-bddfad5f28c6-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 4 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"2536a418-7bd6-40a4-896c-b621426f3d67\"><em>Cahiers du Cin\u00e9ma<\/em> \u00e9 uma revista francesa, considerada uma das mais famosas e influentes no ramo da cr\u00edtica cinematogr\u00e1fica, estando em circula\u00e7\u00e3o desde 1951. <a href=\"#2536a418-7bd6-40a4-896c-b621426f3d67-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 5 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"92c03949-9799-41c3-ad4e-c6c4728d8c5d\">Walter Benjamin. <em>A obra de arte na era de sua reprodutibilidade t\u00e9cnica<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Gabriel Valad\u00e3o Silva. Porto Alegre: L&amp;PM, 2025, p. 73. <a href=\"#92c03949-9799-41c3-ad4e-c6c4728d8c5d-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 6 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 18 \u2013 maio de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sensa\u00e7\u00e3o desconcertante que as tecnologias atuais nos imp\u00f5em s\u00e3o mat\u00e9ria dos cineastas franceses da d\u00e9cada de1960<\/p>\n","protected":false},"author":73,"featured_media":1669,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Estudante de Licenciatura em Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 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