{"id":1681,"date":"2026-06-10T18:53:01","date_gmt":"2026-06-10T21:53:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1681"},"modified":"2026-07-11T15:15:58","modified_gmt":"2026-07-11T18:15:58","slug":"marx-tera-razao-a-ia-e-luta-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/06\/10\/marx-tera-razao-a-ia-e-luta-de-classes\/","title":{"rendered":"Marx Ter\u00e1 Raz\u00e3o (a IA e Luta de Classes)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Fr\u00e9d\u00e9ric Lordon<sup data-fn=\"923fc19c-bfb0-4589-9fd0-91ddf0b54ac7\" class=\"fn\"><a href=\"#923fc19c-bfb0-4589-9fd0-91ddf0b54ac7\" id=\"923fc19c-bfb0-4589-9fd0-91ddf0b54ac7-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acreditava-se que ele havia se enganado. Marx ainda ter\u00e1 raz\u00e3o. N\u00e3o exatamente como ele pensava no detalhe, mas, sim, na ideia geral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia geral: o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas engendra uma modifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o que as acompanha at\u00e9 o ponto de criar uma contradi\u00e7\u00e3o insol\u00favel no quadro do modo de produ\u00e7\u00e3o vigente. \u00c9 o an\u00fancio de uma crise terminal totalmente end\u00f3gena, j\u00e1 que o capitalismo produz, <em>ele mesmo<\/em>, suas tens\u00f5es internas, que ele compensa \u00e0s custas de remanejamentos hist\u00f3ricos, mas que, depois de um certo limite, ele termina por n\u00e3o conseguir mais acomodar. A longo prazo, o capitalismo cava sua pr\u00f3pria cova \u2013 chamemos isso de \u201cdial\u00e9tica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, o detalhe: a transi\u00e7\u00e3o pelos sucessivos estados da manufatura para a f\u00e1brica e para a grande ind\u00fastria conduz a uma enorme concentra\u00e7\u00e3o de trabalhadores nos espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se re\u00fane impunemente as massas exploradas e oprimidas justamente no lugar onde a opress\u00e3o ocorre. Os trabalhadores se falam, tomam consci\u00eancia \u2013 das coisas \u2013, formam uma consci\u00eancia \u2013 de classe \u2013, se organizam. Uma enorme for\u00e7a se constitui, uma que supera o desamparo do trabalhador que se v\u00ea solit\u00e1rio no \u201cmercado de trabalho\u201d \u2013 for\u00e7osamente derrotado no t\u00eate-\u00e0-t\u00eate desigual com o capital. No t\u00e1rtaro industrial, o capital produz, ele mesmo, seu inimigo mortal, seus dias est\u00e3o contados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o \u00e9 que, um s\u00e9culo e meio depois, ainda estamos contando os dias. O primeiro levante revolucion\u00e1rio, aquele do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, que correspondeu a um grau cr\u00edtico de organiza\u00e7\u00e3o trabalhadora, foi abafado pela repress\u00e3o e pelo fascismo. O segundo, ap\u00f3s a Segunda Guerra, foi anestesiado pela entrada no consumo em massa: a difus\u00e3o em larga escala do n\u00edvel de desenvolvimento material, a sa\u00edda do proletariado do estado de mis\u00e9ria \u2013 e descobrimos novas armas do capitalismo que sequer haviam sido pensadas: os assalariados n\u00e3o s\u00e3o mais mantidos unicamente pelo aguilh\u00e3o da fome, mas tamb\u00e9m por doces vias muito mais perniciosas. Assim, a aliena\u00e7\u00e3o acabou por se aprofundar ainda mais. Algumas d\u00e9cadas mais tarde, surgem o avi\u00e3o, o telefone celular, as redes sociais, as s\u00e9ries, ao passo que o capitalismo reestruturou profundamente as suas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o depois que o sucesso industrial do fordismo lhe permitiu vislumbrar mais uma vez o perigo da concentra\u00e7\u00e3o das massas de trabalhadores. A resposta: automatiza\u00e7\u00e3o, robotiza\u00e7\u00e3o, deslocaliza\u00e7\u00e3o industrial, precariza\u00e7\u00e3o, atomiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pod\u00edamos \u2013 dev\u00edamos \u2013 continuar sendo marxistas, mas sem acreditar nessa primeira dial\u00e9tica. Foi preciso olhar para outra dire\u00e7\u00e3o para identificar novas potencialidades de reviravolta end\u00f3gena. Por exemplo, olhar para o ecoc\u00eddio. O capitalismo destr\u00f3i as condi\u00e7\u00f5es da vida humana sobre a Terra. Essa liga\u00e7\u00e3o causal n\u00e3o constitui ainda o objeto de uma consci\u00eancia amplamente compartilhada, mas isto ainda vai acontecer. \u00c9 que os efeitos s\u00e3o de uma amplitude crescente, imposs\u00edveis de serem escondidos, e nada estimula a produ\u00e7\u00e3o de ideias como o aguilh\u00e3o (desta vez) da ang\u00fastia \u2013 e a barreira do capitalismo verde, da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e das ciclovias ter\u00e1 dificuldades para cont\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 que isso levar\u00e1 tempo. O tempo das ciclovias, portanto, o tempo dos intelectuais retardat\u00e1rios e retardantes tamb\u00e9m; por fim, o tempo das concess\u00f5es. Pois ser\u00e1 necess\u00e1rio renunciar a muita coisa: avi\u00e3o, telefone celular, redes sociais, s\u00e9ries etc. N\u00f3s n\u00e3o estamos prontos para isso. Jean-Marc Jancovici <a href=\"https:\/\/www.tiktok.com\/@kajoo.media\/video\/7207869645787778310\">explicou a L\u00e9a Salam\u00e9<\/a> que ser\u00e1 necess\u00e1rio chegar a um limite de tr\u00eas ou quatro voos de longa dura\u00e7\u00e3o por pessoa \u2013 na escala de uma vida. Salam\u00e9 respondeu que tr\u00eas ou quatro voos por ano \u00e9 quase uma ditadura \u2013 o seu c\u00e9rebro n\u00e3o estava pronto; n\u00e3o recebeu a informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podia receb\u00ea-la. Claro, trata-se de L\u00e9a Salam\u00e9, isto \u00e9, uma medida-padr\u00e3o da burrice jornal\u00edstica, localizada na Radio-France ao inv\u00e9s de no Pavilh\u00e3o de Breteuil em S\u00e8vres, mas a ideia \u00e9 a mesma \u2013 e as condi\u00e7\u00f5es de conserva\u00e7\u00e3o t\u00e3o satisfat\u00f3rias quanto. O problema \u00e9 que, no momento, esse padr\u00e3o d\u00e1 muito bem a medida em vigor em grande parte da popula\u00e7\u00e3o. Fazer concess\u00f5es; relacionar evitar o ecoc\u00eddio com a necessidade vital da ren\u00fancia e o imperativo de abandonar o capitalismo: esta ser\u00e1 a grande tarefa pol\u00edtica do futuro (que come\u00e7a agora). Em suma, o resultado dessa corrida contra o tempo \u00e9 incerto \u2013 basta se perguntar o que \u00e9 o ritmo do ecoc\u00eddio capitalista comparado ao ritmo da ideia de renunciar no esp\u00edrito geral. J\u00e1 vimos competi\u00e7\u00f5es de corrida mais acirradas. Pouco importa, vamos correr mesmo assim, porque n\u00e3o h\u00e1 a op\u00e7\u00e3o de n\u00e3o correr.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Dial\u00e9tica da Intelig\u00eancia Artificial<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Exceto que, de repente (mais uma vez), surge algo que n\u00e3o havia sido antecipado. A intelig\u00eancia artificial. \u201cAlgo grande est\u00e1 por vir\u201d. \u00c9 <a href=\"https:\/\/shumer.dev\/something-big-is-happening\">Matt Shumer que fala<\/a> \u2013 criador e dono da Otherside AI. Por todos os lados, o artigo \u00e9 considerado \u201cviral\u201d \u2013 n\u00e3o \u00e9 certo de que isso seja um elogio, e, sim, muito mais uma sugest\u00e3o de que o artigo perde parte da sua distin\u00e7\u00e3o ao ter seduzido tantos analfabetos. Em mat\u00e9ria de distin\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o est\u00e1 no n\u00edvel dos pequenos marqueses do <a href=\"https:\/\/legrandcontinent.eu\/fr\/2026\/02\/11\/lia-sort-du-code-lavertissement-de-matt-shumer-sur-les-prochaines-cibles-des-laboratoires\/\">Grand Continent<\/a>. Estes, por sua vez, deram a not\u00edcia, mas com um ar de quem sabe de tudo e com alguns coment\u00e1rios de tecnicismo blas\u00e9 \u2013 e eles s\u00e3o blas\u00e9s. A regra n\u00famero 1 do blas\u00e9: n\u00e3o ceda aos alarmismos do grande p\u00fablico, ridicularize-os como o que s\u00e3o, com condescend\u00eancia, e deixe o p\u00e2nico para as pessoas vulgares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 preciso admitir que, no texto de Shumer, o vulgar d\u00e1 motivos para preocupa\u00e7\u00e3o. Por vulgar, entende-se um vulgar j\u00e1 de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o. Pois Shumer anuncia a uma fatia consider\u00e1vel de executivos, mesmo os de classe mais elevada, que, em breve, eles ter\u00e3o atingido seu grande objetivo: se tornar\u00e3o descart\u00e1veis. Shumer o anuncia em primeira m\u00e3o, j\u00e1 que ele se v\u00ea rebaixado pelos seus pr\u00f3prios produtos, ao menos no que tange \u00e0 sua atividade propriamente t\u00e9cnica. \u00c9 que, daqui em diante, a IA se autoengendra \u2013 se autoprograma. Gunther Teubner, um not\u00e1vel soci\u00f3logo e jurista do direito alem\u00e3o, havia encontrado uma palavra para designar esse momento cr\u00edtico em que um processo se liberta de suas condi\u00e7\u00f5es iniciais, e principalmente de seus criadores originais, para se autonomizar, crescer endogenamente e acabar por dominar seus pr\u00f3prios desenvolvedores: \u201csalto autopoi\u00e9tico\u201d, diz ele. A IA, ao que parece, conheceu seu salto autopoi\u00e9tico: ela se programa sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">R\u00e9gis Portalez \u00e9 um polit\u00e9cnico \u00edmpar que acrescentou \u00e0 sua forma\u00e7\u00e3o na X<sup data-fn=\"abcb03ec-0071-4299-b2cf-59e41ca5eda1\" class=\"fn\"><a href=\"#abcb03ec-0071-4299-b2cf-59e41ca5eda1\" id=\"abcb03ec-0071-4299-b2cf-59e41ca5eda1-link\">2<\/a><\/sup> n\u00e3o um cargo no corpo t\u00e9cnico de engenharia das Minas ou das Pontes, mas um diploma de soldador. Ele se retirou para o interior para fabricar rodas de oleiro, mas continua a programar eventualmente, pois \u00e9 preciso viver bem. E <a href=\"https:\/\/x-alternative.org\/2026\/02\/05\/demission-subie-startdown-nation-ii\/\">ele tamb\u00e9m<\/a> v\u00ea a chegada de algo grande: \u201ch\u00e1 seis meses talvez, eu acreditava que a IA era, se tanto, capaz de substituir um estagi\u00e1rio nas tarefas subalternas que seu supervisor lhe atribui [&#8230;] E, ent\u00e3o, h\u00e1 duas semanas, pedi a uma delas para escrever integralmente o c\u00f3digo de um programa que eu pensava que ia levar um dia e meio para escrever [&#8230;] Era uma tarefa livre, ent\u00e3o, criativa entre aspas, ao passo que bastante restrita pelo fator da t\u00e9cnica. Em volta de um minuto e meio, eu recebi um c\u00f3digo de programa\u00e7\u00e3o que compila e se executa, testado, documentado e funcional\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Grand Continent, em resposta a isso, fez beicinho: nada de generaliza\u00e7\u00f5es apressadas, nada de extrapola\u00e7\u00f5es lineares, programar \u00e9 uma atividade bastante espec\u00edfica, naturalmente disposta \u00e0 formaliza\u00e7\u00e3o, portanto, sujeita ao dom\u00ednio da IA. Os programadores est\u00e3o fazendo um esc\u00e2ndalo porque, de uma certa forma, eles estavam destinados \u00e0 linha de frente quando a IA \u201ccriativa\u201d chegasse \u2013 e esses tapados n\u00e3o haviam pensado nisso. E agora eles est\u00e3o escrevendo artigos \u201cvirais\u201d cheios de preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Shumer pode at\u00e9 ser programador, mas ele n\u00e3o deixa de ter uma vida social. Vejamos: h\u00e1 \u201cconhecimentos\u201d que n\u00e3o s\u00e3o program\u00e1veis. Os advogados de neg\u00f3cios, por exemplo \u2013 assim como todo mundo. Ora, o amigo advogado de Shumer come\u00e7a a mensurar o tamanho dos danos provocados pela intelig\u00eancia artificial: \u201c\u00c9 como ter um ex\u00e9rcito de colaboradores imediatamente dispon\u00edvel\u201d. E esse amigo se d\u00e1 conta de que \u201cem breve, a IA ser\u00e1 capaz de fazer grande parte das coisas que ele faz\u201d. Na sequ\u00eancia, uma lista de profiss\u00f5es semelhantes: desenvolvedores e consultoria jur\u00eddica, claro. Mas tamb\u00e9m: analistas financeiros, m\u00e9dicos de diagn\u00f3stico, atendimento ao cliente, consultorias de todo tipo. E, para fechar com chave de ouro: \u201c<em>writing and content<\/em>\u201d \u2013 redatores de not\u00edcias diversas, relat\u00f3rios de todo tipo. Jornalismo \u2013 maravilha. E, sem sombra de d\u00favidas, logo mais tamb\u00e9m: roteiristas, dialoguistas, letristas, tradutores (<a href=\"https:\/\/www.liberation.fr\/economie\/economie-numerique\/lia-a-pris-leur-emploi-on-ne-pensait-pas-que-ce-serait-si-violent-20251201_HM3VMRZ6ORFGHFIGJIMV2EFN4E\/?redirected=7711\">j\u00e1 angustiados<\/a>), jurados de concursos liter\u00e1rios. Al\u00e9m destes, ser\u00e1 necess\u00e1rio adicionar aos afetados: designer gr\u00e1ficos, m\u00fasicos, criadores de v\u00eddeo e, por que n\u00e3o, diretores de cinema, agora que o Bytedance nos entrega clipes do Kanye West ou v\u00eddeos do Tom Cruise e Brad Pitt sem o Tom Cruise ou o Brad Pitt.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas, Robert Reich, um dos intelectuais da onda do clintonismo, se extasiava com o espet\u00e1culo da nova \u201cclasse criativa\u201d, os \u201cmanipuladores de s\u00edmbolos\u201d, arautos do grande movimento de reestrutura\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o internacional do trabalho impulsionado pela globaliza\u00e7\u00e3o, que deixava a graxa das f\u00e1bricas para \u201cos outros\u201d, enquanto nos reservava as alegrias do <em>design<\/em> e do <em>blueprint<\/em>. Isto \u00e9, a reorganiza\u00e7\u00e3o em escala mundial da divis\u00e3o essencial do trabalho, prontamente percebida por Marx, entre trabalho de concep\u00e7\u00e3o e trabalho de execu\u00e7\u00e3o. Como a \u201cclasse criativa\u201d n\u00e3o ia aplaudir isso? Toda sua sociologia, todas as representa\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis que fazia de si mesma a inclinaram para isso. E todas as consequ\u00eancias pol\u00edticas vieram sem falta. Pois, sem nenhuma surpresa, essa classe \u2013 considerada em m\u00e9dia \u2013, toda essa classe com seus \u00f3rg\u00e3os pr\u00f3prios \u2013 <em>Lib\u00e9ration<\/em>, <em>Le Monde<\/em>, <em>T\u00e9l\u00e9rama<\/em>, France Inter\/Culture, Arte, o <em>L\u2019Obs<\/em> (novo ou velho) \u2013 celebrou e admirou-se disso na mesma medida em que foi tamb\u00e9m de uma indiferen\u00e7a glacial em rela\u00e7\u00e3o ao destino das classes trabalhadoras, despeda\u00e7adas e massacradas pelas grandes transfus\u00f5es da globaliza\u00e7\u00e3o, subalternos residuais no interior da grande redivis\u00e3o do trabalho no exterior, cuja ira a burguesia \u201ccriativa\u201d repelir\u00e1 por meio de todos os artif\u00edcios do farisa\u00edsmo e do racismo social juntos: eles s\u00e3o obtusos, n\u00e3o compreenderam que a globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 boa, eles s\u00e3o contra a Europa, s\u00e3o conspiradores, s\u00e3o Gilets Jaunes \u2013 s\u00e3o sujos e maus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 aqui uma grande li\u00e7\u00e3o materialista: as formas da consci\u00eancia s\u00e3o dadas pelas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia. Por\u00e9m, eis que as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia da burguesia do Bem se preparam para grandes reviravoltas. Ela vai logo descobrir o que \u00e9 se encontrar, de um dia para o outro, fadada n\u00e3o somente \u00e0 inatividade, mas ao sentimento dissolvente da inutilidade. Ela vai conhecer a experi\u00eancia para qual dirigia sua mais alta indiferen\u00e7a, a experi\u00eancia \u201cdos outros\u201d vista de dentro, pressionados por projetos sociais, pelos deslocamentos, o downsizing e a \u201cracionaliza\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 a experi\u00eancia dos <em>descart\u00e1veis<\/em>. Por meio de setores inteiros, a \u201cburguesia criativa\u201d, que sempre se creditou como t\u00e3o importante, t\u00e3o central e t\u00e3o pouco preocupada, est\u00e1 prestes a se tornar descart\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Abandonado por seus mestres (o bloco burgu\u00eas descart\u00e1vel)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A explos\u00e3o das capacidades da IA e a subsequente amplitude do desmantelamento de fun\u00e7\u00f5es v\u00e3o revolucionar o cen\u00e1rio das classes sociais de um modo tal, que nenhum marxismo fissurado na quest\u00e3o \u201cda classe trabalhadora como sujeito da hist\u00f3ria\u201d poderia imaginar. Nem uma sociologia pol\u00edtica do \u201cpovo das redes\u201d, como aquela da Fran\u00e7a Insubmissa, diga-se de passagem. Nem no exclusivismo trabalhista, nem em uma nova classe formada em redes isso acontece. \u201cIsso\u201d: quer dizer, a forma\u00e7\u00e3o de for\u00e7as de ruptura. N\u00e3o que tudo n\u00e3o possa se misturar, porque, sim, ainda existem redutos combativos da classe trabalhadora e, sim, existem redes segregadas \u2013 for\u00e7as em potencial. No entanto, o essencial est\u00e1 para se formar alhures: na demoli\u00e7\u00e3o met\u00f3dica, realizada pelo pr\u00f3prio capitalismo, do seu bloco de apoio. Aquele bloco cujo car\u00e1ter sociologicamente minorit\u00e1rio sempre foi compensado pelo car\u00e1ter simbolicamente majorit\u00e1rio: profiss\u00f5es \u201cintelectuais\u201d, tendo direito \u00e0 fala, tendo acesso \u00e0 express\u00e3o p\u00fablica, tendo a garantia da considera\u00e7\u00e3o e da super-representa\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o das m\u00eddias tanto quanto no do cinema, que tem olhos apenas para sua pr\u00f3pria classe e tem interesse apenas pelas suas pr\u00f3prias vidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ora, n\u00e3o vamos esperar empurrar essa classe, sem d\u00favida comp\u00f3sita, para a greve. Crueldade das ilus\u00f5es perdidas. Todas essas pessoas n\u00e3o tinham nada para reclamar porque tudo lhes agradava, tudo lhes parecia feito para elas. Melhor ainda, tudo parecia destinado a elas. Promessa evidentemente falsa para uma grande soma dessas pessoas, executivos de classe m\u00e9dia-alta que viviam em fantasias de \u201cestar em algo\u201d, de \u201cfazer parte\u201d \u2013 pois esta \u00e9 a verdadeira quest\u00e3o da sociologia pol\u00edtica: n\u00e3o se trata de \u201cser ou n\u00e3o ser\u201d, mas de \u201cpertencer ou n\u00e3o pertencer\u201d. E tanto faz se o ponto final deste \u201cpertencer\u201d for realocado para um horizonte t\u00e3o indefinido e distante que at\u00e9 uma aposentadoria poderia chegar antes \u2013 as fantasias de grandeza social n\u00e3o se desarmam, mesmo diante dos vereditos do real, mesmo diante das estat\u00edsticas que as conduziam, desde o in\u00edcio, ao fracasso. Como rea\u00e7\u00e3o, a for\u00e7a da subjetividade individualista: \u201ceu sei do que se trata, mas <em>eu<\/em> vou chegar l\u00e1\u201d. Lamento, velho, voc\u00ea n\u00e3o vai chegar l\u00e1. S\u00f3 que agora, onde voc\u00ea poderia ter desfrutado de uma aposentadoria tranquila, alimentada pela sua imagina\u00e7\u00e3o, voc\u00ea se ver\u00e1 defenestrado por uma m\u00e1quina, e todo o seu entorno vai te dar a experi\u00eancia profunda de sua inutilidade \u2013 a sua inutilidade descart\u00e1vel. Pois n\u00e3o se engane: o capitalismo financeiro vai se lan\u00e7ar, como nunca antes, nas metas colossais de produtividade e de redu\u00e7\u00e3o de custos. E de modo cego, espumando pela boca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eis, ent\u00e3o, a nova dial\u00e9tica, aquela que Marx n\u00e3o podia ter elaborado, mais real e mais promissora que a outra; a dial\u00e9tica do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas torcendo por dentro as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o at\u00e9 um ponto cr\u00edtico, mas agora na sua forma contempor\u00e2nea: a dial\u00e9tica do <em>bloco burgu\u00eas descart\u00e1vel<\/em>.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o, por\u00e9m, continua sendo o que fazer disso tudo. Claro, j\u00e1 existem todos os divergentes, que n\u00e3o esperaram a IA para fazer algo, como os executivos clandestinamente comunistas do Banco P\u00fablico de Investimentos da Fran\u00e7a (comunistas n\u00e3o no sentido do PCF&#8230;), insatisfeitos com a empresa, estudantes sabotadores de cerim\u00f4nias de coloca\u00e7\u00e3o de grau, jovens empregados decididos a pular fora, polit\u00e9cnicos alternativos, autores, autoras e artistas em rebeli\u00e3o contra as institui\u00e7\u00f5es de seus campos; diretores de cinema antifascistas sem dinheiro, produtores independentes outrora ricos, mas que mantiveram seu posicionamento. Estes j\u00e1 sabem onde est\u00e3o, para onde v\u00e3o e o que t\u00eam que fazer. Mas h\u00e1 todo o resto \u2013 apontemo-lo sem meias palavras: uma manada de imbecis pol\u00edticos, batalh\u00f5es do macronismo, do socialismo ou da ecologia parisiense. Pois, evidentemente, a maior parte dessas pessoas jamais teve a menor das raz\u00f5es para refletir um pouco, dado que sua condi\u00e7\u00e3o os dispensava de tanto; os tornava, por padr\u00e3o, torneiras de clich\u00eas hegem\u00f4nicos montados em certezas intelectuais \u2013 cujo discurso privado j\u00e1 estava ao alcance de uma IA incipiente, simplesmente capaz de compilar alguns retalhos de imprensa comum. Basta ter uma conversa com um banqueiro, um jornalista ou, melhor ainda, um artista contempor\u00e2neo para experimentar a mesma vertigem de um submarino adentrando a grande Fossa das Marianas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas h\u00e1 algo pior: o seu individualismo sem fronteiras, que lhes torna incapazes de a\u00e7\u00f5es coletivas para al\u00e9m de um \u201cteam building\u201d ou de um \u201chappy hour\u201d ou um \u201cafter work\u201d. A classe trabalhadora de Marx detinha sua unidade de espa\u00e7o e sua concentra\u00e7\u00e3o em massa. Nada disso est\u00e1 dispon\u00edvel aqui. A atomiza\u00e7\u00e3o, cada vez mais vivida como feliz competitividade, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o objetiva dessa classe \u2013 e a transi\u00e7\u00e3o ao \u201cpara-si\u201d promete ser trabalhosa. Na verdade, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma chance de isso acontecer por si s\u00f3. Ser\u00e1 necess\u00e1rio falar com eles \u2013 n\u00e3o <em>desta<\/em> forma, sem d\u00favidas. Por\u00e9m, ser\u00e1 necess\u00e1rio falar com eles \u2013 para tir\u00e1-los da sua condi\u00e7\u00e3o de legumes pol\u00edticos. Aparentemente \u00e9 preciso falar com as plantas, pois isso as ajuda a se desenvolverem \u2013 enfim, \u00e9 o que dizem. Assumir o controle de um novo estado do mundo social, um afeto coletivo confuso, mas destinado a se espalhar como uma mancha de petr\u00f3leo; assumir o controle para torn\u00e1-lo realmente comum, para deix\u00e1-lo pronto e o construir politicamente depois, esta \u00e9 a tarefa das organiza\u00e7\u00f5es. Analisando a oferta, o panorama geral se completa rapidamente. Sejam os partidos comunistas revolucion\u00e1rios, essenciais, por\u00e9m de pouca abrang\u00eancia, frequentemente presos a uma orienta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e, sobretudo, a uma <em>l\u00edngua<\/em> espec\u00edfica \u2013 a trabalhista \u2013, o que dificulta a reuni\u00e3o das diferentes classes. Seja a Fran\u00e7a Insubmissa, um movimento significativo, j\u00e1 bem ancorado na classe m\u00e9dia intelectual e cultural, da qual, na verdade, \u00e9 uma emana\u00e7\u00e3o, cujos h\u00e1bitos j\u00e1 compartilha, cujas formas de falar adota. Aqui, um encontro, uma constru\u00e7\u00e3o conjunta, \u00e9 poss\u00edvel. \u201cVoc\u00eas acreditaram; foram enganados; este sistema que os dispensou \u00e9 implac\u00e1vel, sab\u00edamos que, de uma forma ou de outra, ele cairia sobre voc\u00eas, e a\u00ed est\u00e1; abandonem toda a esperan\u00e7a \u2013 ou melhor, transformem-na!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado no blog do <em>Le Monde Diplomatique<\/em>, em 2 de mar\u00e7o de 2026. Agradecemos encarecidamente ao autor por ceder os direitos da tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/blog.mondediplo.net\/marx-va-avoir-raison-ia-et-lutte-des-classes\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Gabriel Manfrim. Revis\u00e3o t\u00e9cnica de Antonio Barros.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"923fc19c-bfb0-4589-9fd0-91ddf0b54ac7\">Economista e fil\u00f3sofo franc\u00eas, diretor de pesquisa do CNRS (Centre Europ\u00e9en de Sociologie et de Science Politique), em Paris. \u00c9 autor de in\u00fameros livro, alguns traduzidos no Brasil, em particular, <em><a href=\"https:\/\/papirus.com.br\/produto\/a-sociedade-dos-afetos-por-um-estruturalismo-das-paixoes\/\">A sociedade dos afetos: por um estruturalismo das paix\u00f5es<\/a><\/em>. <a href=\"#923fc19c-bfb0-4589-9fd0-91ddf0b54ac7-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"abcb03ec-0071-4299-b2cf-59e41ca5eda1\">Apelido popular da \u201c\u00c9cole Polytechnique\u201d (Escola Polit\u00e9cnica) na Fran\u00e7a, uma escola de engenharia renomada que redireciona seus alunos para altos cargos da administra\u00e7\u00e3o\/infraestrutura p\u00fablica (como os setores estatais de minas ou pontes e estradas). [N.T.] <a href=\"#abcb03ec-0071-4299-b2cf-59e41ca5eda1-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 19 \u2013 junho de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reconsiderando a tese de Marx sobre o fim do capitalismo a partir dos efeitos da IA, Lordon traz um chamado \u00e0s \u201cclasses criativas\u201d \u2013 os pr\u00f3ximos alvos da crise fabricada pelo pr\u00f3prio sistema que elas sustentam<\/p>\n","protected":false},"author":75,"featured_media":1684,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Economista e fil\u00f3sofo franc\u00eas, diretor de pesquisa do CNRS (Centre Europ\u00e9en de Sociologie et de Science Politique), em Paris. \u00c9 autor de in\u00fameros livro, alguns traduzidos no Brasil, em particular, <em><a href=\\\"https:\/\/papirus.com.br\/produto\/a-sociedade-dos-afetos-por-um-estruturalismo-das-paixoes\/\\\">A sociedade dos afetos: por um estruturalismo das paix\u00f5es<\/a><\/em>.\",\"id\":\"923fc19c-bfb0-4589-9fd0-91ddf0b54ac7\"},{\"content\":\"Apelido popular da \u201c\u00c9cole Polytechnique\u201d (Escola Polit\u00e9cnica) na Fran\u00e7a, uma escola de engenharia renomada que redireciona seus alunos para altos cargos da administra\u00e7\u00e3o\/infraestrutura p\u00fablica (como os setores estatais de minas ou pontes e estradas). 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