{"id":1738,"date":"2026-07-11T19:15:24","date_gmt":"2026-07-11T22:15:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1738"},"modified":"2026-08-10T09:29:52","modified_gmt":"2026-08-10T12:29:52","slug":"espectros-vermelhos-e-delirios-febris-da-direita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/07\/11\/espectros-vermelhos-e-delirios-febris-da-direita\/","title":{"rendered":"Espectros Vermelhos e Del\u00edrios Febris da Direita"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Resenha do livro: <a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/en-gb\/products\/3239-the-cultural-marxism-conspiracy?srsltid=AfmBOoqM2VQ8IYNFrve45LW-jF2RDeSUa5iy30DSJ_AvZd-QLW63mIro\">WOODS, A.J.A. <em>The Cultural Marxism Conspiracy: Why the Right Blames the Frankfurt School for the Decline of the West. <\/em>Londres; Nova York: Verso, 2026<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Alexander Billet<sup data-fn=\"9877cb5b-26cb-4af7-adbb-cda3a2df080a\" class=\"fn\"><a href=\"#9877cb5b-26cb-4af7-adbb-cda3a2df080a\" id=\"9877cb5b-26cb-4af7-adbb-cda3a2df080a-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Primeiro como trag\u00e9dia, depois como farsa\u2026 depois como neurose, depois como obsess\u00e3o maluca, depois como pose ir\u00f4nica, depois como absurdo transformado em arma. N\u00f3s perdemos a no\u00e7\u00e3o de como a hist\u00f3ria se repete. Sabemos que isso \u00e9 ruim, sabemos que isso \u00e9 violento e cruel e sabemos que isso vai continuar a menos que algo seja feito. Ainda assim, a an\u00e1lise escapa de n\u00f3s: os ciclos est\u00e3o se tornando r\u00e1pidos demais para serem compreendidos. Cada ideia e cada gesto j\u00e1 se tornou um meme velho no momento em que ele chega \u00e0s nossas mentes, quer ele esteja enfraquecido ou esterilizado, quer ele fa\u00e7a parte de uma onda de banalidade que nos derruba.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 assim com o \u201cMarxismo Cultural\u201d. Nos \u00faltimos quinze anos \u2013 especialmente na \u00faltima d\u00e9cada \u2013 o conceito se tornou t\u00e3o excessivamente usado pela direita dos EUA, que n\u00f3s quase o abstra\u00edmos quando ele \u00e9 ouvido. O mesmo pode ser dito sobre os v\u00e1rios temas de discuss\u00e3o trumpistas \u2013 o \u201cDEI\u201d, a \u201cesquerda radical\u201d, a \u201cs\u00edndrome de transtorno de Trump\u201d \u2013 que decidimos ignorar. Como acontece com qualquer coisa que \u00e9 muito usada, n\u00f3s nos esquecemos do que tornou a ideia t\u00e3o potente l\u00e1 no in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Obviamente, este \u00e9 o objetivo, e no fim das contas ele atua em favor da direita. \u201c\u00c9 claro que eles enxergam marxistas em todos os cantos\u201d, n\u00f3s dizemos. \u201c\u00c9 rid\u00edculo\u201d. E \u00e9 mesmo. Mas, quando se acredita nessa ideia rid\u00edcula e quando ela \u00e9 promovida pelo homem mais poderoso do mundo (ele, que neste momento est\u00e1 efusivamente bombardeando o Ir\u00e3 sob o pretexto mais esdr\u00faxulo), o que importa a sua \u201cveracidade\u201d? Se, ao fim e ao cabo, voc\u00ea \u00e9 obrigado a declarar publicamente que \u201cn\u00e3o \u00e9 um marxista\u201d apenas para acalmar o furor, ser\u00e1 que eles j\u00e1 n\u00e3o venceram?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contra tudo isso, o livro de A.J.A. Woods, <em>The Cultural Marxism Conspiracy: Why the Right Blames the Frankfurt School for the Decline of the West<\/em> (2026), nos oferece uma corre\u00e7\u00e3o bem-vinda. Este livro curto \u2013 o primeiro de Wood \u2013 retra\u00e7a a genealogia e a evolu\u00e7\u00e3o desse bicho-pap\u00e3o da direita. \u00c9 claro, como aponta Woods, o Marxismo Cultural n\u00e3o \u00e9 real, ao menos n\u00e3o na forma como a direita o concebe. A ideia segundo a qual os marxistas se apropriaram do aparato cultural e educacional dos Estados Unidos, e do mundo todo, \u00e9 absurdo logo de cara. A verdadeira quest\u00e3o, conforme mostra Woods, \u00e9: qual tipo de sociedade, qual curso da hist\u00f3ria, possibilitou que uma ideia flagrantemente est\u00fapida se enraizasse e se espalhasse t\u00e3o amplamente?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que torna a resposta a essa pergunta ainda mais estranha \u00e9 que a maioria dos defensores da teoria da conspira\u00e7\u00e3o do Marxismo Cultural n\u00e3o conseguiria citar um marxista de verdade, mesmo que tentasse. O conservador estadunidense t\u00edpico nunca ouviu falar de Antonio Gramsci, Theodor Adorno, Walter Benjamin ou Herbert Marcuse. E, mesmo assim, \u00e9 \u00e0 obra desses te\u00f3ricos que os principais arquitetos dessa teoria da conspira\u00e7\u00e3o frequentemente se voltam, ainda que eles nem sequer tenham se preocupado em ler uma palavra deles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro de Woods n\u00e3o pretende ser uma defesa das ideias desses pensadores de esquerda, ao menos n\u00e3o em princ\u00edpio. Defender qualquer pessoa das acusa\u00e7\u00f5es da brigada que usa chap\u00e9u de papel-alum\u00ednio \u00e9 obviamente uma perda de tempo, mesmo que essa brigada seja a maioria no gabinete presidencial. Mas Woods est\u00e1 trabalhando na senda dos estudos culturais, influenciado por Stuart Hall e Raymond Williams, bem como por Gramsci e pela Escola de Frankfurt. Em outras palavras, em vez de se desviar das estridentes acusa\u00e7\u00f5es de \u201cmarxista\u201d, Woods se inclina em dire\u00e7\u00e3o a elas. De fato, Woods argumenta que \u201c\u00e9 mais adequado discutir os Marxismos Culturais no plural\u201d, e que estes formam \u201cn\u00e3o uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica, mas, antes, uma combina\u00e7\u00e3o mut\u00e1vel de elementos narrativos que possuem diferentes sentidos e fun\u00e7\u00f5es em contextos pol\u00edticos variados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dependendo da \u00e9poca, do escritor ou das circunst\u00e2ncias, a estrid\u00eancia em torno dos perigos do Marxismo Cultural pode surgir de posi\u00e7\u00f5es bastante diferentes, muitas vezes contradit\u00f3rias. O Marxismo Cultural fez parte de praticamente todos os p\u00e2nicos morais desde os anos 1960; ele \u00e9 um dos fatores por tr\u00e1s dos ataques ao \u201cpoliticamente correto\u201d e ao \u201cwoke\u201d. Ele \u00e9 tanto um perigo para as gl\u00f3rias do capitalismo estadunidense, quanto uma intriga que se estende aos mais altos escal\u00f5es coorporativos dos EUA. Ele \u00e9 ao mesmo tempo poderoso e uma amea\u00e7a ao pr\u00f3prio poder. Assim como muitas ideias e memes hoje em dia, ele \u00e9 prol\u00edfico porque ele faz sentido. A sua durabilidade est\u00e1 na sua incoer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que essas narrativas sobre o(s) Marxismo(s) Cultural(ais) tenha(m) suas origens em um s\u00e9quito que costumava se autodenominar marxista pode ou n\u00e3o ser surpreendente, muito embora isso seguramente aumente o espanto. As organiza\u00e7\u00f5es do falecido Lyndon LaRouche, um exc\u00eantrico agitador pol\u00edtico marginal, surgiram dos restos fragmentados dos Students for a Democratic Society (SDS) [Estudantes para uma Sociedade Democr\u00e1tica]. No entanto, essas origens tiveram pouca influ\u00eancia naquilo que o movimento se tornou, assim como pode atestar qualquer pessoa que teve algum contato com os larouchistas do mundo real.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 a\u00ed que come\u00e7a a narrativa de Woods. Em menos de uma d\u00e9cada ap\u00f3s a implos\u00e3o do SDS, o grupo de LaRouche \u2013 que teve diferentes nomes e vers\u00f5es \u2013 se transformou integralmente em um culto, cheio de expurgos, teorias da conspira\u00e7\u00e3o antissem\u00edticas e rituais de \u201cdespojamento do ego\u201d por parte dos seus membros. Os larouchistas interromperam bruscamente reuni\u00f5es do Partido Comunista e do Partido Socialista dos Trabalhadores para atacar os presentes. Com o pr\u00f3prio LaRouche os encabe\u00e7ando, eles constru\u00edram um prol\u00edfico feudo editorial e desenvolveram um modo de an\u00e1lise t\u00e3o idiossincr\u00e1tico e autorreferencial, que rivaliza com a Cientologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A guinada do movimento para a direita ficou clara na mir\u00edade de suas publica\u00e7\u00f5es. No fim dos anos 1960, Herbert Marcuse era apenas um pensador contra quem o narcisista LaRouche nutria um rancor particular por supostamente ter sido, juntamente com seu \u201cNational Caucus of Labor Committes\u201d (NCLC) [Conven\u00e7\u00e3o Nacional dos Comit\u00eas Trabalhistas], expulso da SDS. L\u00e1 pelo final dos anos 1970, a Escola de Frankfurt, por \u00f3bvio, j\u00e1 era responsabilizada pelo relaxamento da moral sexual dos jovens e por sua predile\u00e7\u00e3o por m\u00fasicas dissonantes e barulhentas. Por meio da promo\u00e7\u00e3o de uma cultura consumista insidiosa, filmes hedon\u00edsticos e novelas previs\u00edveis, os pensadores da Escola de Frankfurt estavam rasgando o tecido da cultura ocidental e da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 claro que qualquer um que estivesse familiarizado com a obra da Escola de Frankfurt, mesmo que superficialmente, identificaria imediatamente o problema. Colocando de forma bem simples, a Escola de Frankfurt \u2013 Adorno e Max Horkheimer, principalmente \u2013 manifestavam um completo desd\u00e9m pela maioria das formas de express\u00e3o da cultura popular. Para eles, a produ\u00e7\u00e3o industrial massiva de filmes, m\u00fasicas pop e programas de TV \u2013 a temida \u201cind\u00fastria cultural\u201d \u2013 servia para colonizar o \u00f3cio do ser humano, metabolizando o tempo livre em uma esp\u00e9cie de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes da guerra, o Instituto para a Pesquisa Social, situado em Frankfurt, havia se dedicado a responder por que a revolu\u00e7\u00e3o socialista n\u00e3o tinha sido bem-sucedida na Alemanha. As respostas n\u00e3o seriam encontradas apenas na economia pol\u00edtica ou na estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria, mas tamb\u00e9m na cultura, na psican\u00e1lise, na pr\u00f3pria formata\u00e7\u00e3o da vida. Depois que os pensadores do Instituto \u2013 todos marxistas, quase todos judeus \u2013 fugiram do Terceiro Reich, sua preocupa\u00e7\u00e3o primordial come\u00e7ou a se deslocar para uma tentativa de compreender o sucesso do fascismo e como ele poderia retornar. Ecos da domina\u00e7\u00e3o fascista haviam se inserido no tecido do capitalismo de consumo do p\u00f3s-guerra, e a Escola de Frankfurt buscou destac\u00e1-los em suas investiga\u00e7\u00f5es, em suas pesquisas acad\u00eamicas, em sua obra filos\u00f3fica e na sua cr\u00edtica cultural. Esse objetivo \u00e9 n\u00edtido para qualquer pessoa que l\u00ea <em>Estudos sobre a personalidade autorit\u00e1ria <\/em>(1950), de Adorno <em>et alii<\/em>, <em>Critique of Instrumental Reason <\/em>(1967), de Horkheimer, ou <em>One-Dimensional Man:<\/em> <em>Studies in the Ideology of Advanced Industrial Society<\/em> (1964).<sup data-fn=\"221ef1ce-a06e-448b-8634-5e1925601fc7\" class=\"fn\"><a href=\"#221ef1ce-a06e-448b-8634-5e1925601fc7\" id=\"221ef1ce-a06e-448b-8634-5e1925601fc7-link\">2<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que os larouchistas \u2013 ou os seus futuros herdeiros \u2013 tenham considerado que essas ideias promoviam o seu exato oposto \u00e9 algo peculiar, para dizer o m\u00ednimo. Nas p\u00e1ginas da <em>New Solidarity<\/em>, <em>Executive Intelligence<\/em> <em>Review<\/em> e outras publica\u00e7\u00f5es larouchistas, tanto a Nova Esquerda quanto a Escola de Frankfurt foram transformadas em espi\u00f5es de prontid\u00e3o pagos pelos Rockefellers, conspirando com figuras como Henry Kissinger e a Rainha Elizabeth II. Por\u00e9m, como Woods demonstra, a preocupa\u00e7\u00e3o incidia majoritariamente sobre a forma como esse movimento foi concebido como um tipo de vanguarda intelectual, capaz de insights que ningu\u00e9m podia produzir:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEssas leituras \u2018geom\u00e9tricas\u2019 espec\u00edficas da Escola de Frankfurt geraram uma imagem do \u2018inimigo\u2019 que o movimento de LaRouche p\u00f4de continuamente contestar, se definindo como uma elite intelectual. Nos anos 1970 e 1980, a NCLC expandiria essa no\u00e7\u00e3o de elite a fim de incluir seus novos aliados conservadores de direita. Essas mudan\u00e7as nas afilia\u00e7\u00f5es pol\u00edticas afetariam o tom e a magnitude de suas pol\u00eamicas contra a Escola de Frankfurt.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo, Marxismo Cultural. Embora o movimento de LaRouche nunca tenha usado o termo, suas publica\u00e7\u00f5es e ideias seguiram em frente nas m\u00e3os de pensadores paleoconservadores como Paul Weyrich e William S. Lind, figuras fundamentais no Center for Cultural Conservatism [Centro para o Conservadorismo Cultural], a Free Congress Foundation [Funda\u00e7\u00e3o Congresso Livre] e a forma\u00e7\u00e3o da Nova Direita durante os anos do governo Reagan. A partir da\u00ed, o termo foi se infiltrando nos escal\u00f5es do Tea Party e nos decretos do Projeto 2025. Ele apareceu em manifestos de terroristas, incluindo Anders Breivik, nos tweets de Elon Musk e na doutrina de \u201cleg\u00edtimos\u201d think-tankers tais como Christopher Rufo. Ele foi adaptado e adotado por figuras como Nigel Farage da Reform UK, os bolsonaristas no Brasil e Javier Milei na Argentina. Em que pese todo esse suposto medo de que os marxistas haviam dado in\u00edcio a uma longa jornada rumo \u00e0s nossas institui\u00e7\u00f5es, \u00e9 a direita que claramente est\u00e1 no controle delas. Sem d\u00favida, neste momento, a direita est\u00e1 em vias de esvaziar completamente essas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algu\u00e9m poderia dizer que essa teoria da conspira\u00e7\u00e3o percorreu um longo caminho desde suas origens larouchianas, mas, como escreve Woods, todas as vers\u00f5es e usos do tropos do Marxismo Cultural cont\u00eam uma caracter\u00edstica central. A despeito de toda sua ret\u00f3rica antielitista, a despeito de seus apelos \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o e \u00e0 \u201cnatureza humana\u201d, seu objetivo final \u00e9 simplesmente substituir uma elite pela outra: substituir uma elite multirracial por uma elite branca, substituir o consumismo positivo em rela\u00e7\u00e3o ao sexo pela fam\u00edlia patriarcal, substituir um capitalismo \u201cwoke\u201d por um que tenha abandonado qualquer pretens\u00e3o de igualdade social.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"363\" height=\"550\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/AJA-woods.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1742\" style=\"width:412px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/AJA-woods.jpeg 363w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/AJA-woods-198x300.jpeg 198w\" sizes=\"auto, (max-width: 363px) 100vw, 363px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Capa do livro de A.J.A. Woods<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo isso \u00e9 muito nefasto, como a maioria das coisas hoje em dia. E, no entanto, essa n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica narrativa que o livro de Woods tece. Assim como qualquer ideia venenosa, essa teoria da conspira\u00e7\u00e3o ocorre no contexto de uma cultura mais ampla. E, como bom gramsciano, Woods enxerga essa cultura como algo que n\u00e3o se limita uma hist\u00f3ria unilateral de domina\u00e7\u00e3o. Existe um lado democr\u00e1tico tamb\u00e9m, e at\u00e9 mesmo um lado radical. Embora a pol\u00edtica n\u00e3o seja \u201cdecorrente da cultura\u201d, como alegam muitos guerreiros conservadores da cultura, Woods tamb\u00e9m insiste no fato de que separamos a cultura da pol\u00edtica por nossa pr\u00f3pria conta e risco. \u201cAs pr\u00e1ticas da arte, da cultura e da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o meros acess\u00f3rios da exist\u00eancia humana\u201d, Woods escreve; \u201celas fazem parte do nosso modo de vida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enfrentamos, portanto, uma tarefa aterrorizante: criar uma cultura que almeje n\u00e3o apenas transformar as ideias, mas tamb\u00e9m fazer da vida cotidiana um experimento de democracia radical. Que a direita possa sem hesita\u00e7\u00e3o colar a etiqueta de <em>marxista<\/em> naquilo que \u00e9 basicamente a pol\u00edtica do liberalismo, \u00e9 algo que nos mostra n\u00e3o a for\u00e7a da esquerda nos \u00faltimos cinquenta anos, mas sim a sua fraqueza. Apesar de algumas vit\u00f3rias significativas e do crescimento no n\u00famero de pessoas que se identificam como socialistas nos \u00faltimos anos, essa fraqueza persiste. O marxismo de que a direita fala \u00e9 espectral, est\u00e1 e n\u00e3o est\u00e1 ali, \u00e9 <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2020\/sep\/26\/communist-enemy-nationalist-right-trump-us-bolsonaro-brazil\">anticomunismo sem comunismo<\/a>, um mero potencial que \u00e9 inflado ao n\u00edvel de um poder real e concreto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas por que esse espectro de mentirinha assombra de modo t\u00e3o eficaz? Levar a s\u00e9rio os del\u00edrios febris do p\u00e2nico anticomunista leva inevitavelmente a pensar por que a direita ainda est\u00e1 tentando tanto exorcizar os fantasmas dos anos 1960? N\u00e3o foram s\u00f3 os fan\u00e1ticos da extrema direita que temeram o que o questionamento das gl\u00f3rias do capitalismo do p\u00f3s-guerra poderia fazer com a juventude. Ningu\u00e9m menos que Ronald Reagan, durante seu mandato como governador da Calif\u00f3rnia, pressionou veementemente pela demiss\u00e3o de Marcuse de seu cargo de professor na Universidade da Calif\u00f3rnia. Duas d\u00e9cadas antes, na posi\u00e7\u00e3o de chefe do Sindicato dos Atores de Cinema, Reagan avidamente ajudou a expurgar os comunistas de Hollywood. Para n\u00e3o falar da brutal destrui\u00e7\u00e3o dos sindicatos e da revoga\u00e7\u00e3o dos direitos conquistados durante os anos 1960, que caracterizaram seu per\u00edodo como presidente e abriram caminho para imitadores ainda mais perversos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, estudantes mal comportados n\u00e3o eram o que realmente assustava o establishment. Era o potencial que as ideias desses estudantes tinham de se espalhar para al\u00e9m de seu c\u00edrculo. Os anos 1960 s\u00e3o frequentemente considerados como uma coisa de estudantes, uma onda de crian\u00e7as rebeldes voltando-se contra seus pr\u00f3prios privil\u00e9gios. Mas a dicotomia <a href=\"https:\/\/jacobin.com\/2013\/09\/the-myth-of-the-hardhat-hawk\">\u201chippies\u201d <em>versus<\/em> \u201chardhats\u201d<\/a><sup data-fn=\"861c009a-6e89-4e4b-afd3-142802bc8d9e\" class=\"fn\"><a href=\"#861c009a-6e89-4e4b-afd3-142802bc8d9e\" id=\"861c009a-6e89-4e4b-afd3-142802bc8d9e-link\">3<\/a><\/sup> nunca foi t\u00e3o simples como fizeram parecer. Quanto mais baixo na escala dos rendimentos, mais prov\u00e1vel era a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Guerra do Vietn\u00e3. E altos \u00edndices de pobreza e priva\u00e7\u00e3o levaram muitas pessoas de cor a apoiar grupos como os Panteras Negras ou os Boinas Marrons.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Marcuse \u2013 que, naquela \u00e9poca, era o \u00fanico membro da Escola de Frankfurt que valia a pena, de acordo com a Nova Esquerda \u2013 tampouco desdenhava a classe trabalhadora, diferentemente daquilo que as caricaturas nos levaram a crer. Seu <em>Essay on Liberation <\/em>(1969) afirma explicitamente que os estudantes n\u00e3o podiam fazer tudo sozinhos, que a classe trabalhadora \u00e9 indispens\u00e1vel para qualquer revolu\u00e7\u00e3o significativa. Se elas, as pessoas mais aptas a materialmente interromper os fluxos de capital, pudessem ser convencidas, ent\u00e3o o que Marcuse chamou de \u201cnova sensibilidade\u201d \u2013 o desejo coletivo pela utopia \u2013 poderia ganhar mais tra\u00e7\u00e3o. E, com isso, as pessoas poderiam parar de lutar pela sua servid\u00e3o como se se tratasse de sua liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A l\u00f3gica por tr\u00e1s desse impulso \u00e9, muito pelo contr\u00e1rio, ainda mais urgente no momento atual. Parece at\u00e9 que, antes de nos remeter a qualquer coisa como o Marxismo Cultural, temos antes que levar em considera\u00e7\u00e3o o <em>capitalismo cultural.<\/em> Hoje, as ideologias que produzem o consenso e at\u00e9 mesmo o entusiasmo pela domina\u00e7\u00e3o capitalista s\u00e3o mantidas vivas por uma infraestrutura cultural e tecnol\u00f3gica mais complexa, mais diversamente ramificada e mais sutilmente influente do que nunca. Ao mesmo tempo, aqueles que mant\u00eam essa infraestrutura de p\u00e9 est\u00e3o fortemente proletarizados, sujeitos \u00e0 precariedade que se assemelha bastante \u00e0s condi\u00e7\u00f5es dos trabalhadores industriais itinerantes nos anos 1900. \u00c9 preciso apenas olhar para os escritores em greve, os professores universit\u00e1rios tempor\u00e1rios e os moderadores de conte\u00fado traumatizados para constatarmos isso. E isso nem sequer d\u00e1 conta das devasta\u00e7\u00f5es que a IA est\u00e1 come\u00e7ando a causar nessas profiss\u00f5es, ou os impactos ecol\u00f3gicos em muitas comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses desenvolvimentos levantam espectros ainda mais assustadores \u2013 de um futuro atomizado e fragmentado, privado de prazeres humanos ou mesmo de necessidades b\u00e1sicas. Se a ideia de Marxismo Cultural \u00e9 em grande parte um mito, ent\u00e3o ela precisa urgentemente se tornar realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado no site do <em>Los Angeles Reviews of Books<\/em>, em 30 de abril de 2026. Agradecemos encarecidamente ao autor e os editores por cederem os direitos da tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/lareviewofbooks.org\/article\/cultural-marxism-conspiracy-aja-woods-right-frankfurt-school\/\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Barros.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"9877cb5b-26cb-4af7-adbb-cda3a2df080a\">Escritor e cr\u00edtico residente em Los Angeles. Contribuiu para v\u00e1rios ve\u00edculos de m\u00eddia, incluindo <em>Jacobin<\/em>, <em>Los Angeles Review of Books <\/em>e <em>Protean. <\/em>\u00c9 autor do livro <em><a href=\"https:\/\/sobinfluencia.com\/produtos\/abalar-a-cidade-musica-e-capitalismo-espaco-e-tempo\/\">Abalar a cidade: m\u00fasica e capitalismo, espa\u00e7o e tempo<\/a><\/em>. <a href=\"#9877cb5b-26cb-4af7-adbb-cda3a2df080a-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"221ef1ce-a06e-448b-8634-5e1925601fc7\">No Brasil, o livro foi traduzido sob o t\u00edtulo <em>Ideologia da sociedade industrial<\/em>, publicado em 1967, com tradu\u00e7\u00e3o de Giasone Rebu\u00e1, pela Zahar Editores. [N.T.] <a href=\"#221ef1ce-a06e-448b-8634-5e1925601fc7-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"861c009a-6e89-4e4b-afd3-142802bc8d9e\">Hardhats, em refer\u00eancia aos oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o (que usavam capacetes, da\u00ed o nome) que formaram um movimento, juntamente com outros oper\u00e1rios conservadores, que atacou estudantes que protestavam contra a Guerra do Vietn\u00e3 em 8 de maio de 1970 em Nova York. [N.T.] <a href=\"#861c009a-6e89-4e4b-afd3-142802bc8d9e-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 20 \u2013 julho de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O novo livro de A.J.A. 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