{"id":1759,"date":"2026-08-10T12:06:01","date_gmt":"2026-08-10T15:06:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1759"},"modified":"2026-09-11T14:11:00","modified_gmt":"2026-09-11T17:11:00","slug":"entrevista-com-paulliny-tort","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/08\/10\/entrevista-com-paulliny-tort\/","title":{"rendered":"Entrevista com Paulliny Tort"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 muito comum encontrarmos na literatura uma representa\u00e7\u00e3o mais ou menos realista do futuro. A fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, desde os not\u00e1veis trabalhos de Julio Verne, por exemplo, notabilizou-se por nos entregar narrativas futuristas que, com o passar do tempo, se concretizaram na vida real (pelo menos em parte). Aparentemente, a fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria tem uma rela\u00e7\u00e3o s\u00f3lida com o futuro mais remoto, seja por meio das distopias sociopol\u00edticas, seja por meio da imagina\u00e7\u00e3o especulativa que cria mundos de fantasia nos quais vigem outras condi\u00e7\u00f5es para o ser humano. Mas e quanto ao passado remoto? Ou, melhor ainda, pr\u00e9-hist\u00f3rico? Por mais que haja narrativas ambientadas no passado e que recriam, com maior ou menor rigor factual, a ambienta\u00e7\u00e3o dos tempos antigos, \u00e9 muito raro encontrarmos textos liter\u00e1rios que se prop\u00f5em a tarefa de narrar hist\u00f3rias situadas em tempos imemoriais. <em>Os Imortais<\/em>,<sup data-fn=\"e41b8f7d-c505-4429-919a-4be12dbb71c8\" class=\"fn\"><a href=\"#e41b8f7d-c505-4429-919a-4be12dbb71c8\" id=\"e41b8f7d-c505-4429-919a-4be12dbb71c8-link\">1<\/a><\/sup> romance da escritora brasiliense Paulliny Tort, se passa em um passado que \u00e9 ao mesmo tempo m\u00edtico e hist\u00f3rico, narrando o encontro dos neandertais com os <em>Homo sapiens<\/em>. Nele, o passado m\u00edtico se funde com uma narrativa objetiva, quase realista, que usa a fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria para propor um exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o ao leitor: acompanhar a trajet\u00f3ria de uma <em>Homo sapiens<\/em> vivendo em meio a um grupo de neandertais. A partir dessa proposta, Tort nos conduz por ambientes r\u00fasticos e in\u00f3spitos, por um universo de escassez e mutismo, sem, contudo, limitar o texto a uma mera narra\u00e7\u00e3o fria de supostos fatos concretos. No livro, em vez disso, abunda, de modo particularmente not\u00e1vel, a dimens\u00e3o sentimental de criaturas com que nossa sensibilidade moderna tem pouco ou nada em comum. Ao corajosamente trazer para o espa\u00e7o ficcional personagens relegados aos livros de ci\u00eancia, Tort est\u00e1 nos confrontando com perguntas acerca de nossa linha do tempo, desde a mais distante, at\u00e9 a mais atual, colocando lado a lado dois colapsos: o dos neandertais e o do <em>Homo sapiens<\/em>, v\u00edtima de sua pr\u00f3pria gan\u00e2ncia. Ela est\u00e1, tamb\u00e9m, desafiando o status quo da literatura do presente, calcada em representa\u00e7\u00f5es do contexto atual e interessada nas vidas sociais de personagens totalmente inseridas na civiliza\u00e7\u00e3o humana. Nesta entrevista que a escritora gentilmente nos concedeu, ela fala sucintamente de alguns desses temas. Confira!<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: <em>Os Imortais<\/em> \u00e9 escrito em 3\u00aa pessoa e \u00e9 ambientado na pr\u00e9-hist\u00f3ria, diferenciando-se, assim, da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria corrente, que, em geral, prioriza o uso da 1\u00aa pessoa e temas contempor\u00e2neos. Como foi o processo de elabora\u00e7\u00e3o da forma? E como voc\u00ea situa o livro na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria atual?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PAULLINY TORT:<\/strong> Embora eu passe bastante tempo no texto, n\u00e3o sinto que a escrita de fic\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que est\u00e1 plenamente no dom\u00ednio do controle. A voz soa como ou\u00e7o a hist\u00f3ria. Sobre a situa\u00e7\u00e3o do livro em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria atual, isso caber\u00e1 mais \u00e0s pessoas do futuro, se elas ainda estiverem interessadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: O livro n\u00e3o tem di\u00e1logos, s\u00f3 intera\u00e7\u00f5es verbais ou gestuais narradas de modo indireto. A falta de di\u00e1logos n\u00e3o impediu, por\u00e9m, que a narrativa se aprofundasse na psicologia das personagens. No entanto, estamos falando de personagens cuja realidade se situa a mais ou menos 50 mil anos do presente. Como foi conjugar pesquisa hist\u00f3rica e imagina\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PAULLINY TORT:<\/strong> Uma coisa n\u00e3o se separa da outra. N\u00e3o fiz uma pesquisa para o livro, mas evolu\u00e7\u00e3o e outros temas da biologia me acompanham h\u00e1 muitos anos (em entrevistas recentes, falei da minha experi\u00eancia acad\u00eamica e um est\u00e1gio em primatologia). Ao mesmo tempo, sou uma leitora ativa de fic\u00e7\u00e3o, gosto de literatura antigona, cresci com poesia. E gosto muito de ler sobre linguagem, bot\u00e2nica, fungos etc. A leitura e a escrita fazem parte da forma como vivo. Tudo acontece ao mesmo tempo, n\u00e3o h\u00e1 procedimentos estanques.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: H\u00e1 um elemento no livro que me parece bastante presente: o s\u00edlex. Embora n\u00e3o seja a mesma coisa que o sil\u00edcio, voc\u00ea diria que h\u00e1 um paralelo poss\u00edvel entre as ferramentas rudimentares dos neandertais \u2013 manuseadas com mais habilidade pelo <em>Homo sapiens<\/em> \u2013 e a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica das m\u00e1quinas atuais?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PAULLINY TORT:<\/strong> N\u00e3o pensei no que estava fora daquele mundo enquanto escrevi. Essas leituras que recebo s\u00e3o muito interessantes, \u00e0s vezes bonitas, inteligentes, mas n\u00e3o se comunicam com o meu processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Outro aspecto que chama a aten\u00e7\u00e3o na obra \u00e9 a natureza, que se expressa na aridez do ambiente, marcado por lodo, escassez de v\u00edveres e intemp\u00e9ries. \u00c9 inevit\u00e1vel n\u00e3o recordar as distopias clim\u00e1ticas que se amontoam nas prateleiras. A narrativa prop\u00f5e algum elo entre esses dois pontos extremos da escala temporal, a aurora do <em>Homo sapiens<\/em> e seu ocaso na degrada\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PAULLINY TORT:<\/strong> Mais uma vez, s\u00e3o aproxima\u00e7\u00f5es que leitores fazem. \u00c9 claro que sou uma criatura que pertence a um tempo \u2013 e esse tempo tem suas caracter\u00edsticas, seus problemas, suas urg\u00eancias, seu <em>Stimmung<\/em>. Mas, ainda que nosso destino pare\u00e7a importante e \u00fanico, desconhecemos a real dimens\u00e3o dos <em>sapiens<\/em> na exist\u00eancia. Embora nos sintamos donos e senhores da natureza, a Terra n\u00e3o foi feita para n\u00f3s, outros humanos estiveram aqui por mais tempo, e a vida continuar\u00e1 se deixarmos de existir. O Universo tamb\u00e9m n\u00e3o existir\u00e1 um dia. Que estamos adiantando nosso fim, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, mas, para ter consci\u00eancia disso, n\u00e3o precisamos de fic\u00e7\u00f5es. N\u00e3o precisamos nem mesmo saber ler. Precisamos levar a s\u00e9rio as for\u00e7as que sustentam tudo o que vive.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Os pap\u00e9is de g\u00eanero tamb\u00e9m est\u00e3o bem marcados no romance, e o protagonismo das mulheres torna-os ainda mais impactantes nesse sentido. De que modo <em>Os Imortais<\/em> se soma ao debate de g\u00eanero na literatura nacional?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PAULLINY TORT:<\/strong> Eu n\u00e3o atribuiria um \u201cdebate de g\u00eanero\u201d ao paleol\u00edtico, sobretudo quando falamos de outra esp\u00e9cie humana. O conceito \u201cg\u00eanero\u201d soa bastante anacr\u00f4nico em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo narrado. Mas o comportamento das f\u00eameas na natureza costuma ser muito diferente daquilo que at\u00e9 recentemente se propagava como fato biol\u00f3gico. Na etologia, assim como na primatologia, tem se demonstrado cada vez mais o protagonismo das f\u00eameas e a ag\u00eancia delas sobre a pr\u00f3pria vida sexual. Pesquisas avan\u00e7am nesse sentido. E h\u00e1 estudos que sugerem que as mulheres neandertais podiam ser fisicamente t\u00e3o fortes quanto os homens, o que devia se refletir nos pap\u00e9is sociais que elas desempenhavam. Consegue imaginar uma sociedade em que homens e mulheres disp\u00f5em da mesma pot\u00eancia f\u00edsica? Quanto \u00e0 literatura nacional, n\u00e3o posso fazer a rela\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o tenho acompanhado tanto ultimamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: O romance tem uma progress\u00e3o temporal linear e, no entanto, ele narra um ritmo c\u00edclico nas sa\u00eddas para a ca\u00e7a, nas fun\u00e7\u00f5es e, inclusive, no deslocamento territorial dos neandertais. Sem dar <em>spoiler<\/em>, o final parece abrir uma nova dimens\u00e3o do tempo, o tempo cronol\u00f3gico, do progresso. Na sua opini\u00e3o, como se articulam essas diferentes temporalidades, pensando no que \u00e9 deixado para tr\u00e1s e no que se abre para a protagonista?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PAULLINY TORT:<\/strong> O que significa \u201cprogresso\u201d? Os neandertais tamb\u00e9m tiveram um passado: e eles n\u00e3o \u201cprogrediram\u201d em rela\u00e7\u00e3o a uma vida pregressa? N\u00e3o fa\u00e7o ideia de como \u2013 e se \u2013 essas diferentes temporalidades que voc\u00ea sugere se articulam. Para mim, ainda estamos na mesma linha de tempo dos neandertais. \u00c9 verdade que nossa esp\u00e9cie se cercou de bugigangas, que desenvolvemos comunica\u00e7\u00f5es velozes e m\u00e1quinas extraordin\u00e1rias. J\u00e1 viajamos \u00e0 lua! Inventamos novas plantas, novos bichos, aprendemos a resistir a doen\u00e7as e problemas, enquanto criamos novas doen\u00e7as e novos problemas, mas ainda sofremos e nos alegramos como nas cavernas. Ainda nos apaixonamos e odiamos, constru\u00edmos e destru\u00edmos, sentimos compaix\u00e3o, inveja, morremos e matamos. Surgimos ontem na Terra. No tempo c\u00f3smico, n\u00e3o somos nada. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"e41b8f7d-c505-4429-919a-4be12dbb71c8\"><a href=\"https:\/\/www.fosforoeditora.com.br\/produto\/os-imortais-70509\">TORT, Paulliny. <em>Os Imortais<\/em>. S\u00e3o Paulo: F\u00f3sforo, 2026<\/a>.  <a href=\"#e41b8f7d-c505-4429-919a-4be12dbb71c8-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 21 \u2013 agosto de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aclamado pela cr\u00edtica e pelo p\u00fablico, o \u00faltimo lan\u00e7amento da escritora brasiliense revisita a aurora da humanidade para nos dar um vislumbre dos conflitos que marcam a esp\u00e9cie desde sua origem na Terra<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1760,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"<a href=\\\"https:\/\/www.fosforoeditora.com.br\/produto\/os-imortais-70509\\\">TORT, Paulliny. <em>Os Imortais<\/em>. 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