{"id":1788,"date":"2026-09-11T17:15:38","date_gmt":"2026-09-11T20:15:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1788"},"modified":"2026-10-12T18:04:41","modified_gmt":"2026-10-12T21:04:41","slug":"entrevista-com-ian-carrillo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/09\/11\/entrevista-com-ian-carrillo\/","title":{"rendered":"Entrevista com Ian Carrillo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o bastante conhecidas as rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas entre o agroneg\u00f3cio brasileiro \u2013 um dos principais motores do PIB nacional \u2013 e o sistema escravista da <em>plantation<\/em>, que vigorou no per\u00edodo colonial. Em alguns casos, \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar uma linha direta entre os propriet\u00e1rios de terra de hoje e os escravagistas dos s\u00e9culos passados, de modo que essa linhagem transmite, al\u00e9m do patrim\u00f4nio, as concep\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais das elites econ\u00f4micas. Assim, n\u00e3o \u00e9 de se espantar que os empres\u00e1rios do setor de cana-de-a\u00e7\u00facar no Sudeste e no Nordeste brasileiros ainda hoje apresentem vieses racistas e antidemocr\u00e1ticos na defesa de seus neg\u00f3cios. Ora, a continuidade estrutural entre as atuais formas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho, de degrada\u00e7\u00e3o do meio-ambiente e de hierarquiza\u00e7\u00e3o social e as formas arcaicas que perduraram por s\u00e9culos desde a coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil constitui o que o soci\u00f3logo estadunidense, professor da Universidade de Oklahoma, Ian Carrillo chama de capitalismo racial. Em seu mais recente livro, <em>The Business of Racism<\/em>,<sup data-fn=\"0fb76c03-c686-4f57-aafd-db8f87810cb1\" class=\"fn\"><a href=\"#0fb76c03-c686-4f57-aafd-db8f87810cb1\" id=\"0fb76c03-c686-4f57-aafd-db8f87810cb1-link\">1<\/a><\/sup> Carrillo exp\u00f5e as ideologias racistas e predat\u00f3rias que fazem parte da elite canavieira dos estados de S\u00e3o Paulo, Pernambuco e Alagoas. Por meio de uma criteriosa investiga\u00e7\u00e3o que envolveu o levantamento de leis, de documentos hist\u00f3ricos, do debate com a tradi\u00e7\u00e3o do pensamento sociol\u00f3gico brasileiro e, sobretudo, de uma etnografia minuciosa, o autor tra\u00e7a um panorama hist\u00f3rico das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas e ambientais que fazem parte da realidade social das planta\u00e7\u00f5es e usinas de cana do agroneg\u00f3cio brasileiro. Com isso, saltam \u00e0 vista tanto os esfor\u00e7os do Estado no sentido da erradica\u00e7\u00e3o do trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o \u2013 que \u00e9 fortemente presente nesses lugares \u2013, quanto a resist\u00eancia das elites por meio da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em torno das agendas da direita nacional e, n\u00e3o raro, por meio da coer\u00e7\u00e3o e da viol\u00eancia. O livro, portanto, deixa claro que o passado escravagista brasileiro, juntamente com o racismo estrutural sobre o qual ele sempre se apoiou, n\u00e3o foi totalmente extinto, vigorando, ainda, na mentalidade das elites rurais brasileiras. Nesta entrevista, que foi concedida em portugu\u00eas pelo t\u00e3o am\u00e1vel Professor Carrillo, podemos entender melhor em que consiste o capitalismo racial, como foi a hist\u00f3ria de combate ao trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o nas usinas canavieiras e como as nossas elites atuam para sabotar a democracia racial no Brasil. Leia abaixo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Podemos come\u00e7ar por uma no\u00e7\u00e3o crucial no livro e com a qual nem todas as pessoas est\u00e3o familiarizadas. O que define o capitalismo racial? E como ele se manifesta no Brasil, especificamente nas usinas de cana de a\u00e7\u00facar que voc\u00ea visitou?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>IAN<\/strong> <strong>CARRILLO<\/strong>: Meu livro define o capitalismo racial como um processo e uma estrutura em que a acumula\u00e7\u00e3o desigual de capital ocorre por divis\u00f5es sociais, como ra\u00e7a, g\u00eanero e classe, entre outras categorias. Em geral, essas rela\u00e7\u00f5es de capitalismo racial operam pelo Estado, a for\u00e7a de trabalho, o meio ambiente, as institui\u00e7\u00f5es e a cultura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No livro, uso capitalismo racial como uma abordagem para estudar a ind\u00fastria canavieira no Brasil. Essa ind\u00fastria \u00e9 um caso exemplar de capitalismo racial. As planta\u00e7\u00f5es a\u00e7ucareiras eram a entidade econ\u00f4mica principal da coloniza\u00e7\u00e3o. Nas planta\u00e7\u00f5es, rela\u00e7\u00f5es de classes eram estratificadas racialmente. Senhores de engenho eram brancos, e o poder e status eram concentrados nas m\u00e3os deles. Trabalhadores escravizados eram negros e tinham uma posi\u00e7\u00e3o muito prec\u00e1ria. As pr\u00e1ticas ambientais tamb\u00e9m eram de explora\u00e7\u00e3o, envolvendo a deple\u00e7\u00e3o de solo, o desmatamento, a polui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e (come\u00e7ando no s\u00e9culo XX) a queima da palha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa ind\u00fastria tem passado por mudan\u00e7as importantes, como a aboli\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o e a ado\u00e7\u00e3o do estatuto do trabalhador rural. Mas a planta\u00e7\u00e3o como um modelo de neg\u00f3cio e um modelo para organizar sociedade persiste at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Voc\u00ea demonstra, no livro, que o capitalismo racial no Brasil descende do sistema econ\u00f4mico da <em>plantation<\/em> e da escravatura, que vigoraram at\u00e9 o s\u00e9culo XIX. Quais s\u00e3o as continuidades entre esses dois sistemas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>IAN<\/strong> <strong>CARRILLO<\/strong>:&nbsp; O capitalismo racial foi desenvolvido pela coloniza\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 tamb\u00e9m um fen\u00f4meno atual. O mundo contempor\u00e2neo \u00e9 composto de desigualdades, estruturas e rela\u00e7\u00f5es que a coloniza\u00e7\u00e3o construiu. Infelizmente, isso \u00e9 vis\u00edvel nas rela\u00e7\u00f5es a\u00e7ucareiras hoje em dia: a branquitude continua a definir o poder econ\u00f4mico, e a grande maioria dos trabalhadores canavieiros \u00e9 afrodescendente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra continuidade importante tem a ver com o poder pol\u00edtico. Os usineiros, senhores de engenho e suas fam\u00edlias continuam tendo muito poder no sistema pol\u00edtico e na economia pol\u00edtica. Nesse sentido, o patrimonialismo \u00e9 central na configura\u00e7\u00e3o do capitalismo racial no Brasil, historicamente e atualmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Ao ler o seu livro, \u00e9 poss\u00edvel retra\u00e7ar a hist\u00f3ria das leis trabalhistas no Brasil, desde a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e os anos FHC, at\u00e9 a flexibiliza\u00e7\u00e3o da CLT e a extin\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio do Trabalho, respectivamente feitas por Temer e Bolsonaro. Como voc\u00ea avalia esse per\u00edodo em termos de melhorias das condi\u00e7\u00f5es de trabalho nas usinas de cana? E o qu\u00e3o distante o Brasil est\u00e1 de erradicar o trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>IAN<\/strong> <strong>CARRILLO<\/strong>: O per\u00edodo entre a d\u00e9cada 1990 at\u00e9 (mais ou menos) o ano de 2013 \u00e9 muito importante para a hist\u00f3ria do trabalho rural no Brasil. A cria\u00e7\u00e3o e a implementa\u00e7\u00e3o de leis contra o trabalho infantil e o trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o foram uma grande interven\u00e7\u00e3o no setor do agroneg\u00f3cio. O Minist\u00e9rio de Trabalho e o Minist\u00e9rio P\u00fablico de Trabalho tamb\u00e9m desenvolveram regula\u00e7\u00f5es para combater outras formas de abuso relativos \u00e0 sa\u00fade, ao roubo de sal\u00e1rios e \u00e0 informalidade, entre outras \u00e1reas. A expans\u00e3o de regulamenta\u00e7\u00e3o trabalhista n\u00e3o foi perfeita, mas foi um choque para a classe latifundi\u00e1ria, que era acostumada a ter a liberdade de explorar e dominar trabalhadores sem muita interfer\u00eancia do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A luta contra o trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o infelizmente vai ser uma luta de longo prazo. Enquanto o capitalismo racial existir, atores poderosos v\u00e3o tentar escravizar trabalhadores. No entanto, como meu livro descreve, muitas pol\u00edticas institucionais no Brasil interromperam a reprodu\u00e7\u00e3o do trabalho escravo. Os Grupo M\u00f3veis criaram e institucionalizaram normas e protocolos para poder identificar e documentar o trabalho escravo. Promotores e desembargadores tamb\u00e9m desenvolveram m\u00e9todos e instrumentos para criminalizar o trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o e condenar as pessoas que escravizaram trabalhadores. Isso foi um avan\u00e7o muito importante. E sabemos que foi importante porque o setor do agroneg\u00f3cio tem trabalhado vigorosamente para reverter essas leis \u2013 para mudar a defini\u00e7\u00e3o de trabalho escravo, por exemplo. A classe latifundi\u00e1ria pensa que o trabalho infantil e o trabalho escravo s\u00e3o algo normal. Mas, nas d\u00e9cadas recentes, muitos movimentos \u2013 no Estado, nos sindicatos rurais, nos movimentos rurais e na sociedade brasileira \u2013 t\u00eam emergido para desafiar essa explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Seu livro tamb\u00e9m capta a tens\u00e3o existente entre os agentes do Estado (fiscais, promotores) e os usineiros. Conforme as leis trabalhistas avan\u00e7aram no pa\u00eds, houve rea\u00e7\u00e3o dos produtores de cana. Como voc\u00ea descreveria o papel da elite canavieira no panorama pol\u00edtico e econ\u00f4mico do Brasil depois da redemocratiza\u00e7\u00e3o? E como a ideologia das elites tem atrasado a implementa\u00e7\u00e3o das leis trabalhistas e do antirracismo no Brasil?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>IAN<\/strong> <strong>CARRILLO<\/strong>: As elites a\u00e7ucareiras que entrevistei em S\u00e3o Paulo, Alagoas e Pernambuco compartilham uma vis\u00e3o que \u00e9 hostil a valores democr\u00e1ticos, como igualdade, universalidade e direitos humanos. Isso provavelmente n\u00e3o \u00e9 uma surpresa, porque a <em>plantation<\/em> \u00e9 uma entidade econ\u00f4mica e pol\u00edtica que \u00e9 antit\u00e9tica \u00e0 democracia. Os trabalhadores rurais eram tradicionalmente exclu\u00eddos de prote\u00e7\u00f5es legais, e a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 mudou essa din\u00e2mica. A implementa\u00e7\u00e3o de direitos n\u00e3o foi r\u00e1pida, mas houve momentos de progresso. Nos anos 1990, os Grupos M\u00f3veis usaram a Constitui\u00e7\u00e3o para estabelecer a justifica\u00e7\u00e3o legal para combater o trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o. Em 2005, auditores fiscais do trabalho e promotores tamb\u00e9m usaram a Constitui\u00e7\u00e3o para criar a Norma Regulamentadora 31, que foi fundamental para estender direitos trabalhistas ao \u00e2mbito rural. Esses momentos representam a longa marcha de democratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, as elites resistiram ao cumprimento dessas leis. N\u00e3o queriam fornecer banheiros e equipamento de prote\u00e7\u00e3o individual, por exemplo. Em geral, as elites n\u00e3o queriam respeitar os direitos trabalhistas e as dignidades b\u00e1sicas dos trabalhadores. Assim, essas elites continuam a ser um dos maiores obst\u00e1culos do antirracismo no Brasil. Por\u00e9m, meu livro mostra que o poder dessas elites n\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel, e que \u00e9 poss\u00edvel desafiar e reformar o sistema das oligarquias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Voc\u00ea tamb\u00e9m mostra que a queimada da palha da cana, uma atividade nociva aos trabalhadores e ao meio ambiente, passou a ser regulada pelo Estado, desagradando os usineiros. De que modo as quest\u00f5es ambientais foram articuladas pelas elites rurais para legitimar o capitalismo racial e a degrada\u00e7\u00e3o ambiental?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>IAN<\/strong> <strong>CARRILLO<\/strong>: Nas planta\u00e7\u00f5es de cana-de-a\u00e7\u00facar, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel separar atividades trabalhistas e atividades ambientais. Por exemplo, cortar cana \u00e9 uma atividade trabalhista e uma atividade ambiental. Essas liga\u00e7\u00f5es s\u00e3o vistas na maneira como as elites rurais discutem a queima da palha. No Nordeste, onde essa pr\u00e1tica persiste, as elites explicaram para mim que proibir a queima de palha causaria caos racial e de classe. Na perspectiva deles, se as usinas n\u00e3o pudessem fazer a queimada, elas fechariam, e milhares de trabalhadores se mudariam para os centros urbanos, onde eles supostamente cometeriam muitos crimes violentos. Assim, nessa vis\u00e3o racista das elites, queimar a palha \u00e9 uma atividade necess\u00e1ria para manter a ordem racial e de classe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m \u00e9 importante dizer que a elite paulista tinha essa mesma perspectiva antes da ado\u00e7\u00e3o da colheita mecanizada. Entre os anos 2000 e 2002, quando a ALESP estava propondo leis para proibir as queimadas, as elites rurais usavam um discurso que era basicamente id\u00eantico ao discurso das elites nordestinas. As elites paulistas propagavam estere\u00f3tipos raciais dos trabalhadores rurais para deslegitimar leis ambientais e para justificar a queima de palha. Assim, no Nordeste e em S\u00e3o Paulo, vemos que a degrada\u00e7\u00e3o ambiental \u00e9 intr\u00ednseca ao poder das elites no capitalismo racial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Por fim, seu livro mostra que h\u00e1 distin\u00e7\u00f5es entre o Sudeste e o Nordeste no que diz respeito \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o da mecaniza\u00e7\u00e3o e das leis trabalhistas e ambientais. Na sua vis\u00e3o, como se diferenciam as elites dessas duas regi\u00f5es? Como a ideologia racista e conservadora opera nesses diferentes lugares?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>IAN<\/strong> <strong>CARRILLO<\/strong>: No Brasil, h\u00e1 diferen\u00e7as regionais entre as elites paulistas e as elites nordestinas. No entanto, elas t\u00eam muitas caracter\u00edsticas semelhantes. Nas duas regi\u00f5es, as elites s\u00e3o antidemocr\u00e1ticas, reacion\u00e1rias e patrimonialistas. Desde a coloniza\u00e7\u00e3o, a branquitude tem definido a oligarquia rural em S\u00e3o Paulo e no Nordeste, a despeito da aboli\u00e7\u00e3o, dos ciclos de commodities e das mudan\u00e7as nas configura\u00e7\u00f5es pol\u00edticas no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma diferen\u00e7a crucial entre as elites paulistas e nordestinas \u00e9 a sua vis\u00e3o de poder. As elites paulistas descreveram o seu poder em termos nacionais. Elas acreditavam que eram as pessoas mais modernas e empreendedoras do Brasil, e que s\u00f3 elas \u2013 como paulistas \u2013 tinham o talento para restaurar a grandeza do pa\u00eds. Essa mentalidade reflete o que a historiadora Barbara Weinstein chama de supremacia \u00e9tnico-regional. As elites nordestinas tinham uma vis\u00e3o de poder que era mais regional. Elas sabiam que as suas usinas eram cada vez menos competitivas no setor nacional. Assim, um de seus desejos mais primordiais era capturar o Estado para poder parar esse decl\u00ednio econ\u00f4mico e proteger as suas usinas das for\u00e7as democr\u00e1ticas e econ\u00f4micas. Apesar das diferen\u00e7as, as elites paulistas e nordestinas concordavam que era necess\u00e1rio eliminar as leis trabalhistas e ambientais e restringir a democracia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em geral, um aspecto importante do capitalismo racial \u00e9 que ideologias de domina\u00e7\u00e3o racial operam diferentemente dependendo da regi\u00e3o geogr\u00e1fica. Isso \u00e9 visto no Brasil, onde o regionalismo influencia a ra\u00e7a e a racializa\u00e7\u00e3o, inclusive para as elites econ\u00f4micas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"0fb76c03-c686-4f57-aafd-db8f87810cb1\"><a href=\"https:\/\/dukeupress.edu\/the-business-of-racism\">CARRILLO, Ian. <em>The Business of Racism.<\/em> Labor and Environmental in Brazil\u2019s Racial Capitalism. Durham: Duke University Press, 2026<\/a>. <a href=\"#0fb76c03-c686-4f57-aafd-db8f87810cb1-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 22 \u2013 setembro de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O soci\u00f3logo e professor da Universidade de Oklahoma, que pesquisa o tema do trabalho e do meio ambiente no Brasil, concedeu esta entrevista, na qual fala sobre capitalismo racial e as elites do agro brasileiro<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1793,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"<a href=\\\"https:\/\/dukeupress.edu\/the-business-of-racism\\\">CARRILLO, Ian. <em>The Business of Racism.<\/em> Labor and Environmental in Brazil\u2019s Racial Capitalism. 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