{"id":1795,"date":"2026-09-11T17:13:43","date_gmt":"2026-09-11T20:13:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1795"},"modified":"2026-10-12T18:05:01","modified_gmt":"2026-10-12T21:05:01","slug":"conexoes-imprevistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/09\/11\/conexoes-imprevistas\/","title":{"rendered":"Conex\u00f5es Imprevistas: o Arquip\u00e9lago de Amitav Ghosh"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Resenha do Livro: <a href=\"https:\/\/press.uchicago.edu\/ucp\/books\/book\/chicago\/W\/bo257600775.html\">GHOSH, Amitav. <em>Wild Fictions<\/em>: Essays on Literature, Empire, and the Environment. Chicago: University of Chicago Press, 2025<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Jo\u00e3o Gabriel Alc\u00e2ntara Manfrim<sup data-fn=\"bef97e70-0368-41b6-8c5f-aeb7241b5191\" class=\"fn\"><a href=\"#bef97e70-0368-41b6-8c5f-aeb7241b5191\" id=\"bef97e70-0368-41b6-8c5f-aeb7241b5191-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Ouverture<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para minha surpresa ao escrever esta resenha, j\u00e1 faz uma d\u00e9cada desde a publica\u00e7\u00e3o de <em>The Great Derangement: Climate Change and the Unthinkable<\/em> (2016).<sup data-fn=\"1d1e0dbc-2dcb-4baf-a109-90d003f81c8f\" class=\"fn\"><a href=\"#1d1e0dbc-2dcb-4baf-a109-90d003f81c8f\" id=\"1d1e0dbc-2dcb-4baf-a109-90d003f81c8f-link\">2<\/a><\/sup> Da autoria de Amitav Ghosh, escritor indiano de longa carreira no mundo da l\u00edngua inglesa, este livro-ensaio se prop\u00f4s a explorar uma quest\u00e3o que se revelou cr\u00edtica para nossos tempos: qual \u00e9 o papel da fic\u00e7\u00e3o no desenrolar do Antropoceno \u2013 esta aparente nova \u00e9poca geol\u00f3gica em que, como esp\u00e9cie, nos inserimos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre o Antropoceno: embora discut\u00edvel na sua dimens\u00e3o geol\u00f3gica, o termo, na sua qualidade \u201cguarda-chuva\u201d, aparece como um reajuste paisag\u00edstico para as caracter\u00edsticas ululantes \u2013 e <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/ecoa\/ultimas-noticias\/2024\/04\/20\/tem-volta-limites-planetarios-mostram-urgencia-de-acoes-para-o-clima.htm\">cientificamente declaradas<\/a> \u2013 do s\u00e9culo XXI: a crise clim\u00e1tica, a morte da biodiversidade, a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar, o triunfo da economia dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, entre outras trag\u00e9dias e desastres cujo epicentro \u00e9 o agenciamento do ser humano sobre a Terra. Partindo, portanto, desta que pode ser entendida como a \u201cexperi\u00eancia do desarranjo\u201d no capitalismo, Ghosh, numa guinada curiosa, desloca seu foco dos \u201chorizontes apocal\u00edpticos baseados em dados brutos\u201d para uma investiga\u00e7\u00e3o do <em>alcance sens\u00edvel<\/em> das produ\u00e7\u00f5es humanas \u2013 como o romance \u2013, optando, assim, por real\u00e7ar a dimens\u00e3o est\u00e9tica do problema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para tanto, ele se baseia num conceito cl\u00e1ssico de mimeses: a arte como representa\u00e7\u00e3o do real num jogo informativo de m\u00e3o-dupla que constr\u00f3i algo <em>substancial<\/em> e <em>duradouro<\/em>. H\u00e1, portanto, a constru\u00e7\u00e3o de conhecimento sobre o humano \u2013 mas tamb\u00e9m sobre o mundo. Tomando exemplos pr\u00e1ticos: consideremos o tanto que algo como \u201ca pol\u00edtica do caf\u00e9 com leite\u201d consegue perdurar apenas por sabermos que \u201cS\u00e3o Paulo d\u00e1 caf\u00e9\/ Minas d\u00e1 leite\/ E a Vila Isabel d\u00e1 samba\u201d (Noel Rosa, <em>Feiti\u00e7o da Vila<\/em>, 1934). No caso de uma can\u00e7\u00e3o como esta, um dado hist\u00f3rico persiste esteticamente atrav\u00e9s do tempo; agora, no que diz respeito \u00e0 literatura, por meio de um romance, h\u00e1 um leque enorme de conceptualiza\u00e7\u00f5es (leves ou pesadas) que informam a realidade pela sua \u201cobserva\u00e7\u00e3o e documenta\u00e7\u00e3o\u201d. Pensemos, por exemplo, em como um comportamento feito o \u201carrivismo\u201d \u00e9 intimamente informado pela fic\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX, com romances como os da Com\u00e9dia Humana de Balzac.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com base nessa rela\u00e7\u00e3o, Ghosh se pergunta \u201cse\u201d e \u201cpor qu\u00ea\u201d o romance, enquanto \u201cforma\u201d de express\u00e3o da \u201cliteratura s\u00e9ria\u201d do Ocidente, mostra-se, historicamente, t\u00e3o relutante <em>em tornar sens\u00edvel<\/em> os elementos que formam a experi\u00eancia da era do carbono \u2013 entre os quais vale destacar a incongruente rela\u00e7\u00e3o com aquilo que se denomina \u201cnatureza\u201d. Mas o que o leva a formular estas quest\u00f5es? Assim como outras artes, a Literatura, por certo, n\u00e3o \u00e9 feita de rea\u00e7\u00f5es em tempo real. Por que, ent\u00e3o, cobrar este tipo de resposta? Ghosh responde com o seguinte: a crise clim\u00e1tica n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 discutida como tamb\u00e9m \u00e9 veiculada em diferentes formas, mas \u201cquase sempre em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o\u201d, enquanto que \u201cromances e contos raramente s\u00e3o vistos por este horizonte\u201d.<sup data-fn=\"f6d33547-ed3e-4bd4-9e0e-48023f65a020\" class=\"fn\"><a href=\"#f6d33547-ed3e-4bd4-9e0e-48023f65a020\" id=\"f6d33547-ed3e-4bd4-9e0e-48023f65a020-link\">3<\/a><\/sup> Ou seja, o que \u00e9 posto em xeque \u00e9 justamente o poss\u00edvel sintoma de uma fic\u00e7\u00e3o (e sua linguagem) que cada vez mais n\u00e3o conversa com a realidade presente \u2013 e que, quando conversa, tem sua recep\u00e7\u00e3o <em>relegada<\/em> \u00e0 fic\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, \u201ccomo se, na imagina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, mudan\u00e7a clim\u00e1tica exibisse parentesco com vida extraterrestre ou viagens interplanet\u00e1rias.\u201d<sup data-fn=\"bd3f6c97-42e4-472c-9d25-98ed9fcc6813\" class=\"fn\"><a href=\"#bd3f6c97-42e4-472c-9d25-98ed9fcc6813\" id=\"bd3f6c97-42e4-472c-9d25-98ed9fcc6813-link\">4<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, mais do que uma considera\u00e7\u00e3o sobre formas liter\u00e1rias, trata-se de um olhar antropol\u00f3gico sobre a cultura atual, suas predile\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas e, principalmente, seu <em>imagin\u00e1rio<\/em> \u2013 tr\u00eas termos que talvez possam ser mais bem definidos atrav\u00e9s da fixa\u00e7\u00e3o por aquilo que Ghosh chama de \u201caventura moral e individual\u201d.<sup data-fn=\"0a79174e-a05f-4ef2-a1bb-1d1137f1f70d\" class=\"fn\"><a href=\"#0a79174e-a05f-4ef2-a1bb-1d1137f1f70d\" id=\"0a79174e-a05f-4ef2-a1bb-1d1137f1f70d-link\">5<\/a><\/sup> Isto \u00e9, <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2022\/aug\/21\/stories-draw-us-to-the-heros-journey-but-individual-empathy-doesnt-help-us-see-the-bigger-picture\">hist\u00f3rias sobre <em>o sujeito<\/em><\/a>, sua identidade e seus dramas tanto localizados \u201cna consci\u00eancia\u201d quanto dispostos num <em>mundo<\/em> entendido como acess\u00f3rio \u2013 um acess\u00f3rio \u00fatil e at\u00e9 significativo, mas quase sempre desprovido de conex\u00f5es reais para al\u00e9m de si mesmo, tal qual um set de novela que nunca sobrevive inteiramente ao fim de uma produ\u00e7\u00e3o. Aqui, portanto, o problema passa a se referir a <em>escalas<\/em> e a <em>conex\u00f5es<\/em> entre dois termos: o <em>humano<\/em> e o <em>mundo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse racioc\u00ednio, Ghosh esbo\u00e7a um cen\u00e1rio hipot\u00e9tico que vai direto ao ponto: num futuro substancialmente revirado pelas a\u00e7\u00f5es humanas \u2013 com uma Veneza ou Nova York j\u00e1 submersas \u2013, as pessoas do amanh\u00e3, buscando em museus e bibliotecas os artefatos do passado, \u201cn\u00e3o procurar\u00e3o com prioridade e urg\u00eancia os tra\u00e7os e press\u00e1gios do mundo alterado que receberam como heran\u00e7a?\u201d.<sup data-fn=\"0253459d-8d85-4f28-bc5c-b25729920132\" class=\"fn\"><a href=\"#0253459d-8d85-4f28-bc5c-b25729920132\" id=\"0253459d-8d85-4f28-bc5c-b25729920132-link\">6<\/a><\/sup> Este \u00e9 um cen\u00e1rio bastante provocativo. Mesmo em hip\u00f3tese, ele veicula responsabilidade, sinaliza certa aliena\u00e7\u00e3o e, sobretudo \u2013 de um jeito astuto, talvez pr\u00f3ximo da intelig\u00eancia pr\u00e1tica do antigo Ulisses \u2013, nos tensiona a realizar <em>agora<\/em>, em nosso presente, o exerc\u00edcio arqueol\u00f3gico que indica para futuro. Aqui est\u00e1 o <em>pulo do gato<\/em> do ensaio todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 muito o que se dizer sobre <em>The Great Derangement<\/em> e suas teses \u2013 e muito j\u00e1 se disse. De l\u00e1 para c\u00e1, o livro de Amitav Ghosh, ainda que <a href=\"https:\/\/www.theatlantic.com\/books\/2026\/07\/amitav-ghosh-ghost-eye-review-climate-change\/687993\/\">encontrando justas contesta\u00e7\u00f5es de abordagem<\/a>, conseguiu sobreviver como uma problem\u00e1tica cada vez mais vigente para a fic\u00e7\u00e3o de nossos dias \u2013 e n\u00e3o sem motivo. Tomando as palavras do pr\u00f3prio escritor numa <a href=\"https:\/\/youtu.be\/9QOGa0ha3U8?t=657\">recente entrevista<\/a>: ontem, escrevia-se <em>sobre<\/em> a crise planet\u00e1ria; hoje, escreve-se <em>dentro<\/em> dela. Com sua emerg\u00eancia, portanto, imperando sobre n\u00f3s, comendo-nos pelas beiradas, esta crise naturalmente requer investiga\u00e7\u00f5es, novas conceptualiza\u00e7\u00f5es, formas novas de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dito isso, num quadro geral, preciso dizer que talvez n\u00e3o seja correto atribuir somente a Ghosh todo o despontar de reflex\u00f5es est\u00e9ticas sobre o Antropoceno. Por\u00e9m, me parece ineg\u00e1vel que uma parte razo\u00e1vel de sua prolifera\u00e7\u00e3o \u00e9 ligada, sim, \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es do escritor. Tomo como ind\u00edcio desde uma diversidade de artigos e resenhas \u2013 em jornais como <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/books\/2026\/aug\/16\/it-is-not-only-a-future-certainty-the-disaster-is-already-here-why-we-need-climate-fiction\"><em>The Guardian<\/em><\/a> ou <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2019\/09\/07\/books\/amitav-ghosh-gun-island-climate-change.html\"><em>The New York Times<\/em><\/a> \u2013 at\u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o ensa\u00edstica posterior \u2013 como o livro de Mark Bould, <em>The Anthropocene Unconscious<\/em> (2021); todos, continuamente, propondo-se a retomar, sob novas perspectivas, as quest\u00f5es levantadas por Ghosh. Para al\u00e9m disso, levo em conta tamb\u00e9m uma produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica recente, com linhas de pesquisa e projetos (nem que) residualmente inspirados na problematiza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica do Antropoceno. (Dentre eles, o pr\u00f3prio website do <em>Carbono<\/em>). Mas, enfim, por que me detenho neste grande pre\u00e2mbulo, me desviando at\u00e9 aqui de comentar o livro ao qual esta resenha \u00e9 \u2013 ou deveria ser \u2013 dedicada?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma resposta honesta seria apenas reiterar o que j\u00e1 foi dito: <em>The Great Derangement<\/em> prop\u00f5e uma experi\u00eancia t\u00e3o tocante que, em algum momento e medida, sua lembran\u00e7a pode vir a eclipsar qualquer leitura posterior. E, quando o assunto \u00e9 justamente um outro (e mais recente) livro do pr\u00f3prio Amitav Ghosh, como \u00e9 <em>Wild Fictions: Essays on Literature, Empire, and the Environment<\/em> (2025), ent\u00e3o, entramos no terreno do inevit\u00e1vel. Por\u00e9m, eu gostaria ainda de acrescentar algo: para al\u00e9m da influ\u00eancia e perspic\u00e1cias duradouras do ensaio, sua leitura muito particularmente afetou a maneira como eu entendia a fic\u00e7\u00e3o, seus agenciamentos e conex\u00f5es <em>no mundo<\/em>. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso se deu, em grande parte, pelo estilo do autor em face de seus objetos. Com um forte vi\u00e9s antropol\u00f3gico (de forma\u00e7\u00e3o, vale mencionar), o ensaio est\u00e9tico de Ghosh a respeito da crise clim\u00e1tica tamb\u00e9m se revela um espa\u00e7o de medita\u00e7\u00e3o sobre a Hist\u00f3ria e seus procedimentos; sobre as tradi\u00e7\u00f5es de seu pa\u00eds, a \u00cdndia, cruzadas pela modernidade e pelo imperialismo ingl\u00eas; sobre o espa\u00e7o de Calcut\u00e1, sua terra natal, num jogo de lembran\u00e7as e trajet\u00f3rias familiares sempre marcadas pela rela\u00e7\u00e3o caprichosa e \u00edntima com os rios Padma e Ganges; sobre a forma como a imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se insere na imagina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria (e vice-versa) \u2013 entre outros tantos temas. Com uma leveza surpreendente de conjectura, ele articula essas coisas como revelando <em>conex\u00f5es imprevistas<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 para essa qualidade que, num primeiro momento, eu quis chamar aten\u00e7\u00e3o: se h\u00e1 um tra\u00e7o caracter\u00edstico da n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o de Amitav Ghosh, certamente \u00e9 a express\u00e3o da tentativa de conex\u00f5es nem t\u00e3o \u00f3bvias, nem t\u00e3o convencionais do ser humano com o mundo. Conex\u00f5es essas que aparecem como um lembrete de que \u2013 a despeito da Ci\u00eancia e da teimosia do esp\u00edrito humano \u2013 continua sempre a restar certo mist\u00e9rio, certa possibilidade de deslumbramento que, nos objetos da arte e da vida, conecta o geral ao espec\u00edfico, o pequeno ao grande.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi a isso que <em>The Great Derangement<\/em> me sensibilizou \u2013 e foi por isso que me voltei para <em>Wild Fictions<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Enfim, a resenha!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reunindo textos t\u00e3o recentes quanto os da d\u00e9cada de 2020 \u2013 e t\u00e3o antigos quanto aqueles do in\u00edcio dos anos 2000 \u2013, <em>Wild Fictions<\/em> \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de uma grande unidade sobre a carreira de Amitav Ghosh como escritor. Abra\u00e7ando para si uma variedade abundante de materialidades \u2013 desde ensaios e confer\u00eancias a posts de blog e trocas de e-mail \u2013, a antologia trabalha com as abordagens de Ghosh sobre os temas correlatos ao autor em diferentes \u00e9pocas: o pensamento ecol\u00f3gico e sua consci\u00eancia pol\u00edtica, as ricas experi\u00eancias que embasam a escrita de fic\u00e7\u00e3o, os ind\u00edcios da poss\u00edvel crise de representa\u00e7\u00e3o, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Partido desse vasto punhado de textos \u2013 que, de uma se\u00e7\u00e3o para outra, n\u00e3o parece revelar uma conex\u00e3o \u00f3bvia, seja tem\u00e1tica, seja formal \u2013, buscar uma defini\u00e7\u00e3o pode se revelar um empecilho. Como que ciente disto, o autor, na introdu\u00e7\u00e3o ao livro, nos oferece uma chave de leitura: ele nos diz que o fio condutor que regula o emaranhado espa\u00e7oso de t\u00f3picos do livro \u00e9 \u201cO testemunho de uma ruptura no tempo, do registro de chegada ao fim de uma era que come\u00e7ou 300 anos atr\u00e1s, no s\u00e9culo XVIII.\u201d<sup data-fn=\"2bf1b6cc-05ff-4664-a1d9-a38ccb52900b\" class=\"fn\"><a href=\"#2bf1b6cc-05ff-4664-a1d9-a38ccb52900b\" id=\"2bf1b6cc-05ff-4664-a1d9-a38ccb52900b-link\">7<\/a><\/sup> Isto \u00e9, o fim da \u201cmodernidade\u201d e de seu paradigma cuja base surgiu na era das navega\u00e7\u00f5es, fortaleceu-se pela coloniza\u00e7\u00e3o e imperialismo euroc\u00eantricos e que, por fim, vem a \u201cdefinhar\u201d neste per\u00edodo conturbad\u00edssimo de \u201cunipolaridade\u201d estadunidense desde 2001. Trata-se, portanto, de um testemunho do total esgotamento do <em>mundo<\/em> \u2013 material, natural, pol\u00edtico, <em>imaginativo<\/em> \u2013, provocado por esse paradigma que, segundo Ghosh, nasce do fato de que,<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cN\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel insistir na fic\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de uma divis\u00e3o rigorosa entre o natural e o pol\u00edtico: inc\u00eandios de vegeta\u00e7\u00e3o, ciclones bomba e eventos semelhantes s\u00e3o tamb\u00e9m criaturas profundamente pol\u00edticas no sentido em que s\u00e3o produtos de processos hist\u00f3ricos que beneficiaram uma pequena por\u00e7\u00e3o de seres humanos \u00e0s custas de uma grande parcela da popula\u00e7\u00e3o mundial.\u201d<sup data-fn=\"0e7b0541-3197-4515-9b98-3548887c6b28\" class=\"fn\"><a href=\"#0e7b0541-3197-4515-9b98-3548887c6b28\" id=\"0e7b0541-3197-4515-9b98-3548887c6b28-link\">8<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s essa premissa \u2013 que, em ess\u00eancia, quebra e problematiza as concep\u00e7\u00f5es de natureza com rela\u00e7\u00e3o ao humano \u2013, podemos, enfim, dar uma olhada na organiza\u00e7\u00e3o de <em>Wild Fictions<\/em>. Ap\u00f3s sua introdu\u00e7\u00e3o, aparecem as seis se\u00e7\u00f5es tem\u00e1ticas que constituem o livro. Bisbilhotemos algo delas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O \u00edndice: arquip\u00e9lago de conex\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira se\u00e7\u00e3o, \u201cMudan\u00e7a Clim\u00e1tica e Meio-Ambiente\u201d (\u201c<em>Climate Change And Environment<\/em>\u201d), traz textos de defesa e reflex\u00e3o ambientais a respeito dos impactos diretos da crise clim\u00e1tica. Exemplo disso \u00e9 \u201cLoucura nos Sundarbans?\u201d (\u201c<em>Folly in the Sundarbans?<\/em>\u201d). Tomando como assunto esse manguezal t\u00e3o presente na sua obra (de fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o) \u2013 tanto por suas dimens\u00f5es estritamente ecol\u00f3gicas quanto imag\u00e9ticas (qui\u00e7\u00e1 espirituais) \u2013, Ghosh articula um verdadeiro manifesto rigorosamente racional contra os empreendimentos do \u201ccapitalismo verde\u201d \u2013 que prev\u00ea a defesa da biodiversidade pela lente exclusiva do turismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da mesma forma, essa primeira se\u00e7\u00e3o trata ainda dos impactos indiretos da crise clim\u00e1tica, como sua liga\u00e7\u00e3o sinuosa com as emergentes migra\u00e7\u00f5es das \u00faltimas d\u00e9cadas, que s\u00e3o objeto de \u201cO grande Corte de Ra\u00edzes: migra\u00e7\u00e3o e deslocamento em uma Era de Crise Planet\u00e1ria\u201d (\u201c<em>The Great Uprooting: Migration and Displacement in an Age of Planetary Crisis<\/em>\u201d). Nesse artigo de 2021, Ghosh investiga o cen\u00e1rio da crise de migra\u00e7\u00f5es europeia usando como norte o deslocamento de tantos habitantes de Bengala, sua regi\u00e3o de origem, at\u00e9 a Europa \u2013 em tentativas de acesso, por vezes, ilegais. E, para a poss\u00edvel surpresa de leitores, o que ele constata n\u00e3o \u00e9 necessariamente a press\u00e3o da crise clim\u00e1tica atuando sobre essas pessoas, mas, sim, a no\u00e7\u00e3o de que \u201cconsiderar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica como a principal causa contempor\u00e2nea da migra\u00e7\u00e3o \u00e9 o mesmo que ignorar uma grande variedade de fatores hist\u00f3ricos, sociais e <em>tecnol\u00f3gicos<\/em> que est\u00e3o atuando como aceleradores de fluxos populacionais globais\u201d.<sup data-fn=\"93f100b2-2137-4747-8931-73584fac27b7\" class=\"fn\"><a href=\"#93f100b2-2137-4747-8931-73584fac27b7\" id=\"93f100b2-2137-4747-8931-73584fac27b7-link\">9<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentre os fatores que cita para entender as ondas migrat\u00f3rias, reiterando o \u201cparadigma\u201d ao qual faz refer\u00eancia na introdu\u00e7\u00e3o, Ghosh d\u00e1 destaque para o \u201cimagin\u00e1rio universal\u201d que atua sobre os imigrantes e que os alcan\u00e7a por meio de dois pontos: a presen\u00e7a da tecnologia, com <em>smartphones<\/em>, e a sombra do passado, com os antecedentes familiares sempre falando mais alto do que a realidade material. O primeiro ponto evidencia no <em>smartphone<\/em> o ve\u00edculo para percep\u00e7\u00f5es \u201cunificadas\u201d de lucro e sucesso que cruzam todas barreiras culturais. J\u00e1 o segundo ponto evidencia o \u201cmotor de emula\u00e7\u00e3o\u201d que d\u00e1 corda aos desejos da migra\u00e7\u00e3o: trata-se de uma busca de motiva\u00e7\u00f5es no passado, em casos de outras gera\u00e7\u00f5es (primos, pais, av\u00f3s que migraram), para ignorar as limita\u00e7\u00f5es do presente. Enfim, trata-se de um artigo de vis\u00e3o bastante ampla (e atual<sup data-fn=\"a6b97841-65eb-4a2b-87d2-02de93508c2f\" class=\"fn\"><a href=\"#a6b97841-65eb-4a2b-87d2-02de93508c2f\" id=\"a6b97841-65eb-4a2b-87d2-02de93508c2f-link\">10<\/a><\/sup>) que se prop\u00f5e a analisar sua problem\u00e1tica sem ignorar o imagin\u00e1rio que a fundamenta \u2013 e realiza isso numa esp\u00e9cie de atualiza\u00e7\u00e3o e retomada de experi\u00eancias talvez familiares (e at\u00e9 estimadas) na fic\u00e7\u00e3o. Pensemos, por exemplo, no drama do sonho americano na novela <em>Am\u00e9rica<\/em> (2005), de Gl\u00f3ria Perez, ou, ent\u00e3o, da trajet\u00f3ria sempre enviesada pelos sonhos parisienses de Eug\u00e8ne de Rastignac, na obra de Balzac.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/ghosh-683x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1799\" style=\"aspect-ratio:0.6669947057482097;width:508px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/ghosh-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/ghosh-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/ghosh-768x1152.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/ghosh.jpg 860w\" sizes=\"auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Capa do livro de Amitav Ghosh<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda se\u00e7\u00e3o da antologia de Ghosh \u00e9 intitulada \u201cTestemunho\u201d (\u201c<em>Witnesses<\/em>\u201d). Nela, organizam-se pesquisas do autor a respeito de um de seus temas ditos prediletos: recorda\u00e7\u00f5es de punho sobre a Primeira Guerra Mundial. Pautando-se sempre pela sua terra natal, Ghosh trabalha com um escasso material que expressa a participa\u00e7\u00e3o indiana na Grande Guerra \u2013 que, assim como a de outras col\u00f4nias do per\u00edodo, por vezes \u00e9 esquecida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele se alinha pelo relato duas figuras: Sisir Sarbadhikari, membro da Unidade de Ambul\u00e2ncia Bengal\u00eas (<em>Bengal Ambulance Corps<\/em>) que, mesmo prisioneiro, manteve um di\u00e1rio extenso, e o Capit\u00e3o Kalyan Mukherji, m\u00e9dico do Servi\u00e7o M\u00e9dico Indiano (Indian Medical Service), que, apesar de ter falecido como prisioneiro de guerra, manteve um di\u00e1rio que, postumamente, foi retomado e publicado pela sua av\u00f3, Mokshada Devi.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em ambos os casos, vemos relatos agridoces e muito tocantes que, de um jeito estranho, revelam certos detalhes que instigam uma sensibilidade moderna. Exemplo disso \u00e9 o drama de Sarbadhikari no seu <em>Abhi Le Baghdad<\/em> (\u201c<em>O caminho at\u00e9 Bagd\u00e1<\/em>\u201d). Ap\u00f3s seu regimento ter sido feito prisioneiro pelas tropas Turcas no fim do Cerco de Kut (1915-1916), ele relata:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cNossos nomes foram chamados um por um e n\u00f3s fomos revistados. Que sorte eles n\u00e3o terem tirado minhas botas! De outra forma, eu n\u00e3o sei se esta hist\u00f3ria teria sido escrita. Meu di\u00e1rio estava escondido nas minhas botas.\u201d<sup data-fn=\"de54eaa6-cfbc-4041-8a94-f319a9e491f4\" class=\"fn\"><a href=\"#de54eaa6-cfbc-4041-8a94-f319a9e491f4\" id=\"de54eaa6-cfbc-4041-8a94-f319a9e491f4-link\">11<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vejam s\u00f3: feito prisioneiro, disposto num destino incerto e prestes a cruzar uma caminhada quase infinda \u2013 e com recursos extremamente escassos \u2013 at\u00e9 Bagd\u00e1, a grande preocupa\u00e7\u00e3o de Sarbadhikari \u00e9 o punhado de papel comprimido nas suas botas&#8230; Uma vida inteira contida num papel escondido nas botas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa segunda se\u00e7\u00e3o, evidencia-se tamb\u00e9m um dos tra\u00e7os particulares de <em>Wild Fictions<\/em>: o profundo gosto pelas descobertas e partilhas intelectuais. Ghosh \u2013 num trabalho de resumo muito parelho, talvez, ao dos disc\u00edpulos de Arist\u00f3teles ou dos comentadores de pe\u00e7as perdidas de Eur\u00edpedes \u2013 tra\u00e7a uma esp\u00e9cie de narrativa simplificada dos relatos de Sarbadhikari e Mukherji, como que buscando apresentar para a l\u00edngua inglesa um tipo de mat\u00e9ria que, de outra forma, certamente n\u00e3o seria encontrada e muito menos transmitida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na terceira se\u00e7\u00e3o, \u201cViagem e Descoberta\u201d (\u201c<em>Travel And Discovery<\/em>\u201d), temos tr\u00eas ensaios a respeito de viagens de Ghosh em tr\u00eas per\u00edodos diferentes de sua vida: um dedicado aos seus anos de forma\u00e7\u00e3o em Antropologia, quando fez trabalho de campo numa regi\u00e3o do Egito; outro, a uma viagem \u00e0 China em companhia de seu filho mais velho; e um \u00faltimo consagrado \u00e0s Ilhas Molucas \u2013 tamb\u00e9m conhecidas como \u201cIlhas das Especiarias\u201d \u2013,&nbsp; em que Ghosh trata da interven\u00e7\u00e3o da crise clim\u00e1tica no que antes foi o motor econ\u00f4mico do arquip\u00e9lago, a noz-moscada e o cravo-da-\u00edndia. Desses tr\u00eas, preciso admitir que o primeiro, intitulado \u201cConfiss\u00f5es de um Xen\u00f3filo\u201d (\u201c<em>Confessions of a Xenophile<\/em>\u201d), \u00e9 particularmente tocante. Escrito e apresentado em 2008, durante uma confer\u00eancia no Cairo para escritores \u00e1rabes, Ghosh come\u00e7a da seguinte forma:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cDepois do meu pa\u00eds, a \u00cdndia, n\u00e3o h\u00e1 outro lugar no mundo que tenha sido mais importante para a minha forma\u00e7\u00e3o de escritor do que o Egito. Hoje, faz cerca de 28 anos desde que eu cheguei ao Cairo em 19 de abril, 1980 [&#8230;]. O pretexto imediato para minha jornada era a pesquisa: um pouco antes, eu havia ganho uma bolsa de estudos que me levou da Delhi University para Oxford para estudar antropologia social. Meu sonho era escrever fic\u00e7\u00e3o, mas, feito muitos aspirantes a romancistas, sentia que me faltava a riqueza necess\u00e1ria da experi\u00eancia. Os escritores que eu admirava &#8211; V.S. Naipul, James Baldwin e outros &#8211; tinham ido ao mundo e o visto girar: eu n\u00e3o queria mais do que isso para mim.\u201d<sup data-fn=\"e2f8137b-77c2-4373-ad8f-9c3a5849513a\" class=\"fn\"><a href=\"#e2f8137b-77c2-4373-ad8f-9c3a5849513a\" id=\"e2f8137b-77c2-4373-ad8f-9c3a5849513a-link\">12<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com esse tom talvez sentimental \u2013 remontando suas aspira\u00e7\u00f5es e o in\u00edcio de sua forma\u00e7\u00e3o como escritor \u2013, Ghosh apresenta sua estada numa pequena vila do Cairo para articular n\u00e3o apenas suas pr\u00f3prias lembran\u00e7as, mas tamb\u00e9m as profundas liga\u00e7\u00f5es entre os materiais est\u00e9ticos no funcionamento da vida. Isto, pois uma parte essencial de seu relato \u00e9 a dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o que teve no in\u00edcio com seus anfitri\u00f5es, coisa que se resolveu do jeito mais pitoresco imagin\u00e1vel: quando os escassos conhecimentos da l\u00edngua \u00e1rabe falharam, \u201ceu descobri um meio de comunica\u00e7\u00e3o em que n\u00f3s fic\u00e1vamos em termos parelhos: era a l\u00edngua do <em>aflaam al-Hindeyya<\/em> \u2013 isto \u00e9, can\u00e7\u00f5es de filmes Hindi.<sup data-fn=\"a49ad612-90aa-4ae6-9be1-4c51c806cc83\" class=\"fn\"><a href=\"#a49ad612-90aa-4ae6-9be1-4c51c806cc83\" id=\"a49ad612-90aa-4ae6-9be1-4c51c806cc83-link\">13<\/a><\/sup> Assim, por interm\u00e9dio de representa\u00e7\u00f5es, melodias, letras e dan\u00e7as de filmes indianos dos anos 1950 e 1960 que chegavam ao Egito, a comunica\u00e7\u00e3o se desenrolava entre esses habitantes de mundos t\u00e3o distantes \u2013 mas talvez nem t\u00e3o distintos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, aqui, a poss\u00edvel recoloca\u00e7\u00e3o de um sentimento quase ing\u00eanuo de contato entre povos. Por\u00e9m, n\u00e3o creio que seja essa a inten\u00e7\u00e3o de Ghosh. As lembran\u00e7as de seu tempo no Cairo logo despontam numa reflex\u00e3o sobre o motivo pelo qual esse tipo de di\u00e1logo entre o Egito e a \u00cdndia, entre a \u00c1sia e o Oriente M\u00e9dio, tornou-se t\u00e3o reduzido, t\u00e3o limitado a despeito de suas conex\u00f5es pr\u00e9-coloniais. A partir disto, ele evoca uma no\u00e7\u00e3o de cosmopolitismo que pr\u00e9-data os habituais cruzamentos estipulados na modernidade \u2013 t\u00e3o alicer\u00e7ados no imperialismo europeu como seu \u00fanico grande intermedi\u00e1rio&#8230; Se eu pudesse, traduziria este ensaio na \u00edntegra. Continuando&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As \u00faltimas tr\u00eas se\u00e7\u00f5es de <em>Wild Fictions<\/em>, \u201cNarrativas\u201d (\u201c<em>Narratives<\/em>\u201d), \u201cConversas\u201d (\u201c<em>Conversations<\/em>\u201d) e \u201cConfer\u00eancias\u201d (\u201c<em>Presentations<\/em>\u201d) apanham uma diversidade de textos extensa demais para uma descri\u00e7\u00e3o mais detalhada. Trata-se de resenhas de livros, transcri\u00e7\u00f5es e notas de confer\u00eancias que Ghosh apresentou em universidades, documenta\u00e7\u00f5es de pesquisas que o autor realizou para a escrita de seus romances, posts de blogs etc. Considerando injusto ter que escolher um texto espec\u00edfico para comentar, queria apenas pontuar algo sobre \u201cProvincializando a Europa: Uma Correspond\u00eancia\u201d (\u201c<em>Provincializing Europe: A Correspondence<\/em>\u201d), da quinta se\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como o t\u00edtulo j\u00e1 indica, trata-se de uma correspond\u00eancia realizada entre Ghosh e Dipesh Chakrabarty, autor do livro chamado <em>Provincializing Europe: Postcolonial Thought and Historical Difference<\/em> (2007), que serviu de mote para a troca entre os dois. Em mat\u00e9ria, digamos, intelectual, \u00e9 um texto muito rico: lemos um debate amig\u00e1vel, mas caloroso, sobre p\u00f3s-colonialismo na \u00cdndia, feito entre dois escritores acurados que expressam seu interesse pelas pontua\u00e7\u00f5es um do outro (seja pela concord\u00e2ncia, seja pela discord\u00e2ncia). &nbsp;Agora, o que, de fato, mais me saltou aos olhos nessa leitura foi a transcri\u00e7\u00e3o da materialidade em que o texto nasceu: \u00e9, de fato, uma troca genu\u00edna de e-mails. Ao in\u00edcio e fim de cada entrada, aparecem as costumeiras conven\u00e7\u00f5es (\u201cprezado\u201d, \u201ccaro\u201d; \u201ccom estima\u201d, \u201cseu\u201d etc.), al\u00e9m de coment\u00e1rios curiosos, como este que faz Chakrabarty, ao justificar a demora para responder: \u201cInfelizmente, n\u00e3o consigo imprimir mensagens com o computador que estou utilizando no momento na Austr\u00e1lia\u201d<sup data-fn=\"e1a68183-decf-48a6-b1df-0ce7096f6df3\" class=\"fn\"><a href=\"#e1a68183-decf-48a6-b1df-0ce7096f6df3\" id=\"e1a68183-decf-48a6-b1df-0ce7096f6df3-link\">14<\/a><\/sup> \u2013 coisa que, para minha sensibilidade moderna, aparece quase como um \u201ctra\u00e7o de fic\u00e7\u00e3o\u201d (um pouco semelhante ao uso outrora corrente dos telefones de orelh\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Retomando a no\u00e7\u00e3o disruptiva da introdu\u00e7\u00e3o de <em>Wild Fictions<\/em>, \u00e9 preciso notar o quanto a passagem do tempo se faz valer durante a leitura dessas seis se\u00e7\u00f5es e seus cap\u00edtulos. Certamente, trata-se de um efeito secund\u00e1rio do pulo entre textos, mas isso n\u00e3o implica numa falta de contribui\u00e7\u00e3o para a antologia: assim como <em>The Great Derangement<\/em>, a impress\u00e3o mais marcante dos ensaios de Ghosh \u00e9 a de que, <em>mesmo<\/em> <em>como leitores<\/em>, aderimos sempre a um movimento cont\u00ednuo e incessante que cobre as mais diversas dimens\u00f5es do <em>mundo<\/em> \u2013 seja pelo tempo, seja pelo espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finalizando, acho interessante compartilhar uma d\u00favida que me acompanhou pela experi\u00eancia da antologia: qual \u00e9 o sentido de seu t\u00edtulo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por fim, por que \u201cWild Fictions\u201d?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entrei nessa colet\u00e2nea me perguntando o que diabos \u201c<em>Wild Fictions<\/em>\u201d poderia significar. Me parecia um nome evocativo e um tanto caprichoso \u2013 o que certamente contribuiu para minha primeira e err\u00f4nea impress\u00e3o de que se tratava de um livro de contos. Para minha surpresa, uma resposta se revelou na leitura de um dos ensaios compilados na se\u00e7\u00e3o de \u201cNarrativas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado em 2008 no website Outlook \u2013 portal de informa\u00e7\u00f5es de publica\u00e7\u00e3o em hindi e ingl\u00eas \u2013, \u201cFic\u00e7\u00f5es Selvagens\u201d (\u201c<em>Wild Fictions<\/em>\u201d) \u00e9 um ensaio que, n\u00e3o sem raz\u00e3o, foi escolhido como t\u00edtulo da colet\u00e2nea. Ele come\u00e7a com a seguinte premissa: \u201cSe hist\u00f3rias t\u00eam um papel vital \u2013 como eu acredito que tenham \u2013 em nosso entendimento sobre o mundo, ent\u00e3o uma quest\u00e3o de extrema import\u00e2ncia \u00e9: quais s\u00e3o as narrativas que animam a contenda sobre a natureza que, hoje, est\u00e1 sendo conduzida ao redor do planeta?\u201d.<sup data-fn=\"d09e2aac-db8f-46d3-b18e-41b38f9b79c4\" class=\"fn\"><a href=\"#d09e2aac-db8f-46d3-b18e-41b38f9b79c4\" id=\"d09e2aac-db8f-46d3-b18e-41b38f9b79c4-link\">15<\/a><\/sup> A partir disto, o autor tenciona tra\u00e7ar conex\u00f5es \u00edntimas dos efeitos da fic\u00e7\u00e3o, aliados aos procedimentos da ci\u00eancia, com o atual imagin\u00e1rio ocidental sobre a natureza, evidenciando como essa rela\u00e7\u00e3o informa, historicamente, grande parte de nossas medidas pr\u00e1ticas de rela\u00e7\u00e3o com o meio-ambiente \u2013 inclusive aquelas que se pautam numa \u201cconsci\u00eancia ecol\u00f3gica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para tanto, do lado da fic\u00e7\u00e3o, ele apresenta um conto escrito por Jacques-Henri Bernardin de Saint-Pierre publicado em 1791. Chama-se \u201cThe Indian Hut\u201d (\u201cA Choupana Indiana\u201d) \u2013 e seu autor jamais pisou na \u00cdndia. Nele, um erudito ingl\u00eas viaja para a \u00cdndia em busca de respostas para quest\u00f5es sobre o mundo consideradas como vitais por ele. L\u00e1, ele entra em contato com s\u00e1bios de todo o Oriente, mas sequer chega a uma \u00fanica resolu\u00e7\u00e3o \u2013 nem mesmo quando fala com o mais qualificado p\u00e2ndita da \u00cdndia. Desiludido deste \u00faltimo encontro, ele pretende desistir, mas, numa de suas trilhas de volta para onde estava hospedado, \u00e9 pego por um ciclone que o for\u00e7a a se refugiar numa floresta. Nela, ele encontra uma r\u00fastica choupana onde vivem um homem recluso e sua esposa que, prontamente, o acolhem. Conversando com seus anfitri\u00f5es, o erudito encontra suas respostas \u2013 todas informadas por uma natureza que, na sua pureza e simplicidade, distingue-se do mundo dos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do lado da ci\u00eancia, Ghosh relata uma ocasi\u00e3o hist\u00f3rica sobre o rio Hooghly, que liga Calcut\u00e1 ao Golfo de Bengala. Em 1852, Hooghly apresentou uma leva de mar\u00e9s altas que, ap\u00f3s sua descida, trouxe para suas margens uma pluralidade de vida marinha. Sabendo disto, o naturalista ingl\u00eas Edward Blyth correu para investigar esp\u00e9cimes presentes numa dessas margens. No entanto, ele se deparou com gestos de colabora\u00e7\u00e3o da comunidade local que se alinhavam n\u00e3o com seus des\u00edgnios cient\u00edficos, mas, sim, com uma sensibilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida do rio. Assim, em quest\u00e3o de dois dias, grande parte da vida marinha foi devolvida \u00e0 sua origem, enquanto que Blyth ficou inadvertidamente sem objeto para suas investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num primeiro olhar, esses dois casos podem parecer um tanto dissemelhantes \u2013 concordando apenas no que diz respeito ao fato de seus autores (europeus) interagirem com um mundo \u201c\u00e0 margem\u201d do seu. No entanto, Ghosh pontua que, \u201cenquanto Saint-Pierre imagina a natureza como um templo e espa\u00e7o sagrados, para Blyth, ela \u00e9 um \u2018campo\u2019 em todos poss\u00edveis sentidos do termo\u201d<sup data-fn=\"6184e097-ba59-42dd-8b75-94f374a8afe4\" class=\"fn\"><a href=\"#6184e097-ba59-42dd-8b75-94f374a8afe4\" id=\"6184e097-ba59-42dd-8b75-94f374a8afe4-link\">16<\/a><\/sup> \u2013 em especial, no cient\u00edfico (um campo de estudo). Portanto, sua conex\u00e3o \u00e9 de que \u201cem ambos, a [no\u00e7\u00e3o de] natureza \u00e9 incontaminada pelas pessoas: trata-se de um dom\u00ednio definido pela exclus\u00e3o de seres humanos. Deste modo, a natureza vem a ser imaginada como um \u00c9den perfeito demais para a progenitura infeliz de Ad\u00e3o e Eva.\u201d<sup data-fn=\"30fe5d3a-2e1f-4640-8bf2-bb332b4503fb\" class=\"fn\"><a href=\"#30fe5d3a-2e1f-4640-8bf2-bb332b4503fb\" id=\"30fe5d3a-2e1f-4640-8bf2-bb332b4503fb-link\">17<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seria esse, portanto, o imagin\u00e1rio da natureza que, segundo o autor, prevalece at\u00e9 os dias de hoje: um em que a presen\u00e7a humana \u00e9 contr\u00e1ria e \u201cestranha\u201d \u00e0 natureza \u2013 que, por sua vez, \u00e9 vista como um terreno de corte delimitado. Mas o que exatamente produz uma concep\u00e7\u00e3o como esta? E o que dizer a respeito de sua express\u00e3o concreta? \u00c9 aqui que as \u201cWild Fictions\u201d, enfim, aparecem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Buscando responder essas perguntas, Ghosh toma como objeto nossa rela\u00e7\u00e3o com a entidade \u201cfloresta\u201d e as pol\u00edticas de estado que historicamente basearam a a\u00e7\u00e3o do ser humano sobre ela. O que ele evidencia, considerando lugares como parques e reservas, \u00e9 a presen\u00e7a constante de uma consci\u00eancia, a princ\u00edpio, \u201cecol\u00f3gica\u201d que, por vezes, ao promover gestos como o deslocamento e readequa\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es locais (sobretudo ind\u00edgenas), mira n\u00e3o na preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente, mas, sim, na pura continuidade viciosa desse desarranjo entre ser humano e natureza. Ou seja, trata-se do tipo de empreendimento essencialmente colonial que, no passado, muito caracterizou \u201cpol\u00edticas de interesse\u201d como a do <a href=\"https:\/\/storymaps.arcgis.com\/stories\/b6e1888203a74dcfb5ef918355c3307e\">\u201cIndian Removal Act\u201d nos EUA<\/a>; e, que, hoje, geralmente, \u00e9 associado ao capitalismo verde e seu <em>modus operandi<\/em>, que busca esvaziar um determinado espa\u00e7o pela motiva\u00e7\u00e3o de estar \u201cpreservando um sistema natural\u201d \u2013 e, assim, torn\u00e1-lo rent\u00e1vel. Na concretiza\u00e7\u00e3o deste cen\u00e1rio, Ghosh comenta que<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cQuando turistas urbanos visitam reservas ou parques nacionais, eles apresentam uma vaga concep\u00e7\u00e3o de que sua experi\u00eancia de paragens silvestres \u00e9 parelha \u00e0quela dos espectadores de uma pe\u00e7a de teatro: raramente, se \u00e9 que em alguma ocasi\u00e3o, eles recebem um vislumbre do que, de fato, os proporciona essa experi\u00eancia \u2013 isto \u00e9, o aparato administrativo de expuls\u00e3o, restri\u00e7\u00e3o, e assim por diante, que faz com que essas paragens silvestres se conformem \u00e0 no\u00e7\u00e3o de \u201cimaculado\u201d do turista. Neste sentido, os dois s\u00e3o parceiros na produ\u00e7\u00e3o de uma fic\u00e7\u00e3o silvestre: \u00e9 a sua volunt\u00e1ria suspens\u00e3o de descren\u00e7a que torna poss\u00edvel algo como exclusividade de florestas.\u201d<sup data-fn=\"28e8572f-740a-419a-8b6e-3551a807f9d2\" class=\"fn\"><a href=\"#28e8572f-740a-419a-8b6e-3551a807f9d2\" id=\"28e8572f-740a-419a-8b6e-3551a807f9d2-link\">18<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para embasar seu argumento, Ghosh comenta casos da pr\u00f3pria \u00cdndia, mas tamb\u00e9m do Oriente M\u00e9dio, que expressaram esses mesmos procedimentos (limitantes) na constru\u00e7\u00e3o de reservas e parques \u2013 e falharam em seus des\u00edgnios \u00e0s custas da biodiversidade que procuravam preservar. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio se ater a exemplos t\u00e3o distantes da realidade brasileira para compreender o ponto de Ghosh. A influ\u00eancia desse tipo de imagin\u00e1rio alcan\u00e7a todos os cantos do mundo. \u00c9 o caso recente do povo Av\u00e1-Guarani, no Paran\u00e1. Depois de um processo de desapropria\u00e7\u00e3o legal do territ\u00f3rio do Parque Nacional do Igua\u00e7u, os ind\u00edgenas tiveram seu <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/01\/08\/indigenas-sao-proibidos-por-justica-de-ocupar-parque-nacional-do-iguacu-e-denunciam-criminalizacao-antecipada\/\">acesso ao parque efetivamente negado pela Justi\u00e7a Federal<\/a> com base em \u201camea\u00e7as de invas\u00f5es\u201d \u2013 que, supostamente, acarretariam em \u201cposs\u00edveis danos ambientais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Respondendo, por fim, \u00e0 pergunta que fiz ao in\u00edcio desta se\u00e7\u00e3o: \u201cfic\u00e7\u00f5es selvagens\u201d (wild fictions) \u00e9 um termo de conjun\u00e7\u00e3o entre as infelizes limita\u00e7\u00f5es de nosso imagin\u00e1rio e os objetos daquilo que denominamos \u201cnatureza\u201d, seja ela essa demarca\u00e7\u00e3o em redoma que expulsa a presen\u00e7a humana, seja ela algo diferente \u2013 talvez a ser relembrado, talvez a ser imaginado. Deixo, como conclus\u00e3o, as palavras de anseio de Ghosh que encerram o ensaio \u201cFic\u00e7\u00f5es Selvagens\u201d. Acredito que elas simbolizam singelamente um tra\u00e7o essencial de sua obra: &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO relacionamento entre as pessoas e seus arredores constitui um espectro de experi\u00eancias t\u00e3o vasto quanto a mente humana \u00e9 capaz de o conceber \u2013 ele cobre desde o conhecimento de um pescador sobre as correntezas de um rio at\u00e9 as medita\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Francisco de Assis, desde o deslumbramento de uma crian\u00e7a com a vis\u00e3o de uma borboleta at\u00e9 a indigna\u00e7\u00e3o popular diante de um vazamento de petr\u00f3leo. A pr\u00f3pria vastid\u00e3o deste espectro nos aponta a raz\u00e3o pela qual os relacionamentos humanos com a natureza s\u00e3o t\u00e3o profundamente formados pelas suas imagina\u00e7\u00f5es ficcionais, seja por hist\u00f3rias de um autor como Bernardin de Saint-Pierre, [&#8230;] seja por romances como o incompar\u00e1vel <em>Moby Dick<\/em>, de Herman Melville. \u00c9 de minha cren\u00e7a que apenas a fic\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de fornecer uma tela grande o suficiente para abordar esse relacionamento em todas suas dimens\u00f5es [&#8230;]. Conclui-se, ent\u00e3o, que, se a natureza deve ser reimaginada de maneira a restaurar a presen\u00e7a humana que abriga em si \u2013 n\u00e3o como uma presen\u00e7a predat\u00f3ria, mas colaborativa \u2013, ent\u00e3o, \u00e9 preciso que, em primeiro lugar, isto seja contado como uma hist\u00f3ria.\u201d<sup data-fn=\"e867df77-0a44-442b-9f01-04dd121a6063\" class=\"fn\"><a href=\"#e867df77-0a44-442b-9f01-04dd121a6063\" id=\"e867df77-0a44-442b-9f01-04dd121a6063-link\">19<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"bef97e70-0368-41b6-8c5f-aeb7241b5191\">Estudante de Gradua\u00e7\u00e3o de Licenciatura em Letras \u2013 Franc\u00eas e Portugu\u00eas (L\u00ednguas e Literaturas) \u2013 na UFRGS. Atualmente, \u00e9 bolsista de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, sob orienta\u00e7\u00e3o do Prof. Antonio Barros, e membro da equipe do Carbono. <a href=\"#bef97e70-0368-41b6-8c5f-aeb7241b5191-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"1d1e0dbc-2dcb-4baf-a109-90d003f81c8f\">Amitav Ghosh. <em>The Great Derangement:<\/em> Climate Change and the Unthinkable. Gurgaon: Penguin Books India, 2016. <a href=\"#1d1e0dbc-2dcb-4baf-a109-90d003f81c8f-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"f6d33547-ed3e-4bd4-9e0e-48023f65a020\">Amitav Ghosh, <em>The Great Derangement<\/em>, <em>op. cit.<\/em>, p. 9. No original: \u201cWhen the subject of climate change appears in these publications, it is almost always in relation to non-fiction; novels and short stories are very rarely to be glimpsed within this horizon\u201d (tradu\u00e7\u00e3o minha, assim como todas as seguintes). <a href=\"#f6d33547-ed3e-4bd4-9e0e-48023f65a020-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"bd3f6c97-42e4-472c-9d25-98ed9fcc6813\"><em>Idem<\/em>, p. 9-10. No original: \u201cas though in the literary imagination climate change were somehow akin to extraterrestrials or interplanetary travel.\u201d <a href=\"#bd3f6c97-42e4-472c-9d25-98ed9fcc6813-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 4 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"0a79174e-a05f-4ef2-a1bb-1d1137f1f70d\"><em>Idem<\/em>, p. 171. <a href=\"#0a79174e-a05f-4ef2-a1bb-1d1137f1f70d-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 5 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"0253459d-8d85-4f28-bc5c-b25729920132\"><em>Idem<\/em>, p. 14-15. <a href=\"#0253459d-8d85-4f28-bc5c-b25729920132-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 6 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"2bf1b6cc-05ff-4664-a1d9-a38ccb52900b\">Amitav Ghosh. <em>Wild Fictions<\/em>: Essays on Literature, Empire, and the Environment. Chicago: University of Chicago Press, 2025, s.\/p. No original: \u201cbearing witness to a rupture in time, of chronicling the passing of an era that began 300 years ago, in the eighteenth century.\u201d <a href=\"#2bf1b6cc-05ff-4664-a1d9-a38ccb52900b-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 7 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"0e7b0541-3197-4515-9b98-3548887c6b28\"><em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cit is no longer possible to cling to the fiction of there being a strict division between the natural and the political: wildfires, rain bombs and the like are also deeply political creatures in that they are the byproducts of historical processes that have hugely benefited a small minority of human beings at the expense of the great majority of the world\u2019s population.\u201d <a href=\"#0e7b0541-3197-4515-9b98-3548887c6b28-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 8 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"93f100b2-2137-4747-8931-73584fac27b7\"><em>Idem<\/em>, s.\/p., destaque meu. No original: \u201cIn other words, to think of climate change as the principal cause of contemporary migration is to ignore a great variety of historical, social and technological factors that are acting as accelerants of global population flows.\u201d <a href=\"#93f100b2-2137-4747-8931-73584fac27b7-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 9 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"a6b97841-65eb-4a2b-87d2-02de93508c2f\">Recentemente, foi publicado no jornal <em>The<\/em> <em>Guardian<\/em>, na se\u00e7\u00e3o de \u201c<em>Long Reads<\/em>\u201d (\u201cLeituras Longas\u201d), <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/education\/ng-interactive\/2026\/apr\/07\/brutal-reality-of-life-as-a-foreign-student-in-the-uk\">um texto<\/a> que trata sobre as condi\u00e7\u00f5es atuais da migra\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria para o Reino Unido: como um eco do que Ghosh trata aqui, s\u00e3o destacadas as dimens\u00f5es tanto de imagin\u00e1rio, que fomentam o sonho de \u201cestudar fora\u201d, quanto de aliciamento tecnol\u00f3gico, com plataformas digitais de direcionamento de estudantes se especializando em visar \u201caqueles mais rent\u00e1veis\u201d \u2013 isto \u00e9, mais propensos a d\u00edvidas. <a href=\"#a6b97841-65eb-4a2b-87d2-02de93508c2f-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 10 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"de54eaa6-cfbc-4041-8a94-f319a9e491f4\">Amitav Ghosh. <em>Wild Fictions<\/em>, op. cit., s.\/p. No original: \u201cOur names were called out one by one and we were searched. What luck that they didn\u2019t make me take off my boots! Otherwise I don\u2019t know if this story would have been written. My diary was hidden in my boots.\u201d <a href=\"#de54eaa6-cfbc-4041-8a94-f319a9e491f4-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 11 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e2f8137b-77c2-4373-ad8f-9c3a5849513a\"><em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cNext to my own country, India, there is no place in the world that has been more important to my development as a writer than Egypt. It is now nearly twenty-eight years since I first landed in Cairo on 19 April 1980: The immediate pretext for my journey was research: a short while earlier, I had won a scholarship that took me from Delhi University to Oxford to study social anthropology. My dream was of writing fiction, but like many an aspiring novelist, I felt I lacked the necessary richness of experience. The writers I admired \u2013 V.S. Naipaul, James Baldwin and others \u2013 had gone out into the world and watched it go by: I wanted no less for myself.\u201d <a href=\"#e2f8137b-77c2-4373-ad8f-9c3a5849513a-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 12 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"a49ad612-90aa-4ae6-9be1-4c51c806cc83\"><em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cI discovered one medium of communication where we were on equal terms: this was the language of <em>aflaam al-Hindeyya \u2013<\/em> that is to say, Hindi film songs.\u201d <a href=\"#a49ad612-90aa-4ae6-9be1-4c51c806cc83-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 13 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e1a68183-decf-48a6-b1df-0ce7096f6df3\"><em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cUnfortunately, I cannot print out messages from the computer I am currently using in Australia.\u201d <a href=\"#e1a68183-decf-48a6-b1df-0ce7096f6df3-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 14 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"d09e2aac-db8f-46d3-b18e-41b38f9b79c4\"><em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cIf stories play a vital role\u2014as I believe they do\u2014in our understanding of the world, then a question of pressing importance is: What are the tales that animate the struggle over nature that is now being waged all around the planet?\u201d <a href=\"#d09e2aac-db8f-46d3-b18e-41b38f9b79c4-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 15 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"6184e097-ba59-42dd-8b75-94f374a8afe4\"><em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cWhere Saint-Pierre imagines nature as a sacred space and a temple, for Blyth it is a \u2018field\u2019 in all the varied senses of the term.\u201d <a href=\"#6184e097-ba59-42dd-8b75-94f374a8afe4-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 16 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"30fe5d3a-2e1f-4640-8bf2-bb332b4503fb\"><em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cIn both nature is uncontaminated by people: it is a domain defined by the exclusion of human beings. Thus did nature come to be imagined as an Eden too perfect for the fallen progeny of Adam and Eve.\u201d <a href=\"#30fe5d3a-2e1f-4640-8bf2-bb332b4503fb-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 17 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"28e8572f-740a-419a-8b6e-3551a807f9d2\"><em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cWhen urban tourists visit national parks or sanctuaries, they have little conception that their experience of the wilderness is akin to that of spectators at a play: rarely, if ever, are they given a glimpse of the stage machinery that provides them with their experience\u2014that is to say the administrative apparatus of eviction, restriction and so on that make these wildernesses conform to the tourist\u2019s notion of the \u2018pristine\u2019. They are in this sense partners in the production of a wild fiction: it is their willing suspension of disbelief that makes the exclusivity of forests possible.\u201d <a href=\"#28e8572f-740a-419a-8b6e-3551a807f9d2-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 18 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e867df77-0a44-442b-9f01-04dd121a6063\"><em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cThe relationship between people and their surroundings constitutes as vast a spectrum of experience as the human mind is capable of conceiving \u2014it ranges from a fisherman\u2019s knowledge of a river\u2019s rapids to Saint Francis of Assisi\u2019s meditations, from a child\u2019s wonder at the sight of a butterfly to public outrage at an oil spill. The very vastness of this spectrum points us to the reason why the human relationship with nature is so profoundly formed by fictional imaginings of it, whether they be the stories of a writer like Bernardin de Saint-Pierre [\u2026] or novels like Herman Melville\u2019s incomparable <em>Moby Dick<\/em>. It is my belief that only fiction can provide a canvas broad enough to address this relationship in all its dimensions [\u2026]. It follows then that if nature is to be reimagined in such a way as to restore the human presence within it, and not as predator but partner, then this too must first be told as a story.\u201d <a href=\"#e867df77-0a44-442b-9f01-04dd121a6063-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 19 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 22 \u2013 setembro de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na antologia \u201cWild Fictions\u201d, Amitav Ghosh re\u00fane ensaios de toda sua carreira, tratando de temas como o pensamento ecol\u00f3gico, a forma como a fic\u00e7\u00e3o informa a pol\u00edtica, os ind\u00edcios da poss\u00edvel crise de representa\u00e7\u00e3o, entre outros<\/p>\n","protected":false},"author":43,"featured_media":1801,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Estudante de Gradua\u00e7\u00e3o de Licenciatura em Letras \u2013 Franc\u00eas e Portugu\u00eas (L\u00ednguas e Literaturas) \u2013 na UFRGS. Atualmente, \u00e9 bolsista de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, sob orienta\u00e7\u00e3o do Prof. Antonio Barros, e membro da equipe do Carbono.\",\"id\":\"bef97e70-0368-41b6-8c5f-aeb7241b5191\"},{\"content\":\"Amitav Ghosh. <em>The Great Derangement:<\/em> Climate Change and the Unthinkable. Gurgaon: Penguin Books India, 2016.\",\"id\":\"1d1e0dbc-2dcb-4baf-a109-90d003f81c8f\"},{\"content\":\"Amitav Ghosh, <em>The Great Derangement<\/em>, <em>op. cit.<\/em>, p. 9. No original: \u201cWhen the subject of climate change appears in these publications, it is almost always in relation to non-fiction; novels and short stories are very rarely to be glimpsed within this horizon\u201d (tradu\u00e7\u00e3o minha, assim como todas as seguintes).\",\"id\":\"f6d33547-ed3e-4bd4-9e0e-48023f65a020\"},{\"content\":\"<em>Idem<\/em>, p. 9-10. No original: \u201cas though in the literary imagination climate change were somehow akin to extraterrestrials or interplanetary travel.\u201d\",\"id\":\"bd3f6c97-42e4-472c-9d25-98ed9fcc6813\"},{\"content\":\"<em>Idem<\/em>, p. 171.\",\"id\":\"0a79174e-a05f-4ef2-a1bb-1d1137f1f70d\"},{\"content\":\"<em>Idem<\/em>, p. 14-15.\",\"id\":\"0253459d-8d85-4f28-bc5c-b25729920132\"},{\"content\":\"Amitav Ghosh. <em>Wild Fictions<\/em>: Essays on Literature, Empire, and the Environment. Chicago: University of Chicago Press, 2025, s.\/p. No original: \u201cbearing witness to a rupture in time, of chronicling the passing of an era that began 300 years ago, in the eighteenth century.\u201d\",\"id\":\"2bf1b6cc-05ff-4664-a1d9-a38ccb52900b\"},{\"content\":\"<em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cit is no longer possible to cling to the fiction of there being a strict division between the natural and the political: wildfires, rain bombs and the like are also deeply political creatures in that they are the byproducts of historical processes that have hugely benefited a small minority of human beings at the expense of the great majority of the world\u2019s population.\u201d\",\"id\":\"0e7b0541-3197-4515-9b98-3548887c6b28\"},{\"content\":\"<em>Idem<\/em>, s.\/p., destaque meu. No original: \u201cIn other words, to think of climate change as the principal cause of contemporary migration is to ignore a great variety of historical, social and technological factors that are acting as accelerants of global population flows.\u201d\",\"id\":\"93f100b2-2137-4747-8931-73584fac27b7\"},{\"content\":\"Recentemente, foi publicado no jornal <em>The<\/em> <em>Guardian<\/em>, na se\u00e7\u00e3o de \u201c<em>Long Reads<\/em>\u201d (\u201cLeituras Longas\u201d), <a href=\\\"https:\/\/www.theguardian.com\/education\/ng-interactive\/2026\/apr\/07\/brutal-reality-of-life-as-a-foreign-student-in-the-uk\\\">um texto<\/a> que trata sobre as condi\u00e7\u00f5es atuais da migra\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria para o Reino Unido: como um eco do que Ghosh trata aqui, s\u00e3o destacadas as dimens\u00f5es tanto de imagin\u00e1rio, que fomentam o sonho de \u201cestudar fora\u201d, quanto de aliciamento tecnol\u00f3gico, com plataformas digitais de direcionamento de estudantes se especializando em visar \u201caqueles mais rent\u00e1veis\u201d \u2013 isto \u00e9, mais propensos a d\u00edvidas.\",\"id\":\"a6b97841-65eb-4a2b-87d2-02de93508c2f\"},{\"content\":\"Amitav Ghosh. <em>Wild Fictions<\/em>, op. cit., s.\/p. No original: \u201cOur names were called out one by one and we were searched. What luck that they didn\u2019t make me take off my boots! Otherwise I don\u2019t know if this story would have been written. My diary was hidden in my boots.\u201d\",\"id\":\"de54eaa6-cfbc-4041-8a94-f319a9e491f4\"},{\"content\":\"<em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cNext to my own country, India, there is no place in the world that has been more important to my development as a writer than Egypt. It is now nearly twenty-eight years since I first landed in Cairo on 19 April 1980: The immediate pretext for my journey was research: a short while earlier, I had won a scholarship that took me from Delhi University to Oxford to study social anthropology. My dream was of writing fiction, but like many an aspiring novelist, I felt I lacked the necessary richness of experience. The writers I admired \u2013 V.S. Naipaul, James Baldwin and others \u2013 had gone out into the world and watched it go by: I wanted no less for myself.\u201d\",\"id\":\"e2f8137b-77c2-4373-ad8f-9c3a5849513a\"},{\"content\":\"<em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cI discovered one medium of communication where we were on equal terms: this was the language of <em>aflaam al-Hindeyya \u2013<\/em> that is to say, Hindi film songs.\u201d\",\"id\":\"a49ad612-90aa-4ae6-9be1-4c51c806cc83\"},{\"content\":\"<em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cUnfortunately, I cannot print out messages from the computer I am currently using in Australia.\u201d\",\"id\":\"e1a68183-decf-48a6-b1df-0ce7096f6df3\"},{\"content\":\"<em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cIf stories play a vital role\u2014as I believe they do\u2014in our understanding of the world, then a question of pressing importance is: What are the tales that animate the struggle over nature that is now being waged all around the planet?\u201d\",\"id\":\"d09e2aac-db8f-46d3-b18e-41b38f9b79c4\"},{\"content\":\"<em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cWhere Saint-Pierre imagines nature as a sacred space and a temple, for Blyth it is a \u2018field\u2019 in all the varied senses of the term.\u201d\",\"id\":\"6184e097-ba59-42dd-8b75-94f374a8afe4\"},{\"content\":\"<em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cIn both nature is uncontaminated by people: it is a domain defined by the exclusion of human beings. Thus did nature come to be imagined as an Eden too perfect for the fallen progeny of Adam and Eve.\u201d\",\"id\":\"30fe5d3a-2e1f-4640-8bf2-bb332b4503fb\"},{\"content\":\"<em>Idem<\/em>, s.\/p. No original: \u201cWhen urban tourists visit national parks or sanctuaries, they have little conception that their experience of the wilderness is akin to that of spectators at a play: rarely, if ever, are they given a glimpse of the stage machinery that provides them with their experience\u2014that is to say the administrative apparatus of eviction, restriction and so on that make these wildernesses conform to the tourist\u2019s notion of the \u2018pristine\u2019. They are in this sense partners in the production of a wild fiction: it is their willing suspension of disbelief that makes the exclusivity of forests possible.\u201d\",\"id\":\"28e8572f-740a-419a-8b6e-3551a807f9d2\"},{\"content\":\"<em>Idem<\/em>, s.\/p. 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