{"id":1815,"date":"2026-09-11T17:14:27","date_gmt":"2026-09-11T20:14:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1815"},"modified":"2026-10-12T18:04:54","modified_gmt":"2026-10-12T21:04:54","slug":"trabalho-do-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/09\/11\/trabalho-do-amor\/","title":{"rendered":"Trabalho do Amor"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Anna Kornbluh<sup data-fn=\"b0b57620-8403-4eae-9c8f-6665afb35374\" class=\"fn\"><a href=\"#b0b57620-8403-4eae-9c8f-6665afb35374\" id=\"b0b57620-8403-4eae-9c8f-6665afb35374-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes que uma fantasia nos ensinasse a desejar, o romance de amor<sup data-fn=\"89736af7-caf5-48a0-9a89-8dace01a4288\" class=\"fn\"><a href=\"#89736af7-caf5-48a0-9a89-8dace01a4288\" id=\"89736af7-caf5-48a0-9a89-8dace01a4288-link\">2<\/a><\/sup> constituiu um g\u00eanero liter\u00e1rio. Os romances de cavalaria, um g\u00eanero da narrativa do s\u00e9culo XII derivado da poesia \u00e9pica, entrela\u00e7aram as aventuras aleg\u00f3ricas e os encantamentos m\u00e1gicos dos her\u00f3is m\u00edticos arquet\u00edpicos com alguns fios das hist\u00f3rias das tribos, da realeza e da protonacionalidade \u2013 tudo pelo prazer do \u00f3cio na corte. O prazer \u00e9 essencial para a defini\u00e7\u00e3o do romance de amor como realiza\u00e7\u00e3o dos desejos, segundo o te\u00f3rico da literatura Northrop Frye: \u201co romance de aventura [<em>quest-romance<\/em>] \u00e9 a busca da libido ou do ser desejante por uma satisfa\u00e7\u00e3o que vai libert\u00e1-los das ang\u00fastias da realidade, embora ainda contenha essa realidade\u201d. Mesmo depois que a mistura de realidade com o maravilhoso do romance se transformou no romance moderno (um h\u00edbrido de com\u00e9dia e \u00e9pica do extraordin\u00e1rio comum, que se inclina para o oposto do romance \u2013 isto \u00e9, o \u201crealismo\u201d), a realiza\u00e7\u00e3o dos desejos continuou sendo uma explica\u00e7\u00e3o cr\u00edtica muito apreciada para o modo como a narrativa nos recompensa \u2013 isso de acordo com avalia\u00e7\u00f5es que abrangem estruturalistas como Claude L\u00e9vi-Strauss, marxistas como Fredric Jameson, e cr\u00edticos psicanalistas das belas-letras como Peter Brooks.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Qualquer an\u00e1lise psicanal\u00edtica do romance de amor hoje \u2013 com sua crescente popularidade e seu lugar em nossa economia libidinal pol\u00edtica do amor e do trabalho \u2013 deveria lan\u00e7ar m\u00e3o dessa heran\u00e7a, dessa primazia de <em>g\u00eanero<\/em>. A psican\u00e1lise prova, no m\u00ednimo, que todo homem tem um tipo; a tipifica\u00e7\u00e3o objeto-escolha, a classifica\u00e7\u00e3o e a identidade reprimida dos opostos s\u00e3o opera\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas prim\u00e1rias e s\u00e3o de interesse psicanal\u00edtico. Quando um analisando apresenta envolvimento rom\u00e2ntico, ele o comunica atrav\u00e9s do g\u00eanero; quando o div\u00f3rcio de uma celebridade monopoliza as manchetes, isso faz circular o g\u00eanero; quando cr\u00edticos culturais registram a negatividade em rela\u00e7\u00e3o ao sexo como uma enfermidade difusa, eles anseiam pelo g\u00eanero. O vasto corpus psicanal\u00edtico de reflex\u00f5es sobre a trag\u00e9dia antiga, a \u00e9pica cl\u00e1ssica, o drama de corte, os contos fant\u00e1sticos, o realismo liter\u00e1rio, as piadas e os significantes joyceanos ilustra o uso da psican\u00e1lise como uma pr\u00e1tica que pontua o discurso cl\u00ednico e interpreta a est\u00e9tica cultural \u2013 uma pr\u00e1tica que \u00e9 facilitada n\u00e3o apenas pela familiaridade com a po\u00e9tica da condensa\u00e7\u00e3o, do deslocamento, da alegoria e da dramatiza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pelo letramento no g\u00eanero. \u00c9 com par\u00e2metros compartilhados que se trabalha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As cl\u00e1ssicas distin\u00e7\u00f5es de g\u00eanero entre \u00e9pico, trag\u00e9dia, com\u00e9dia, l\u00edrica, s\u00e1tira e romance de cavalaria envolvem tipologias formais (o final feliz, a situa\u00e7\u00e3o do falante, a hip\u00e9rbole), ao passo que as classifica\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas tais como romance de amor, horror e fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica conotam as prefer\u00eancias do consumidor, tanto quanto, ou at\u00e9 mais do que, as caracter\u00edsticas formais. Por isso, e porque o mercado da cultura de massa cultiva essas prefer\u00eancias, essas distin\u00e7\u00f5es frequentemente v\u00eam sendo estudadas como o produto de institui\u00e7\u00f5es e hierarquias, mais do que como descri\u00e7\u00f5es das formas existentes. \u201cFic\u00e7\u00e3o de g\u00eanero\u201d, por exemplo, \u00e9, nesse sentido, aquele dom\u00ednio da produ\u00e7\u00e3o cultural lucrativa que geralmente n\u00e3o \u00e9 reconhecido como \u201cfic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria\u201d. Essas atribui\u00e7\u00f5es puramente sociol\u00f3gicas arru\u00ednam aquilo que a cr\u00edtica psicanal\u00edtica acalenta: os prazeres do g\u00eanero s\u00e3o diferentes dos prazeres do que foge ao g\u00eanero. Prazeres oriundos do diferente, da novidade, do inesperado e do retardamento ficam do lado exc\u00eantrico da cal\u00e7ada; prazeres oriundos da mesmice, da repeti\u00e7\u00e3o, do esperado e da saciedade ocupam o outro lado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por meio da similaridade, o g\u00eanero normatiza, e o moderno g\u00eanero do romance de amor transmite fantasias a respeito de como desejar, normativamente atando o amor, a intimidade e a paix\u00e3o sexual genital com um la\u00e7o de camisola de cetim vermelho. Contrariamente ao insight revolucion\u00e1rio de Freud, segundo o qual toda sexualidade \u00e9 anormal, o romance de amor jura que \u00e9 poss\u00edvel se livrar da desajeitada idiotice do sexo por meio do col\u00f3quio \u00edntimo do amor. Sussurros ofegantes: tudo \u00e9 normal se voc\u00ea desfalecer franca e intensamente. H\u00e1 romance quando todos encontram a sua cara-metade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se isso \u00e9 fantasia, a realidade, por sua vez, se assenta no \u00e2mbito da pr\u00e1tica cultural deliberada, na busca de prazeres mais conscientes do que os desejos inconfessados e nos h\u00e1bitos de consumo do mercado das ideias. Satisfa\u00e7\u00e3o garantida: o romance de amor enquanto g\u00eanero proporciona uma frui\u00e7\u00e3o est\u00e9tica repetitiva, a certeza da realiza\u00e7\u00e3o das expectativas levantadas. Classificar uma determinada obra como parte de um g\u00eanero \u00e9 uma forma de defesa contra experi\u00eancias est\u00e9ticas inesperadas. Nada al\u00e9m da emo\u00e7\u00e3o do encontro entre um rapaz e uma mo\u00e7a. Os leitores sabem o que os espera \u2013 n\u00e3o \u00e9 nada novo \u2013, e mesmo assim eles gozam, repetidamente. A obten\u00e7\u00e3o de certos est\u00edmulos \u00e9 o n\u00facleo da famosa explica\u00e7\u00e3o que a te\u00f3rica do cinema Linda Williams oferece sobre os \u201cg\u00eaneros corporais\u201d: o melodrama provoca l\u00e1grimas, a pornografia provoca a ere\u00e7\u00e3o, o horror provoca o medo. O romance de amor, como um g\u00eanero do cora\u00e7\u00e3o, reveste essas rea\u00e7\u00f5es corporais em uma hist\u00f3ria m\u00edtica: ele promove a uni\u00e3o. Nas palavras de um dos romances mais vendidos de 2021, <em>De F\u00e9rias com Voc\u00ea<\/em>, \u201cAmanh\u00e3, n\u00f3s vamos nos amar um pouco mais, e no dia seguinte, e no outro. E, mesmo naqueles dias em que um de n\u00f3s, ou ambos, n\u00e3o estivermos bem, n\u00f3s vamos estar aqui, onde somos completamente conhecidos, completamente aceitos pela pessoa cujos lados amamos todos, com todo o cora\u00e7\u00e3o\u201d.<sup data-fn=\"ccf412b9-2f6a-42d2-bd29-441ab7243fe8\" class=\"fn\"><a href=\"#ccf412b9-2f6a-42d2-bd29-441ab7243fe8\" id=\"ccf412b9-2f6a-42d2-bd29-441ab7243fe8-link\">3<\/a><\/sup> A uni\u00e3o atua em s\u00e9ries infinitas; Freud repete, em \u201cUm tipo especial de escolha de objeto feita pelo homem\u201d, que \u201ca psican\u00e1lise nos ensina, tamb\u00e9m por outros exemplos, que algo insubstitu\u00edvel que atua no inconsciente manifesta-se frequentemente pela decomposi\u00e7\u00e3o numa s\u00e9rie infinita; infinita porque todo substituto deixa de proporcionar a satisfa\u00e7\u00e3o desejada\u201d.<sup data-fn=\"aa073a3c-fcc3-4fd8-9e16-8882470fc538\" class=\"fn\"><a href=\"#aa073a3c-fcc3-4fd8-9e16-8882470fc538\" id=\"aa073a3c-fcc3-4fd8-9e16-8882470fc538-link\">4<\/a><\/sup> Desse modo, ler esses romances \u00e9 encontrar a cara-metade \u2013 e depois outra cara-metade. E depois outra. E ainda mais uma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Observe a diferen\u00e7a entre esse prazer do g\u00eanero e outros prazeres est\u00e9ticos mais filosoficamente apreciados. Definitivamente diferentes dos prazeres da novidade e da ruptura da est\u00e9tica de vanguarda, dos prazeres modernistas do choque e da catarse, dos prazeres cr\u00edticos do estranhamento e do maravilhoso, os prazeres do g\u00eanero e do romance de amor s\u00e3o certamente os facilitadores da recorr\u00eancia e do al\u00edvio. Assim, diferentemente da vida, essa do\u00e7ura se esvanece no entrela\u00e7ado das expectativas e na urdidura de sua concretiza\u00e7\u00e3o \u2013 prazer com seguran\u00e7a. A f\u00f3rmula do romance de amor segue o c\u00e1lculo de Freud: sexo + obst\u00e1culos = amor. A hero\u00edna encontra o her\u00f3i, problemas surgem, obst\u00e1culos interferem, emo\u00e7\u00f5es intensas irrompem, os obst\u00e1culos s\u00e3o superados, as emo\u00e7\u00f5es intensas atingem o cl\u00edmax, felizes para sempre. Quando lemos essa quantidade de romances desse tipo, n\u00e3o o fazemos em busca da surpresa do que escapa \u00e0 f\u00f3rmula; lemos para confirmar a f\u00f3rmula, pelo conte\u00fado dos obst\u00e1culos, por detalhes espec\u00edficos (ambienta\u00e7\u00e3o, piadas, eufemismos para cunil\u00edngua), acomodando o que j\u00e1 sabemos que vai acontecer. E fazemos de novo. N\u00f3s repetimos o prazer est\u00e9tico, n\u00f3s repetimos como prazer est\u00e9tico, porque a repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 <em>a<\/em> verdade da vida ps\u00edquica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Temos aqui a hist\u00f3ria da psican\u00e1lise tocando nos dois tipos de prazer est\u00e9tico: repeti\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m estamos diante de um mist\u00e9rio da ind\u00fastria: nesta exata conjuntura hist\u00f3rica do mundo, existe uma grande e desenfreada demanda por romances de amor. Atualmente, as pessoas (incluindo os jovens) est\u00e3o lendo esses romances em n\u00edveis recordes, ligando a m\u00ednima para o alardeado fim do letramento em massa. Em um aumento radical, as vendas desses romances impressos nos EUA mais do que dobraram entre 2020 e 2023, saltando de dezoito para trinta e nove milh\u00f5es de c\u00f3pias; e em 2024 o g\u00eanero cresceu outros 10% \u2013 uma taxa de crescimento que \u00e9 mais que o dobro do resto do mercado de fic\u00e7\u00e3o (de acordo com o extrato que o <em>The New York Times<\/em> fez dos dados da Circana Bookscan). E esses n\u00fameros s\u00f3 computam os livros oficialmente publicados que s\u00e3o vendidos em lojas oficiais; livros usados, livros de biblioteca, vendas em feiras do livro e o imp\u00e9rio da autopublica\u00e7\u00e3o do Kindle Direct e do WattPad d\u00e3o uma vis\u00e3o surpreendente do consumo de romance de amor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem d\u00favida, na esteira de um g\u00eanero t\u00e3o antigo que transcende qualquer formato ou m\u00eddia, o moderno romance de amor sempre desfrutou de grande apelo no mercado de massa, superando g\u00eaneros como o horror e o mist\u00e9rio: somente Danielle Steel escreveu aproximadamente 200 romances desde os anos 1970 (na \u00faltima d\u00e9cada, ela vem produzindo sete por ano, ent\u00e3o essa conta vai estar desatualizada nos pr\u00f3ximos dias), com vendas totais somando por volta de 800 milh\u00f5es de c\u00f3pias. Recentemente, por\u00e9m, a sensa\u00e7\u00e3o Colleen Hoover vendeu mais do que J.K. Rowling, James Patterson, Stephen King e John Grisham <em>juntos<\/em> \u2013 ultrapassando, inclusive, a <em>B\u00edblia<\/em>. Em um patamar ligeiramente distinto, tanto em termos de popularidade nas redes sociais quanto de qualidade est\u00e9tica, Emily Henry escreveu seis romances de amor em cinco anos consecutivos, sendo que cada um deles se tornou um dos livros mais vendidos do New York Times. O fato de que nenhum t\u00edtulo de alguma dessas duas autoras apare\u00e7a na lista recente dos 100 Melhores Livros do S\u00e9culo XXI (de acordo com o <em>The New York Times<\/em>) revela o quanto os prazeres do g\u00eanero continuam sendo rigorosamente diferenciados dos prazeres do que n\u00e3o faz parte do g\u00eanero. Pensando em um referencial mais compat\u00edvel com o <em>NYT<\/em>, por\u00e9m, consideremos a \u2013 sem d\u00favida \u2013 romancista Sally Rooney: quatro romances premiados venderam milh\u00f5es e milh\u00f5es de c\u00f3pias em quarenta e seis idiomas, a despeito de pertencerem a um nicho que geralmente ultrapassa as 5 mil c\u00f3pias. Tem algo excitante vindo a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A simples magnitude do entusiasmo com esses romances \u2013 no mesmo n\u00edvel e incluindo a sedu\u00e7\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, sem mencionar seus fandoms e abundantes p\u00e1ginas da internet que a cada lan\u00e7amento divulgam \u201cOs Cap\u00edtulos Picantes: O Seu Guia para os Momentos Mais Quentes\u201d \u2013 aponta para um fen\u00f4meno libidinal que n\u00f3s, cr\u00edticas psicanalistas da cultura, temos que ser capazes de interpretar. Por que desejamos tanto isso agora? A psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 a <em>nega\u00e7\u00e3o<\/em> do materialismo hist\u00f3rico, e, tendo a satisfa\u00e7\u00e3o do desejo como padr\u00e3o confi\u00e1vel, podemos inserir a atual ado\u00e7\u00e3o do prazer proporcionado pelo g\u00eanero do romance de amor na conting\u00eancia espec\u00edfica dos anos 2020, principalmente na pandemia global do coronav\u00edrus. Na sequ\u00eancia das mortes em massa e do abandono por parte dos governos, finais felizes s\u00e3o um b\u00e1lsamo. As felicidades caseiras aliviam os perigos do lar, desde a pandemia oculta de abuso dom\u00e9stico em acentuado crescimento at\u00e9 a intensifica\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia da reprodu\u00e7\u00e3o social para m\u00e3es solteiras sobrecarregadas. O vasto show de horrores que a pandemia sintomatizou \u2013 uma crise sist\u00eamica de calamidades clim\u00e1ticas incessantes e os riscos di\u00e1rios \u00e0s necessidades b\u00e1sicas de alimenta\u00e7\u00e3o, \u00e1gua pot\u00e1vel e moradia associados a elas, bem como o autoritarismo global vigente e seus consequentes segregacionismo e exterm\u00ednio \u00e9tnico, al\u00e9m da epidemia de depress\u00e3o, ansiedade e negatividade sexual resultantes disso \u2013 consiste, ainda, em um outro contexto para nossa orgia de romance hipercontempor\u00e2nea. O espa\u00e7o dom\u00e9stico \u00e9 uma zona de risco \u2013 o projeto fundamental de criar seres humanos sob m\u00faltiplas agress\u00f5es. O prazer est\u00e1vel, confi\u00e1vel e cont\u00ednuo soa como um \u00f3timo princ\u00edpio. E o que \u00e9 o amor, sen\u00e3o uma emo\u00e7\u00e3o de segunda m\u00e3o? Essa aspira\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica est\u00e1 em conformidade com o ainda bastante influente estudo de Janice Radway sobre o g\u00eanero, a etnografia de 1984 <em>Reading the Romance<\/em>. O romance permite \u00e0s mulheres fazer uma pausa no trabalho dom\u00e9stico e assegurar sua privacidade em uma \u201cdeclara\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia\u201d, conforme disse uma das entrevistadas de Radway: \u201cagora n\u00e3o, querido, a mam\u00e3e est\u00e1 lendo, voc\u00ea pega o seu lanchinho\u201d. \u00c0 medida que a labuta da reprodu\u00e7\u00e3o social leva embora o brilho da sexualidade heteronormativa, o g\u00eanero do romance de amor atua como lubrificante. Quarenta anos depois, o trabalho dom\u00e9stico, que se tornou mais extremo gra\u00e7as \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do estado de bem-estar social, \u00e0 responsabiliza\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias e \u00e0 emerg\u00eancia pand\u00eamica, fomentou uma enxurrada de romances de amor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por\u00e9m, uma vez que os cr\u00edticos psicanalistas tamb\u00e9m podem explorar o prazer do g\u00eanero para al\u00e9m da realiza\u00e7\u00e3o dos desejos ou do ceticismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s complicadas teses sobre a distra\u00e7\u00e3o promovida pela cultura de massa \u2013 dado que podemos compreender o prazer do g\u00eanero como repeti\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel \u2013, o romance contempor\u00e2neo em toda sua especificidade sociol\u00f3gica pode demandar uma outra interpreta\u00e7\u00e3o. Afinal de contas, temos que admitir que esse surto recente de romances de amor estica os hor\u00e1rios flex\u00edveis de trabalho mais do que as greves na cozinha: as revistas femininas de hoje em dia frequentemente alardeiam a utilidade dos audiobooks para aprimorar, mais do que evitar, as tarefas de lavanderia, passar o aspirador, preparar a comida e guardar as compras. E, se de fato lermos os melhores livros dessa enxurrada, podemos ouvi-los falar das maravilhas do amor articuladas n\u00e3o contra, mas sim a favor das rotinas repetitivas do trabalho. Talvez as leitoras de romance n\u00e3o estejam preenchendo um buraco, mas sim o estejam tra\u00e7ando, buscando um meio de desfrutar da insatisfa\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 que \u00e9 t\u00e3o ruim assim ser carente e repetir?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A car\u00eancia est\u00e1 marcada no romance de amor pelo apogeu est\u00e9tico deste seu renascimento recente, a saber, a obra politicamente carregada de Rooney. Tramas entre namoradas e sexo ardente v\u00eam entrela\u00e7ados com uma consci\u00eancia sociopol\u00edtica e o reconhecimento de que o amor n\u00e3o pode consertar o mundo. Reflex\u00f5es gentis em <em>Conversas entre amigos<\/em> soam como se \u201co universo em si um dia fosse sofrer a morte t\u00e9rmica\u201d.<sup data-fn=\"07ff194a-682f-43a2-ac95-e2317ab77aab\" class=\"fn\"><a href=\"#07ff194a-682f-43a2-ac95-e2317ab77aab\" id=\"07ff194a-682f-43a2-ac95-e2317ab77aab-link\">5<\/a><\/sup> A crescente conscientiza\u00e7\u00e3o impele a rica interioridade de Connell em <em>Pessoas normais<\/em>: \u201ccidades estrangeiras s\u00e3o reais, e obras de arte famosas, e sistemas de ferrovias subterr\u00e2neos, e resqu\u00edcios do Muro de Berlim. Isso \u00e9 dinheiro, a mat\u00e9ria que torna o mundo real. Existe algo de muito corrupto e sensual nisso.\u201d<sup data-fn=\"2971a19b-33ff-4c5e-9a0f-59f24529fe14\" class=\"fn\"><a href=\"#2971a19b-33ff-4c5e-9a0f-59f24529fe14\" id=\"2971a19b-33ff-4c5e-9a0f-59f24529fe14-link\">6<\/a><\/sup> Em <em>Intermezzo<\/em>, Peter brinca com a crescente solidariedade entre seus dois amores, \u201cMinhas namoradas se sindicalizaram\u201d.<sup data-fn=\"578700c3-dac5-4d55-9739-31d55f05d90c\" class=\"fn\"><a href=\"#578700c3-dac5-4d55-9739-31d55f05d90c\" id=\"578700c3-dac5-4d55-9739-31d55f05d90c-link\">7<\/a><\/sup> A persona autoficcional de Rooney em <em>Belo mundo, onde voc\u00ea est\u00e1<\/em> relativiza a escrita de romances: \u201cQuem consegue se importar, em suma, com o que acontece aos protagonistas de um romance se o contexto do enredo for o da explora\u00e7\u00e3o cada vez mais r\u00e1pida, mais brutal, da maioria da esp\u00e9cie humana? Os protagonistas rompem ou continuam juntos? Neste mundo, isso importa?\u201d<sup data-fn=\"aef332fe-bd80-4ee3-89f0-f3444a760e6b\" class=\"fn\"><a href=\"#aef332fe-bd80-4ee3-89f0-f3444a760e6b\" id=\"aef332fe-bd80-4ee3-89f0-f3444a760e6b-link\">8<\/a><\/sup> Ao reconhecer que a classe social est\u00e1 na alcova ou que as buscas pela satisfa\u00e7\u00e3o libidinal s\u00e3o ao mesmo tempo mais est\u00fapidas e mais fundamentais no fim do mundo, os romances de Rooney autocontextualizam a enxurrada do g\u00eanero: como disse o guitarrista de jazz Tiny Grimes, \u201cromance sem dinheiro \u00e9 aborrecimento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma verdade universalmente aceita o fato de que \u00e9 complicado escrever cenas de sexo. Se a tradi\u00e7\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que Rooney homenageia geralmente as omite, \u00e9 certamente pelo benef\u00edcio da prosa. A fic\u00e7\u00e3o do romance de amor, por outro lado, se apoia no car\u00e1ter gen\u00e9rico dos membros pulsantes e das coxas tr\u00eamulas, na repeti\u00e7\u00e3o inerente ao sexo. Pairando sobre o intermezzo entre as alus\u00f5es de Rooney a Wittgenstein e todos aqueles corpetes de Arlequina, os romances de Emily Henry flagrantemente perseguem o esperado:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cMinhas coxas ficam quentes e l\u00edquidas quando sinto a pele dele.<br>Ele levanta os bra\u00e7os e me deixa tirar a camiseta, expondo seu peito \u00e0 luz das velas misturadas ao brilho mais consistente da lanterna.<br>\u2013 Queria conseguir enxergar voc\u00ea melhor \u2013 sussurro, e deixo minhas m\u00e3os vagarem pela extens\u00e3o de seu corpo agora que o tecido saiu do caminho.<br>\u2013 Eu tamb\u00e9m. \u2013 A voz dele est\u00e1 baixa e rouca.<br>Com delicadeza, ele me puxa de volta para si e nossos corpos se derretem um no outro. O som baixo que ele solta faz meu cora\u00e7\u00e3o disparar. A press\u00e3o entre as minhas coxas fica t\u00e3o intensa que chega a doer.\u201d<sup data-fn=\"72cd7df5-3cf1-465b-af76-8eeffd8af5e1\" class=\"fn\"><a href=\"#72cd7df5-3cf1-465b-af76-8eeffd8af5e1\" id=\"72cd7df5-3cf1-465b-af76-8eeffd8af5e1-link\">9<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que \u00e9 inesperado, o que une Henry e Rooney apesar de seus status e estilos diferentes, \u00e9 o modo como todos os romances de Henry embutem o amor ardente com os trabalhos profissionais da classe criativa. Seu primeiro livro apresenta nada menos do que uma escritora de romances de amor superando um bloqueio de ideias ao bloquear as ideias de um escritor de romances liter\u00e1rios; o segundo prende uma escritora de viagens a um professor de ingl\u00eas; o terceiro re\u00fane uma agente liter\u00e1ria e um editor de livros; o quarto, provavelmente o mais fraco (e, n\u00e3o obstante, eleito o Melhor Romance de 2023 pela Goodreads), segue os desafios da carreira de uma m\u00e9dica residente frustrada que se tornou ceramista e um faz-tudo desempregado com um cora\u00e7\u00e3o de ouro; o quinto liga uma bibliotec\u00e1ria e um g\u00eanio da culin\u00e1ria em uma adega; o sexto, dois jornalistas que competem para dar o mesmo furo. Os desejos realizados aqui s\u00e3o o romance can\u00f4nico \u2013 um amante cujos olhar perspicaz e bra\u00e7os abertos preenchem o vazio das perdas familiares (irm\u00e3s doentes e pais falecidos abundam no universo EmHen) \u2013 e s\u00e3o tamb\u00e9m o can\u00f4nico prazer do g\u00eanero do romance de amor: \u201cVoc\u00ea trabalha com <em>livros<\/em>. \u00c9 claro que n\u00e3o tem vida. Nenhum de n\u00f3s tem. Sempre h\u00e1 algo bom demais para ler\u201d (<em>Loucos por livros<\/em>, 2022).<sup data-fn=\"9cbd559f-950a-4c20-aaee-670550176fea\" class=\"fn\"><a href=\"#9cbd559f-950a-4c20-aaee-670550176fea\" id=\"9cbd559f-950a-4c20-aaee-670550176fea-link\">10<\/a><\/sup> Surpreendentemente, eles d\u00e3o um toque t\u00edpico dos anos 2020: eles preenchem outras lacunas, como a de profissionais instru\u00eddos, geralmente com forma\u00e7\u00e3o em escrita, que anseiam por um trabalho est\u00e1vel, gratificante e produtivo. Justamente os trabalhadores criativos que nos disseram que ter\u00edamos de ser para nos guiarmos no s\u00e9culo XXI. Os mesmos trabalhadores criativos impiedosamente destro\u00e7ados pelos anos recentes de d\u00edvida estudantil estratosf\u00e9rica, de pilhagem das empresas de capital privado, de agress\u00f5es autorit\u00e1rias e de fraude da bolha da IA. Dessa forma, eles n\u00e3o se tornam nost\u00e1lgicos pela magia e pelo mito aos moldes do romance antigo, mas sim historicamente conscientes aos moldes do romance realista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Escrever a frase perfeita, solucionar o mist\u00e9rio de uma vida, entregar a not\u00edcia dentro do prazo ou dominar um novo g\u00eanero s\u00e3o o cl\u00edmax simult\u00e2neo profissional desses romances. Frequentemente, os criativos apaixonados compartilham uma sub\u00e1rea, uma dilig\u00eancia ou um local de trabalho, ressaltando o anseio pelo amor no trabalho sem a interfer\u00eancia do RH. Os prazeres repetitivos do g\u00eanero do romance contrastam nitidamente com o ritmo de trabalho repetitivo das carreiras criativas. O romance do s\u00e9culo XII foi um g\u00eanero, e o romance do s\u00e9culo XX foi uma fantasia de desejo, mas o romance do s\u00e9culo XXI \u00e9 uma melancolia do trabalho. O livro mais recente de Henry, <em>Uma vida e tanto<\/em>, eleva o trabalho criativo da protagonista por meio de uma estrutura de altern\u00e2ncia, apresentando sua hist\u00f3ria de amor intercalada com epis\u00f3dios de seu projeto de trabalho, uma hist\u00f3ria cultural do jornal da fam\u00edlia. Essas duas narrativas compartilham a mesma li\u00e7\u00e3o criativa de que o amor constr\u00f3i mundos: \u201cPela pessoa que voc\u00ea ama? Tudo. Voc\u00ea desconstr\u00f3i o pr\u00f3prio mundo e constr\u00f3i um novo.\u201d<sup data-fn=\"7d87f963-8d89-423c-b684-049eb6587713\" class=\"fn\"><a href=\"#7d87f963-8d89-423c-b684-049eb6587713\" id=\"7d87f963-8d89-423c-b684-049eb6587713-link\">11<\/a><\/sup> A uni\u00e3o definitiva do casal \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o criativa definitiva para sua rivalidade profissional: Alice e Hayden se tornam coautores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEscritor\u201d sempre soa como uma profiss\u00e3o glamorosa, embora muitos escritores concordem que n\u00e3o h\u00e1 nenhum segredo al\u00e9m da rotina de sentar a bunda na cadeira, vomitar e depois revisar o texto e produzir mecanicamente. Voc\u00ea tem que abrir o documento e movimentar os dedos; de novo: voc\u00ea tem que tir\u00e1-lo de dentro de voc\u00ea, dar-lhe forma e depois espancar esse queridinho. \u201cQuando voc\u00ea escreve, sempre pode acrescentar mais\u201d. Alice nos diz. \u201cMais, mais, mais, at\u00e9 chegar ao \u00e2mago de algo e, depois disso, voc\u00ea limpa os excessos.\u201d<sup data-fn=\"6ac79384-ccbf-455b-b93f-08ae8161d25f\" class=\"fn\"><a href=\"#6ac79384-ccbf-455b-b93f-08ae8161d25f\" id=\"6ac79384-ccbf-455b-b93f-08ae8161d25f-link\">12<\/a><\/sup> Acrescentar e limpar, revisar e refazer: o ritmo do <em>fort<\/em> e <em>da<\/em>. Nesse romance, um majestoso caminho ajardinado se torna uma imagem reguladora de sua pr\u00f3pria teoria da narrativa: \u201cEle \u00e9 unicursal. S\u00f3 tem um jeito de entrar e sair. Labirintos s\u00e3o diferentes. N\u00e3o d\u00e1 para se perder nesse aqui. \u00c9 s\u00f3 seguir reto, e talvez n\u00e3o seja o jeito mais r\u00e1pido de chegar aonde quer ir, mas vai acabar te levando ao centro em algum momento. [&#8230;] <em>Unicursal<\/em>. Um come\u00e7o, um fim. Ou, dependendo de como se olha, sem come\u00e7o e sem fim: s\u00f3 uma jornada.\u201d<sup data-fn=\"8f01e0cd-6ad4-41ff-a2eb-a313a2e9b4b1\" class=\"fn\"><a href=\"#8f01e0cd-6ad4-41ff-a2eb-a313a2e9b4b1\" id=\"8f01e0cd-6ad4-41ff-a2eb-a313a2e9b4b1-link\">13<\/a><\/sup> O modo como Henry une, de forma prosaica e c\u00f4mica, os prazeres da leitura repetitiva com os prazeres da escrita repetitiva abre uma sublima\u00e7\u00e3o generativa, uma vis\u00e3o do entrela\u00e7amento das possibilidades do amor, do trabalho e dos circuitos de sentido \u00fanico. Obviamente, nem o amor rom\u00e2ntico nem a ind\u00fastria criativa constituem a a\u00e7\u00e3o coletiva necess\u00e1ria para a retifica\u00e7\u00e3o da crise sist\u00eamica, mas, combinados, eles representam alguns prazeres est\u00e1veis \u200b\u200be repetitivos que podem ser conquistados, caso tenhamos a ousadia de nos unir contra a degrada\u00e7\u00e3o, o descontentamento e a desqualifica\u00e7\u00e3o. Os prazeres do g\u00eanero, encontrados nos g\u00eaneros da vida boa: repetir, ensaiar, repetir novamente, em prol do movimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado no volume 07 da <em>Parapraxis<\/em>. Agradecemos encarecidamente \u00e0 autora e aos editores do peri\u00f3dico por autorizarem a tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/www.parapraxismagazine.com\/articles\/loves-work\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Barros.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"b0b57620-8403-4eae-9c8f-6665afb35374\">Professora da Universidade de Illinois, Chicago. \u00c9 autora do livro <em><a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/imediatez-153125?srsltid=AfmBOoqSpKdu8jeGwMqoWjoMQ6bMe8pW-DYbHzLcc0EfrWL1b07T9jU4\">Imediatez, ou o estilo do capitalismo tardio demais<\/a>.<\/em> <a href=\"#b0b57620-8403-4eae-9c8f-6665afb35374-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"89736af7-caf5-48a0-9a89-8dace01a4288\">Existe, em ingl\u00eas, uma diferen\u00e7a entre <em>romance<\/em> e <em>novel<\/em>. No primeiro caso, trata-se dos g\u00eaneros precursores do romance (por exemplo, as novelas de cavalaria), que se originaram no s\u00e9culo XII e que se materializam, hoje em dia, em hist\u00f3rias de amor da cultura de massa, os romances de amor. <em>Novel<\/em>, por sua vez, se refere ao g\u00eanero do romance moderno, mais associado ao Realismo, que perdura at\u00e9 hoje, sem se confundir com o romance de amor. Em portugu\u00eas, existe um \u00fanico termo para se referir a ambos: \u201cromance\u201d. Preferimos, portanto, usar a express\u00e3o \u201cromance de amor\u201d para designar o primeiro tipo, conservando \u201cromance\u201d para se referir ao segundo. <a href=\"#89736af7-caf5-48a0-9a89-8dace01a4288-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"ccf412b9-2f6a-42d2-bd29-441ab7243fe8\">Emily Henry. <em>De f\u00e9rias com voc\u00ea.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o: Cec\u00edlia Camargo Bartalotti. Rio de Janeiro: Verus, 2022, s.\/p. (e-book) <a href=\"#ccf412b9-2f6a-42d2-bd29-441ab7243fe8-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"aa073a3c-fcc3-4fd8-9e16-8882470fc538\">Sigmund Freud. \u201cUm tipo especial de escolha de objeto feita pelo homem (contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psicologia do amor I). In: Sigmund Freud. <em>Obras completas, volume 9<\/em>: observa\u00e7\u00f5es sobre um caso de neurose obsessiva [\u201cO Homem dos Ratos\u201d], uma recorda\u00e7\u00e3o de inf\u00e2ncia de Leonardo da Vinci e outros textos (1909-1910). Tradu\u00e7\u00e3o: Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 340-341. <a href=\"#aa073a3c-fcc3-4fd8-9e16-8882470fc538-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 4 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"07ff194a-682f-43a2-ac95-e2317ab77aab\">Sally Rooney. <em>Conversas entre amigos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: D\u00e9bora Landsberg. S\u00e3o Paulo: Alfaguara, 2017, s.\/p. (ebook). No original consta \u201csofreria\u201d em vez de \u201cfosse sofrer\u201d. Alteramos para manter a coer\u00eancia do tempo verbal. [N.T.] <a href=\"#07ff194a-682f-43a2-ac95-e2317ab77aab-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 5 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"2971a19b-33ff-4c5e-9a0f-59f24529fe14\">Sally Rooney. <em>Pessoas normais.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o: D\u00e9bora Landsberg. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019, s.\/p. (ebook) <a href=\"#2971a19b-33ff-4c5e-9a0f-59f24529fe14-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 6 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"578700c3-dac5-4d55-9739-31d55f05d90c\">Sally Rooney. <em>Intermezzo.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o: D\u00e9bora Landsberg. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2024, s.\/p. (ebook) <a href=\"#578700c3-dac5-4d55-9739-31d55f05d90c-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 7 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"aef332fe-bd80-4ee3-89f0-f3444a760e6b\">Sally Rooney. <em>Belo mundo, onde voc\u00ea est\u00e1.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o: D\u00e9bora Landsberg. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2021, s.\/p. (ebook) <a href=\"#aef332fe-bd80-4ee3-89f0-f3444a760e6b-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 8 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"72cd7df5-3cf1-465b-af76-8eeffd8af5e1\">Emily Henry. <em>Uma vida e tanto<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Carolina Simmer e Giovanna Chinellato. Rio de Janeiro: Verus, 2025, s.\/p. (ebook) <a href=\"#72cd7df5-3cf1-465b-af76-8eeffd8af5e1-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 9 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"9cbd559f-950a-4c20-aaee-670550176fea\">Emily Henry. <em>Loucos por livros<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Ana Rodrigues. Rio de Janeiro: Verus, 2022, s.\/p. (ebook) <a href=\"#9cbd559f-950a-4c20-aaee-670550176fea-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 10 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"7d87f963-8d89-423c-b684-049eb6587713\">Emily Henry. <em>Uma vida e tanto<\/em>, <em>op. cit.<\/em>, s.\/p. <a href=\"#7d87f963-8d89-423c-b684-049eb6587713-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 11 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"6ac79384-ccbf-455b-b93f-08ae8161d25f\"><em>Idem<\/em>, <em>ibidem<\/em>. <a href=\"#6ac79384-ccbf-455b-b93f-08ae8161d25f-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 12 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"8f01e0cd-6ad4-41ff-a2eb-a313a2e9b4b1\"><em>Idem<\/em>, <em>ibidem.<\/em> <a href=\"#8f01e0cd-6ad4-41ff-a2eb-a313a2e9b4b1-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 13 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 22 \u2013 setembro de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os prazeres gen\u00e9ricos do romance<\/p>\n","protected":false},"author":89,"featured_media":1818,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Professora da Universidade de Illinois, Chicago. \u00c9 autora do livro <em><a href=\\\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/imediatez-153125?srsltid=AfmBOoqSpKdu8jeGwMqoWjoMQ6bMe8pW-DYbHzLcc0EfrWL1b07T9jU4\\\">Imediatez, ou o estilo do capitalismo tardio demais<\/a>.<\/em>\",\"id\":\"b0b57620-8403-4eae-9c8f-6665afb35374\"},{\"content\":\"Existe, em ingl\u00eas, uma diferen\u00e7a entre <em>romance<\/em> e <em>novel<\/em>. No primeiro caso, trata-se dos g\u00eaneros precursores do romance (por exemplo, as novelas de cavalaria), que se originaram no s\u00e9culo XII e que se materializam, hoje em dia, em hist\u00f3rias de amor da cultura de massa, os romances de amor. <em>Novel<\/em>, por sua vez, se refere ao g\u00eanero do romance moderno, mais associado ao Realismo, que perdura at\u00e9 hoje, sem se confundir com o romance de amor. Em portugu\u00eas, existe um \u00fanico termo para se referir a ambos: \u201cromance\u201d. Preferimos, portanto, usar a express\u00e3o \u201cromance de amor\u201d para designar o primeiro tipo, conservando \u201cromance\u201d para se referir ao segundo.\",\"id\":\"89736af7-caf5-48a0-9a89-8dace01a4288\"},{\"content\":\"Emily Henry. <em>De f\u00e9rias com voc\u00ea.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o: Cec\u00edlia Camargo Bartalotti. Rio de Janeiro: Verus, 2022, s.\/p. (e-book)\",\"id\":\"ccf412b9-2f6a-42d2-bd29-441ab7243fe8\"},{\"content\":\"Sigmund Freud. \u201cUm tipo especial de escolha de objeto feita pelo homem (contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psicologia do amor I). In: Sigmund Freud. <em>Obras completas, volume 9<\/em>: observa\u00e7\u00f5es sobre um caso de neurose obsessiva [\u201cO Homem dos Ratos\u201d], uma recorda\u00e7\u00e3o de inf\u00e2ncia de Leonardo da Vinci e outros textos (1909-1910). Tradu\u00e7\u00e3o: Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 340-341.\",\"id\":\"aa073a3c-fcc3-4fd8-9e16-8882470fc538\"},{\"content\":\"Sally Rooney. <em>Conversas entre amigos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: D\u00e9bora Landsberg. S\u00e3o Paulo: Alfaguara, 2017, s.\/p. (ebook). No original consta \u201csofreria\u201d em vez de \u201cfosse sofrer\u201d. Alteramos para manter a coer\u00eancia do tempo verbal. 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