{"id":1842,"date":"2026-10-12T20:16:05","date_gmt":"2026-10-12T23:16:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1842"},"modified":"2026-10-12T20:16:05","modified_gmt":"2026-10-12T23:16:05","slug":"o-cerebro-derretido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/10\/12\/o-cerebro-derretido\/","title":{"rendered":"O C\u00e9rebro Derretido"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Clayton Page Aldern<sup data-fn=\"89214aa8-70e1-433c-9f7d-ecb9a321b91a\" class=\"fn\"><a href=\"#89214aa8-70e1-433c-9f7d-ecb9a321b91a\" id=\"89214aa8-70e1-433c-9f7d-ecb9a321b91a-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em fevereiro de 1884, o pol\u00edmata e cr\u00edtico de arte ingl\u00eas John Ruskin assumiu o p\u00falpito no London Institution para um par de palestras sobre o clima. \u201cA Nuvem de Tempestade do S\u00e9culo Dezenove\u201d foi sua cr\u00edtica contra um particular \u201cvento de trevas\u201d e uma \u201cnuvem pestilenta\u201d que, segundo sua estimativa, havia come\u00e7ado recentemente a cobrir as cidades vitorianas. Ruskin vinha meticulosamente fazendo medi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas, conforme contou a uma plateia c\u00e9tica. Ele protestou contra a \u201cmal\u00edcia e amargura\u201d do novo clima em quest\u00e3o; e, talvez com maior import\u00e2ncia, destacou como este vinha refletindo um certo \u201cabatimento moral\u201d na sociedade. \u00c9 poss\u00edvel ler em n\u00f3s o que se l\u00ea no clima, ele sugeria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquele fevereiro, foi f\u00e1cil \u2013 e talvez o seja ainda hoje \u2013 considerar qualquer suposto vento de trevas como del\u00edrio de algum maluco. Nuvens s\u00e3o nuvens: mesmo se tivessem existido aquelas de Ruskin \u2013 algo questionado no debate contempor\u00e2neo \u2013, seria inconveniente imaginar que elas tenham qualquer rela\u00e7\u00e3o com a psique humana. Como Brian Dillon <a href=\"https:\/\/www.theparisreview.org\/blog\/2019\/04\/01\/a-storm-is-blowing\/\">observou<\/a> no <em>The Paris Review,<\/em> em 2019, a respeito das palestras sobre as nuvens, pode ser dif\u00edcil dizer em qual ponto da argumenta\u00e7\u00e3o de Ruskin \u201co clima ruim termina e o seu pr\u00f3prio humor cansado e desconsolado come\u00e7a\u201d. Em 1886, Ruskin sofreu um colapso nervoso durante uma palestra em Oxford. Ao final de sua vida, na virada do s\u00e9culo, ele era considerado maluco por todos. Seus devaneios sobre a meteorologia e o esp\u00edrito humano n\u00e3o s\u00e3o exatamente tratados com a mesma dignidade de seus livros a respeito de J. M. W. Turner.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, para Ruskin, as nuvens n\u00e3o eram apenas nuvens: elas eram potencializadas por uma \u201cdensa n\u00e9voa manufaturada\u201d, como ele chegou a anotar em seu di\u00e1rio. As nuvens pestilentas incorporavam o miasma da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial; o abatimento moral era precisamente aquilo que surgia das incessantes mudan\u00e7as sociais e ambientais em curso. A \u00e9poca de Ruskin havia presenciado uma transforma\u00e7\u00e3o vertiginosa de paisagens pastorais em polos industriais. Tudo cheirava a enxofre e sofrimento. Ar fuliginoso, res\u00edduos qu\u00edmicos e humanos, o clamor dos maquin\u00e1rios \u2013 estes eram muito mais do que apenas inc\u00f4modos f\u00edsicos. Eram agress\u00f5es contra os sentidos, moldando os humores e o comportamento de formas que ainda n\u00e3o foram plenamente compreendidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ruskin acreditava que o ritmo incessante da industrializa\u00e7\u00e3o, com sua cacofonia de instrumentos e f\u00e1bricas em expans\u00e3o, bem como com sua destrui\u00e7\u00e3o ambiental, desconsiderava o bem-estar psicol\u00f3gico: a mente, tal qual o corpo, requer um ambiente social e f\u00edsico saud\u00e1vel para prosperar. Esta era, de fato, uma ideia relativamente nova. (Isaac Ray, um dos fundadores da Sociedade Americana de Psiquiatria, s\u00f3 <a href=\"https:\/\/publichealth.jhu.edu\/departments\/mental-health\/about\/origins-of-mental-health\">definiria<\/a> a no\u00e7\u00e3o de \u201chigiene mental\u201d, a precursora da sa\u00fade mental, depois de 1893.) Instabilidade no ambiente, segundo Ruskin, acarretava instabilidade na mente. Uma coisa refletia a outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais de um s\u00e9culo depois, enquanto lidamos com uma nova leva de vertiginosas mudan\u00e7as ambientais, as nuvens pestilentas se mostram, mais uma vez, sinistramente literais. A temperatura m\u00e9dia global na superf\u00edcie subiu em torno de 1.1\u00b0C (2\u00b0F) desde o per\u00edodo pr\u00e9-industrial, com grande parte desse aquecimento acontecendo nos \u00faltimos 40 anos. O gelo est\u00e1 derretendo; os mares est\u00e3o constantemente se elevando; as tempestades est\u00e3o \u2013 bem, voc\u00ea conhece essa hist\u00f3ria. No entanto, muito frequentemente, continua sendo uma hist\u00f3ria do mundo \u201cl\u00e1 fora\u201d: o mundo fora de n\u00f3s. A narrativa da mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 feita de extremos meteorol\u00f3gicos, de crise econ\u00f4mica e de perda de biodiversidade. Mas talvez valha a pena levar a s\u00e9rio um Ruskin possivelmente louco. O que dizer de nossas nuvens internas? Conforme a crise clim\u00e1tica distorce o clima, <a href=\"https:\/\/aeon.co\/essays\/why-plankton-is-the-canary-in-the-coal-mine-of-our-oceans\">acidifica oceanos<\/a> e <a href=\"https:\/\/aeon.co\/essays\/welcome-to-earth-2200-ad-pop-500-million-temp-180-f\">quebra recordes de temperatura<\/a> com desconcertante regularidade, \u00e9 tentador se perguntar se nossas mentes tamb\u00e9m est\u00e3o mudando em igual medida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seguem, aqui, algumas das respostas afirmativas mais preocupantes. Ju\u00edzes de imigra\u00e7\u00e3o ficam <a href=\"https:\/\/www.aeaweb.org\/articles?id=10.1257\/app.20170223\">menos propensos<\/a> a decidir em favor de refugiados em dias quentes. Em dias deste tipo, estudantes <a href=\"https:\/\/www.journals.uchicago.edu\/doi\/abs\/10.1086\/726007?journalCode=jaere\">se comportam<\/a> como se tivessem perdido um quarto de ano de educa\u00e7\u00e3o comparativamente a dias mais amenos. Anos escolares mais quentes <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41562-020-00959-9\">correspondem a<\/a> menores \u00edndices de aprendizado. A temperatura <a href=\"https:\/\/www.thelancet.com\/journals\/lanplh\/article\/PIIS2542-5196(22)00173-5\/fulltext\">prediz<\/a> a incid\u00eancia de discursos de \u00f3dio online. A viol\u00eancia dom\u00e9stica <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/abs\/10.1111\/sjpe.12365\">dispara<\/a> em climas quentes. E o <a href=\"https:\/\/www.mdpi.com\/1660-4601\/18\/14\/7699\">suic\u00eddio<\/a> tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas voc\u00ea j\u00e1 conhece essa sensa\u00e7\u00e3o. Talvez voc\u00ea fique mais insuport\u00e1vel no calor. Talvez voc\u00ea sinta a cabe\u00e7a meio lenta. \u00c9 mais dif\u00edcil se concentrar e \u00e9 mais f\u00e1cil se deixar levar pelos impulsos. Tomos e tomos de neuroci\u00eancia cognitiva e pesquisas de economia comportamental te d\u00e3o raz\u00e3o \u2013 e nem tudo \u00e9 t\u00e3o grave quanto a viol\u00eancia dom\u00e9stica. Motoristas <a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/abs\/10.1177\/0013916586182002\">buzinam<\/a> com mais frequ\u00eancia (e por mais tempo) em temperaturas mais altas. O calor <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S2095254615000022\">prognostica<\/a> faltas mais agressivas nos esportes. No beisebol, arremessadores <a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/abs\/10.1177\/0956797611399292\">s\u00e3o mais propensos a<\/a> atingir os rebatedores com seus arremessos em dias quentes \u2013 e a temperatura externa \u00e9 um indicador ainda mais potente da tend\u00eancia de <em>retaliar<\/em> em igual medida se um arremessador advers\u00e1rio faz a mesma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outras palavras: \u00e9 de se acreditar que as nuvens pestilentas est\u00e3o, tamb\u00e9m, dentro de n\u00f3s. Elas ilustram a interconectividade de nossos mundos internos e externos. Elas apontam para um certo <a href=\"https:\/\/www.theglobeandmail.com\/opinion\/article-climate-change-wont-just-make-the-world-a-hotter-place-it-will-make-it\/\">ponto fraco<\/a> do agenciamento humano, pintando nossas decis\u00f5es com pinceladas de influ\u00eancia ambiental muito mais grossas do que nossa intui\u00e7\u00e3o sugere. E elas colocam a crise clim\u00e1tica sob uma nova e incontorn\u00e1vel \u00f3tica: pois, sim, conforme o clima muda, n\u00f3s tamb\u00e9m mudamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O London Institution fechou em 1912. Hoje em dia, quando voc\u00ea quer protestar contra intera\u00e7\u00f5es adversas baseadas na influ\u00eancia do clima sobre a mente, voc\u00ea publica um artigo no <em>The Lancet<\/em>. E isto foi justamente o que 24 neurologistas cl\u00ednicos brit\u00e2nicos (na sua maior parte) fizeram em maio de 2024, argumentando que a \u201cincid\u00eancia, preval\u00eancia e integridade de muitas condi\u00e7\u00f5es do sistema nervoso\u201d podem ser afetadas pelo aquecimento global. Para esses pesquisadores, liderados por Sanjay Sisodiya, professor de neurologia na University College London do Reino Unido, a hist\u00f3ria do clima \u00e9, de fato, uma hist\u00f3ria feita de nuvens internas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No seu <a href=\"https:\/\/www.thelancet.com\/journals\/laneur\/article\/PIIS1474-4422(24)00087-5\/abstract\">levantamento<\/a> de 332 estudos cient\u00edficos, Sisodiya e seus colegas mostram que a influ\u00eancia clim\u00e1tica se estende para muito al\u00e9m do comportamento e das fissuras do c\u00f3rtex. Alguns aspectos da enxaqueca, dos AVC, das convuls\u00f5es e da esclerose m\u00faltipla parecem todos ter rela\u00e7\u00e3o com a temperatura. Em Taiwan, os autores relatam, o risco de hospitaliza\u00e7\u00e3o por esquizofrenia aumenta com n\u00edveis maiores de temperatura diurna. Na <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/29020264\/\">Calif\u00f3rnia<\/a> tamb\u00e9m: \u201cvisitas de hospital por conta de qualquer transtorno de sa\u00fade mental, autoflagela\u00e7\u00e3o, inj\u00faria intencional de outra pessoa ou homic\u00eddio\u201d aumentam com maiores oscila\u00e7\u00f5es di\u00e1rias de temperatura. Na <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/34637463\/\">Su\u00ed\u00e7a<\/a>, hospitaliza\u00e7\u00f5es por transtornos psiqui\u00e1tricos aumentam com a temperatura, com o risco particularmente pronunciado entre aqueles com transtornos de desenvolvimento psicol\u00f3gico e esquizofrenia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fora do hospital, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica est\u00e1 ampliando o habitat de vetores como carrapatos, mosquitos e morcegos, levando cientistas a <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0013935119304347\">preverem<\/a> o aumento da incid\u00eancia de doen\u00e7as relacionadas a esses vetores e de doen\u00e7as cerebrais zoon\u00f3ticas, como a febre amarela, a zika e a mal\u00e1ria cerebral. Fora do sistema de sa\u00fade em geral, uma mudan\u00e7a no meio ambiente causa efeitos nos <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/gcb.16209\">sistemas sensoriais<\/a> e na percep\u00e7\u00e3o, <a href=\"https:\/\/grist.org\/science\/climate-change-is-rewiring-fish-brains-probably-ours-too\/\">degradando<\/a> tanto as informa\u00e7\u00f5es sensoriais quanto os instrumentos biol\u00f3gicos que usamos para process\u00e1-las. E, fora do dom\u00ednio do remotamente razo\u00e1vel, uma \u00e1gua pot\u00e1vel mais aquecida traz consigo uma maior frequ\u00eancia de flora\u00e7\u00f5es de cianobact\u00e9rias, as quais lan\u00e7am <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/abs\/10.1111\/j.1600-0404.2008.01150.x\">neurotoxinas<\/a> que aumentam o risco de doen\u00e7as neurodegenerativas como esclerose lateral amiotr\u00f3fica (ELA, tamb\u00e9m conhecida como doen\u00e7a de Lou Gehrig).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com efeito, estudos recentes sugerem que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica pode estar exacerbando o j\u00e1 substancial fardo de doen\u00e7as neurodegenerativas como o Parkinson e o Alzheimer. Em pa\u00edses com climas mais quentes do que a m\u00e9dia, a intensifica\u00e7\u00e3o do aquecimento tem sido <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S2667278222000190\">relacionada<\/a> a um relevante crescimento de casos de doen\u00e7a de Parkinson e, como Sisodiya e seus colegas notam, os maiores \u00edndices esperados para o aumento na preval\u00eancia da dem\u00eancia est\u00e3o \u201cprevistos para aparecerem em pa\u00edses que sofrem os piores efeitos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica\u201d. Do mesmo modo, a exposi\u00e7\u00e3o de curto prazo a altas temperaturas parece <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0013935122025038\">aumentar<\/a> as visitas de pacientes com Alzheimer ao pronto-socorro. O ar que respiramos muito provavelmente tem um dedo nisso: na Cidade do M\u00e9xico, por exemplo, onde residentes s\u00e3o expostos a altos n\u00edveis de oz\u00f4nio e material particulado fino desde uma tenra idade, aut\u00f3psias <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0013935120300293\">revelaram<\/a> a patologia de Alzheimer progressivo em 99 por cento das pessoas com menos de 30 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os riscos n\u00e3o se limitam \u00e0s pessoas que est\u00e3o vivas hoje. Em 2022, por exemplo, um <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S092099642100390X\">estudo<\/a> epidemiol\u00f3gico revelou que exposi\u00e7\u00e3o ao calor durante os primeiros meses de gravidez est\u00e1 associada ao aumento significativo no risco de crian\u00e7as desenvolverem esquizofrenia, anorexia e outras condi\u00e7\u00f5es neuropsiqui\u00e1tricas. Temperaturas altas durante a gesta\u00e7\u00e3o s\u00e3o h\u00e1 muito reconhecidas por <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0306452222000963\">atrasarem<\/a> o neurodesenvolvimento de ratos de laborat\u00f3rio. Outros cientistas j\u00e1 <a href=\"https:\/\/acamh.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/jcpp.13698\">demonstraram<\/a> que a experi\u00eancia de desastres naturais <em>in utero<\/em> aumenta muito o risco de ansiedade, depress\u00e3o e d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o\/transtorno de hiperatividade em crian\u00e7as, assim como conduz a transtornos posteriores na vida. Tais efeitos apresentam as responsabilidades intergeracionais do Antropoceno sob uma perspectiva nova, por\u00e9m dura \u2013 sobretudo porque, como Sisodiya e seus colegas escrevem, h\u00e1 uma tremenda \u201cdisparidade global entre regi\u00f5es mais afetadas pela mudan\u00e7a clim\u00e1tica (tanto agora quanto no futuro) e regi\u00f5es nas quais a maioria dos estudos s\u00e3o conduzidos\u201d. N\u00e3o sabemos o que ainda n\u00e3o sabemos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que sabemos, por\u00e9m, \u00e9 que o c\u00e9rebro vem aparecendo, estudo ap\u00f3s estudo, como um dos lugares mais vulner\u00e1veis diante da mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas \u00e9 uma mudan\u00e7a de dire\u00e7\u00e3o \u00fatil. Voltemos \u00e0s m\u00e3os pesadas na buzina e aos arremessadores de beisebol por um instante. Um foco no c\u00e9rebro lan\u00e7a alguma luz mecanicista em potencial sobre os estudos de caso e nos permite evitar frases do tipo \u201cvento das trevas\u201d. Temperaturas mais altas, por exemplo, parecem <a href=\"https:\/\/linkinghub.elsevier.com\/retrieve\/pii\/S0278262613001103\">dirigir<\/a> as redes de funcionamento cerebral \u2013 o comportamento coordenado de v\u00e1rias regi\u00f5es \u2013 na dire\u00e7\u00e3o de atividades aleat\u00f3rias. Sob calor extremo, cientistas <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0166432817312561\">observaram<\/a> um c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal dorsolateral (CPFDL) sobrecarregado, a nova regi\u00e3o evolucion\u00e1ria do c\u00e9rebro que o neuroendocrinologista Robert M. Sapolsky, da Stanford University, USA, chama de \u201co tomador de decis\u00f5es racional definitivo do c\u00f3rtex frontal\u201d. O CPFDL <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0028393216303475#bib25\">limita<\/a> o grau com que as pessoas tomam decis\u00f5es impulsivas; a atividade disruptiva do CPFDL tende a implicar uma relativa maior influ\u00eancia de estruturas l\u00edmbicas (como a am\u00edgdala, que \u00e9 ligada \u00e0s emo\u00e7\u00f5es) no comportamento. Mais calor, menos decis\u00f5es racionalmente tomadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fisicalidade da influ\u00eancia ambiental sobre o c\u00e9rebro vai muito al\u00e9m do CPFDL \u2013 e abrange m\u00faltiplas escalas de espa\u00e7o. O estresse por calor em peixes-zebra, por exemplo, <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S187439191930168X\">desregula<\/a> a express\u00e3o de prote\u00ednas relevantes para constru\u00e7\u00e3o de sinapses e libera\u00e7\u00f5es neurotransmissoras. Em ratos, o calor tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/jneuroinflammation.biomedcentral.com\/articles\/10.1186\/s12974-015-0324-6\">desencadeia<\/a> inflama\u00e7\u00f5es no hipocampo, uma regi\u00e3o do c\u00e9rebro necess\u00e1ria para a forma\u00e7\u00e3o e reten\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria. Ao passo que as neuroinflama\u00e7\u00f5es frequentemente t\u00eam um papel inicial de prote\u00e7\u00e3o, a ativa\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica de c\u00e9lulas imunes \u2013 como micr\u00f3glia e astr\u00f3cito \u2013 pode <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC5260818\/\">se tornar<\/a> venenosa, posto que mol\u00e9culas pr\u00f3-inflamat\u00f3rias podem danificar c\u00e9lulas cerebrais a longo prazo. Nas pessoas, a hipertermia est\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0031938414000456\">associada<\/a> ao baixo fluxo sangu\u00edneo nessa regi\u00e3o do c\u00e9rebro. Observa\u00e7\u00f5es de psic\u00f3logos a respeito de decl\u00ednio cognitivo e do aumento da agressividade em temperaturas mais altas fazem enorme sentido no contexto de tais descobertas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;O jovem campo da neuroci\u00eancia ambiental <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41562-019-0577-7\">procura<\/a> \u201centender as rela\u00e7\u00f5es qualitativas e quantitativas entre o meio externo, a neurobiologia, a psicologia e o comportamento\u201d. Na busca de um neologismo \u2013 j\u00e1 que essa frase em particular tamb\u00e9m contempla exposi\u00e7\u00f5es ambientais como barulho, desenvolvimento urbano, ilumina\u00e7\u00f5es e crime \u2013, podemos nos referir ao nosso nascente e integrativo campo como neuroepidemiologia climatol\u00f3gica. Ou, ent\u00e3o, sei l\u00e1, talvez precisemos de algo mais arrojado para o TikTok. Neuroclimatologia? Neurodin\u00e2mica Ecol\u00f3gica?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu prefiro este: o peso da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O peso pressiona nossas m\u00e3os, como nos casos de efeitos ambientais destacados acima. Quando o calor extremo alcan\u00e7a a sua mente e te induz \u00e0 viol\u00eancia, ele est\u00e1 restringindo suas escolhas. Por defini\u00e7\u00e3o, decis\u00f5es impulsivas est\u00e3o, comparativamente, baseadas em menos reflex\u00e3o do que as decis\u00f5es equilibradas: considerando que o clima em mudan\u00e7a influencia nossas rea\u00e7\u00f5es e tomadas de decis\u00e3o, dever\u00edamos entend\u00ea-lo como agente comprometedor de nosso preconcebido livre-arb\u00edtrio. O peso da natureza \u00e9 grande. Ele nos desloca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 tamb\u00e9m um fardo psicol\u00f3gico muito pesado. Voc\u00ea provavelmente est\u00e1 familiarizado com a no\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/psyche.co\/ideas\/the-climate-emergency-is-taking-a-serious-toll-on-mental-health\">ansiedade clim\u00e1tica<\/a>. A frase, que tende a se referir a um estado quase patol\u00f3gico de preocupa\u00e7\u00e3o e medo da irrefre\u00e1vel destrui\u00e7\u00e3o ambiental, particularmente nunca soou bem para mim. Ansiedade, assim como \u00e9 definida pelo <em>Diagnostic and Statistical Manual<\/em>, \u00e9 geralmente enquadrada em termos de preocupa\u00e7\u00e3o \u201cexcessiva\u201d. Eu n\u00e3o estou convencido de que haja qualquer coisa excessiva em perceber o esp\u00edrito clim\u00e1tico do momento e ter uma sensa\u00e7\u00e3o de apocalipse. Talvez dev\u00eassemos considerar os ansiosos clim\u00e1ticos como tendo c\u00e9rebros mais desenvolvidos do que o resto de n\u00f3s \u2013 como se as Cassandras fossem as \u00fanicas <a href=\"https:\/\/aeon.co\/ideas\/the-hypersane-are-among-us-if-only-we-are-prepared-to-look\">pessoas s\u00e3s<\/a> que restaram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o estou propriamente brincando. A neuroci\u00eancia come\u00e7ou a estudar esses c\u00e9rebros em quest\u00e3o, e n\u00e3o sem raz\u00e3o. O c\u00f3rtex cingulado m\u00e9dio (ou giro do c\u00edngulo m\u00e9dio), ponto central no circuito de detec\u00e7\u00e3o de amea\u00e7as do c\u00e9rebro, pode conter algumas pistas sobre a base biol\u00f3gica dessa condi\u00e7\u00e3o: em um <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0887618524000240\">estudo<\/a> de 2024, por exemplo, pesquisadores da Northern Michigan University, EUA, descobriram que pessoas que relataram n\u00edveis altos de ansiedade a respeito da mudan\u00e7a clim\u00e1tica mostravam, nessa regi\u00e3o, padr\u00f5es distintos de estrutura e fun\u00e7\u00e3o cerebral em compara\u00e7\u00e3o \u00e0queles com n\u00edveis baixos de ansiedade clim\u00e1tica \u2013 e independentemente de n\u00edveis-base de ansiedade em ampla escala. Em particular, o c\u00e9rbero com ansiedade clim\u00e1tica parece hospedar um cingulado m\u00e9dio <em>ainda menor<\/em> (em termos de massa cinzenta), mas um que \u00e9 funcionalmente mais conectado a outros pontos chave na rede de sali\u00eancia do c\u00e9rebro, um sistema entendido por constantemente sondar o ambiente \u00e0 procura de informa\u00e7\u00f5es emocionalmente relevantes. Na rede de sali\u00eancia, o c\u00f3rtex cingulado m\u00e9dio trabalha de m\u00e3os dadas com estruturas l\u00edmbicas, como a am\u00edgdala e a \u00ednsula, na prepara\u00e7\u00e3o do corpo para responder apropriadamente a esse tipo de informa\u00e7\u00e3o. Nas pessoas com ansiedade clim\u00e1tica, essa rede pode estar especificamente sintonizada com sinais de amea\u00e7as relacionadas ao clima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, em vez de indicar uma defici\u00eancia, um cingulado m\u00e9dio menor \u00e9 capaz de refletir um sistema de detec\u00e7\u00e3o de amea\u00e7as mais afinado e eficiente. O c\u00e9rebro \u00e9 reconhecido por podar conex\u00f5es redundantes com o passar do tempo, preservando apenas os caminhos neurais mais \u00fateis. A modelagem seletiva, sugerem os pesquisadores de Michigan, pode permitir o c\u00e9rebro dos ansiosos clim\u00e1ticos a processar informa\u00e7\u00f5es preocupantes com maior efetividade, facilitando uma comunica\u00e7\u00e3o r\u00e1pida entre o cingulado m\u00e9dio e outras regi\u00f5es envolvidas na antecipa\u00e7\u00e3o e resposta a amea\u00e7as. Em outras palavras, eles escrevem, o cingulado m\u00e9dio do ansioso clim\u00e1tico pode ser caracterizado pela sua \u201cconex\u00e3o mais eficiente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa sensitividade neural para perigos em potencial pode ser tanto uma ben\u00e7\u00e3o quanto uma praga. Por um lado, pode atinar certas pessoas em rela\u00e7\u00e3o aos perigos verdadeiramente reais do futuro. O cingulado m\u00e9dio \u00e9 essencial na antecipa\u00e7\u00e3o de amea\u00e7as futuras, e meta-an\u00e1lises <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.3758\/s13415-019-00747-7\">descobriram<\/a> que a regi\u00e3o est\u00e1 constantemente em atividade quando pessoas contemplam resultados negativos imprevistos. Dado o assombroso espectro da cat\u00e1strofe clim\u00e1tica, um sistema de detec\u00e7\u00e3o de amea\u00e7as de extrema sensibilidade pode se mostrar um recurso adaptativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, argumentam os pesquisadores:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA complexidade, a incerteza, assim como a dist\u00e2ncia tanto temporal quanto geogr\u00e1fica da crise clim\u00e1tica, somada \u00e0 sua natureza global, pode levar indiv\u00edduos a desprezarem os riscos associados \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, ou a se tornarem sobrecarregados e desarmados \u2013 um estado \u00e0s vezes referido como \u2018eco-paralisia\u2019.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um cingulado m\u00e9dio superestimulado tem sido envolvido em transtornos de ansiedade cl\u00ednica, e novas descobertas sugerem que ansiedade clim\u00e1tica compartilha algo das mesmas bases neurais. (\u00c9 importante lembrar que a ansiedade clim\u00e1tica parece se distinguir da ansiedade generalizada, dado que as diferen\u00e7as cerebrais observadas no estudo de Michigan n\u00e3o puderam ser explicadas por n\u00edveis gerais de ansiedade.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u00faltima inst\u00e2ncia, ainda que especulativas, essas descobertas sugerem que a ansiedade clim\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 meramente um fen\u00f4meno sociocultural, mas um fen\u00f4meno com correlatos neurais teoricamente identific\u00e1veis. Elas proporcionam um potencial enquadramento biol\u00f3gico para se entender por que algumas pessoas podem ser mais psicologicamente impactadas por mudan\u00e7as clim\u00e1ticas do que outras. E elas levantam quest\u00f5es intrigantes sobre se os c\u00e9rebros dos ansiosos clim\u00e1ticos s\u00e3o particularmente mais bem adaptados para confrontar a amea\u00e7a existencial de um mundo em aquecimento \u2013 ou se eles s\u00e3o vulner\u00e1veis a ponto de se tornarem sobrepujados por ela. Em todo caso, eles ilustram esse mundo se voltando para o interior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, talvez, um outro lado a se considerar aqui. Um clima em mudan\u00e7a est\u00e1 se infiltrando em nossa pr\u00f3pria neurobiologia. O que isto pode indicar como orienta\u00e7\u00e3o para nossa neurobiologia frente \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal \u00e9 a premissa de um <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41558-023-01857-4\">artigo<\/a> de 2023 lan\u00e7ado na <em>Nature Climate Change<\/em> pela neurocientista Kimberly Doell e seus colegas da Universidade de Viena, \u00c1ustria, que argumentam que o campo est\u00e1 bem posicionado para informar nossa compreens\u00e3o sobre respostas adaptadas ao clima e tomadas de decis\u00e3o pr\u00f3-ambientais. Nas d\u00e9cadas desde que Ruskin levantou os punhos para os c\u00e9us, a neuroci\u00eancia ambiental come\u00e7ou a investigar a rec\u00edproca dan\u00e7a entre organismos e seus nichos ecol\u00f3gicos. Sabemos agora que as texturas de todos os ambientes modernos \u2013 espa\u00e7os verdes, prolifera\u00e7\u00e3o urbana, estratifica\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica \u2013 deixam suas marcas no c\u00e9rebro. Com a mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 diferente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em conson\u00e2ncia, argumentam Doell e seus coautores, cientistas e ativistas podem ambos integrar descobertas da neuroci\u00eancia para aprimorar estrat\u00e9gias de comunica\u00e7\u00e3o voltadas para o est\u00edmulo \u00e0 a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. Eles querem virar o jogo, tirando vantagem de percep\u00e7\u00f5es vindas da neurobiologia e neuroci\u00eancia cognitiva para mais efetivamente esbo\u00e7ar solu\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas \u2013 tanto dentro de n\u00f3s, quanto na sociedade em geral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s temos modelos para esse tipo de abordagem. A pesquisa sobre a pobreza, por exemplo, h\u00e1 muito tem mostrado a rela\u00e7\u00e3o entre condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas e sa\u00fade sucateada. Recentemente, a neuroci\u00eancia realizou uma engenharia reversa nos caminhos pelos quais os v\u00e1rios ultrajes da pobreza \u2013 baixo est\u00edmulo, exposi\u00e7\u00f5es a toxinas, estresse cr\u00f4nico \u2013 podem erodir a arquitetura neural e desarranjar o desenvolvimento cognitivo. Apenas a ci\u00eancia do c\u00e9rebro n\u00e3o resolver\u00e1 a pobreza, mas mesmo uma compreens\u00e3o limitada desses mecanismos propulsionou <a href=\"https:\/\/www.pnas.org\/doi\/full\/10.1073\/pnas.1304437110\">pesquisa<\/a>s em programas como Head Star, um curr\u00edculo pr\u00e9-escolar com base na fam\u00edlia que tem indicado aprimoramento de aten\u00e7\u00e3o seletiva (como se evidencia em registros eletrofisiol\u00f3gicos) e nos resultados de testes cognitivos. Embora a hidra da iniquidade estrutural n\u00e3o seja facilmente abatida, neurocientistas conseguiram jogar alguma luz sobre os correlatos neurais da pobreza, identificar seus danos revers\u00edveis e esbo\u00e7ar tratamentos compat\u00edveis. Esse mesmo potencial, argumentam Doell e seus colegas, estende-se para a neuroci\u00eancia da mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para se dar conta desse potencial, por\u00e9m, precisamos entender mais a fundo como o sonho febril do Antropoceno j\u00e1 est\u00e1 envolvendo nossa rede neural. A ci\u00eancia social e comportamental come\u00e7ou a catalogar as consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas de um planeta em fluxo, mas uma taxonomia neural da mudan\u00e7a clim\u00e1tica ainda est\u00e1 \u00e0 espera. O arsenal conceitual e metodol\u00f3gico est\u00e1 preparado para o desafio, mas, para afin\u00e1-lo, ser\u00e1 preciso promover alian\u00e7as entre ci\u00eancia clim\u00e1tica, medicina, psicologia, ci\u00eancia pol\u00edtica e al\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns est\u00e3o tentando. Por exemplo, a Kavli Foundation de Los Angeles, EUA, reconhecendo a necessidade de respostas, abriu, em 2023, uma <a href=\"https:\/\/www.kavlifoundation.org\/news\/neurobiology-and-changing-ecosystems-initiative\">chamada<\/a> para cientistas investigarem de que forma sistemas neurais est\u00e3o respondendo \u00e0 perturba\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. Com uma pesquisa de 5 milh\u00f5es de d\u00f3lares, a funda\u00e7\u00e3o procura esclarecer como a perda de habitat, a polui\u00e7\u00e3o de luz e outros danos ambientais podem estar influenciando o maquin\u00e1rio molecular, celular e n\u00edvel de circuito dos c\u00e9rebros, humanos e n\u00e3o humanos. A quest\u00e3o central \u00e9: na biosfera em que a mudan\u00e7a \u00e9 a \u00fanica constante, os sistemas neurais s\u00e3o pl\u00e1sticos o suficiente para seguirem o ritmo ou eles ter\u00e3o dificuldades em acompanhar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <a href=\"https:\/\/www.kavlifoundation.org\/news\/international-research-teams-selected-to-study-how-neural-systems-respond-to-changing-environments\">primeira leva<\/a> de pesquisadores a aceitar o desafio de Kavli est\u00e1 estudando uma diversa gama de criaturas, cada uma particularmente posicionada para revelar novas percep\u00e7\u00f5es a respeito da resili\u00eancia do c\u00e9rebro em face \u00e0 disrup\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria. Por exemplo, Wolfgang Stein, da Illinois State University, EUA, e Steffen Harzsch, da Universidade de Greifswald, Alemanha, focam em crust\u00e1ceos, procurando entender como seus reguladores t\u00e9rmicos lidam com eleva\u00e7\u00f5es de temperaturas em \u00e1guas profundas e rasas. Outro grupo mirou nos c\u00e9rebros dos cefal\u00f3podes, cuja capacidade de editar RNA pode ser a chave para sua habilidade de tolerar quedas abruptas de n\u00edveis de oxig\u00eanio nos seus habitats aqu\u00e1ticos gradativamente mais sufocantes. Um terceiro grupo de trabalho da Kavli, liderado por Florence Kermen, da Universidade de Copenhagen, Dinamarca, est\u00e1 fazendo experimentos com peixes-zebra em temperaturas extremas, vasculhando seus neur\u00f4nios e c\u00e9lulas gliais \u00e0 procura de assinaturas moleculares que os permitem prosperar \u2013 a despeito do aquecimento de seu habitat aqu\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses investimentos iniciais geraram certa curiosidade federal. Em dezembro de 2023, o US National Science Foundation juntou for\u00e7as ao Kavli, <a href=\"https:\/\/www.nsf.gov\/pubs\/2024\/nsf24044\/nsf24044.jsp\">convidando<\/a> pesquisadores a submeter propostas de pesquisa que procurem investigar os \u201cmecanismos modulat\u00f3rios, homeost\u00e1ticos, adaptativos e\/ou evolucion\u00e1rios que impactam a neurofisiologia em resposta \u00e0 influ\u00eancia antropog\u00eanica no meio ambiente\u201d.&nbsp; Podemos n\u00e3o estar em territ\u00f3rio de corridas-armamentistas ainda, mas, ao menos, h\u00e1 a sugest\u00e3o de que estamos come\u00e7ando a caminhar na dire\u00e7\u00e3o certa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O c\u00e9rebro, aquele centro de comando esponjoso empoleirado ao topo de nossa medula espinal, sempre foi uma caixa-preta. Conforme a crise clim\u00e1tica aperta seu cerco, e o terreno ecol\u00f3gico sob nossos p\u00e9s se torna mais inst\u00e1vel, o imperativo de abri-la \u00e0 for\u00e7a e espiar o que h\u00e1 l\u00e1 dentro cresce dia ap\u00f3s dia. Desde j\u00e1, come\u00e7amos a ter um vislumbre das linhas gerais de uma nova cartografia neural esbo\u00e7ada em tra\u00e7os expansivos por tipos como Sisodiya e seus colegas. Sabemos agora que o c\u00e9rebro \u00e9 menos uma massa est\u00e1tica de tecidos autorreguladores e mais uma paragem din\u00e2mica, viva, cujas montanhas e vales s\u00e3o modelados pelos contornos de nosso meio ambiente. Da mesma forma que a camada glacial da Groenl\u00e2ndia range e cede sob o calor de um clima em mudan\u00e7a, nossas sinapses e neur\u00f4nios tamb\u00e9m murcham e secam conforme o merc\u00fario sobe. Assim como mares em eleva\u00e7\u00e3o engolem faixas litor\u00e2neas, e florestas sucumbem \u00e0 seca e \u00e0s chamas, as fronteiras anat\u00f4micas de nossos c\u00e9rebros s\u00e3o redesenhadas por cada investida nova de danos ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, o di\u00e1logo entre o c\u00e9rebro e a biosfera n\u00e3o \u00e9 uma via de m\u00e3o \u00fanica. As escolhas que fazemos, os comportamentos que endossamos, a maneira como navegamos em um mundo em crise \u2013 todas estas decis\u00f5es s\u00e3o refletidas no meio ambiente, para o bem ou para o mal. Portanto, eu proponho: no intuito de entender de que maneira um clima em mudan\u00e7a modela os contornos de nossas mentes, devemos tamb\u00e9m ter em conta como a arquitetura de nossos pensamentos pode ser renovada a servi\u00e7o da sustentabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os cart\u00f3grafos da mente do Antropoceno t\u00eam um trabalho duro pela frente. Mas, nas m\u00e3os da neuroci\u00eancia \u2013 com suas cintilantes sondagens cerebrais e zumbidos de eletrodos, sua precis\u00e3o na edi\u00e7\u00e3o de genes e seu poderio algor\u00edtmico \u2013, h\u00e1 algo se mostrando como um ponto de partida. Ao tra\u00e7ar os caminhos do impacto ambiental nas suas ra\u00edzes neurais, e seguindo a cascata de consequ\u00eancias de nossos processos mentais no mundo, talvez possamos come\u00e7ar a interpretar a confusa rede que conecta os destinos da mente aos do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso est\u00e1 claro: enquanto as engrenagens da crise clim\u00e1tica n\u00e3o interromperem seu movimento, nossos c\u00e9rebros as seguir\u00e3o no caminho. A quest\u00e3o \u00e9 se iremos apenas de carona ou se iremos apanhar o volante e embicar em dire\u00e7\u00e3o a algo pr\u00f3ximo de um futuro habit\u00e1vel. O peso da natureza \u2013 a imensid\u00e3o da crise que enfrentamos \u2013 \u00e9 assustador. Mas n\u00e3o precisa ser paralisante. De pouquinho a pouquinho, sinapse a sinapse, podemos abrir um caminho atrav\u00e9s das nuvens pestilentas. Foi Ruskin, em um momento ligeiramente mais leg\u00edvel de sua vida, que prop\u00f4s: \u201cBanir a imperfei\u00e7\u00e3o \u00e9 destruir a express\u00e3o; conter o \u00edmpeto \u00e9 paralisar a vitalidade.\u201d Mesmo se pud\u00e9ssemos, n\u00e3o dever\u00edamos banir as supostas imperfei\u00e7\u00f5es da influ\u00eancia do meio ambiente em nossa mente. No lugar disso, dever\u00edamos ler nelas uma rela\u00e7\u00e3o vital e \u00edntima entre o \u201ceu\u201d e o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nisso, a neuroepidemiologia climatol\u00f3gica \u2013 mesmo jovem e inexperiente como \u00e9 \u2013 est\u00e1 escalada para um papel relevante. Vislumbrando a caixa-preta da mente alterada pelo clima, esse campo oferece algo precioso: uma centelha de agenciamento em um mundo que frequentemente parece sair do controle. Ele sussurra que as alavancas da mudan\u00e7a est\u00e3o ao alcance, alojadas no macio per\u00edmetro de nossos cr\u00e2nios, esperando para serem acionadas. E sugere que, mesmo com o peso da natureza crescendo sobre n\u00f3s, podemos achar ainda uma maneira de empurr\u00e1-lo de volta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado na <em>Aeon<\/em>, em 13 de agosto de 2024. Agradecemos encarecidamente ao autor e aos editores por autorizarem a tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/aeon.co\/essays\/how-a-warming-earth-is-changing-our-brains-bodies-and-minds\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Gabriel Manfrim. Revis\u00e3o de Felipe Fauri.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"89214aa8-70e1-433c-9f7d-ecb9a321b91a\">Rep\u00f3rter e escritor estadunidense. Tem artigos publicados no <em>The Guardian<\/em>, <em>The Atlantic <\/em>e <em>The Economist<\/em>. Autor do livro <a href=\"https:\/\/www.penguinrandomhouse.com\/books\/717097\/the-weight-of-nature-by-clayton-page-aldern\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>The Weight of Nature: How a Changing Climate Changes Our Brains<\/em><\/a>. <a href=\"#89214aa8-70e1-433c-9f7d-ecb9a321b91a-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 23 \u2013 outubro de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 apenas o planeta e nem apenas nossa sa\u00fade \u2013 o impacto do aquecimento global se estende para dentro das fissuras de nosso c\u00f3rtex<\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":1846,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Rep\u00f3rter e escritor estadunidense. 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