{"id":1849,"date":"2026-10-12T20:15:18","date_gmt":"2026-10-12T23:15:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=1849"},"modified":"2026-10-12T20:15:18","modified_gmt":"2026-10-12T23:15:18","slug":"ser-da-geracao-z","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2026\/10\/12\/ser-da-geracao-z\/","title":{"rendered":"Ser da Gera\u00e7\u00e3o Z em um Mundo que se Recusa a Melhorar"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Vaishnavi Singh<sup data-fn=\"966c73a5-9ead-4d4f-94a4-c9ef0c2858b2\" class=\"fn\"><a href=\"#966c73a5-9ead-4d4f-94a4-c9ef0c2858b2\" id=\"966c73a5-9ead-4d4f-94a4-c9ef0c2858b2-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o chefe de justi\u00e7a da Suprema Corte indiana comparou os jovens \u00e0s baratas, a juventude fez com que seu rep\u00fadio fosse ouvido. O \u201cPartido do Povo Barata\u201d (Cockroach Janta Party \u2013 CJP) tomou conta de muitos feeds no Instagram por alguns dias, at\u00e9 que coment\u00e1rios odiosos, alegando que o movimento era desonesto, come\u00e7assem a invadir as discuss\u00f5es sobre o assunto. Mas tamb\u00e9m se popularizou um argumento em defesa do movimento: como podemos esperar que um grupo rec\u00e9m-criado nas redes sociais pudesse se responsabilizar por todas as fal\u00e1cias e problemas que os pol\u00edticos no poder jogam na cara do povo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse ensaio n\u00e3o \u00e9 sobre o CJP ou sobre baratas. Todos n\u00f3s, em algum momento, j\u00e1 reparamos que h\u00e1 um padr\u00e3o generalizado de gera\u00e7\u00f5es passadas verem com maus olhos e apontarem o dedo para gera\u00e7\u00f5es mais novas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a><strong>A internet e o \u201cdoomer\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sua pesquisa publicada em 2021 pela <a href=\"https:\/\/www.frontiersin.org\/journals\/political-science\/articles\/10.3389\/fpos.2021.641609\/full\">Frontiers in Political Science<\/a>, a professora associada de pedagogia, Tanu Biswas, da Universidade de Stavanger, diz que a gera\u00e7\u00e3o Z \u201cnasceu em uma era superaquecida\u201d. Biswas faz refer\u00eancia ao antrop\u00f3logo Thomas Hylland Eriksen, que define o neoliberalismo do Antropoceno como um fen\u00f4meno que n\u00e3o se limita ao \u00e2mbito das crises ambientais, mas que, na verdade, as crises s\u00e3o parte de um ecossistema maior em que a desigualdade econ\u00f4mica e social \u00e9 cada vez mais agravada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse entrela\u00e7amento de crises diversas \u00e9 evidenciado pela evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da ativista ambiental Greta Thunberg \u2013 tamb\u00e9m pertencente \u00e0 gera\u00e7\u00e3o Z, que foi ridicularizada durante sua adolesc\u00eancia por exigir que os l\u00edderes pol\u00edticos mais velhos se responsabilizassem pelo mundo \u2013, tendo em vista que ela continua a aprofundar sua base ideol\u00f3gica com um discurso anticapitalista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o bem ou para o mal, os la\u00e7os da Gera\u00e7\u00e3o Z com a internet e as redes sociais tornaram essa gera\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo, extremamente ciente do que acontece, por\u00e9m deprimentemente impotente diante disso tudo. O neologismo \u201cdoomer\u201d (vindo da palavra inglesa \u201cdoom\u201d, que se refere a uma ru\u00edna ou fracasso inevit\u00e1vel) \u00e9 o que melhor nos descreve como gera\u00e7\u00e3o. O termo \u00e9 atribu\u00eddo a uma subcultura online do final dos anos 2000, na qual os usu\u00e1rios se juntavam virtualmente para discutir situa\u00e7\u00f5es \u201capocal\u00edpticas\u201d, como a <a href=\"https:\/\/web.archive.org\/web\/20210105171316\/https:\/www.theglobeandmail.com\/life\/life-after-the-oil-crash\/article18446471\/\">crise do petr\u00f3leo de 2008.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa subcultura cresceu n\u00e3o como um catalisador discutindo o fim do mundo teol\u00f3gico como numa esp\u00e9cie de culto, mas sim a partir do conhecimento das recess\u00f5es econ\u00f4micas, das cat\u00e1strofes ambientais causadas pela a\u00e7\u00e3o humana e da natureza da nossa cumplicidade diante de nossa pr\u00f3pria ru\u00edna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo dos anos, o Doomer se tornou uma caricatura de um cara solit\u00e1rio, egoc\u00eantrico e com uma mentalidade derrotista, frequentemente aparecendo em memes ao lado de sua vers\u00e3o feminina, a garota Doomer. Se voc\u00ea ousar lamentar o pr\u00f3prio futuro em um mundo em chamas, dir\u00e3o que voc\u00ea \u00e9 um Doomer que n\u00e3o liga para nada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Doomer teria tomado \u2013 falando em termos do 4chan \u2013 a \u201cblack-pill\u201d do <a href=\"https:\/\/perspectives-jdmc.in\/volume-iii-may-2023\/\">niilismo e do desespero<\/a>. Desde a COVID-19 e dos lockdowns no mundo todo, uma gera\u00e7\u00e3o inteira chega a ser associada \u00e0 figura do Doomer. Compartilhamos nosso desd\u00e9m pelo processo de destrui\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica do mundo por meio de memes e passamos horas doomscrolling<sup data-fn=\"7ef4fb45-db67-4538-99c7-d82dcd4e3b6b\" class=\"fn\"><a href=\"#7ef4fb45-db67-4538-99c7-d82dcd4e3b6b\" id=\"7ef4fb45-db67-4538-99c7-d82dcd4e3b6b-link\">2<\/a><\/sup> e rolando nossas timelines, lendo manchetes sobre guerras e imperialismo como uma forma de humor que raramente diverte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fomos tragados por um ciclo passivo de testemunho da ru\u00edna da humanidade e das desigualdades de ra\u00e7a, casta, classe e g\u00eanero, sem poder fazer nada em rela\u00e7\u00e3o a isso, porque n\u00e3o conseguimos ver como poder\u00edamos alcan\u00e7ar o poder para fazer qualquer diferen\u00e7a significativa. Mas, \u00e9 claro, isso n\u00e3o reflete a realidade de toda pessoa jovem no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Protestos massivos estouram de novo e de novo \u2013 como os protestos na \u00cdndia contra a nova emenda \u00e0 Lei de Cidadania e do Registro Nacional dos Cidad\u00e3os (CAA-NRC), liderados principalmente por jovens millennials e Gen Z; o movimento Black Lives Matter nos EUA, e as tomadas de governo no Nepal e em Bangladesh.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Criamos slogans virais e repostamos not\u00edcias sobre o n\u00famero cada vez maior de v\u00edtimas na Palestina, enquanto nos deparamos com fotos de criancinhas mortas na tela do celular. Dizemos que condenamos a IA generativa, mas o nosso m\u00edsero sal\u00e1rio vem de institui\u00e7\u00f5es que lucram com o sofrimento. E tudo isso poderia estar, idealmente \u2013 e talvez esteja, mesmo \u2013 nos levando a uma mobiliza\u00e7\u00e3o cada vez maior. Mas n\u00e3o temos certeza disso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os Doomers est\u00e3o certos sobre a situa\u00e7\u00e3o atual do planeta e talvez dev\u00eassemos continuar dando nome aos problemas em vez de nos sujeitarmos \u00e0 desonesta alcunha de que se trata s\u00f3 de uma \u201cmentalidade doomer\u201d. <a href=\"https:\/\/embucomarte.wordpress.com\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/a-obra-de-arte-na-era-de-sua-reprodutibilidade-tc3a9cnica-walter-benjamin1.pdf\">Walter Benjamin escreveu em 1935<\/a> que \u201cautoaliena\u00e7\u00e3o [da humanidade] atingiu o ponto que lhe permite viver sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o como um prazer est\u00e9tico de primeira ordem.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O doomscrolling faz algo similar. Consumimos nossa pr\u00f3pria ru\u00edna, e as gera\u00e7\u00f5es mais velhas dizem que essa \u00e9 uma falha moral nossa, que merecemos a ru\u00edna porque somos pregui\u00e7osos e desinteressados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a><strong>Em defesa da Gen Z<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma gera\u00e7\u00e3o inteira n\u00e3o \u00e9 um mon\u00f3lito, mesmo que nosso estilo de vida cronicamente online tenha nos juntado em um grande grupo de jovens que reclamam e reclamam sem fazer nada que ativamente mude alguma coisa. A necessidade de mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 real, bem como a necessidade de criticarmos, questionarmos e termos conversas dif\u00edceis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas resolver\u00e1 alguma coisa se ficarem culpando uma gera\u00e7\u00e3o que passou a maior parte dos seus anos de forma\u00e7\u00e3o presa no quarto, terminando a escola e a faculdade com formaturas virtuais no Zoom? Eu defendo que n\u00e3o podemos nos mobilizar sem empatia, da mesma forma que n\u00e3o podemos nos mobilizar sem responsabilizar as pessoas certas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os jovens buscam, cada vez mais, um senso de comunidade em ambientes diariamente mais conservadores, um fen\u00f4meno conectado ao que Svetlana Boym chama de \u201cnostalgia restaurativa\u201d, o sentimento de saudade e nostalgia por um passado imaginado em que tudo fazia sentido, em vez de uma \u00e2nsia por um futuro que poder\u00edamos salvar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma pol\u00edtica que zombe do desespero vai, inevitavelmente, fazer com que a juventude fique cada vez mais c\u00ednica, ap\u00e1tica e cheia de fantasias reacion\u00e1rias sobre a <em>ordem.<\/em> Se vamos nos mobilizar de forma significativa, precisamos come\u00e7ar tratando o desespero n\u00e3o como uma fraqueza, mas como uma resposta ao mundo como existe hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado no site <em>Usawa<\/em>, em 29 de maio de 2026. Agradecemos encarecidamente \u00e0 autora por autorizar a tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/usawa.in\/dissent-dispatch\/gen-zs-stand-confronting-a-world-that-refuses-to-get-better-vaishnavi\/\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Giulia Santos Menegaz.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"966c73a5-9ead-4d4f-94a4-c9ef0c2858b2\">Autora iniciante, com mestrado em Artes Liter\u00e1rias pela Ambedkar University Dehli. Sua \u00e1rea de interesse se concentra na internet, na cultura da m\u00eddia, na nostalgia e na vida pol\u00edtica contempor\u00e2nea. <a href=\"#966c73a5-9ead-4d4f-94a4-c9ef0c2858b2-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"7ef4fb45-db67-4538-99c7-d82dcd4e3b6b\">Termo que une as palavras em ingl\u00eas \u201cdoom\u201d, associada a cat\u00e1strofe ou fatalidade, e \u201cscrolling\u201d, o ato de deslizar o dedo pela tela. Ele descreve o h\u00e1bito de consumir, de forma repetitiva e muitas vezes involunt\u00e1ria, not\u00edcias e publica\u00e7\u00f5es que despertam desconforto, medo ou ang\u00fastia, mesmo quando esse consumo j\u00e1 n\u00e3o traz nenhuma informa\u00e7\u00e3o nova ou \u00fatil. Ver <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/style\/doomscrolling-o-que-e-e-como-afeta-a-saude-mental\/\">aqui<\/a>. [N.T.] <a href=\"#7ef4fb45-db67-4538-99c7-d82dcd4e3b6b-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 23 \u2013 outubro de 2026.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nascidos na \u00e9poca das crises e do superaquecimento, o ativismo digital da Gera\u00e7\u00e3o Z reflete um posicionamento cr\u00edtico contra um mundo que n\u00e3o melhora. Essa gera\u00e7\u00e3o tem de navegar as falhas sist\u00eamicas do mundo, enquanto as gera\u00e7\u00f5es anteriores muitas vezes os culpam por condi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o, na verdade, uma heran\u00e7a do passado<\/p>\n","protected":false},"author":91,"featured_media":1853,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Autora iniciante, com mestrado em Artes Liter\u00e1rias pela Ambedkar University Dehli. Sua \u00e1rea de interesse se concentra na internet, na cultura da m\u00eddia, na nostalgia e na vida pol\u00edtica contempor\u00e2nea.\",\"id\":\"966c73a5-9ead-4d4f-94a4-c9ef0c2858b2\"},{\"content\":\"Termo que une as palavras em ingl\u00eas \u201cdoom\u201d, associada a cat\u00e1strofe ou fatalidade, e \u201cscrolling\u201d, o ato de deslizar o dedo pela tela. 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