{"id":206,"date":"2025-01-08T19:22:31","date_gmt":"2025-01-08T22:22:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=206"},"modified":"2025-04-10T14:54:36","modified_gmt":"2025-04-10T17:54:36","slug":"entrevista-com-dan-sinykin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/01\/08\/entrevista-com-dan-sinykin\/","title":{"rendered":"Entrevista com Dan Sinykin"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2023, Dan Sinykin publicou o livro <em>Big Fiction<\/em>. <em>How Conglomeration Changed the Publishing Industry and American Literature<\/em>,<sup data-fn=\"9df28312-1bbe-43d0-977e-cb5fe714d129\" class=\"fn\"><a href=\"#9df28312-1bbe-43d0-977e-cb5fe714d129\" id=\"9df28312-1bbe-43d0-977e-cb5fe714d129-link\">1<\/a><\/sup> trazendo detalhes do processo de aquisi\u00e7\u00e3o das editoras comerciais por parte de empresas de m\u00eddia, formando, assim, os conglomerados editorais que mudaram as formas pelas quais a fic\u00e7\u00e3o passou a ser produzida nos EUA. Com a era da conglomera\u00e7\u00e3o, em que as metas de lucro e a mentalidade corporativa passaram a dominar o cen\u00e1rio, substituindo o trabalho de curadoria dos antigos editores mais preocupados com a qualidade est\u00e9tica e referenciados pela tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, a fic\u00e7\u00e3o tornou-se, segundo Dan Sinykin, mais homog\u00eanea, limitada pelos g\u00eaneros liter\u00e1rios que s\u00e3o promovidos pelas grandes editoras. Contra isso, os autores, por si mesmos ou devido ao seu envolvimento com programas de escrita criativa, buscaram formas de produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria capazes de manter, em parte, a autonomia que marcou durante s\u00e9culos o trabalho do escritor. Abrigados, muitas vezes, em editoras pequenas independentes e sem fins lucrativos, muitos autores deram continuidade ao processo de inova\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o da literatura norte-americana, \u00e0 margem do processo de conglomera\u00e7\u00e3o que atualmente predomina no mercado editorial. Dan Sinykin nos fala um pouco sobre esse processo, os caminhos da literatura nesse per\u00edodo e o destino das editoras com o acirramento da industrializa\u00e7\u00e3o editorial.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Eu sei que voc\u00ea \u00e9 um grande leitor de Bourdieu. Na obra dele os temas da autonomiza\u00e7\u00e3o do campo liter\u00e1rio e da liberdade dos escritores s\u00e3o centrais. No contexto do s\u00e9culo XIX e meados do s\u00e9culo XX, apesar de um j\u00e1 robusto mercado liter\u00e1rio, ainda era poss\u00edvel perceber uma clara preval\u00eancia dos escritores sobre as editoras no tocante ao processo criativo. Hoje, por\u00e9m, parece ter havido uma invers\u00e3o, muito devido ao que voc\u00ea chama de \u201cera dos conglomerados\u201d. Em sua vis\u00e3o, qual foi o principal fator de mudan\u00e7a de l\u00e1 para c\u00e1? E a que se resume a autonomia do escritor hoje em dia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DAN SINYKIN:<\/strong> \u00c9 bom situar a ind\u00fastria editorial na hist\u00f3ria das corpora\u00e7\u00f5es. Antes da d\u00e9cada de 1960, as editoras eram bem pequenas e n\u00e3o consolidadas em sua maioria. Mas, nessa d\u00e9cada, houve uma press\u00e3o nas corpora\u00e7\u00f5es para que elas crescessem com o ac\u00famulo de outros neg\u00f3cios. Algumas cresceram pela aquisi\u00e7\u00e3o de editoras. Uma corpora\u00e7\u00e3o que cont\u00e9m outras corpora\u00e7\u00f5es, especialmente de outras ind\u00fastrias, \u00e9 chamada de conglomerado. Na d\u00e9cada seguinte, os anos 1970, a conglomera\u00e7\u00e3o se intensificou e coincidiu com duas mudan\u00e7as importantes. A primeira: a mentalidade da gest\u00e3o come\u00e7ou a tratar as corpora\u00e7\u00f5es como fic\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas dedicadas, antes e acima de tudo, ao aumento do valor para os acionistas. A segunda: a expans\u00e3o do p\u00f3s-guerra nos EUA, um dos grandes per\u00edodos na hist\u00f3ria do capitalismo, chegou ao fim, inaugurando o que Robert Brenner chama de longa recess\u00e3o, incialmente marcada pela infla\u00e7\u00e3o e desemprego altos, juntamente com a estagna\u00e7\u00e3o. Por que isso tudo \u00e9 importante? Porque essas foram as press\u00f5es que levaram \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o: a press\u00e3o de cima para baixo pelo crescimento trimestral levou a uma s\u00e9rie de interven\u00e7\u00f5es em prol de uma maior racionaliza\u00e7\u00e3o e de c\u00e1lculos mais eficientes sobre como adquirir uma lista de t\u00edtulos lucrativa. Essas interven\u00e7\u00f5es \u2013 compensa\u00e7\u00f5es, melhorias na contabilidade e no or\u00e7amento, mais investimento em marketing e publicidade \u2013 retiraram a autonomia dos autores que publicam em editoras de conglomerados, que t\u00eam que fazer o jogo da conglomera\u00e7\u00e3o. O que n\u00e3o significa dizer que os autores perderam a autonomia; ela apenas se corroeu, especialmente no setor dos conglomerados. Bourdieu entende a autoria como uma ponte que forma um espectro que vai da autonomia \u00e0 heteronomia, de um extremo que se orienta somente para a arte a um outro extremo que se orienta para o mercado. Devido \u00e0 conglomera\u00e7\u00e3o e \u00e0 excessivamente influente profissionaliza\u00e7\u00e3o da escrita atrav\u00e9s dos programas de escrita criativa, o centro de gravidade de todo o campo movimentou-se na dire\u00e7\u00e3o da heteronomia. Ainda existe uma diferen\u00e7a interna entre os conglomerados: a Scribner e a Riverhead s\u00e3o mais aut\u00f4nomas do que a Crown e a Delacorte. E, fora dos conglomerados, os autores t\u00eam consideravelmente uma maior autonomia: em editoras pequenas independentes e sem fins lucrativos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: H\u00e1 algo no seu livro que eu considero precioso, que \u00e9 uma metodologia de leitura incomum. Me parece que voc\u00ea l\u00ea os livros ao mesmo tempo a partir de uma leitura fechada (<em>close reading<\/em>) e uma \u201cleitura do colof\u00e3o\u201d, isto \u00e9, uma leitura a partir da inser\u00e7\u00e3o do livro e do autor no mercado, o que renova o modo de interpretar a obra. Voc\u00ea poderia explicar melhor esse m\u00e9todo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DAN SINYKIN: <\/strong>Fico feliz com essa quest\u00e3o! No come\u00e7o de <em>Big Fiction<\/em> eu observo que os cr\u00edticos tendem a seguir a pista das editoras e prestar maior aten\u00e7\u00e3o na figura cujo nome est\u00e1 estampado ao longo da capa do livro: o autor. Ao inv\u00e9s disso, eu argumento que n\u00f3s dev\u00edamos virar o livro noventa graus e olhar para o pequeno logotipo no final da lombada, o colof\u00e3o da editora, e analisar o livro atrav\u00e9s dele, reposicionando, assim, o autor dentro do seu meio profissional. Interpreta\u00e7\u00f5es esclarecedoras e fascinantes se abrem para n\u00f3s quando fazemos isso. Meu primeiro exemplo \u00e9 <em>Gra\u00e7a Infinita<\/em>. Temos aqui um livro que \u00e9 inteiramente sobre a amea\u00e7a que os grandes conglomerados do entretenimento nos imp\u00f5em. Ele foi publicado pela Hachette, que pertencia naquela \u00e9poca \u00e0 Time Warner, que era o maior conglomerado de entretenimento do mundo. Esse fato n\u00e3o escapou ao David Foster Wallace: ele se preocupava com isso. \u00c9 algo que influenciou o jeito como ele escreveu o livro e a forma como ele lutou por ele com seu agente e seu editor. De repente, o estilo e o enredo do livro entram em foco como negocia\u00e7\u00f5es brilhantes e de alto risco sobre as condi\u00e7\u00f5es materiais do processo de publica\u00e7\u00e3o da obra. A quest\u00e3o \u00e9 investigar como as condi\u00e7\u00f5es materiais mais imediatas da gera\u00e7\u00e3o e da publica\u00e7\u00e3o de um livro d\u00e3o forma ao seu significado, o que requer uma investiga\u00e7\u00e3o do mundo do colof\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Em seu livro, a autofic\u00e7\u00e3o parece ser um reduto onde se refugiam os escritores que querem escapar da influ\u00eancia dos conglomerados editoriais. Anna Kornbluh tem uma opini\u00e3o um pouco diferente sobre a autofic\u00e7\u00e3o, tratando-a como um efeito da cultura do imediatismo do capitalismo muito tardio. Na sua opini\u00e3o, o que h\u00e1 de especial na autofic\u00e7\u00e3o e por que ela, em suas palavras, \u201cse tornou a performance da recupera\u00e7\u00e3o da autoria contra a ag\u00eancia distribu\u00edda\u201d?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DAN SINYKIN:<\/strong> A autofic\u00e7\u00e3o \u00e9 ideal para os conglomerados porque ela serve a dois mestres. Ela serve aos autores, como explicado nessa cita\u00e7\u00e3o: eles conseguem se transformar nos protagonistas de suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias, assumir o controle de suas narrativas. Mas ela tamb\u00e9m serve aos conglomerados, que est\u00e3o no m\u00ednimo t\u00e3o interessados quantos os autores no mito da autoria rom\u00e2ntica: \u00e9 o autor enquanto g\u00eanio que vende livros, n\u00e3o a ind\u00fastria cultural enquanto produtora. A autofic\u00e7\u00e3o dos conglomerados \u00e9, como qualquer livro de conglomerado, uma cria\u00e7\u00e3o coletiva, mas oferecida aqui como a produ\u00e7\u00e3o \u00fanica de um autor carism\u00e1tico \u2013 que n\u00f3s podemos ver de modo \u00edntimo, satisfazendo nossa lasc\u00edvia dentro de uma cultura obcecada pela celebridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Seu livro dedica alguns cap\u00edtulos \u00e0s editoras independentes e sem fins lucrativos, que, na contram\u00e3o dos princ\u00edpios econ\u00f4micos que orientam os conglomerados editoriais, se voltaram para a literatura \u00e9tnica, para as tradu\u00e7\u00f5es e para os experimentalismos liter\u00e1rios, rejeitando a literatura de g\u00eanero (<em>genre<\/em>) t\u00edpica das grandes editoras. Por\u00e9m, como voc\u00ea demonstra, essas editoras dependem em parte de investimento p\u00fablico. Como voc\u00ea v\u00ea o futuro desses empreendimentos sob o segundo governo Trump, num contexto de acirramento da censura e de persegui\u00e7\u00e3o acad\u00eamica? E quais os impactos que a literatura norte-americana pode sofrer?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DAN SINYKIN:<\/strong> Essa \u00e9 uma quest\u00e3o boa e aterrorizante. Conforme os conglomerados seguem racionalizando seus neg\u00f3cios, eles se tornam cada vez menos abertos ao risco est\u00e9tico. As editoras independentes e sem fim lucrativos, ao contr\u00e1rio, assumem esse risco. Temos que entender tr\u00eas modelos de financiamento distintos, aqui. Primeiramente, existe o modelo do patr\u00e3o rico, como Elizabeth Koch, da infame fam\u00edlia Koch, que \u00e9 dona da Catapult, uma editora independente muito importante. Grove Atlantic e New Directions possuem um cat\u00e1logo valioso que funciona como um patr\u00e3o que os mant\u00eam entre os altos e baixos. Em segundo lugar, existem os editores t\u00e3o pequenos que eles podem ser subsidiados por outras carreiras e por qualquer forma de lucro: estou pensando aqui na Dorothy, Sublunary e Two Dollar Radio. Ambos esses modelos t\u00eam menos a temer a segunda presid\u00eancia do Trump do que o terceiro modelo: as que possuem o status de sem fins lucrativos. Nesse caso, a editora \u00e9 subsidiada pela filantropia privada, por funda\u00e7\u00f5es e por governos. Estou pensando na Archipelago, Coffee House, Copper Canyon, Deep Vellum, Graywolf, Hub City, Milkweed, entre muitas outras. Se Trump aniquilar o Fundo Nacional para as Artes (National Endowment for the Arts), um importante financiador dessas editoras, elas ter\u00e3o problemas \u2013 ainda mais se algumas ag\u00eancias de financiamento estatal seguirem o exemplo. E Trump pode muito bem faz\u00ea-lo. Idealmente, o que gostar\u00edamos de ver agora s\u00e3o filantropos e funda\u00e7\u00f5es se organizando para garantir que as editoras sem fins lucrativos possam sobreviver a qualquer coisa que Trump vier a fazer com o financiamento governamental. Eu sei que algo desse tipo est\u00e1 acontecendo e eu espero que possamos aguentar os pr\u00f3ximos quatro anos ou mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: No Brasil tem havido um crescimento na oferta e no interesse pelas oficinas e programas de escrita criativa. Voc\u00ea trata desses programas em seu livro, mostrando como eles produzem o oposto da homogeneiza\u00e7\u00e3o promovida pelos conglomerados editoriais. Por outro lado, aqui no Brasil os cr\u00edticos se ressentem do fato de que esses programas est\u00e3o uniformizando a literatura, mesmo a que n\u00e3o \u00e9 publicada pelas grandes editoras. Como voc\u00ea v\u00ea essa dial\u00e9tica entre grandes editoras e cursos de escrita criativa hoje e nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DAN SINYKIN:<\/strong> Sim, muito importante. Como eu mencionei antes, desde os anos 1980 a profissionaliza\u00e7\u00e3o da autoria devido aos programas de escrita criativa \u00e9 uma transforma\u00e7\u00e3o do campo liter\u00e1rio t\u00e3o significativa quanto a conglomera\u00e7\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o. Esses dois fen\u00f4menos devem ser entendidos juntos. De fato, foi o grande livro de Mark McGurl sobre programas de escrita criativa, <em>The Program Era<\/em>, que me inspirou a escrever <em>Big Fiction<\/em> como uma esp\u00e9cie de complemento ou sequ\u00eancia. Nos EUA, antes do <em>The Program Era<\/em>, ouv\u00edamos um bocado desse tipo de ressentimento do qual voc\u00ea est\u00e1 falando. Muitas pessoas achavam que os programas de escrita criativa produziam uma literatura homog\u00eanea. Mas o livro de McGurl percorre um longo caminho a fim de nos desenganar dessa no\u00e7\u00e3o. Ele mostra a esmagadora variedade de formas, g\u00eaneros e estilos mediante os quais os escritores responderam aos programas de escrita criativa. Eu me esfor\u00e7o bastante para defender um ponto em <em>Big Fiction<\/em>: \u00e9 dif\u00edcil olhar para a fic\u00e7\u00e3o publicada pelas editoras dos conglomerados, de Toni Morrison a Colson Whitehead, Lauren Groff e Jordy Rosenberg, e dizer que ela \u00e9 homog\u00eanea ou ruim. Eu desafio qualquer um que se preocupa com a homogeneidade a passar um tempo fazendo o trabalho bibliogr\u00e1fico de olhar para as listas \u2013 listas de editoras e listas de diplomados em programas de escrita criativa. Mas, ao mesmo tempo, a conglomera\u00e7\u00e3o e a profissionaliza\u00e7\u00e3o diminu\u00edram a tomada de risco est\u00e9tico. Em um estilo dial\u00e9tico cl\u00e1ssico, essas parecem ser antinomias que temos que de fato reconhecer como verdadeiras ao mesmo tempo, formando uma s\u00edntese que nos mostra o que \u00e9 realmente a literatura em 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Por fim, a mercantiliza\u00e7\u00e3o da literatura se alastrou ainda mais por conta do Kindle Direct Publishing e do uso da intelig\u00eancia artificial no processo criativo. A editora Spines, por exemplo, lan\u00e7ou 273 t\u00edtulos somente em setembro de 2024, gra\u00e7as ao uso da IA. Como voc\u00ea enxerga esse novo cap\u00edtulo da conglomera\u00e7\u00e3o e quais impactos voc\u00ea acredita que isso ter\u00e1 na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria mais tradicional?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DAN SINYKIN:<\/strong> Em termos de pura produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, nada foi mais transformador do que a internet. O s\u00e9culo XXI testemunhou uma expans\u00e3o historicamente sem precedentes da publica\u00e7\u00e3o de fic\u00e7\u00e3o em escalas verdadeiramente chocantes. Como voc\u00ea aponta, existe o trabalho de autopublica\u00e7\u00e3o, frequentemente pelo Kindle Direct Publishing. Tamb\u00e9m existe o Wattpad, um site de m\u00eddia social de escrita de fic\u00e7\u00e3o com milh\u00f5es de usu\u00e1rios mensais. E tamb\u00e9m existem os sites de <em>fan fiction<\/em> como o Archive of Our Own, que s\u00e3o extremamente populares. Agora, por cima dessas infraestruturas, temos a IA generativa, que provavelmente vai sobrecarregar a j\u00e1 bizarra prolifera\u00e7\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o. E, contudo, at\u00e9 hoje a fic\u00e7\u00e3o da internet e a ind\u00fastria da publica\u00e7\u00e3o operam mais ou menos como universos paralelos. A IA pode finalmente mudar isso. A maioria das editoras de conglomerados est\u00e1 explorando o que elas podem fazer com a IA. Talvez a IA as ajudar\u00e1 a racionalizar tarefas internas, como escrever as capas. Talvez as editoras possam produzir novos livros com base em outros livros que elas publicaram e dos quais elas det\u00eam os direitos. Se a IA vai ser capaz de produzir fic\u00e7\u00e3o que algu\u00e9m queira ler para al\u00e9m da novidade que ela apresenta \u00e9 algo que ainda est\u00e1 para ser estabelecido. Se ela for capaz, eu suspeito que veremos uma rejei\u00e7\u00e3o feroz por parte do lado aut\u00f4nomo do campo liter\u00e1rio, que vai condenar a fic\u00e7\u00e3o feita pela IA e proclamar o pr\u00f3prio trabalho manual como fonte de distin\u00e7\u00e3o. Mas, na verdade, em se tratando de IA \u00e9 muito dif\u00edcil enxergar muito mais do que uns poucos anos: pode ser uma bolha que vai estourar da mesma forma que a moda das criptomoedas; ou ela vai proporcionar mudan\u00e7as mais permanentes nas nossas pr\u00e1ticas de escrita. Termino com uma recomenda\u00e7\u00e3o: para quem tiver interesse em aprender mais sobre a fic\u00e7\u00e3o da internet, leia <em>Everything and Less<\/em>, de Mark McGurl.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>* * * <\/strong><\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"9df28312-1bbe-43d0-977e-cb5fe714d129\"><a href=\"https:\/\/cup.columbia.edu\/book\/big-fiction\/9780231192941\">SINYKIN, Dan. <em>Big Fiction<\/em>. <em>How Conglomeration Changed the Publishing Industry and American Literature<\/em>. Nova York: Columbia University Press, 2023<\/a>. <a href=\"#9df28312-1bbe-43d0-977e-cb5fe714d129-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 2 \u2013 janeiro de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O professor da Emory Univesity e autor do livro &#8220;Big Fiction&#8221; fala com o site Carbono sobre a conglomera\u00e7\u00e3o e a publica\u00e7\u00e3o de fic\u00e7\u00e3o nos EUA<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":208,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"<a href=\\\"https:\/\/cup.columbia.edu\/book\/big-fiction\/9780231192941\\\">SINYKIN, Dan. <em>Big Fiction<\/em>. <em>How Conglomeration Changed the Publishing Industry and American Literature<\/em>. 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