{"id":292,"date":"2025-02-11T19:31:34","date_gmt":"2025-02-11T22:31:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=292"},"modified":"2025-03-09T13:24:30","modified_gmt":"2025-03-09T16:24:30","slug":"o-futuro-vale-a-pena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/02\/11\/o-futuro-vale-a-pena\/","title":{"rendered":"O Futuro Vale a Pena?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Liliana Doganova<sup data-fn=\"8b7684f9-d177-477f-b731-209ee829903d\" class=\"fn\"><a href=\"#8b7684f9-d177-477f-b731-209ee829903d\" id=\"8b7684f9-d177-477f-b731-209ee829903d-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2008, foi descoberto petr\u00f3leo na localidade de Ombrina Mare, perto da costa Adri\u00e1tica da It\u00e1lia, e as companhias exploradoras que confirmaram a exist\u00eancia do petr\u00f3leo solicitaram uma licen\u00e7a para extra\u00ed-lo. O projeto de perfura\u00e7\u00e3o levantou forte oposi\u00e7\u00e3o local e nacional, levando a enormes manifesta\u00e7\u00f5es de ambientalistas na regi\u00e3o de Abruzzo, um pedido por referendo em dez regi\u00f5es italianas e, finalmente, decretos legislativos que baniram projetos pr\u00f3ximos \u00e0 costa, tais como esse. Em 2016, o pedido de concess\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo em Ombrina Mare foi finalmente rejeitado pelo governo italiano. Em 2017, no entanto, a Rockhopper Exploration plc, uma empresa sediada no Reino Unido que havia adquirido a companhia requisitante alguns anos antes, deu in\u00edcio a procedimentos arbitrais internacionais contra a Rep\u00fablica da It\u00e1lia, a fim de, como descreveu o seu CEO, \u201cproteger nosso investimento no projeto Ombrina Mare\u201d e \u201cproteger os interesses de seus acionistas\u201d.<sup data-fn=\"aa25944f-851b-41e5-988d-b5208af74c4d\" class=\"fn\"><a href=\"#aa25944f-851b-41e5-988d-b5208af74c4d\" id=\"aa25944f-851b-41e5-988d-b5208af74c4d-link\">2<\/a><\/sup> &nbsp;Em 2022, o tribunal concedeu \u20ac184 milh\u00f5es a Rockhopper, a serem pagos pelo governo italiano como compensa\u00e7\u00e3o pelo investimento que a companhia perdeu devido \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o que, exatamente, representa essa etiqueta de pre\u00e7o de \u20ac184 milh\u00f5es? A Rockhopper n\u00e3o teve que desmontar as instala\u00e7\u00f5es de perfura\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, demitir empregados ou extinguir contratos. Tudo o que a Rockhopper tinha era uma expectativa: uma expectativa de extra\u00e7\u00e3o de toneladas de petr\u00f3leo e de somas de fluxos de caixa a ser geradas no futuro. Essa expectativa foi julgada suficientemente leg\u00edtima a ponto de que a decep\u00e7\u00e3o foi considerada uma \u201cexpropria\u00e7\u00e3o\u201d, de tal modo valiosa que chegou a \u20ac184 milh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para chegar a esse valor, o tribunal usou um m\u00e9todo conhecido como an\u00e1lise de fluxo de caixa descontado (DCF, na sigla em ingl\u00eas),<sup data-fn=\"c191b62e-23a7-4323-a0a4-0f49254681f4\" class=\"fn\"><a href=\"#c191b62e-23a7-4323-a0a4-0f49254681f4\" id=\"c191b62e-23a7-4323-a0a4-0f49254681f4-link\">3<\/a><\/sup> geralmente utilizado por firmas para tomar decis\u00f5es acerca de investimentos. Para decidir se um investimento vale a pena, diz o m\u00e9todo, deve-se calcular o seu valor (referido como \u201cvalor presente l\u00edquido\u201d, ou NPV na sigla em ingl\u00eas) projetando os fluxos de custos e vantagens que o investimento provavelmente pode gerar no futuro. Esses fluxos futuros s\u00e3o ent\u00e3o traduzidos em valores presentes mediante \u201cdescontos\u201d \u2013 isto \u00e9, reduzindo o seu valor de acordo com um fator chamado \u201ctaxa de desconto\u201d. Assim como se aplica uma taxa de juros para determinar o <em>valor futuro<\/em> de uma soma de dinheiro no presente, a taxa de desconto \u00e9 feita para determinar o <em>valor presente<\/em> de uma quantia de dinheiro futura, baseando-se na suposi\u00e7\u00e3o de que o d\u00f3lar hoje vale mais do que o d\u00f3lar amanh\u00e3. Foi essa linha de racioc\u00ednio que o tribunal que recompensou a Rockhopper em \u20ac184 milh\u00f5es assumiu: um juiz pensando como um investidor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Descontando o futuro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Descontos e valor presente foram formulados no come\u00e7o do s\u00e9culo XX pelo economista norte-americano Irving Fisher como o \u201cprinc\u00edpio da capitaliza\u00e7\u00e3o\u201d. Fisher argumentava que o capital devia ser entendido n\u00e3o como um tipo espec\u00edfico de entidade, mas como uma rela\u00e7\u00e3o espec\u00edfica com o tempo, que era decididamente orientada para o futuro, na qual <em>qualquer<\/em> entidade poderia envolver, e portanto se tornar, um capital. Nesse sentido, o capital, de acordo com essa formula\u00e7\u00e3o, \u00e9 qualquer coisa que produzir\u00e1 fluxos de receita durante um certo per\u00edodo de tempo, com o valor previsto da sua renda futura determinando o seu valor no presente. Fisher deu o seguinte exemplo: \u00e9 o pomar que produz ma\u00e7\u00e3s (observe que o pomar \u00e9 considerado como o capital, precisamente porque ele \u00e9 envolvido numa rela\u00e7\u00e3o com o futuro definida como a gera\u00e7\u00e3o de um fluxo de ma\u00e7\u00e3s), mas \u00e9 o valor das ma\u00e7\u00e3s que produz o valor do pomar. Assim, o valor depende somente do futuro, n\u00e3o do presente nem do passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa certamente foi a linha de racioc\u00ednio do tribunal quando ele escolheu n\u00e3o adotar a proposta da It\u00e1lia de avaliar o investimento da Rockhopper baseado nos custos em que a empresa de fato incorreu (\u20ac2 milh\u00f5es) ou no pre\u00e7o que ela pagou para adquirir a empresa de explora\u00e7\u00e3o que incialmente descobriu a reserva de petr\u00f3leo e solicitou a licen\u00e7a de explora\u00e7\u00e3o (\u20ac36 milh\u00f5es).<sup data-fn=\"c4aa00d3-b67e-42ce-abce-31f938d2b478\" class=\"fn\"><a href=\"#c4aa00d3-b67e-42ce-abce-31f938d2b478\" id=\"c4aa00d3-b67e-42ce-abce-31f938d2b478-link\">4<\/a><\/sup> De acordo com a corte, o valor da Ombrina Mare dependia do futuro, n\u00e3o do passado. Mas futuro de quem, exatamente? A corte decidiu que o futuro que importava era aquele antevisto pelo investidor, ignorando um conjunto de outros futuros poss\u00edveis. Nos protestos que aconteceram em Abruzzo, por exemplo, os cidad\u00e3os imaginaram criar um parque nacional e apoiar o ecoturismo na \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos debates sobre o uso do m\u00e9todo de fluxo de caixa descontado em acordos de disputa envolvendo investidor-estado e em arbitragem internacional, para al\u00e9m do caso italiano da Ombrina Mare, comentaristas observaram que a infla\u00e7\u00e3o dos danos baseada em proje\u00e7\u00f5es futuras enraizadas nas pr\u00e1ticas coorporativas apresenta um s\u00e9rio risco \u00e0s capacidades governamentais de introduzir pol\u00edticas, especialmente aquelas relativas \u00e0 crise clim\u00e1tica e ambiental. Em outras palavras, ao nos comprometermos com o futuro imaginado pelas corpora\u00e7\u00f5es, estamos arriscados a criar um \u201ccalafrio regulat\u00f3rio\u201d que poderia p\u00f4r em perigo os futuros de energia limpa dos pa\u00edses. Que esses futuros tenham sido descartados \u00e9 algo que levanta uma quest\u00e3o. Nossa rela\u00e7\u00e3o com o futuro foi inclu\u00edda na do investidor? E, ainda mais importante, o princ\u00edpio de capitaliza\u00e7\u00e3o, embutido em mecanismos de avalia\u00e7\u00e3o como a f\u00f3rmula de fluxo de caixa descontado, seria um condutor da crise clim\u00e1tica e ecol\u00f3gica? Responder essas perguntas requer mergulhar em processos espec\u00edficos de capitaliza\u00e7\u00e3o, os quais, como escreve o historiador Jonathan Levy, s\u00e3o t\u00e3o ub\u00edquos sob a \u00e9gide do capitalismo \u201cque se tornou conceb\u00edvel como uma forma gen\u00e9rica de a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica e valora\u00e7\u00e3o\u201d.<sup data-fn=\"67e246b3-dd19-4e53-b1ea-8b52a30394b1\" class=\"fn\"><a href=\"#67e246b3-dd19-4e53-b1ea-8b52a30394b1\" id=\"67e246b3-dd19-4e53-b1ea-8b52a30394b1-link\">5<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Uma contradi\u00e7\u00e3o inerente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O processo de capitaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um modo de envolvimento com o futuro que repousa em uma contradi\u00e7\u00e3o.<sup data-fn=\"97d82e25-30dc-4aa7-86f8-983d4892339c\" class=\"fn\"><a href=\"#97d82e25-30dc-4aa7-86f8-983d4892339c\" id=\"97d82e25-30dc-4aa7-86f8-983d4892339c-link\">6<\/a><\/sup> Por um lado, o futuro \u00e9 avaliado como a temporalidade relevante para a a\u00e7\u00e3o: para decidir o que deve ser feito agora, deve-se olhar para o futuro mais do que para o presente ou o passado. A decis\u00e3o do tribunal com rela\u00e7\u00e3o a Ombrina Mare resume bem essa avalia\u00e7\u00e3o do futuro: o que importa n\u00e3o \u00e9 o que a empresa fez no passado, mas o que ela poderia ter feito no futuro, caso esse futuro existisse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, o futuro \u00e9 desvalorizado como um tempo menos valioso do que o presente. Essa desvaloriza\u00e7\u00e3o \u00e9 capturada na taxa de desconto: um evento que ocorre mais tarde no tempo \u00e9 \u201cdescontado\u201d quando seu valor \u00e9 traduzido no presente. A redu\u00e7\u00e3o no valor \u00e9 ainda maior quanto mais distante no tempo est\u00e1 o evento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa rela\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria com o futuro esteve incorporada no processo de capitaliza\u00e7\u00e3o desde as primeiras tentativas de estend\u00ea-la para al\u00e9m do \u00e2mbito das finan\u00e7as, de onde ela se origina. Uma das primeiras formaliza\u00e7\u00f5es da f\u00f3rmula do fluxo de caixa descontado emergiu da silvicultura cient\u00edfica na Alemanha do s\u00e9culo XIX, como parte integrante do desenvolvimento da no\u00e7\u00e3o de \u201csustentabilidade\u201d.<sup data-fn=\"273e09ec-df5a-41c5-a822-515bd33eb3b5\" class=\"fn\"><a href=\"#273e09ec-df5a-41c5-a822-515bd33eb3b5\" id=\"273e09ec-df5a-41c5-a822-515bd33eb3b5-link\">7<\/a><\/sup> Os silvicultores propuseram que o valor das florestas derivava de suas prov\u00e1veis produ\u00e7\u00f5es de lenha e madeira. Uma f\u00f3rmula conhecida como F\u00f3rmula Faustmann, uma antecessora do fluxo de caixa descontado, foi apresentada como um m\u00e9todo para determinar o valor dessas florestas, com suas produ\u00e7\u00f5es futuras retraduzidas em seu valor presente mediante o uso de uma taxa de desconto. Mais importante, a f\u00f3rmula foi apresentada n\u00e3o somente como um meio de avaliar as florestas, mas tamb\u00e9m como um meio de determinar seu melhor gerenciamento poss\u00edvel. Por exemplo, as \u201cdura\u00e7\u00f5es de rota\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 isto \u00e9, a idade na qual as \u00e1rvores devem ser cortadas \u2013 tornaram-se uma fun\u00e7\u00e3o de maximiza\u00e7\u00e3o do valor das florestas. E porque esse valor era entendido como derivado de um futuro que tinha que ser descontado, a conclus\u00e3o era diminuir as dura\u00e7\u00f5es das rota\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dessa forma, com um simples movimento, o desconto for\u00e7ou uma mudan\u00e7a de perspectiva orientada para o futuro e engendrou um efeito de acelera\u00e7\u00e3o, conduzido pela ideia de que o tempo tinha um custo, de que a floresta era um capital para ser avaliado pelas suas futuras produ\u00e7\u00f5es e de que garantir o futuro das \u00e1rvores exigia um tipo de sacrif\u00edcio e portanto uma recompensa para o investidor cujo capital estava preso a elas.<sup data-fn=\"b80ac531-260b-41ae-9000-ad9c4ad765c5\" class=\"fn\"><a href=\"#b80ac531-260b-41ae-9000-ad9c4ad765c5\" id=\"b80ac531-260b-41ae-9000-ad9c4ad765c5-link\">8<\/a><\/sup> Paradoxalmente, a preocupa\u00e7\u00e3o com a sustentabilidade e a proemin\u00eancia do futuro de curto prazo foram os produtos do mesmo processo: o processo de capitaliza\u00e7\u00e3o. Na pr\u00e1tica, como mostrou James C. Scott, o \u201csonho ut\u00f3pico\u201d de sustentabilidade da silvicultura cient\u00edfica falhou no encontro entre os \u201cadministradores da floresta\u201d e os \u201cnaturalistas da floresta\u201d \u2013 ou seja, uma floresta cujo crescimento dependia de processos ecol\u00f3gicos complexos e da biodiversidade local.<sup data-fn=\"2cc70e75-cd08-493f-b154-27a4bd7a8879\" class=\"fn\"><a href=\"#2cc70e75-cd08-493f-b154-27a4bd7a8879\" id=\"2cc70e75-cd08-493f-b154-27a4bd7a8879-link\">9<\/a><\/sup> Apesar dessa falha, a concep\u00e7\u00e3o do futuro como investimento embutida no processo de capitaliza\u00e7\u00e3o permaneceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pol\u00edtica p\u00fablica como investimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda estamos lutando com o emaranhado de impulsos de valorizar e de desvalorizar o futuro em nossas respostas \u00e0 crise ecol\u00f3gica e clim\u00e1tica hoje em dia. Desde os seus primeiros experimentos no s\u00e9culo XIX e desde sua formaliza\u00e7\u00e3o na teoria econ\u00f4mica no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o desconto se enraizou nas pr\u00e1ticas de tomadas de decis\u00e3o em mercados e em pol\u00edticas p\u00fablicas, conforme continuava a evoluir. Na metade do s\u00e9culo XX, seguindo os avan\u00e7os nas finan\u00e7as corporativas e no or\u00e7amento do capital, a f\u00f3rmula do fluxo de caixa descontado se transformou em uma ferramenta padr\u00e3o que os gerentes deviam aplicar para valorizar os investimentos a fim de ir ao encontro dos interesses dos seus acionistas. A taxa de desconto foi redefinida como o custo do capital \u2013 isto \u00e9, a recompensa exigida pelos investidores por injetar capital em uma firma. Ao mesmo tempo, os princ\u00edpios do desconto se expandiram para al\u00e9m do gerenciamento corporativo e para dentro das legisla\u00e7\u00f5es mediante ferramentas semelhantes, como a an\u00e1lise de custo-benef\u00edcio (CBA, na sigla em ingl\u00eas). A an\u00e1lise de custo-benef\u00edcio transformou as pol\u00edticas p\u00fablicas em um outro tipo de investimento: uma pol\u00edtica s\u00f3 valia a pena de ser implementada se os seus benef\u00edcios futuros superassem os custos futuros em termos puramente monet\u00e1rios, tudo retraduzido no presente atrav\u00e9s de uma taxa de desconto \u201csocial\u201d. As desvantagens dessa vis\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas como investimento se tornaram palp\u00e1veis quando se tratou de pol\u00edticas ambientais e clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O hist\u00f3rico Relat\u00f3rio Stern sobre a Economia da Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica, um relat\u00f3rio de 2006 feito pelo economista Nicholas Stern para o governo do Reino Unido,<sup data-fn=\"ea04d664-2e44-4dc7-b067-35cb1b610238\" class=\"fn\"><a href=\"#ea04d664-2e44-4dc7-b067-35cb1b610238\" id=\"ea04d664-2e44-4dc7-b067-35cb1b610238-link\">10<\/a><\/sup> revelou a incompatibilidade entre o uso do desconto na an\u00e1lise de custo-benef\u00edcio e a tentativa de lidar com a crise clim\u00e1tica e ecol\u00f3gica. Quando vistas pelas lentes da an\u00e1lise de custo-benef\u00edcio, as pol\u00edticas clim\u00e1ticas ambiciosas se tornam proposi\u00e7\u00f5es in\u00fateis: seus benef\u00edcios finais s\u00e3o na verdade t\u00e3o distantes no tempo, que eles s\u00e3o excessivamente descontados e mal podem se comparar aos seus custos iniciais, muitos dos quais est\u00e3o muito mais pr\u00f3ximos no tempo. O relat\u00f3rio de Stern prop\u00f4s usar taxas de desconto pr\u00f3ximas a zero a fim de fazer a contabilidade futura tanto quanto a do presente, argumentando que devemos \u201ctratar o bem-estar das gera\u00e7\u00f5es futuras em paralelo com o nosso pr\u00f3prio bem-estar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A proposta de usar taxas de desconto iguais a zero foi duramente criticada por outros economistas, mais destacadamente William Nordhaus, que argumentou que a taxa de desconto que determina o \u201cequil\u00edbrio eficiente entre o custo da redu\u00e7\u00e3o nas emiss\u00f5es hoje e o benef\u00edcio da redu\u00e7\u00e3o de danos ao clima no futuro\u201d deveria ser \u201co retorno em capital\u201d.<sup data-fn=\"907619f1-d5a8-4343-ab1e-414becd4ec85\" class=\"fn\"><a href=\"#907619f1-d5a8-4343-ab1e-414becd4ec85\" id=\"907619f1-d5a8-4343-ab1e-414becd4ec85-link\">11<\/a><\/sup> De acordo com Norhaus, esse retorno em capital, \u201cque mede a produ\u00e7\u00e3o l\u00edquida dos investimentos em capital, educa\u00e7\u00e3o e tecnologia\u201d, era \u201cobserv\u00e1vel no mercado\u201d e, mais importante, muito maior do que as pequenas taxas de desconto propostas por Stern. O seu argumento, em resumo, era o de que a desvaloriza\u00e7\u00e3o do futuro pertencia \u00e0 natureza inerente da economia, e n\u00e3o era uma quest\u00e3o de vontade pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Um futuro preso na capitaliza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muito do debate que resultou da assim chamada controv\u00e9rsia Stern\/Nordhaus se focou no tamanho da taxa de desconto e, portanto, no problema de desvaloriza\u00e7\u00e3o do futuro. Menos aten\u00e7\u00e3o foi dada ao seu princ\u00edpio g\u00eameo: a valoriza\u00e7\u00e3o do futuro. O Relat\u00f3rio Stern endossou explicitamente a concep\u00e7\u00e3o de futuro do investidor. Nessa vis\u00e3o, mitiga\u00e7\u00e3o \u201ctem que ser vista como um investimento, um custo incorrendo agora e nas pr\u00f3ximas poucas d\u00e9cadas para evitar os riscos de consequ\u00eancias muito severas no futuro\u201d. O futuro \u00e9 valorizado como a temporalidade relevante para a a\u00e7\u00e3o no presente, mas tamb\u00e9m como uma temporalidade radicalmente diferente da do presente. A no\u00e7\u00e3o de \u201cgera\u00e7\u00f5es futuras\u201d ilustra essa separa\u00e7\u00e3o entre o presente e o futuro. Ela encarna a figura da alteridade: um Outro com quem nos preocupamos de modo for\u00e7ado, precisamente porque esse Outro aparece bem distante de n\u00f3s, e frequentemente \u00e9 retratado como diferente, qualitativamente novo, \u00e0s vezes mais rico e mais esperto, \u00e0s vezes mais fr\u00e1gil, mas sempre desconhecido em grande medida.<sup data-fn=\"fbf929e9-0acb-42eb-9bf7-61526af82b38\" class=\"fn\"><a href=\"#fbf929e9-0acb-42eb-9bf7-61526af82b38\" id=\"fbf929e9-0acb-42eb-9bf7-61526af82b38-link\">12<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O futuro \u2013 povoado pela figura do investidor e por suas expectativas de fluxos de caixa futuros, ou pela figura das gera\u00e7\u00f5es futuras e seus desejos desconhecidos e suas condi\u00e7\u00f5es de vida \u2013 vale a pena? Nossa crescente incapacidade aparente de se importar com o futuro pode estar ligada ao tipo de rela\u00e7\u00e3o com o futuro que o capitalismo cultivou: uma rela\u00e7\u00e3o presa ao mecanismo da capitaliza\u00e7\u00e3o? E essa rela\u00e7\u00e3o poderia ser reinventada? H\u00e1 alguns meses, dezoito crian\u00e7as do Estado da Calif\u00f3rnia entraram com um processo contra a Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental dos Estados Unidos (EPA), alegando que o uso, por parte da Ag\u00eancia, do desconto nas an\u00e1lises de custo-benef\u00edcio das pol\u00edticas clim\u00e1ticas as discriminava. O argumento se sustenta em uma poderosa invers\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o presente\/futuro: do presente das gera\u00e7\u00f5es futuras \u2013 uma preocupa\u00e7\u00e3o ilus\u00f3ria \u2013 para o futuro das gera\u00e7\u00f5es presentes, um futuro tang\u00edvel porque \u00e9 visivelmente presente. O argumento ent\u00e3o esbo\u00e7a uma alternativa ao futuro do investidor que prevaleceu at\u00e9 hoje. Para romper os elos entre o capitalismo e a crise ecol\u00f3gica e clim\u00e1tica, temos que urgentemente transformar nossa rela\u00e7\u00e3o com o futuro, nos libertando da l\u00f3gica da capitaliza\u00e7\u00e3o e de seu tratamento desigual do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>* * * <\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"187\" height=\"65\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Captura-de-tela-2025-02-11-171638.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-306\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><a href=\"https:\/\/www.break-down.org\/\">https:\/\/www.break-down.org\/<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado na <em>The Break Down<\/em>, em 18 de julho de 2024. Agradecemos encarecidamente \u00e0 revista e \u00e0 autora por cederem os direitos da tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/www.break-down.org\/post\/is-the-future-worth-it\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Barros.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"8b7684f9-d177-477f-b731-209ee829903d\">Professora Associada no Centre de Sociologie de l&#8217;Innovation, Mines-ParisTech, PSL University. A sua pesquisa explora as pr\u00e1ticas de valoriza\u00e7\u00e3o da economia. Seu \u00faltimo livro, <em><a href=\"https:\/\/www.zonebooks.org\/books\/157-discounting-the-future-the-ascendancy-of-a-political-technology\">Discounting the Future: The Ascendancy of a Political Technology<\/a>, <\/em>examina a hist\u00f3ria e a sociologia da t\u00e9cnica econ\u00f4mica do desconto<em>.<\/em> <a href=\"#8b7684f9-d177-477f-b731-209ee829903d-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"aa25944f-851b-41e5-988d-b5208af74c4d\">\u201cEncetamento de Arbitra\u00e7\u00e3o Internacional\u201d, Rockhopper Exploration. Dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/rockhopperexploration.co.uk\/2017\/03\/commencement-international-arbitration\/\">aqui<\/a>. <a href=\"#aa25944f-851b-41e5-988d-b5208af74c4d-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"c191b62e-23a7-4323-a0a4-0f49254681f4\">Toni Marzal. \u201cPolluter Doesn\u2019t Pay: The Rockhopper v Italy Award\u201d, <em>EJIL: Talk!<\/em> Blog do The European Journal of International Law, 19 de janeiro de 2023. Dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/www.ejiltalk.org\/polluter-doesnt-pay-the-rockhopper-v-italy-award\/\">aqui<\/a>. <a href=\"#c191b62e-23a7-4323-a0a4-0f49254681f4-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"c4aa00d3-b67e-42ce-abce-31f938d2b478\">Ibid. <a href=\"#c4aa00d3-b67e-42ce-abce-31f938d2b478-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 4 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"67e246b3-dd19-4e53-b1ea-8b52a30394b1\">Jonathan Levy. \u201cCapital as Process and the History of Capitalism\u201d, <em>Business History Review<\/em>, 2017, vol. 91, no. 3, pp. 483-510. <a href=\"#67e246b3-dd19-4e53-b1ea-8b52a30394b1-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 5 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"97d82e25-30dc-4aa7-86f8-983d4892339c\">Liliana Doganova. <em>Discounting the Future: The Ascendancy of Political Technology<\/em>. Zone Books, 2024. <a href=\"#97d82e25-30dc-4aa7-86f8-983d4892339c-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 6 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"273e09ec-df5a-41c5-a822-515bd33eb3b5\">Richard H\u00f6lzl. \u201cHistoricizing Sustainability: German Scientific Forestry in the Eighteenth and Nineteenth Centuries\u201d, <em>Science as Culture<\/em>, 2010, vol. 19, no. 4, pp. 431-460. <a href=\"#273e09ec-df5a-41c5-a822-515bd33eb3b5-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 7 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"b80ac531-260b-41ae-9000-ad9c4ad765c5\">Liliana Doganova. <em>op.cit.<\/em>. <a href=\"#b80ac531-260b-41ae-9000-ad9c4ad765c5-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 8 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"2cc70e75-cd08-493f-b154-27a4bd7a8879\">James Scott. <em>Seeing Like a State: How Certain Schemes to Improve the Human Condition Have Failed<\/em>. Yale University Press, 1998. <a href=\"#2cc70e75-cd08-493f-b154-27a4bd7a8879-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 9 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"ea04d664-2e44-4dc7-b067-35cb1b610238\">Nicholas Stern. <em>The Economics of Climate Change: The Stern Review<\/em>. Cambridge University Press, 2007. <a href=\"#ea04d664-2e44-4dc7-b067-35cb1b610238-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 10 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"907619f1-d5a8-4343-ab1e-414becd4ec85\">William Nordhaus. \u201cCritical Assumptions in the Stern Review on Climate Change\u201d, <em>Science<\/em>, 2007, vol. 317, pp. 201-202. <a href=\"#907619f1-d5a8-4343-ab1e-414becd4ec85-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 11 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"fbf929e9-0acb-42eb-9bf7-61526af82b38\">Julia Nordblad. \u201cConcepts of Future Generations: Four Contemporary Examples\u201d. In: Jenny Andersson; Sandra Kemps (eds.) <em>Futures<\/em>. Oxford University Press, 2021. <a href=\"#fbf929e9-0acb-42eb-9bf7-61526af82b38-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 12 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 3 \u2013 fevereiro de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Precisamos urgentemente transformar nossa rela\u00e7\u00e3o com o futuro, libertando-o da l\u00f3gica da capitaliza\u00e7\u00e3o e do seu tratamento desigual do tempo<\/p>\n","protected":false},"author":10,"featured_media":308,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Professora Associada no Centre de Sociologie de l'Innovation, Mines-ParisTech, PSL University. 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