{"id":337,"date":"2025-02-11T19:31:57","date_gmt":"2025-02-11T22:31:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=337"},"modified":"2025-03-09T13:24:18","modified_gmt":"2025-03-09T16:24:18","slug":"entrevista-com-luis-carlos-barragan-castro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/02\/11\/entrevista-com-luis-carlos-barragan-castro\/","title":{"rendered":"Entrevista com Luis Carlos Barrag\u00e1n Castro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado em 2024, <em>Par\u00e1sitos perfectos<\/em><sup data-fn=\"e19dce75-b4e6-4ac2-9510-37363e388ea3\" class=\"fn\"><a href=\"#e19dce75-b4e6-4ac2-9510-37363e388ea3\" id=\"e19dce75-b4e6-4ac2-9510-37363e388ea3-link\">1<\/a><\/sup> \u00e9 um livro de contos do autor Luis Carlos Barrag\u00e1n Castro, que chamou a aten\u00e7\u00e3o de figuras importantes do cen\u00e1rio liter\u00e1rio, tais como Mariana Enr\u00edquez. Nascido em Bogot\u00e1, na Col\u00f4mbia, Barrag\u00e1n Castro rapidamente ganhou os holofotes da literatura especulativa latino-americana gra\u00e7as \u00e0s suas cria\u00e7\u00f5es ins\u00f3litas, nas quais despontam temas caros \u00e0 fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, tais como a simbiose humano-m\u00e1quina e a presen\u00e7a de dispositivos tecnol\u00f3gicos futuristas. Al\u00e9m disso, sua fic\u00e7\u00e3o se comp\u00f5e, tamb\u00e9m, de todo um rol de criaturas que v\u00e3o desde animais que s\u00e3o usados como carros, passando por humanos que fazem dos parasitas uma forma de estiliza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo. Nos contos de Barrag\u00e1n Castro, a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica alcan\u00e7a o potencial especulativo que salienta os aspectos mais relevantes do nosso presente habitado pelas m\u00e1quinas, pela intelig\u00eancia artificial, mas tamb\u00e9m pela aliena\u00e7\u00e3o diante da tecnologia e de tudo o que compromete a sociedade e o meio ambiente. Nesta entrevista que o escritor gentilmente nos concedeu, o novo boom da literatura latino-americana, a import\u00e2ncia da literatura de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e alguns temas da biologia s\u00e3o abordados \u00e0 luz do Antropoceno. <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: O seu livro \u00e9 composto de v\u00e1rios contos que podem ser lidos de forma independente, mas que tamb\u00e9m se entrela\u00e7am, seja pela tem\u00e1tica, seja pela reincid\u00eancia de elementos comuns, compondo um universo de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica absolutamente singular. Na sua opini\u00e3o, qual \u00e9 o lugar da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica entre a literatura, tendo em mente os problemas do Antropoceno?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LUIS CARLOS BARRAG\u00c1N CASTRO<\/strong>: Pode ser que durante boa parte da hist\u00f3ria da literatura a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica tenha tido um lugar mais ou menos marginal, e que durante a maior parte do s\u00e9culo XX muitos acad\u00eamicos de literatura n\u00e3o a tenham levado a s\u00e9rio. Eu acredito que na verdade \u00e9 o contr\u00e1rio no s\u00e9culo XXI. A literatura de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ocupa um lugar central em nosso mundo e em nossa \u00e9poca, precisamente porque cada vez mais nosso mundo \u00e9 composto por m\u00e1quinas ou por coisas feitas por m\u00e1quinas. A fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica serve, entre outras coisas, para p\u00f4r no centro a pergunta sobre o que somos quando nos colocamos frente a frente com a t\u00e9cnica, a ci\u00eancia e as transforma\u00e7\u00f5es produzidas pela tecnologia. Foi justamente a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que evoluiu para refletir sobre e imaginar o que est\u00e1 nos transformando agora mesmo, ao menos para ter uma linguagem que nos permita identificar esses problemas, ou esses caminhos, ou para descrever o que sentimos quando estamos sendo literalmente duplicados pela intelig\u00eancia artificial, e, tamb\u00e9m, para refletir diante das modifica\u00e7\u00f5es maqu\u00ednicas e planet\u00e1rias a que chamamos de Antropoceno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: A geografia do livro \u00e9 relativamente pr\u00f3xima \u00e0 divis\u00e3o geopol\u00edtica atual. Por\u00e9m, nos contos, a hist\u00f3ria e o clima s\u00e3o indeterminados. A mistura de avan\u00e7o tecnol\u00f3gico com aspectos intensificados da barb\u00e1rie capitalista atual coloca o livro em um futuro impreciso, em que os efeitos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica e da reprodu\u00e7\u00e3o do capital teriam produzido consequ\u00eancias dr\u00e1sticas. Em que medida os seus contos real\u00e7am os elementos do nosso presente momento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LUIS CARLOS BARRAG\u00c1N CASTRO<\/strong>: Como disse Ursula Le Guin, \u201ca fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica n\u00e3o \u00e9 preditiva, \u00e9 descritiva\u201d. Essa ideia me parece muito correta; a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica n\u00e3o fala do futuro, mas sim decorre da especula\u00e7\u00e3o sobre o que acontece no presente, de critic\u00e1-lo ou inclusive de apreci\u00e1-lo. \u00c9 uma rea\u00e7\u00e3o ao presente. Meu trabalho consistiu, em parte, em identificar as coisas que acontecem ao redor de n\u00f3s e exager\u00e1-las um pouco para que possamos not\u00e1-las melhor. N\u00e3o como um soci\u00f3logo, necessariamente, mas sim como um ator que viveu essas din\u00e2micas, tanto dist\u00f3picas quanto ut\u00f3picas, do nosso presente, e que se sente sobrecarregado por essas mesmas din\u00e2micas. No fim das contas, sou um produto dessas contradi\u00e7\u00f5es, e quando tento ser honesto n\u00e3o posso evitar de falar a respeito de como elas me afetam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Apesar da estranheza que seus contos geram no leitor \u2013 piratas que roubam mem\u00f3rias, autom\u00f3veis que s\u00e3o insetos gigantes, crust\u00e1ceos que se alimentam de fezes humanas, portais na barriga de seres-humanos \u2013, a realidade em que as personagens vivem n\u00e3o causa estupefa\u00e7\u00e3o nelas. Voc\u00ea diria que as personagens vivem alienadas da mesma forma que vivemos hoje em dia? E voc\u00ea acredita que essa aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 algo a se combater pela literatura ou algo incontorn\u00e1vel dado o nosso contexto de desinforma\u00e7\u00e3o e <em>burnout<\/em>?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LUIS CARLOS BARRAG\u00c1N CASTRO<\/strong>: Sim, acho que eles vivem alienados, mas, do mesmo jeito que n\u00f3s, buscam escapar dessa aliena\u00e7\u00e3o de alguma forma. Ou seja, n\u00f3s tamb\u00e9m estamos rodeados por m\u00e1quinas e coisas extraordin\u00e1rias, mas n\u00e3o temos tempo de ficar estupefatos, porque esta j\u00e1 \u00e9 nossa realidade. Eu adoraria que pud\u00e9ssemos lutar contra essa aliena\u00e7\u00e3o, de estar constantemente saturados de informa\u00e7\u00f5es e ideias, e produtos e formas de ser. Ao passo que num mundo em que o capitalismo n\u00e3o parecia t\u00e3o invenc\u00edvel se podia ainda imaginar uma revolu\u00e7\u00e3o que transformasse a realidade, o mundo estranho em que vivemos agora n\u00e3o parece mostrar uma sa\u00edda com facilidade. Acho que os personagens de alguma forma procuram a sa\u00edda e rompem com essa aliena\u00e7\u00e3o levando os objetos que os parasitaram at\u00e9 o extremo, esperando que haja uma porta de sa\u00edda em algum lugar. Por exemplo, ser um ca\u00e7ador de carros e viver nos limites da sociedade, ou levar o consumo de parasitas at\u00e9 a autodestrui\u00e7\u00e3o. Sim, seria genial que a literatura ajudasse nesse processo de imaginar sa\u00eddas desse esgotamento, e de certo modo descrev\u00ea-lo j\u00e1 nos ajuda a confront\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS:<\/strong> <strong><strong><em>Par\u00e1sitos perfectos <\/em>fala da simbiose, inclusive fazendo men\u00e7\u00e3o \u00e0 teoria de Lynn Margulis. N\u00e3o \u00e9 incomum ver na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica narrativas que extrapolam os conceitos da ci\u00eancia, muitas vezes criando distopias. Nesse caso, por\u00e9m, trata-se de um conceito pouco difundido na cultura de modo geral. E seu livro n\u00e3o pode ser enquadrado como uma distopia. Em que medida voc\u00ea acredita que esse conceito e, em particular, o seu livro s\u00e3o reveladores da pertin\u00eancia da simbiose para o melhor entendimento das quest\u00f5es humanas no Antropoceno?<\/strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LUIS CARLOS BARRAG\u00c1N CASTRO<\/strong>: Que bom que voc\u00ea acha que n\u00e3o \u00e9 uma distopia. N\u00e3o \u00e9. \u00c9 um livro em cinza, e n\u00e3o em preto e branco, ou pelo menos isso era o que eu estava querendo construir, o bem e o mal n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o claros. Podemos encontrar prazer e realiza\u00e7\u00e3o no fundo do sofrimento, o que parece bom traz problemas, e os problemas \u00e0s vezes s\u00e3o bons. Na verdade, eu implementei v\u00e1rias formas de rela\u00e7\u00e3o interespec\u00edficas: a simbiose, mas tamb\u00e9m o parasitismo, a for\u00e9sia, o comensalismo e o mutualismo, e esses me parecem conceitos muito \u00fateis para descrever nossa rela\u00e7\u00e3o com as m\u00e1quinas, os animais, a comida, as plantas, nosso planeta, as pessoas que nos rodeiam, a tecnologia, os meios de comunica\u00e7\u00e3o, as ideias; os pr\u00f3prios memes s\u00e3o unidades virais viventes no sentido t\u00e9cnico. Acho que isso ajuda a entender o Antropoceno na medida em que talvez nos d\u00ea mais ferramentas para entender a complexidade dessas rela\u00e7\u00f5es. E funciona, al\u00e9m disso, para que possamos ver tudo mais al\u00e9m do bem e do mal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: A literatura latino-americana vivenciou o seu <em>boom<\/em> na d\u00e9cada de 1960 e 1970, gra\u00e7as a figuras como Cort\u00e1zar e seu conterr\u00e2neo, Garc\u00eda M\u00e1rquez. Agora, com o sucesso de escritores sul-americanos que trabalham com uma literatura especulativa, tais como Mariana Enr\u00edquez, Samantha Schweblin e Juan C\u00e1rdenas, h\u00e1 um ressurgimento no interesse pela literatura da Am\u00e9rica Latina. Como voc\u00ea analisa esse fen\u00f4meno? E como seu livro se insere nessa nova onda de literatura especulativa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LUIS CARLOS BARRAG\u00c1N CASTRO<\/strong>: Assim espero. Eu gosto da ideia de que a literatura volte a ser popular, ou tenha uma nova etapa de atividade e energia. Somos muitos os escritores latino-americanos que estamos experimentando com o terror, a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e a fantasia, e talvez estejamos propondo formas mais sinceras de ler nossa realidade e nossa posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. Muitos desses livros e autores (e existem muitos outros) est\u00e3o se colocando perguntas muito v\u00e1lidas sobre nossa hist\u00f3ria, e al\u00e9m disso libertando sua imagina\u00e7\u00e3o para propor, para criticar, para simplesmente especular a partir do que est\u00e1 acontecendo historicamente conosco agora. Espero que meu livro esteja enquadrado nesse mini boom. E espero que esteja trazendo algo em prol de uma nova literatura latino-americana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>* * * <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"e19dce75-b4e6-4ac2-9510-37363e388ea3\"><a href=\"https:\/\/cajanegraeditora.com.ar\/libros\/parasitos-perfectos\/\">BARRAG\u00c1N CASTRO, Luis Carlos. <em>Par\u00e1sitos perfectos<\/em>. Buenos Aires: Caja Negra, 2024.<\/a> <a href=\"#e19dce75-b4e6-4ac2-9510-37363e388ea3-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 3 \u2013 fevereiro de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor colombiano, autor do livro &#8220;Par\u00e1sitos Perfectos&#8221;, comenta sobre o lugar da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e da literatura latino-americana no Antropoceno<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":338,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"<a href=\\\"https:\/\/cajanegraeditora.com.ar\/libros\/parasitos-perfectos\/\\\">BARRAG\u00c1N CASTRO, Luis Carlos. <em>Par\u00e1sitos perfectos<\/em>. 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