{"id":441,"date":"2025-03-09T13:23:23","date_gmt":"2025-03-09T16:23:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=441"},"modified":"2025-06-14T15:06:06","modified_gmt":"2025-06-14T18:06:06","slug":"no-antropoceno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/03\/09\/no-antropoceno\/","title":{"rendered":"No Antropoceno&#8230;"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Jennifer Bernstein<sup data-fn=\"1c569a77-7607-4cb3-b004-81a907116979\" class=\"fn\"><a href=\"#1c569a77-7607-4cb3-b004-81a907116979\" id=\"1c569a77-7607-4cb3-b004-81a907116979-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea se lembra de 2006, quando <a href=\"https:\/\/www.britannica.com\/story\/why-is-pluto-no-longer-a-planet\">Plut\u00e3o foi rebaixado<\/a> a \u201cplaneta an\u00e3o\u201d pela Uni\u00e3o Astron\u00f4mica Internacional? Apesar da vasta indigna\u00e7\u00e3o p\u00fablica, o status planet\u00e1rio de Plut\u00e3o permanece rebaixado at\u00e9 hoje. Por mais que acreditemos que algumas ci\u00eancias est\u00e3o resolvidas, os fatos cient\u00edficos podem mudar \u2013 inclusive sem novas evid\u00eancias \u2013 apenas porque um pequeno comit\u00ea de especialistas imp\u00f5e limites.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, um grupo de especialistas \u2013 o Grupo de Trabalho do Antropoceno (AWG, na sigla em ingl\u00eas) \u2013 fez exatamente isso, declarando sua pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o formal do \u201cAntropoceno\u201d como uma <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Geologic_time_scale#Table_of_geologic_time\">\u00e9poca na escala de tempo geol\u00f3gica<\/a>. Essa n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de interesse acad\u00eamico; o trabalho deles chega a ser uma tentativa de encontrar pelo em ovo, com ramifica\u00e7\u00f5es no modo como entendemos nosso lugar no universo e as decis\u00f5es terrenas que disso decorrem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que constitui uma \u00e9poca?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conceito de Antropoceno vem pipocando muito antes de o Grupo de Trabalho do Antropoceno come\u00e7ar seus trabalhos. Pode-se dizer que ele teve in\u00edcio em 1797 com o Conde de Buffon, que previu que \u201co poder do homem\u201d ajudaria \u201co poder da natureza\u201d. Muito depois, em 1992, Andy Revkin, jornalista do New York Times, cunhou o precursor do termo moderno ao sugerir que estamos no \u201cAntroceno\u201d. Tamb\u00e9m em 1992, Paul Crutzen, qu\u00edmico ganhador do Pr\u00eamio Nobel, em um estalar de dedos criou o termo mais conhecido, \u201cAntropoceno\u201d, em uma confer\u00eancia, na tentativa de enfatizar o impacto humano em nossos comportamentos terrenos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma vez cunhado, o \u201cAntropoceno\u201d se tornou mais vago e mais preciso, simultaneamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por um lado, o termo foi entusiasticamente adotado pelas Humanidades, Ci\u00eancias Sociais e a popula\u00e7\u00e3o em geral. Artigos acad\u00eamicos, livros, confer\u00eancias, exibi\u00e7\u00f5es de museus e edi\u00e7\u00f5es inteiras de revistas liter\u00e1rias t\u00eam girado em torno da frase \u201cno Antropoceno\u201d, como se tiv\u00e9ssemos um entendimento compartilhado sobre o que isso denota. O termo aparentemente d\u00e1 import\u00e2ncia a t\u00f3picos que variam da salva\u00e7\u00e3o da natureza (ver: <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s13412-013-0108-1\">\u201cSalvando a natureza no Antropoceno\u201d<\/a>, do professor de Estudos Ambientais James Proctor), encontrar seus inimigos (<a href=\"http:\/\/www.bruno-latour.fr\/sites\/default\/files\/131-FRIENDS-FOES.pdf\">\u201cDistinguindo amigos de inimigos no tempo do Antropoceno\u201d<\/a>, do fil\u00f3sofo Bruno Latour), o futuro (<a href=\"https:\/\/mronline.org\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Human-Destiny-in-the-Anthropocene.pdf\">\u201cO destino humano no Antropoceno\u201d<\/a>, do eticista Clive Hamilton), at\u00e9 as vacas (<a href=\"https:\/\/rgs-ibg.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/abs\/10.1111\/tran.12193\">\u201cO gado no Antropoceno\u201d<\/a>, dos acad\u00eamicos Andrew McGregor e Donna Houston), ou inclusive a morte (<a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Learning-Die-Anthropocene-Reflections-Civilization\/dp\/1531889271\">\u201cAprendendo a morrer no Antropoceno\u201d<\/a>, do veterano de guerra Roy Scranton). Como observou a revista <em>Orion<\/em>, existem ao menos quarenta vers\u00f5es do conceito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso de amor da Academia com o Antropoceno espalhou at\u00e9 mesmo uma gama de termos alternativos: \u201cCapitaloceno\u201d (o problema \u00e9 o capitalismo), \u201cHomentroceno\u201d (o problema s\u00e3o os homens), e o de dif\u00edcil pron\u00fancia <a href=\"https:\/\/blogs.ubc.ca\/jenleighfischer\/staying-with-the-trouble-donna-j-haraway\/\">\u201cChthuluceno\u201d<\/a> (definido pela autora Donna Haraway como&nbsp; as \u201ccont\u00ednuas est\u00f3rias e pr\u00e1ticas multiesp\u00e9cies de tornar-se com em tempos que permanecem em risco, em tempos prec\u00e1rios, nos quais o mundo n\u00e3o acabou e o c\u00e9u n\u00e3o caiu\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Distante de todo esse brainstorm, por outro lado, temos o Grupo de Trabalho do Antropoceno \u2013 um pequeno grupo de ge\u00f3logos e estratigr\u00e1ficos respons\u00e1vel por trazer precis\u00e3o ao enxame de ideias, inserindo uma indica\u00e7\u00e3o quantific\u00e1vel de quando o Antropoceno come\u00e7ou. Na sua origem, o grupo inclu\u00eda um misto de ge\u00f3logos, cientistas ambientais e outros com experi\u00eancia semelhante, incluindo o pr\u00f3prio Crutzen.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em termos cient\u00edficos apenas, a tarefa deles era enorme, gra\u00e7as \u00e0s complexidades de se coletar o tipo de dados hist\u00f3ricos geol\u00f3gicos necess\u00e1rios para a determina\u00e7\u00e3o. Mas o trabalho era talvez mais assustador em termos morais. Que suposi\u00e7\u00f5es est\u00e3o embutidas nessa palavra? Se \u00e9 tanto um momento concreto na hist\u00f3ria, decidido por um pequeno grupo de pessoas, e um termo que as Humanidades podem reinventar incessantemente&#8230; do que estamos falando? E quais s\u00e3o as implica\u00e7\u00f5es?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos na Academia, por exemplo, usam o Antropoceno como uma forma de sintetizar hip\u00f3teses sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o humano e o meio ambiente, ou para repisar velhos debates acerca dessa rela\u00e7\u00e3o, especialmente sobre nossas ideias do que a natureza \u00e9 e do que ela n\u00e3o \u00e9. Enquanto alguns argumentam que o conceito de Antropoceno representa a caricatura dos humanos fundamentalmente como modificadores de uma natureza pura, outros defendem que nunca houve uma natureza pura a ser modificada. Em outras disciplinas, o termo \u00e9 um modo de celebra\u00e7\u00e3o do progresso humano e tecnol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seja como for, \u201co Antropoceno\u201d \u00e9 profundamente ressonante. \u00c9 uma ideia provocativa, produtiva, que p\u00f5e o foco na extens\u00e3o de nossa influ\u00eancia e ag\u00eancia \u2013 somos pilotos ou passageiros neste planeta? \u2013, incluindo a maneira pela qual a tecnologia e a cultura mediam nossa rela\u00e7\u00e3o com a natureza, com o tipo de mundo que queremos para as gera\u00e7\u00f5es futuras e o que significa ser humano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Bem-vindos ao novo \u201cAntropoceno crawfordiano\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O esfor\u00e7o para definir formalmente o \u201cAntropoceno\u201d come\u00e7ou em 2009, quando o Grupo de Trabalho do Antropoceno foi formado, sob a lideran\u00e7a de Jan Zalasiewiscz, pelos guardi\u00f5es da escala de tempo geol\u00f3gica (mais especificamente sob a distorcidamente denominada <a href=\"https:\/\/quaternary.stratigraphy.org\/working-groups\/anthropocene\/\">Subcomiss\u00e3o de Estratigrafia Quatern\u00e1ria da Comiss\u00e3o Internacional de Estratigrafia<\/a>), com a miss\u00e3o expressa de definir precisamente quando come\u00e7ou a \u00e9poca em que ora estamos \u2013 e, em menor medida, onde ela come\u00e7ou. (Uma \u00e9poca \u00e9 sempre estritamente definida em termos de sua temporalidade, com sua espacialidade apenas presente para validar uma teoria geral.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde o in\u00edcio do Grupo de Trabalho do Antropoceno, alguns membros do grupo nem sequer acreditavam que era adequado chamar o Antropoceno de uma \u00e9poca. Em vez disso, eles diziam, ele deveria ser descrito como um \u201cevento\u201d, porque os impactos humanos sobre o meio ambiente s\u00e3o simplesmente muito variados em termos de tempo, espa\u00e7o e impacto. Consider\u00e1-lo um \u201cevento\u201d, eles alegavam, abarcaria melhor a diversidade total e a complexidade da rela\u00e7\u00e3o entre o humano e o meio ambiente. Ainda assim, a ideia de que \u00e9 uma \u00e9poca venceu, e em 2019, depois de uma d\u00e9cada de pesquisa, 29 dos 34 membros do grupo votaram a favor de que os meados do s\u00e9culo XX seriam delimitados como o in\u00edcio da \u00e9poca, a fim de reconhecer as r\u00e1pidas mudan\u00e7as globais por volta desse per\u00edodo que era ent\u00e3o conhecido como a <a href=\"https:\/\/futureearth.org\/2015\/01\/16\/the-great-acceleration\/\">\u201cGrande Acelera\u00e7\u00e3o\u201d<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, as mudan\u00e7as dessa era representam uma evolu\u00e7\u00e3o complexa e relativamente gradual que ocorreu em ritmos diferentes e em lugares diferentes ao longo do planeta. Definitivamente n\u00e3o \u00e9 o tipo de mudan\u00e7a planet\u00e1ria instant\u00e2nea \u2013 como a revolu\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica decorrente da queda de asteroides \u2013 que os estratigr\u00e1ficos geralmente demandam a fim de marcar as fronteiras entre as \u00e9pocas e outras unidades maiores da escala de tempo geol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabendo disso, o Grupo de Trabalho do Antropoceno optou por focar em delimitar a fronteira do Antropoceno em um lugar espec\u00edfico, onde um n\u00facleo cont\u00ednuo de sedimentos ou outro material geol\u00f3gico depositado mostrariam uma marca estratigr\u00e1fica clara para os anos 1950, tal como plut\u00f4nio ou carbono-14, onde o \u201cpico dourado\u201d \u2013 isto \u00e9, a localiza\u00e7\u00e3o f\u00edsica que melhor re\u00fane os modos pelos quais os humanos se tornaram uma for\u00e7a motriz \u2013 seria definido. A vota\u00e7\u00e3o estava restrita apenas aos estratigr\u00e1ficos, e marca\u00e7\u00f5es de qualquer per\u00edodo que n\u00e3o fosse a metade do s\u00e9culo XX estavam fora de cogita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meados de dezembro de 2022, ap\u00f3s investigar doze lugares em potencial, os estratigr\u00e1ficos <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2022\/12\/17\/climate\/anthropocene-age-geology.html\">finalizaram a primeira rodada de vota\u00e7\u00e3o<\/a> para decidir a localiza\u00e7\u00e3o \u2013 uma decis\u00e3o que vai marcar o in\u00edcio exato do Antropoceno. Apesar de a vota\u00e7\u00e3o n\u00e3o ter terminado ainda,<sup data-fn=\"8eda7d97-ff8a-4d8c-ac75-4334e0428c80\" class=\"fn\"><a href=\"#8eda7d97-ff8a-4d8c-ac75-4334e0428c80\" id=\"8eda7d97-ff8a-4d8c-ac75-4334e0428c80-link\">2<\/a><\/sup> cada vez mais me parece que eles v\u00e3o definir o Antropoceno baseados em um \u00fanico n\u00facleo de sedimentos do Lago Crawford, no Canad\u00e1, cuja composi\u00e7\u00e3o indica que a \u00e9poca do Antropoceno come\u00e7ou em 1950.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A defini\u00e7\u00e3o estratigr\u00e1fica do Antropoceno \u00e9 apresentada de modo bastante acurado e cient\u00edfico, mas os fatos cient\u00edficos s\u00e3o decididos por grupos insulares de humanos, que neste caso s\u00e3o financiados por uma <a href=\"https:\/\/www.hkw.de\/en\/programm\/themen\/das_anthropozaen_am_hkw\/das_anthropozaen_am_hkw_start.php\">institui\u00e7\u00e3o cultural em Berlim<\/a>. Um grupo diferente poderia elaborar uma defini\u00e7\u00e3o totalmente distinta. Um grupo mais interessado em economia ou em mudan\u00e7as culturais, por exemplo, bem poderia ter escolhido medir uma vari\u00e1vel diferente para apontar as mudan\u00e7as de uma era para outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 compreens\u00edvel. Mas o problema \u00e9 que essa terminologia \u2013 decidida por um c\u00edrculo muito pequeno de pessoas \u2013 tem implica\u00e7\u00f5es reais no mundo e, talvez e mais importante, n\u00e3o reconhece o modo como o conceito do Antropoceno j\u00e1 tem um destino pr\u00f3prio, deixando, assim, os estratigr\u00e1ficos de fora, por assim dizer. O novo \u201cAntropoceno crawfordiano\u201d, apesar de sua aparente solidez, provavelmente n\u00e3o vai nos levar mais adiante do que os refr\u00e3os que ele pretende substituir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O poder das palavras<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os estratigr\u00e1ficos n\u00e3o s\u00e3o e nem <a href=\"https:\/\/aaas.confex.com\/aaas\/2023\/meetingapp.cgi\/Session\/29881\">devem ser os donos<\/a> do Antropoceno. A transforma\u00e7\u00e3o humana deste planeta n\u00e3o \u00e9 uma mera quest\u00e3o de geologia. \u201cO Antropoceno\u201d \u00e9 mais \u00fatil como ponto de partida para a contempla\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre humano e meio ambiente e como um espelho atrav\u00e9s do qual analisamos nossas hip\u00f3teses normativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, no entanto, mais do que muitos desses outros atores, o que os estratigr\u00e1ficos disserem vai acabar oficialmente em breve. E, agora, uma \u00e9poca definida por um punhado de solo no Canad\u00e1 vai provavelmente se tornar a defini\u00e7\u00e3o cient\u00edfica padr\u00e3o do Antropoceno pela pr\u00f3xima d\u00e9cada pelo menos, uma vez que as unidades de tempo n\u00e3o podem ser alteradas por dez anos ap\u00f3s a decis\u00e3o. Na pr\u00e1tica, a ideia de que os humanos basicamente remodelaram o planeta est\u00e1 agora no forno \u2013 com todas as hip\u00f3teses que isso acarreta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De fato, o Antropoceno foi restringido para come\u00e7ar em 1950, e o que aconteceu antes disso fica do lado de fora do campo. No campo est\u00e3o os estratigr\u00e1ficos, os ge\u00f3logos, os cientistas ambientais, os antrop\u00f3logos e outros, para quem essa redefini\u00e7\u00e3o mudar\u00e1 os par\u00e2metros de suas pesquisas. E aqueles que lan\u00e7am m\u00e3o do que essas disciplinas produzem, incluindo as organiza\u00e7\u00f5es envolvidas em avaliar os desafios da era humana, ver\u00e3o seus alicerces se moverem juntamente com os dados dispon\u00edveis para se fazer certas alega\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Instituto Breakthrough, e por conseguinte o ecomodernismo, abra\u00e7ou o conceito de Antropoceno como uma oportunidade \u2013 um sinal do modo pelo qual a ag\u00eancia humana, quando encurralada, pode criar um mundo novo. Isso significa compreender e guiar a maneira como nossas sociedades est\u00e3o transformando o planeta \u2013 as emiss\u00f5es de carbono que contribuem para o aquecimento global, a produtividade material do nosso consumo econ\u00f4mico, a mudan\u00e7a no uso do solo, e a perda da biodiversidade devido \u00e0 agricultura e a outros empreendimentos humanos \u2013, bem como dirigir as compensa\u00e7\u00f5es e as solu\u00e7\u00f5es para esses impactos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como um projeto fundamentalmente cultural, social e pol\u00edtico, o ecomodernismo n\u00e3o \u00e9 e nem pode ser obrigado a redefinir o seu n\u00facleo de ideias por conta de nenhum subgrupo cient\u00edfico. E essa \u00e9 a raz\u00e3o por que n\u00f3s todos temos que confrontar as perspectivas que um pequeno grupo de pessoas \u2013 cientistas ou n\u00e3o \u2013 poderiam mobilizar para redefinir e, portanto, constranger as estrat\u00e9gias e decis\u00f5es daqueles que devem levar a cabo as delibera\u00e7\u00f5es do \u201cmundo real\u201d. O Antropoceno pode continuar servindo como um terreno compartilhado para a ci\u00eancia e a sociedade. Ou ele pode ser um campo de trabalho t\u00e9cnico dos estratigr\u00e1ficos, com seus interesses reduzidos, exercendo dom\u00ednio sobre os interesses mais amplos da sociedade de um jeito que importa a todos n\u00f3s neste planeta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO Antropoceno\u201d \u00e9 mais potente quando \u00e9 usado como ponto de reflex\u00e3o e expans\u00e3o, ao inv\u00e9s de redu\u00e7\u00e3o e precis\u00e3o. Os n\u00e3o estratigr\u00e1ficos usam o termo porque ele proporciona um atalho para as cren\u00e7as pr\u00e9-existentes sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o humano e o meio ambiente, enquanto fingem que temos objetivos normativos universais. \u00c9 justamente por isso que defini-lo como um \u201cevento\u201d em vez de uma \u201c\u00e9poca\u201d poderia encurralar o conceito sem restringi-lo. \u00c9 atrav\u00e9s da contesta\u00e7\u00e3o do termo, mas n\u00e3o sem limites, que ele se torna mais poderoso. A gente pode at\u00e9 sentir falta do planeta Plut\u00e3o, mas aqui \u00e9 a Terra. \u201cO Antropoceno\u201d tem encontrado um lugar onde podemos entender nossa rela\u00e7\u00e3o com ela. Abrir m\u00e3o desse termo ressonante para um lugar, uma data e um grupo espec\u00edfico de pessoas o priva de sua relev\u00e2ncia social e cultural. Uma vez tornado acess\u00edvel, parafraseando Mark Twain, \u201co Antropoceno\u201d pode ser um lugar para sonhar outros sonhos, e melhor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>* * * <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado no site do <em>The Breakthrough Institute<\/em>, em 17 de abril de 2023. Agradecemos encarecidamente ao site e \u00e0 autora por cederem os direitos da tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/thebreakthrough.org\/journal\/climate-change-banned-words\/understanding-anthropocene\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Barros. Revis\u00e3o de Camila Cardozo.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"1c569a77-7607-4cb3-b004-81a907116979\">Editora-chefe do Case Studies in the Environment e professora adjunta da Tarleton State University e da Texas Tech. Al\u00e9m de in\u00fameros artigos acad\u00eamicos, publicou no <em>Washington Post<\/em>,<em> San Francisco Chronicle<\/em> e <em>The Conversation<\/em>. <a href=\"#1c569a77-7607-4cb3-b004-81a907116979-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"8eda7d97-ff8a-4d8c-ac75-4334e0428c80\">A vota\u00e7\u00e3o ocorreu em mar\u00e7o de 2024, portanto quase um ano ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do texto original e um ano antes da publica\u00e7\u00e3o desta tradu\u00e7\u00e3o. O resultado foi que os especialistas decidiram contra a proposta de declarar o in\u00edcio do Antropoceno, o que torna o texto relevante at\u00e9 hoje. Para mais informa\u00e7\u00f5es, acesse <a href=\"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/em-votacao-cientistas-negam-que-estejamos-no-antropoceno-a-epoca-geologica-dos-humanos\/\">aqui<\/a>. (N.T.) <a href=\"#8eda7d97-ff8a-4d8c-ac75-4334e0428c80-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 4 \u2013 mar\u00e7o de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A defeituosa busca por precis\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o de um conceito vago<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":444,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Editora-chefe do Case Studies in the Environment e professora adjunta da Tarleton State University e da Texas Tech. Al\u00e9m de in\u00fameros artigos acad\u00eamicos, publicou no <em>Washington Post<\/em>,<em> San Francisco Chronicle<\/em> e <em>The Conversation<\/em>.\",\"id\":\"1c569a77-7607-4cb3-b004-81a907116979\"},{\"content\":\"A vota\u00e7\u00e3o ocorreu em mar\u00e7o de 2024, portanto quase um ano ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do texto original e um ano antes da publica\u00e7\u00e3o desta tradu\u00e7\u00e3o. O resultado foi que os especialistas decidiram contra a proposta de declarar o in\u00edcio do Antropoceno, o que torna o texto relevante at\u00e9 hoje. Para mais informa\u00e7\u00f5es, acesse <a href=\\\"https:\/\/www.ige.unicamp.br\/lehg\/em-votacao-cientistas-negam-que-estejamos-no-antropoceno-a-epoca-geologica-dos-humanos\/\\\">aqui<\/a>. (N.T.)\",\"id\":\"8eda7d97-ff8a-4d8c-ac75-4334e0428c80\"}]"},"categories":[14,10,7,6],"tags":[49,53,16,52],"class_list":["post-441","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arquivo","category-artigo","category-clima","category-cultura","tag-antropoceno","tag-ciencias-naturais","tag-clima","tag-volume-4"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/441","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=441"}],"version-history":[{"count":27,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/441\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":817,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/441\/revisions\/817"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/media\/444"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=441"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=441"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=441"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}