{"id":506,"date":"2025-04-10T19:26:15","date_gmt":"2025-04-10T22:26:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=506"},"modified":"2025-05-09T14:31:29","modified_gmt":"2025-05-09T17:31:29","slug":"entrevista-com-mark-mcgurl","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/04\/10\/entrevista-com-mark-mcgurl\/","title":{"rendered":"Entrevista com Mark McGurl"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Everything and Less. The Novel in the Age of Amazon<\/em><sup data-fn=\"12aba3b2-7de6-4ba4-8f95-857135fbd871\" class=\"fn\"><a href=\"#12aba3b2-7de6-4ba4-8f95-857135fbd871\" id=\"12aba3b2-7de6-4ba4-8f95-857135fbd871-link\">1<\/a><\/sup> foi lan\u00e7ado pela editora Verso em 2021 e, desde ent\u00e3o, tem sido um marco da Cr\u00edtica Liter\u00e1ria no que diz respeito \u00e0 compreens\u00e3o do recente fen\u00f4meno das publica\u00e7\u00f5es diretas abrigadas no sistema eletr\u00f4nico da Amazon, o Kindle Direct Publishing. Adotando uma abordagem que congrega a Teoria Cr\u00edtica, a Cr\u00edtica Materialista e o <em>close reading<\/em>, Mark McGurl, professor de Literatura da Universidade de Stanford e renomado cr\u00edtico, mostra como a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria comercializada na Amazon por meio do sistema de assinaturas do Kindle Unlimited refor\u00e7a as fronteiras da literatura de fic\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, proporcionando lucros astron\u00f4micos para a empresa, ao mesmo tempo que transforma a experi\u00eancia de leitura. McGurl, entre outras coisas, alega que estamos na &#8220;era da Amazon&#8221;, e que, neste contexto, est\u00e1 ocorrendo uma &#8220;zumbifica\u00e7\u00e3o&#8221; do leitor por meio dos algoritmos que determinam o que os leitores podem ou devem consumir. Ao mesmo tempo, nos diferentes tipos de fic\u00e7\u00e3o que povoam o site da Amazon, emerge um sem n\u00famero de g\u00eaneros liter\u00e1rios que reafirmam as ideologias consumistas e empreendedor\u00edsticas que fazem parte da ess\u00eancia do capitalismo de plataformas do qual a companhia se vale para extrair o m\u00e1ximo de lucro. Enfim, em lugar de lucrar com livros de qualidade, selecionados por editores experientes, a Amazon aposta na lucratividade atrav\u00e9s da venda em escala de livros autopublicados sem a interfer\u00eancia dos agentes tradicionais do mercado editorial. Com isso, a literatura sofre alguns abalos. \u00c9 sobre isso tudo que Mark McGurl topou falar nesta entrevista. Confira.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Vamos come\u00e7ar pelo que voc\u00ea define como a era da Amazon. Ao que parece, estamos diante de uma mudan\u00e7a significativa no modo de produ\u00e7\u00e3o e no modo de consumo dos romances, gra\u00e7as ao desenvolvimento das ferramentas de publica\u00e7\u00e3o (Kindle Direct Publishing) e aquisi\u00e7\u00e3o (algoritmos) da Amazon. Quais s\u00e3o as caracter\u00edsticas principais dessa era e como ela impacta a forma mais tradicional de produ\u00e7\u00e3o e consumo de romances?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>MARK McGURL<\/strong>: Nos EUA, aproximadamente metade dos livros e algo em torno de 75% de todos os livros eletr\u00f4nicos s\u00e3o vendidos pela Amazon. Centenas de milhares de livros de todos os tipos s\u00e3o autopublicados via Kindle Direct Publishing, e \u00e9 cada vez mais comum que os autores autopublicados fa\u00e7am sucesso como os mais vendidos nas categorias dos g\u00eaneros liter\u00e1rios populares. Desde que foi introduzido em 2007, o leitor digital Kindle viabilizou uma nova tecnologia de leitura baseada n\u00e3o no impresso, mas nos bytes. Ainda que ele n\u00e3o tenha acabado de nenhuma forma com o livro impresso, ele se tornou o meio preferido de dezenas de milh\u00f5es de leitores de g\u00eaneros populares de fic\u00e7\u00e3o em especial. Por seu turno, uma grande parcela desses leitores tem acesso aos romances n\u00e3o por meio de uma compra por vez, mas por meio do servi\u00e7o de assinatura do Kindle Unlimited. Esses s\u00e3o os principais fatores que levam \u00e0 pergunta: a literatura do nosso tempo est\u00e1 se transformando num complemento do varejo online? Se sim, o que isso significa? Eu resumiria a resposta dada no meu livro dizendo que a literatura tal como concebida pela Amazon n\u00e3o \u00e9 uma s\u00e9rie de obras individuais, mas o estoque de um tipo de servi\u00e7o terap\u00eautico organizado por categorias de g\u00eaneros liter\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: O que est\u00e1 em quest\u00e3o, no seu livro, tamb\u00e9m \u00e9 uma mudan\u00e7a no valor liter\u00e1rio. A l\u00f3gica extrativista da Amazon contrasta com a concep\u00e7\u00e3o segundo a qual o valor de algo (inclusive da mercadoria) est\u00e1 na sua escassez. Mesmo o c\u00e2none liter\u00e1rio supostamente se apoia nas obras cujo valor \u00e9 raro e \u00fanico. Como, na sua opini\u00e3o, isso impacta a forma\u00e7\u00e3o do leitor e a converg\u00eancia de saberes sobre a literatura que a concep\u00e7\u00e3o de valor liter\u00e1rio tradicional pressup\u00f5e (a despeito de toda a cr\u00edtica feita ao c\u00e2none pelos Estudos Culturais)?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>MARK McGURL<\/strong>: A forma como eu responderia isso seria dizer que, na era da Amazon, a literatura de fic\u00e7\u00e3o \u00e9 somente uma categoria de g\u00eanero liter\u00e1rio entre outras. \u00c9 algo que um n\u00famero significativo de leitores, principalmente os liberais com n\u00edvel superior, gostam de consumir. Embora a t\u00f4nica da Amazon seja a abund\u00e2ncia, ela n\u00e3o dispensa completamente os marcadores de distin\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. O pr\u00eamio caseiro da Amazon \u00e9 o Goodreads Choice Awards, cujos vencedores s\u00e3o determinados n\u00e3o por um comit\u00ea de especialistas, mas sim por voto popular. Isso tamb\u00e9m multiplicou o n\u00famero de categorias dos mais vendidos de modo impressionante, de forma que uma obra pode dizer que \u00e9 uma das mais vendidas na categoria da Fic\u00e7\u00e3o de Amizade entre Mulheres mesmo se ela n\u00e3o al\u00e7a voo na categoria de fic\u00e7\u00e3o como tal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Eu gostaria de abordar a sua metodologia. Voc\u00ea provavelmente leu mais livros ruins do que qualquer outro cr\u00edtico liter\u00e1rio e, no entanto, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel estar a par de toda a volumosa produ\u00e7\u00e3o de romances comercializados pela Amazon. Se, por um lado, \u00e9 imposs\u00edvel ler tudo, por outro, a homogeneiza\u00e7\u00e3o da literatura de g\u00eanero que emerge na era da Amazon facilita o trabalho, eu suponho. Como voc\u00ea realizou essa tarefa cr\u00edtica e que ensinamentos ela deixa para os pesquisadores em literatura que cada vez mais enfrentar\u00e3o um campo liter\u00e1rio pulverizado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>MARK McGURL<\/strong>: Para escrever esse livro eu tive que me comprometer a ler muitas obras de fic\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros liter\u00e1rios comuns a fim de fazer generaliza\u00e7\u00f5es corretas sobre elas. Muito da minha leitura foi feita por meio de audiobooks, que eu ouvia incessantemente enquanto passeava com meu cachorro ou esperava na lavanderia. Da\u00ed, se um livro em particular me parecia digno a ponto de eu escrever algo sobre ele de uma forma mais espec\u00edfica, ent\u00e3o eu o lia com os olhos. Uma coisa que eu n\u00e3o fiz, e provavelmente deveria ter feito, foi examinar computacionalmente um vasto n\u00famero de obras com a ajuda dos meus brilhantes colegas do Laborat\u00f3rio Liter\u00e1rio de Stanford (Stanford Literary Lab). A quest\u00e3o do m\u00e9todo \u00e9 dif\u00edcil de responder antes de ver o que funciona. O fato de que o interesse nesse contexto reside mais no n\u00edvel do g\u00eanero liter\u00e1rio como um todo do que na obra em espec\u00edfico \u00e9 uma verdadeira dificuldade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: A produ\u00e7\u00e3o de romances na era da Amazon est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0 tecnologia do algoritmo, como seu livro demonstra. Supostamente, os algoritmos seriam capazes de personalizar a experi\u00eancia do leitor, tornando-o mais aut\u00f4nomo. Voc\u00ea mostra, pelo contr\u00e1rio, que isso na verdade promove uma zumbifica\u00e7\u00e3o do leitor. Como se explica essa contradi\u00e7\u00e3o? E como os Estudos Liter\u00e1rios devem se adaptar a esse novo fen\u00f4meno?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>MARK McGURL<\/strong>: As t\u00e9cnicas do algoritmo da Amazon para sugerir livros evolui ao longo dos anos, portanto essa \u00e9 uma quest\u00e3o mais complexa do que parece \u00e0 primeira vista. Tipo, voc\u00ea \u00e9 considerado como um certo tipo de leitor, um entre muitos dentro de um determinado gosto coletivo, ou o algoritmo individualiza voc\u00ea de um modo mais refinado? Mesmo que seja esse \u00faltimo caso, o que se perde nessa empreitada \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de que voc\u00ea pode n\u00e3o saber o que quer da sua pr\u00f3xima leitura. O algoritmo combate o crescimento pessoal e a surpresa. Ele sempre instiga voc\u00ea a dobrar a aposta naquilo que voc\u00ea j\u00e1 sabe que gosta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: A era da Amazon ressignifica, tamb\u00e9m, o papel do autor. Existem centenas, talvez milhares, de autores cujos nomes s\u00e3o desconhecidos da Academia, mas que produzem serialmente atrav\u00e9s do Kindle Direct Publishing para um p\u00fablico que se comporta como um fandom. O que significa ser autor nessas condi\u00e7\u00f5es? E como isso afeta a percep\u00e7\u00e3o dos autores do mainstream em rela\u00e7\u00e3o ao seu pr\u00f3prio trabalho?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>MARK McGURL<\/strong>: Minha sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que a autoria dentro da bolha de prest\u00edgio da fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria n\u00e3o mudou muito. Dentro dessa bolha h\u00e1 escritores, muitos dos quais com um talento brilhante, que n\u00e3o sabem nada sobre a produ\u00e7\u00e3o de livros ou o mercado livreiro. Essas preocupa\u00e7\u00f5es menores s\u00e3o deixadas para os agentes e os editores. Fora dessa bolha se encontra uma nova gera\u00e7\u00e3o de escritores que se veem como empreendedores liter\u00e1rios. Eles aprendem tudo que podem sobre o mercado no qual querem ingressar, incluindo min\u00facias sobre estrat\u00e9gias de pre\u00e7o, design de capa etc. Eles tamb\u00e9m refletem sobre quais tipos de intrigas \u201cfuncionam\u201d no sentido de facilitar as vendas. Eu penso neles como um tipo de retorno esquisito ao modelo de autoria do s\u00e9culo XVIII. Nos primeiros anos da ascens\u00e3o do romance, era muito comum os autores saberem bastante sobre o neg\u00f3cio livreiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Por fim, seu livro foi escrito antes de 2021. Nesses quatro anos que se passaram, houve a pandemia e o crescimento da intelig\u00eancia artificial. Como voc\u00ea avalia o impacto desses eventos na publica\u00e7\u00e3o e na comercializa\u00e7\u00e3o dos romances hoje em dia? Teriam esses dois eventos acelerado o processo de algoritmiza\u00e7\u00e3o e reten\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o dos leitores, contribuindo ainda mais para a blogza\u00e7\u00e3o da literatura?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>MARK McGURL<\/strong>: Eu n\u00e3o sei ao certo quais efeitos duradouros a pandemia teve na cultura liter\u00e1ria, muito embora eu saiba que foi um momento prop\u00edcio para a venda de livros enquanto ela durou. A IA \u00e9 uma outra quest\u00e3o. Do lugar onde estou, no come\u00e7o de 2025, \u00e9 dif\u00edcil de prever o impacto definitivo da IA na literatura. Os LLM (Large Language Models, ou Modelos de Linguagem em Grande Escala) s\u00e3o obviamente bons em gera\u00e7\u00e3o de texto preditiva. Pareceria \u00f3bvio que a IA deveria ser capaz de gerar uma obra de fic\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel, especialmente no g\u00eanero de fic\u00e7\u00e3o formulaico, apesar de que ela sempre vai necessitar de uma orienta\u00e7\u00e3o humana alimentando-a no processo. O problema dos LLM usados para outras finalidades \u00e9 que eles constantemente alucinam e mentem, mas isso n\u00e3o seria um problema em se tratando de escrever fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9? Eu realmente n\u00e3o sei. Toda essa conversa sobre IA est\u00e1 t\u00e3o saturada de porcaria oriunda da propaganda tecnol\u00f3gica que seus usos de fato podem ser bem poucos. Seria engra\u00e7ado se no fim das contas a \u00fanica coisa confi\u00e1vel que a IA conseguisse fazer fosse escrever fic\u00e7\u00e3o bem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * * <\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"12aba3b2-7de6-4ba4-8f95-857135fbd871\"><a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/en-gb\/products\/2769-everything-and-less?srsltid=AfmBOooEys7iLXcAlchi5JBX7jzwYPSIcpzJ6lOKWwrBnO1AEatzZu5f\">McGURL, Mark. <em>Everything and Less. The Novel in the Age of Amazon<\/em>. Londres e Nova York: Verso, 2021.<\/a>  <a href=\"#12aba3b2-7de6-4ba4-8f95-857135fbd871-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 5 \u2013 abril de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O professor de Literatura da Universidade Stanford, autor de uma obra que esquadrinha a produ\u00e7\u00e3o de ebooks no grande site de varejo de livros, fala com o Carbono sobre a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria impulsionada pela &#8220;era da Amazon&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":507,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"<a href=\\\"https:\/\/www.versobooks.com\/en-gb\/products\/2769-everything-and-less?srsltid=AfmBOooEys7iLXcAlchi5JBX7jzwYPSIcpzJ6lOKWwrBnO1AEatzZu5f\\\">McGURL, Mark. <em>Everything and Less. 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