{"id":528,"date":"2025-04-10T19:25:57","date_gmt":"2025-04-10T22:25:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=528"},"modified":"2025-05-09T14:31:40","modified_gmt":"2025-05-09T17:31:40","slug":"falha-de-mercado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/04\/10\/falha-de-mercado\/","title":{"rendered":"Falha de Mercado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Kate Aronoff<sup data-fn=\"d642c32b-5fd1-40c7-8bc6-41c1fa49e7bf\" class=\"fn\"><a href=\"#d642c32b-5fd1-40c7-8bc6-41c1fa49e7bf\" id=\"d642c32b-5fd1-40c7-8bc6-41c1fa49e7bf-link\">1<\/a><\/sup><br>Brett Christophers<sup data-fn=\"2285b3fe-1a32-4698-afc1-b644f91d1ca9\" class=\"fn\"><a href=\"#2285b3fe-1a32-4698-afc1-b644f91d1ca9\" id=\"2285b3fe-1a32-4698-afc1-b644f91d1ca9-link\">2<\/a><\/sup><br>Adam Tooze<sup data-fn=\"6aa0a9b8-44bb-4d3c-b594-ea1df1fdbfc5\" class=\"fn\"><a href=\"#6aa0a9b8-44bb-4d3c-b594-ea1df1fdbfc5\" id=\"6aa0a9b8-44bb-4d3c-b594-ea1df1fdbfc5-link\">3<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Esta \u00e9 uma transcri\u00e7\u00e3o editada da conversa ocorrida em 26 de outubro de 2024 na The New School for Social Research, intitulada <em>Market Failure: The Climate Crisis and the Limits of Capitalism<\/em>. A grava\u00e7\u00e3o em \u00e1udio est\u00e1 dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/www.dissentmagazine.org\/blog\/recording-market-failure-the-climate-crisis-and-the-limits-of-capitalism\/\">aqui<\/a>.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>KATE ARONOFF<\/strong>: Brett, voc\u00ea poderia descrever alguns dos temas e argumentos presentes em seu livro <em>The Price is Wrong<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>BRETT CHRISTOPHERS<\/strong>: O di\u00f3xido de carbono corresponde \u00e0 maioria das emiss\u00f5es antropog\u00eanicas dos gases de efeito estufa, e a maior parte dessas emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono vem da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis. A maior fonte de emiss\u00f5es dos combust\u00edveis f\u00f3sseis \u00e9 a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade, portanto a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade est\u00e1 no centro da crise clim\u00e1tica. A eletricidade vai se tornar ainda mais importante por conta do modo como o mundo est\u00e1 predominantemente se voltando para a descarboniza\u00e7\u00e3o: a ideia b\u00e1sica tem sido eletrificar o m\u00e1ximo poss\u00edvel o transporte, os processos industriais, a constru\u00e7\u00e3o civil, a calefa\u00e7\u00e3o e assim por diante, gerando essa eletricidade sem queimar combust\u00edveis f\u00f3sseis. A eletricidade \u00e9 encarada como a solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E como estamos nos saindo globalmente, no que tange \u00e0 descarboniza\u00e7\u00e3o da eletricidade? Olhando o copo meio cheio, a descarboniza\u00e7\u00e3o est\u00e1 ocorrendo de forma mais r\u00e1pida do que pens\u00e1vamos. Os gr\u00e1ficos mostram curvas de desenvolvimento muito ascendentes no investimento em nova capacidade em energia renov\u00e1vel e na gera\u00e7\u00e3o de eletricidade a partir das fontes renov\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade a partir de combust\u00edveis f\u00f3sseis continua aumentando, independentemente do crescimento das fontes renov\u00e1veis. Durante muitos anos, os progn\u00f3sticos diziam \u201ca gera\u00e7\u00e3o de eletricidade a partir de combust\u00edveis f\u00f3sseis vai atingir o pico este ano\u201d. Eles afirmaram isso em 2021, 2022, 2023 e 2024, e isso ainda n\u00e3o ocorreu \u2013 por v\u00e1rias raz\u00f5es, particularmente por conta da crescente demanda global por eletricidade de qualquer tipo. Portanto, \u00e9 dif\u00edcil afirmar que estamos sendo bem sucedidos na descarboniza\u00e7\u00e3o da eletricidade, mundialmente falando. Tenho certeza de que a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade por meio de combust\u00edveis f\u00f3sseis vai atingir o pico em algum ano pr\u00f3ximo, mas mesmo nesse caso, se ela decair lentamente, ainda estaremos falhando. O \u00faltimo Progn\u00f3stico Energ\u00e9tico Mundial da Ag\u00eancia Internacional de Energia indicou que em todo lugar do mundo estamos bem distantes de onde dever\u00edamos estar em termos do crescimento de energia renov\u00e1vel a fim de atingir a meta de zerar as emiss\u00f5es l\u00edquidas em 2050 \u2013 e o objetivo de zerar as emiss\u00f5es l\u00edquidas elabora todo tipo de hip\u00f3tese sobre o sucesso de v\u00e1rias tecnologias de emiss\u00e3o negativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por que a descarboniza\u00e7\u00e3o da eletricidade est\u00e1 acontecendo muito mais lentamente do que o necess\u00e1rio? Primeiramente, quando se trata da descarboniza\u00e7\u00e3o da eletricidade, estamos apostando tudo na energia solar e e\u00f3lica. Existem pa\u00edses onde as energias nuclear, h\u00eddrica e geot\u00e9rmica s\u00e3o importantes, mas essas tecnologias n\u00e3o v\u00e3o dar conta do trabalho de descarboniza\u00e7\u00e3o. A solar e a e\u00f3lica, no entanto, tendem a crescer de 13% da gera\u00e7\u00e3o de energia hoje para mais do que 50% ou 60% na metade do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em segundo lugar, estamos, em grande parte, dependendo do setor privado para alcan\u00e7ar a descarboniza\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o quer dizer que os governos n\u00e3o est\u00e3o fazendo nada: os governos projetam e regulam os mercados de eletricidade e proporcionam apoio e subs\u00eddios para incentivar os atores do setor privado a acelerar a descarboniza\u00e7\u00e3o. Mas os governos, com algumas exce\u00e7\u00f5es not\u00e1veis (a China como a mais significativa delas), n\u00e3o v\u00e3o fazer isso por conta pr\u00f3pria. Eles n\u00e3o v\u00e3o colocar no balan\u00e7o cont\u00e1bil p\u00fablico a descarboniza\u00e7\u00e3o por meio do financiamento, do investimento, da propriedade e da opera\u00e7\u00e3o estatais das usinas solar e e\u00f3lica. Em vez disso, eles est\u00e3o deixando o setor privado fazer a descarboniza\u00e7\u00e3o, empurrando-o na dire\u00e7\u00e3o correta. Essa \u00e9 a abordagem na maioria dos pa\u00edses, incluindo os EUA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em terceiro lugar, estamos confiando no setor privado na sua estrutura atual. N\u00e3o houve uma reforma significativa da ind\u00fastria e do mercado de eletricidade nas \u00faltimas d\u00e9cadas; nem nenhum movimento importante para reformular o modo como a eletricidade \u00e9 comprada e vendida. Essas estruturas existentes s\u00e3o cada vez mais liberalizadas e desregulamentadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma narrativa dominante segundo a qual os obst\u00e1culos para uma descarboniza\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida s\u00e3o de natureza pol\u00edtica, tais como licen\u00e7as lentas para o funcionamento de usinas solares e e\u00f3licas. Os interesses que dizem \u201cn\u00e3o no meu peda\u00e7o\u201d s\u00e3o suficientemente poderosos para p\u00f4r um ponto final em novos desenvolvimentos. Interesses velados em combust\u00edveis f\u00f3sseis t\u00eam grande poder em modificar as decis\u00f5es dos operadores das linhas de transmiss\u00e3o. Importante para essa narrativa \u00e9 a ideia de que o problema <em>n\u00e3o<\/em> \u00e9 econ\u00f4mico, ao menos n\u00e3o mais. H\u00e1 vinte anos, era muito mais caro gerar eletricidade por meio dos fonte solar e do vento do que da queima do g\u00e1s natural ou do carv\u00e3o. Mas desde meados dos anos 2000, o custo dessas tecnologias de gera\u00e7\u00e3o caiu muito e bem rapidamente, principalmente devido aos desenvolvimentos chineses. Na metade dos anos 2010, era t\u00e3o barato, sen\u00e3o at\u00e9 mais barato, gerar eletricidade a partir do vento e do sol quanto do g\u00e1s natural e do carv\u00e3o. Nesse ponto, t\u00ednhamos efetivamente resolvido o problema econ\u00f4mico e alcan\u00e7ado a paridade de grade. Logo, como sempre, os obst\u00e1culos restantes s\u00f3 podiam ser de natureza pol\u00edtica ou partid\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meu livro, eu digo que essa narrativa est\u00e1 errada. O que n\u00e3o quer dizer que obst\u00e1culos como licen\u00e7as e interesses velados n\u00e3o s\u00e3o importantes. Mas a economia ainda \u00e9 um problema, e o problema \u00e9 o da lucratividade. \u00c9 in\u00fatil olhar para as energias renov\u00e1veis predominantemente atrav\u00e9s da lente do custo. Quando olhamos para a <em>lucratividade<\/em>, a instala\u00e7\u00e3o de energias renov\u00e1veis n\u00e3o \u00e9 um neg\u00f3cio particularmente atrativo ou confi\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o estou falando do lado manufatureiro do neg\u00f3cio, mas sim do desenvolvimento de usinas solares e e\u00f3licas, da propriedade e opera\u00e7\u00e3o dessas usinas, e da venda da eletricidade que elas geram ao longo de sua vida \u00fatil (o equipamento dura em m\u00e9dia de vinte e cinco a trinta anos). Esse aspecto do neg\u00f3cio tem espinhosas quest\u00f5es de lucratividade, e isso \u00e9 um problema na medida em que dependemos do setor privado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando pensamos na descarboniza\u00e7\u00e3o da eletricidade, o que acontece no Sul Global importa mais do que o que acontece na Am\u00e9rica do Norte ou na Europa. Os setores de energia dos pa\u00edses ao longo do Sul Global dependem mais intensamente de combust\u00edveis f\u00f3sseis do que os setores el\u00e9tricos dos pa\u00edses no Norte Global. Proje\u00e7\u00f5es sensatas sugerem que o volume de crescimento global futuro na demanda por eletricidade vai se concentrar no Sul Global, onde as necessidades e os desafios econ\u00f4micos e financeiros s\u00e3o maiores, principalmente devido ao custo maior do capital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>KATE ARONOFF<\/strong>: O que eu achei muito \u00fatil no <em>The Price is Wrong<\/em> \u00e9 como ele oferece uma forma de entender a abordagem geral que os pol\u00edticos nos EUA e na Uni\u00e3o Europeia adotaram, mais claramente nos EUA por meio da Lei de Redu\u00e7\u00e3o da Infla\u00e7\u00e3o. A Lei de Redu\u00e7\u00e3o da Infla\u00e7\u00e3o foi uma tentativa de cortejar o investimento privado atrav\u00e9s de US$ 400 bilh\u00f5es em incentivos fiscais para uma ampla gama de tecnologias verdes, sob a premissa de que muitos elementos da descarboniza\u00e7\u00e3o podem se transformar em ativos. O caso da eletricidade nos ajuda a pensar em como isso se reflete em outros setores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ex-chefe do Conselho Nacional de Economia, Brian Desse, que foi conselheiro da campanha de Kamala Harris, descreveu essa lei como uma legisla\u00e7\u00e3o que busca \u201cencorajar investimentos privados em energia limpa. Os incentivos fiscais tornam os investimentos mais atraentes\u201d, ele explicou, \u201cmas os neg\u00f3cios, juntamente com as cooperativas rurais, as empresas sem fins lucrativos e outras, devem julgar se investir seu dinheiro numa f\u00e1brica de hidrog\u00eanio ou uma usina e\u00f3lica \u00e9 rent\u00e1vel. No fim das contas, a lei ser\u00e1 t\u00e3o bem sucedida quanto o apetite deles em investir em uma escala que vai reduzir significativamente as emiss\u00f5es que aquecem o planeta e aumentam a seguran\u00e7a energ\u00e9tica do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Faz quase tr\u00eas anos da aprova\u00e7\u00e3o da Lei de Redu\u00e7\u00e3o da Infla\u00e7\u00e3o, e a Uni\u00e3o Europeia adotou sua pr\u00f3pria vers\u00e3o dela. Como voc\u00ea avalia esse per\u00edodo do Zeitgeist pol\u00edtico da ind\u00fastria verde? O qu\u00e3o efetivas s\u00e3o a Lei de Redu\u00e7\u00e3o da Infla\u00e7\u00e3o e as pol\u00edticas similares imaginadas para a ind\u00fastria verde como ferramentas para a descarboniza\u00e7\u00e3o? Seriam elas muito pequenas para funcionar, ou elas t\u00eam falhas b\u00e1sicas de projeto?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ADAM TOOZE<\/strong>: Uma das coisas mais legais do livro do Brett \u00e9 que se trata de uma explica\u00e7\u00e3o global de verdade. Ele situa o dilema que ele est\u00e1 propondo no pano de fundo da hist\u00f3ria da pol\u00edtica global de regula\u00e7\u00e3o de energia desde os anos 1990. Esse livro devia ser ensinado em cursos sobre o neoliberalismo. Embora alguns dos modelos mais desmembrados de provis\u00e3o de energia dos EUA e do Reino Unido tenham se tornado exemplos para outros pa\u00edses, esse modelo separa a gera\u00e7\u00e3o da rede e da distribui\u00e7\u00e3o no varejo, que \u00e9 onde muitos dos problemas de incentivo est\u00e3o localizados. Uma parte do dilema do Sul Global \u00e9 que o seu movimento em dire\u00e7\u00e3o a mais desmembramento segue firme, ao passo que em muitos pa\u00edses ricos estamos caminhando na dire\u00e7\u00e3o oposta por causa dos problemas bem evidentes com o desmembramento. Essa \u00e9 a matriz arruinada dentro da qual a pol\u00edtica tem que trabalhar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De modo brilhante, o Brett esbo\u00e7a os modelos de neg\u00f3cio da NextEra Energy e de outros atores no sistema estado-unidense, que s\u00e3o cruciais para entender a pol\u00edtica da Lei de Redu\u00e7\u00e3o da Infla\u00e7\u00e3o. Ele explica a l\u00f3gica autocontradit\u00f3ria do desenvolvimento e do investimento na energia verde. Novos investimentos em energia verde muito eficiente e barata levam ao decl\u00ednio das taxas de lucro dentro do setor \u2013 em parte por causa dos custos antecipados, enquanto os custos marginais posteriores s\u00e3o pr\u00f3ximos de zero, e em parte por conta do modo como a eletricidade \u00e9 precificada no atacado. O setor canibaliza a si mesmo: geradores instalam uma capacidade cada vez mais eficiente e ficam presos em uma guerra fiscal em leil\u00f5es nos quais eles vendem a eletricidade pelo pre\u00e7o de custo, acrescida de uma fra\u00e7\u00e3o cada vez menor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O verdadeiro problema com esses projetos \u00e9 que eles exigem muito capital. Como voc\u00ea os financia antecipadamente? Ningu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia emprestaria bilh\u00f5es de d\u00f3lares para um ativo cujo valor basicamente depende dos resultados altamente incertos dos acordos sobre o pre\u00e7o da eletricidade. Desse modo, \u00e9 muito dif\u00edcil angariar fundos para esses projetos. Mesmo que o custo nivelado pare\u00e7a \u00f3timo, usinas a g\u00e1s ainda s\u00e3o melhores em termos de financiamento porque seu fluxo de caixa \u00e9 mais previs\u00edvel e as margens de lucro s\u00e3o mais est\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pol\u00edtica tem que ser avaliada em termos de sua capacidade de resolver esse problema. A Lei de Redu\u00e7\u00e3o da Infla\u00e7\u00e3o enfrenta esses problemas b\u00e1sicos? Dado que ela foi projetada por lobistas e atores de dentro desse sistema \u2013 como qualquer legisla\u00e7\u00e3o nos EUA \u2013, ela auxilia de v\u00e1rias formas, especialmente na quest\u00e3o da estabilidade. Eu sou c\u00e9tico quanto \u00e0 Lei de Redu\u00e7\u00e3o da Infla\u00e7\u00e3o, mas os defensores dela me mostraram que o aspecto mais importante dessa pol\u00edtica \u00e9 a previsibilidade do fluxo de subs\u00eddio. Do ponto de vista dos investidores em energia renov\u00e1vel dos EUA, a Lei parece um compromisso p\u00fablico de longo prazo com um punhado de subs\u00eddios mais previs\u00edveis. Isso por si s\u00f3 muda o jogo. N\u00e3o \u00e9 um glorioso passo em dire\u00e7\u00e3o a um futuro p\u00f3s-neoliberal, mas ajusta o sistema de subs\u00eddios. Os resultados s\u00e3o ineg\u00e1veis. Por exemplo, embora houvesse fortes raz\u00f5es para a constru\u00e7\u00e3o sem subs\u00eddio da tubula\u00e7\u00e3o de energia renov\u00e1vel do Texas (um projeto inacabado ainda), o subs\u00eddio torna o projeto mais lucrativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com esse regime de subs\u00eddios, o governo dos EUA come\u00e7a a arbitrar um acordo intra-corporativo e intra-elite. A estabiliza\u00e7\u00e3o real para os projetos caros de investimento em energias renov\u00e1veis \u00e9 alcan\u00e7ada por meio de acordos entre empresas, com o Google, a Amazon e empresas do tipo aceitando o compromisso de comprar uma certa quantia de energia a um determinado pre\u00e7o. Quando um projeto garantir isso, um banco de investimento ou um financiador do capital privado dir\u00e1 \u201cEsse \u00e9 um risco que eu posso correr, e o restante podemos fazer o hedge, ou algum sistema de subs\u00eddio vai absorver\u201d. \u00c9 nos mecanismos atrav\u00e9s dos quais esses contratos s\u00e3o marcados como arriscados ou sem risco que tem havido alguma mudan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>KATE ARONOFF<\/strong>: Brett, estou curiosa para saber o que voc\u00ea ouviu das pessoas de dentro da ind\u00fastria quanto ao que mudou com a Lei de Redu\u00e7\u00e3o da Infla\u00e7\u00e3o. Quais foram as mudan\u00e7as nos \u00faltimos anos, e quantas s\u00e3o resultado dessa pol\u00edtica?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>BRETT CHRISTOPHERS<\/strong>: Quando a Lei chegou, j\u00e1 havia incentivos gerais do mesmo tipo que a legisla\u00e7\u00e3o introduziu. Mas ela surgiu depois de um per\u00edodo de grande incerteza sobre se os subs\u00eddios existentes seriam mantidos. N\u00e3o havia uma vis\u00e3o de longo prazo, o que a ind\u00fastria considerou problem\u00e1tico. A Lei de Redu\u00e7\u00e3o da Infla\u00e7\u00e3o oferece aos investidores em energia renov\u00e1vel tanto cr\u00e9ditos fiscais de investimento, quanto cr\u00e9ditos fiscais de produ\u00e7\u00e3o. Ela os estendeu por pelo menos dez anos e elevou a taxa de cr\u00e9dito de volta ao n\u00edvel original. Assim, efetivamente, a Lei inflou de novo a lucratividade a fim de atrair investimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando olhamos para a Lei dessa forma, n\u00e3o dever\u00edamos esperar que ela fizesse muito, porque ela n\u00e3o mudou fundamentalmente o contexto. Eu suspeito que o que a Lei est\u00e1 \u2013 ou n\u00e3o est\u00e1 \u2013 fazendo no setor industrial da fabrica\u00e7\u00e3o \u00e9 mais importante do que os cr\u00e9ditos e subs\u00eddios que ela oferece para a implementa\u00e7\u00e3o de energias renov\u00e1veis. As mudan\u00e7as importantes est\u00e3o acontecendo na forma como a Lei est\u00e1 mudando os incentivos para que os desenvolvedores de energia renov\u00e1vel nos EUA comprem de fabricantes estado-unidenses ou continuem importando da \u00c1sia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outros lugares do mundo, os governos basicamente apoiaram o desenvolvimento em energia renov\u00e1vel por meio de tarifas feed-in, atrav\u00e9s das quais o governo oferece aos desenvolvedores de energia renov\u00e1vel um pre\u00e7o fixo a longo prazo pela eletricidade. Ent\u00e3o o desenvolvedor acredita na promessa do governo, vai ao banco e diz: \u201cAgora voc\u00ea pode me emprestar dinheiro, porque voc\u00ea pode constatar que eu serei capaz de vender minha eletricidade por um pre\u00e7o que vai me permitir pagar a d\u00edvida\u201d. Isso n\u00e3o acontece nos EUA, e \u00e9 por essa raz\u00e3o que os acordos corporativos de compra de energia s\u00e3o t\u00e3o importantes. Cr\u00e9ditos fiscais n\u00e3o oferecem um pre\u00e7o fixo a longo prazo, mas os acordos corporativos de compra de energia, sim. O Google, a Amazon e a Microsoft est\u00e3o cumprindo nos EUA o mesmo papel que o governo desempenha em outros pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ADAM TOOZE<\/strong>: Sua an\u00e1lise desmembra vendas no varejo, rede, gera\u00e7\u00e3o e financiamento em quatro etapas distintas que t\u00eam quatro grupo de atores completamente diferentes. Alguns s\u00e3o desenvolvedores de projetos de energia de corpo e alma; depois, temos as pessoas que lidam com os consumidores e que t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de entregar a energia; e, por fim, regulando tudo isso, existem pessoas que precisam ganhar uma margem maior do que 7% ou 8% de retorno e que n\u00e3o ligam para como elas v\u00e3o conseguir isso. Elas t\u00eam times de analistas que pesquisam, mas, essencialmente, elas podem pular fora, e isso paira sobre muitos dos projetos que voc\u00ea descreve. Com um sistema totalmente integrado, tal qual o da China, existe uma urg\u00eancia conectiva, convincente, em expandir massivamente o suprimento de energia, o que gera um impulso coletivo dentro do sistema a fim de satisfazer a necessidade por mais energia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso me deixa com uma quest\u00e3o de compara\u00e7\u00e3o. Se o seu argumento definitivo \u00e9 o de que as energias renov\u00e1veis n\u00e3o s\u00e3o constru\u00eddas porque elas n\u00e3o d\u00e3o dinheiro, minha resposta seria: como diabos o fraturamento hidr\u00e1ulico foi feito? Ningu\u00e9m ganhou dinheiro com o fraturamento hidr\u00e1ulico por anos. Talvez eu esteja errado, e algu\u00e9m importante ganhou dinheiro de fato. Mas voc\u00ea consegue me persuadir de que o g\u00e1s \u00e9 uma aposta mais segura do que uma usina e\u00f3lica?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando voltamos um pouco no tempo e observamos a pol\u00edtica de energia nos EUA desde 2008, a hist\u00f3ria principal n\u00e3o \u00e9 a Lei de Redu\u00e7\u00e3o da Infla\u00e7\u00e3o ou as energias renov\u00e1veis; a hist\u00f3ria principal \u00e9 que os EUA se tornaram o maior produtor de combust\u00edveis f\u00f3sseis. Pessoas despejaram bilh\u00f5es nisso, o que reduziu o pre\u00e7o do combust\u00edvel para todo mundo, mas n\u00e3o gerou dinheiro para ningu\u00e9m. Talvez algu\u00e9m na cadeia est\u00e1 ganhando dinheiro e deve ser por isso que a coisa segue em frente. Na Europa, ningu\u00e9m est\u00e1 investindo em nada, enquanto nos EUA existe uma experi\u00eancia ao vivo de investimento em energia transformadora no fraturamento hidr\u00e1ulico, juntamente com um investimento med\u00edocre em energia renov\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>BRETT CHRISTOPHERS<\/strong>: Essa \u00e9 uma \u00f3tima quest\u00e3o, e eu vou respond\u00ea-la de modo insatisfat\u00f3rio porque eu n\u00e3o sei muito sobre fraturamento hidr\u00e1ulico. O ponto que eu defendo \u00e9 o de que existe um problema real de lucratividade com as energias renov\u00e1veis que est\u00e1 obstruindo um desenrolar mais r\u00e1pido \u2013 ainda que, mesmo assim, exista um desenrolar, que pode ser entendido de diversas formas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 atores que est\u00e3o bem satisfeitos com os n\u00edveis relativamente marginais de lucratividade. Em muitos casos \u2013 n\u00e3o necessariamente o da NextEra, mas o de desenvolvedores menores \u2013, existe um desejo de realizar algo verde, que n\u00e3o devemos subestimar. Esses desenvolvedores, em muitos casos, s\u00e3o entidades empresariais que est\u00e3o dispostas a aceitar o risco. Como voc\u00ea disse antes, s\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es financeiras que n\u00e3o est\u00e3o prontas para aceitar o risco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A minha pesquisa para o livro apenas refor\u00e7ou meu ponto de vista de que muito do capitalismo se resume a conquistar fontes confi\u00e1veis e defens\u00e1veis de monop\u00f3lio ou oligop\u00f3lio de poder. Uma coisa a se notar sobre a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade, e mais especificamente sobre a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade a partir de fontes renov\u00e1veis, \u00e9 que \u00e9 incrivelmente competitivo vender uma mercadoria indiferenci\u00e1vel apenas com base na competi\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se os custos ca\u00edram tanto, por que os lucros n\u00e3o est\u00e3o subindo? Se voc\u00ea \u00e9 um desenvolvedor de uma usina e\u00f3lica que viu seus custos de gera\u00e7\u00e3o ca\u00edrem 60% nos \u00faltimos dez anos, voc\u00ea iria pensar que seus lucros aumentaram. Mas a sua capacidade de aumentar os lucros \u00e9 totalmente dependente de sua capacidade de capturar ou privatizar os benef\u00edcios daquela redu\u00e7\u00e3o de custos. N\u00e3o \u00e9 o que acontece: esses benef\u00edcios entram na competi\u00e7\u00e3o e s\u00e3o repassados na cadeia de fornecimento ou chegam at\u00e9 os consumidores. \u00c9 claro, isso \u00e9 o que os consumidores querem: uma transi\u00e7\u00e3o verde sem que a conta de luz aumente. Os pol\u00edticos querem que a conta de luz permane\u00e7a baixa porque isso os ajuda a se manter no poder, embora essa conta de luz baixa seja contraprodutiva \u00e0 lucratividade que incentiva investimentos futuros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ADAM TOOZE<\/strong>: Esse \u00e9 um argumento absurdamente impopular. Voc\u00ea est\u00e1 basicamente dizendo que estamos tirando os dividendos verdes cedo demais, e, ao inv\u00e9s disso, dev\u00edamos permitir o monop\u00f3lio capitalista verde acumular mais excedentes para que ele possa continuar municiando o investimento. Ent\u00e3o, de algum modo n\u00f3s arbitramos o acordo social para que n\u00e3o tenhamos uma crise no pre\u00e7o dos combust\u00edveis \u2013 e dever\u00edamos aliviar os mais pobres, enquanto esfolamos os consumidores ricos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>BRETT CHRISTOPHERS<\/strong>: Parte disso \u00e9 a minha frustra\u00e7\u00e3o com o argumento segundo o qual n\u00e3o dev\u00edamos reduzir os riscos do capital. Se os mercados de energia e os sistemas financeiros continuarem desse jeito, e se ent\u00e3o n\u00e3o reduzirmos os riscos, n\u00e3o haver\u00e1 investimento. Se a escolha for entre oferecer subs\u00eddios que garantam um certo percentual de retorno em investimentos em energia renov\u00e1vel para a BlackRock, resultando em uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica r\u00e1pida; ou, por outro lado, n\u00e3o aceitar reduzir os riscos do capital, n\u00e3o resultando em transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, eu sempre fico com a primeira op\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que, politicamente falando, estamos limitados a esse conjunto de escolhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>KATE ARONOFF<\/strong>: Nos EUA, ouvimos falar de n\u00fameros impressionantes sobre o desenvolvimento de energia renov\u00e1vel ao passo que estamos produzindo mais petr\u00f3leo e g\u00e1s do que nunca, muito por conta do crescimento do xisto. Podemos assistir aos EUA descarbonizarem domesticamente at\u00e9 um certo grau, enquanto continuam a exportar combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Emily Grubert e seus colegas chamaram isso de \u201ctransi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria\u201d: o sistema de combust\u00edveis f\u00f3sseis atravessa um per\u00edodo de incertezas, o que imp\u00f5e restri\u00e7\u00f5es ao aumento do sistema de energia limpa. S\u00e3o tempos confusos, e, com menos planejamento, se tornam ainda mais confusos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ADAM TOOZE<\/strong>: Essa coisa de transi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria \u00e9 claramente teleol\u00f3gica: sabemos que existe uma transi\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o definimos nossa posi\u00e7\u00e3o atual em rela\u00e7\u00e3o ao fato de que estamos no meio do caminho. \u00c9 um construto mental extraordin\u00e1rio \u00e0 luz das tend\u00eancias que estamos observando. Ainda nem come\u00e7amos a descarboniza\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 onde consigo ver, a pol\u00edtica dos EUA consiste em almejar uma transi\u00e7\u00e3o lenta, o que significa que o pa\u00eds nunca tem que encarar o abismo escancarado entre levar o clima a s\u00e9rio e redobrar os ativos de combust\u00edvel f\u00f3ssil marginalmente vi\u00e1veis. Se a \u00c1sia e a Europa reduzissem rapidamente a demanda por combust\u00edveis f\u00f3sseis, haveria um enorme problema de ativos encalhados. Podemos imaginar, como voc\u00ea disse, um tipo de cen\u00e1rio bifurcado em que o ar condicionado \u00e9 movido por energia renov\u00e1vel no Texas, mas todo mundo continua a dirigir camionetes gigantes e ainda exportamos grandes quantias de petr\u00f3leo e g\u00e1s \u2013 possivelmente para petroqu\u00edmicas chinesas (embora a China n\u00e3o vai comprar muito petr\u00f3leo para combust\u00edvel num futuro pr\u00f3ximo porque a eletrifica\u00e7\u00e3o est\u00e1 acelerada l\u00e1).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>BRETT CHRISTOPHERS<\/strong>: Uma parte do obst\u00e1culo econ\u00f4mico que afeta as energias renov\u00e1veis \u00e9 simplesmente o n\u00edvel de lucratividade. Mas os retornos s\u00e3o sempre relativos, porque todos os atores capitalistas t\u00eam um conjunto alternativo de oportunidades de investimentos \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, mesmo se essa alternativa de investimento for apenas deixar o dinheiro no banco ou aplic\u00e1-lo em t\u00edtulos do governo livres de risco. Uma taxa de retorno entre 5% e 8%, que \u00e9 o que as energias renov\u00e1veis oferecem, pode parecer atraente para certos atores em determinados momentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grupo \u00f3bvio para o qual isso n\u00e3o pareceu atrativo \u00e9 o das grandes companhias de petr\u00f3leo e g\u00e1s, que, com seu neg\u00f3cio principal de petr\u00f3leo e g\u00e1s indo contra a corrente, n\u00e3o se animou com um retorno esperado de menos de 15% nos anos recentes. Para elas n\u00e3o faz nenhum sentido fazer a transi\u00e7\u00e3o para um neg\u00f3cio que gera retornos menores do que a metade dessa taxa \u2013 contanto que elas acreditem que continuar\u00e3o a receber esses n\u00edveis de retorno atuais. Se elas acreditassem que algo vai acontecer \u2013 tipo uma a\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria \u2013 e que vai prejudicar a lucratividade dentro do curto ou m\u00e9dio prazo, ent\u00e3o elas considerariam fazer a transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Europa, houve um momento h\u00e1 mais ou menos cinco anos em que a British Petroleum e a Shell acreditaram de fato, at\u00e9 mesmo recearam, que seria feita alguma coisa que tornaria os neg\u00f3cios principais delas menos seguros a m\u00e9dio prazo. Em 2020, elas anunciaram que come\u00e7ariam a transi\u00e7\u00e3o. Os planos de transi\u00e7\u00e3o delas eram razoavelmente modestos, mas elas diziam que iriam reduzir sua produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s, gastar mais dinheiro em energias renov\u00e1veis e assim por diante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em maio de 2021, a Ag\u00eancia Internacional de Energia firmou sua posi\u00e7\u00e3o e disse: \u201cSe vamos zerar as emiss\u00f5es, n\u00e3o pode haver novos desenvolvimentos em petr\u00f3leo e g\u00e1s licenciados e aprovados e nenhuma nova mina de carv\u00e3o\u201d. Mas, uma semana depois, vinte novos campos de petr\u00f3leo e g\u00e1s foram aprovados para desenvolvimento. Novas licen\u00e7as choveram igual confete mundo afora. As BPs e as Shells viram isso e decidiram que os governos nem remotamente estavam levando a s\u00e9rio tomar as medidas que elas temiam, e elas adiaram seus planos de transi\u00e7\u00e3o. Quando eu comecei a olhar mais seriamente para a quest\u00e3o da energia no final da d\u00e9cada de 2010, eu ouvi muito a respeito dos ativos encalhados. Mas, de fato, ningu\u00e9m mais fala disso, porque est\u00e1 claro que nenhum deles vai ficar encalhado num futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>KATE ARONOFF<\/strong>: A Lei de Redu\u00e7\u00e3o da Infla\u00e7\u00e3o e o Acordo Verde Europeu est\u00e3o ambos preocupados em proteger o legado das ind\u00fastrias que demandam muito carbono \u2013 especialmente as de carros nos EUA e na Alemanha. Os EUA est\u00e3o pressionando outros pa\u00edses a rejeitar os pain\u00e9is solares chineses baratos e outros importados mais baratos usados como elementos na descarboniza\u00e7\u00e3o. Onde a gente vai parar com os EUA tentando construir uma alian\u00e7a multilateral contra a China?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ADAM TOOZE<\/strong>: O Brett tem uma abordagem simples e no entanto brilhantemente esclarecedora: ele restringe o problema \u00e0 eletrifica\u00e7\u00e3o, \u00e0 gera\u00e7\u00e3o solar e e\u00f3lica, e se elas podem ser lucrativas para os investidores. A discuss\u00e3o do livro come\u00e7a nos anos 2010, quando j\u00e1 hav\u00edamos identificado a solu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica \u2013 estamos apostando tudo nisso e agora \u00e9 tarde demais para fazer outra coisa. Mas esse n\u00e3o \u00e9 o caso dos ve\u00edculos el\u00e9tricos, e tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o caso em outras \u00e1reas da descarboniza\u00e7\u00e3o que s\u00e3o dif\u00edceis de atenuar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos acostumados a pensar no desastre ambiental como uma trag\u00e9dia coletiva. Existe muito gado para pouca cerca, ent\u00e3o o gado sai pastando e come a grama toda; se tiv\u00e9ssemos direitos de propriedade, ter\u00edamos um gerenciamento melhor do gado e da grama. Mas e se o problema real for o qu\u00e3o r\u00e1pido podemos aumentar o rebanho de gado que n\u00e3o come grama? Quais os incentivos necess\u00e1rios para criar um gado que n\u00e3o come grama?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se voc\u00ea \u00e9 a Volkswagen, seu problema \u00e9: qual o lugar mais prov\u00e1vel onde se encontra o ambiente no qual de algum modo vamos resolver o misterioso problema da fabrica\u00e7\u00e3o do carro el\u00e9trico? Eles falharam na Europa. Deve ser na China, porque a empresa sabe que \u00e9 o \u00fanico ambiente de aprendizagem no qual ela de fato estar\u00e1 inserida na pr\u00f3xima etapa da produ\u00e7\u00e3o automobil\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pol\u00edtica dos EUA para a fabrica\u00e7\u00e3o de carros el\u00e9tricos n\u00e3o chineses s\u00f3 vai dar certo se ela oferecer um cen\u00e1rio plaus\u00edvel que se encaixa na estrat\u00e9gia corporativa, e no momento isso \u00e9 imposs\u00edvel. Os atores locais est\u00e3o pulando fora. A Ford n\u00e3o \u00e9 uma empresa de carros, de todo modo; tudo o que ela faz s\u00e3o camionetes. A GM est\u00e1 lidando com uma crise existencial. A Stellantis \u00e9 basicamente uma empresa europeia. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 \u201cQu\u00e3o lucrativo isso fica em um portfolio?\u201d, mas sim \u201cQual \u00e9 o nosso futuro corporativo vi\u00e1vel?\u201d. Isso requer um processo mais elaborado de vis\u00e3o coletiva. A\u00e7o verde? Como vamos fazer isso? Ningu\u00e9m sabe ainda. Mas o que sabemos \u00e9 que a China produz metade de todo o a\u00e7o do mundo. No ecossistema do a\u00e7o chin\u00eas, alguns engenheiros geniais podem estar trabalhando nisso, talvez ligado com o hidrog\u00eanio verde. Se voc\u00ea compra o bilhete estado-unidense dizendo \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 com a gente\u201d, voc\u00ea est\u00e1 assumindo um risco enorme.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os estado-unidenses dizem que \u00e9 tudo se resume a margens de lucro e diminuir riscos; eles n\u00e3o est\u00e3o entendendo a seriedade dessa escolha estrat\u00e9gica. O fato de que a Boeing n\u00e3o consegue mais fazer avi\u00f5es seguros, ou que a Intel n\u00e3o consegue mais produzir chips de ponta, n\u00e3o \u00e9 uma mera quest\u00e3o de n\u00edveis de retorno. Ou melhor, porque elas pensaram que <em>era<\/em> uma quest\u00e3o de n\u00edveis de retorno, elas n\u00e3o conseguem mais produzir essas coisas. Se voc\u00ea est\u00e1 no neg\u00f3cio de fabrica\u00e7\u00e3o de ponta, por que voc\u00ea ficaria nos EUA?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>BRETT CHRISTOPHERS<\/strong>: Nos EUA e na Europa, os agentes corporativos atuais n\u00e3o mostraram basicamente nenhum interesse em tecnologias de mitiga\u00e7\u00e3o, ou eles voltaram atr\u00e1s nos compromissos com essas tecnologias. O \u00fanico interesse real que esses agentes mostram \u00e9 em tecnologias de emiss\u00f5es negativas. As empresas de petr\u00f3leo e g\u00e1s est\u00e3o investindo um bocado em captura e armazenamento de carbono na Louisiana, explicitamente para evitar a necessidade de transi\u00e7\u00e3o. Como a pol\u00edtica se interrelaciona com isso? No caso do Reino Unido, o novo governo do Labour parece apoiar a moda das tecnologias de emiss\u00f5es negativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ADAM TOOZE<\/strong>: O Golfo do M\u00e9xico ser\u00e1 um centro de tecnologias de emiss\u00f5es negativas porque os EUA j\u00e1 possuem uma massa cr\u00edtica ali. A rede de gasodutos de hidrog\u00eanio presente ali \u00e9 bem mais sofisticada do que em qualquer outro lugar do mundo. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que o \u201cPlano Marshall da Energia Limpa\u201d do Brian Deese especifica a energia geot\u00e9rmica, o hidrog\u00eanio, a captura de carbono e a energia nuclear, que s\u00e3o \u00e1reas genu\u00ednas nas quais os EUA t\u00eam uma vantagem: a energia nuclear \u00e9 da ind\u00fastria militar e as outras tr\u00eas est\u00e3o diretamente ligadas aos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Os estado-unidenses s\u00e3o muito bons em perfura\u00e7\u00e3o, portanto eles absolutamente deveriam ser um l\u00edder mundial nessa arena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>KATE ARONOFF<\/strong>: Deese argumenta que os EUA criar\u00e3o por a\u00ed novos mercados para tecnologias de energia limpa de ponta \u2013 ele foca em tecnologias incipientes como o hidrog\u00eanio e a captura de carbono. O qu\u00e3o confiante voc\u00ea est\u00e1 de que esses se tornar\u00e3o grande setores de exporta\u00e7\u00e3o para os EUA?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ADAM TOOZE<\/strong>: H\u00e1 um argumento de fundo aqui com a cr\u00edtica que a Daniela Gabor faz \u00e0 \u201credu\u00e7\u00e3o de risco\u201d como o modo central de se entender o momento atual. H\u00e1 duas maneiras diferentes de se pensar isso. A abordagem do Brett \u00e9 a mais direta, ou seja \u201cPodemos eliminar os riscos do jeito certo e pensar bastante nas quest\u00f5es distributivas, uma vez que n\u00e3o temos nenhuma outra ferramenta\u201d. Minha vis\u00e3o inclinada para as Humanidades \u00e9 a de que isso tudo \u00e9 bobagem. Quando eles dizem que teremos um Plano Marshall Verde isso soa como se tudo estivesse no lugar certo, mas a\u00ed os n\u00fameros e a an\u00e1lise concreta mostram que ele \u00e9 extremamente \u00ednfimo \u2013 ningu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia pode lev\u00e1-lo a s\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o mais modesta \u00e9 se os EUA poderiam se tornar um grande centro de inova\u00e7\u00e3o nesses elementos francamente perif\u00e9ricos da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica verde. \u00c9 claro que poderiam. Voc\u00ea encontra um primeiro empreendedor e o incentiva; voc\u00ea assusta todos os demais fazendo-os pensar que, se eles n\u00e3o inovarem, eles est\u00e3o ferrados; e ent\u00e3o voc\u00ea cria um mercado est\u00e1vel. Voc\u00ea precisa de um planejamento de dez, quinze, vinte anos. Ser\u00e3o necess\u00e1rios subs\u00eddios. Voc\u00ea tem que ter clareza sobre isso e resolver os acordos distributivos, n\u00e3o apenas por uma quest\u00e3o de equidade, mas porque os subs\u00eddios s\u00f3 s\u00e3o plaus\u00edveis se os acordos distributivos s\u00e3o expl\u00edcitos. Do contr\u00e1rio, as pessoas v\u00e3o pensar que voc\u00ea vai retir\u00e1-los de novo. Essa \u00e9 uma das coisas que os alem\u00e3es acertaram em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 energia nuclear: eles criaram consenso coletivo acerca dela. A ind\u00fastria s\u00f3 ficou irritada com a Angela Merkel porque ela acelerou o programa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os EUA s\u00e3o de fato os l\u00edderes mundiais em combust\u00edveis f\u00f3sseis sofisticados. \u00c9 por isso que as Shells e BPs deste mundo sempre est\u00e3o buscando estrat\u00e9gias alternativas \u2013 elas t\u00eam um complexo de inferioridade porque elas sabem que a Exxon \u00e9 a maioral. As empresas estado-unidenses t\u00eam um registro de seguran\u00e7a muito melhor e s\u00e3o melhores do que as operadoras europeias em preservar a vida dos trabalhadores; elas tamb\u00e9m s\u00e3o bastante r\u00edgidas no que tange \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Portanto os EUA poderiam ser um grande l\u00edder na quest\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, mas seria preciso muito menos baboseira e mais incentivos permanentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * * <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Essa entrevista foi originalmente publicada na <em>Dissent Magazine<\/em> em 24 de fevereiro de 2025. Agradecemos \u00e0 equipe da revista por permitir a tradu\u00e7\u00e3o e a publica\u00e7\u00e3o. Para ler o original, clique <a href=\"https:\/\/www.dissentmagazine.org\/online_articles\/market-failure\/\">aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Barros.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"d642c32b-5fd1-40c7-8bc6-41c1fa49e7bf\">Jornalista que escreve para a <em>New Republic<\/em>, s\u00f3cia do Instituto Roosevelt e membro do comit\u00ea editorial da <em>Dissent<\/em>.  <a href=\"#d642c32b-5fd1-40c7-8bc6-41c1fa49e7bf-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"2285b3fe-1a32-4698-afc1-b644f91d1ca9\">Professor de Geografia na Universidade de Uppsala e autor do livro <em>The Price is Wrong: Why Capitalism Won&#8217;t Save the World, <\/em>cuja <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2024\/12\/08\/e-o-lucro-estupido\/\">resenha<\/a> se encontra no <em>Carbono<\/em>. <a href=\"#2285b3fe-1a32-4698-afc1-b644f91d1ca9-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"6aa0a9b8-44bb-4d3c-b594-ea1df1fdbfc5\">Professor de hist\u00f3ria da Universidade de Columbia e autor do livro <em><a href=\"https:\/\/todavialivros.com.br\/livros\/portas-fechadas\">Portas Fechadas: como a covid abalou a economia mundial<\/a><\/em>.  <a href=\"#6aa0a9b8-44bb-4d3c-b594-ea1df1fdbfc5-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 5 \u2013 abril de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma discuss\u00e3o entre Brett Christophers e Adam Tooze, mediada por Kate Aronoff, sobre a crise clim\u00e1tica e os limites do capitalismo<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":529,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Jornalista que escreve para a <em>New Republic<\/em>, s\u00f3cia do Instituto Roosevelt e membro do comit\u00ea editorial da <em>Dissent<\/em>. \",\"id\":\"d642c32b-5fd1-40c7-8bc6-41c1fa49e7bf\"},{\"content\":\"Professor de Geografia na Universidade de Uppsala e autor do livro <em>The Price is Wrong: Why Capitalism Won't Save the World, <\/em>cuja <a href=\\\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2024\/12\/08\/e-o-lucro-estupido\/\\\">resenha<\/a> se encontra no <em>Carbono<\/em>.\",\"id\":\"2285b3fe-1a32-4698-afc1-b644f91d1ca9\"},{\"content\":\"Professor de hist\u00f3ria da Universidade de Columbia e autor do livro <em><a href=\\\"https:\/\/todavialivros.com.br\/livros\/portas-fechadas\\\">Portas Fechadas: como a covid abalou a economia mundial<\/a><\/em>. \",\"id\":\"6aa0a9b8-44bb-4d3c-b594-ea1df1fdbfc5\"}]"},"categories":[14,10,5,7],"tags":[11,66,67,68,60],"class_list":["post-528","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arquivo","category-artigo","category-capitalismo","category-clima","tag-capitalismo","tag-eletricidade","tag-mercado","tag-transicao-energetica","tag-volume-5"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/528","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=528"}],"version-history":[{"count":33,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/528\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":606,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/528\/revisions\/606"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/media\/529"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=528"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=528"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=528"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}