{"id":65,"date":"2024-12-08T14:17:38","date_gmt":"2024-12-08T17:17:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=65"},"modified":"2025-02-14T12:19:30","modified_gmt":"2025-02-14T15:19:30","slug":"entrevista-com-anna-kornbluh","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2024\/12\/08\/entrevista-com-anna-kornbluh\/","title":{"rendered":"Entrevista com Anna Kornbluh"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Anna Kornbluh, da Universidade de Illinois, Chicago, leciona e pesquisa sobre romances, filmes e est\u00e9tica cultural de uma perspectiva formalista e marxista. Em 2024, ela lan\u00e7ou pela editora Verso o livro intitulado <em>Immediacy, or, The Style of Too Late Capitalism<\/em>,<sup data-fn=\"4be220a7-efb0-4726-a1da-710e88ce6357\" class=\"fn\"><a href=\"#4be220a7-efb0-4726-a1da-710e88ce6357\" id=\"4be220a7-efb0-4726-a1da-710e88ce6357-link\">1<\/a><\/sup> que provocou intensos debates na comunidade acad\u00eamica internacional. O livro trata do estilo do capitalismo muito tardio (<em>too late capitalism<\/em>), alegando que a arte e a literatura contempor\u00e2neas abdicaram da media\u00e7\u00e3o como resultado da atual organiza\u00e7\u00e3o do capitalismo, que incentiva a circula\u00e7\u00e3o incessante de mercadorias e bens culturais a fim de combater a estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da produ\u00e7\u00e3o. Com isso, as tradicionais formas de produ\u00e7\u00e3o e recep\u00e7\u00e3o art\u00edsticas, respaldadas pelas institui\u00e7\u00f5es que promovem a reprodu\u00e7\u00e3o social do conhecimento, foram substitu\u00eddas por formas imersivas e imanentistas, que apostam nos afetos como meio de suscitar respostas convergentes com a organiza\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica que incentiva o imediatismo (<em>immediacy<\/em>). O imediatismo (ou a aus\u00eancia de media\u00e7\u00e3o), portanto, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o na qual a arte e a literatura s\u00e3o hoje produzidas e consumidas, gerando um estilo que achata a consci\u00eancia te\u00f3rica e pol\u00edtica, ao passo que enaltece narcisismos te\u00f3ricos e art\u00edsticos de toda sorte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa entrevista, a professora Anna Kornbluh esclarece o que \u00e9 o capitalismo muito tardio em sua rela\u00e7\u00e3o com o p\u00f3s-modernismo, a cat\u00e1strofe clim\u00e1tica e a crise do trabalho, bem como aborda as rela\u00e7\u00f5es entre esse sistema econ\u00f4mico e as formas art\u00edsticas do imediatismo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: O seu livro <em>Immediacy, or, the Style of Too Late Capitalism<\/em> tem uma forte inspira\u00e7\u00e3o no livro de Fredric Jameson, <em>Postmodernism, or, the Logic of Late Capitalism<\/em>, correto? Jameson \u00e9 um te\u00f3rico bastante lido e conhecido no Brasil. Comecemos, ent\u00e3o, por isso: quais as diferen\u00e7as mais not\u00e1veis entre o \u201clate capitalism\u201d de Jameson e o \u201ctoo late capitalism\u201d do qual voc\u00ea fala em seu livro? Al\u00e9m disso, o seu livro trabalha com uma dicotomia entre a imediatismo e a media\u00e7\u00e3o, a primeira como resultado do capitalismo atual e a segunda como parte de pr\u00e1ticas culturais e acad\u00eamicas que parecem hoje relegadas \u00e0 margem da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica e cr\u00edtica. \u00c9 poss\u00edvel dizer que o p\u00f3s-modernismo foi o \u00faltimo estilo de uma cultura da media\u00e7\u00e3o, ou o capitalismo financista das \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX j\u00e1 havia eliminado a media\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANNA KORNBLUH<\/strong>:<em> Immediacy<\/em> sem d\u00favida tem uma d\u00edvida profunda com o <em>P\u00f3s-Modernismo<\/em> e pretende estender as an\u00e1lises de Jameson \u2013 em parte porque o m\u00e9todo marxista dial\u00e9tico de interpreta\u00e7\u00e3o da est\u00e9tica cultural que ele estabeleceu em <em>O Inconsciente Pol\u00edtico<\/em> e no <em>P\u00f3s-Modernismo <\/em>\u00e9 simplesmente insuper\u00e1vel, e em parte porque ele pr\u00f3prio notou que o p\u00f3s-modernismo n\u00e3o \u00e9 mais a dominante cultural. \u201cCapitalismo tardio\u201d foi um termo nas artes durante quase um s\u00e9culo. Ainda estamos no capitalismo! Mas de que modo nossas an\u00e1lises podem apreender o que continua igual enquanto tamb\u00e9m apreende o que \u00e9 diferente? O termo \u201ccapitalismo muito tardio\u201d \u00e9 um esfor\u00e7o de nomear essa crise prolongada do capitalismo que ainda continua a\u00ed, enquanto leva as pessoas \u00e0 mis\u00e9ria e coloca o planeta em perigo, e tamb\u00e9m uma tentativa de dizer que a temporalidade em que vivemos n\u00e3o \u00e9 mais tardia no sentido de que antecipa uma mudan\u00e7a, mas muito tardia no sentido de que o futuro j\u00e1 est\u00e1 significativamente \u2013 embora n\u00e3o totalmente \u2013 determinado. A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica subjacente \u00e0 crise de produ\u00e7\u00e3o (sobrecapacidade, expuls\u00e3o do trabalho, tend\u00eancia de queda na taxa de lucro) tornou-se muito mais evidente nos quarenta anos ap\u00f3s Jameson ter identificado o p\u00f3s-modernismo como l\u00f3gica cultural que correspondia \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o, \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es multinacionais e \u00e0 compress\u00e3o do espa\u00e7o-tempo. Hoje em dia \u00e9 senso comum para figuras n\u00e3o marxistas como Larry Summers que a estagna\u00e7\u00e3o secular \u00e9 real e mensur\u00e1vel. <em>Immediacy<\/em> tenta descrever a est\u00e9tica cultural que modula essa situa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica duradoura da estagna\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e da intensifica\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o. Um dos contrastes sobre o qual o livro repousa \u00e9 aquele entre a media\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna \u2013 o meta, a ironia, a intertextualidade, o pastiche \u2013 e a desmedia\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea \u2013 o achatamento, o borr\u00e3o, a indistin\u00e7\u00e3o, o lodo. A financeiriza\u00e7\u00e3o excessiva do fim do s\u00e9culo XX e do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI impulsiona a desintermedia\u00e7\u00e3o; imediatismo (<em>immediacy<\/em>) \u00e9 a media\u00e7\u00e3o negada resultante de nossa base de circula\u00e7\u00e3o futura de gerenciamento de ativos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: O cap\u00edtulo dedicado \u00e0 literatura p\u00f5e em quest\u00e3o tanto a autofic\u00e7\u00e3o quando as narrativas em primeira pessoa, ambas como parte de uma cultura do imediatismo e da iman\u00eancia. De que maneira isso promove um achatamento da dimens\u00e3o cr\u00edtica presente, por exemplo, nas obras do realismo convencional e da literatura em terceira pessoa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANNA KORNBLUH<\/strong>: Uma das observa\u00e7\u00f5es que o livro faz a respeito do estilo do imediatismo \u00e9 a de que tem havido uma muta\u00e7\u00e3o radical na literatura do s\u00e9culo XXI. Nos trezentos anos de hist\u00f3ria do romance angl\u00f3fono, ele foi majoritariamente composto na terceira pessoa (o que foi provado por experts em anal\u00edtica computacional, mas tamb\u00e9m \u00e9 algo observ\u00e1vel pela leitura). A terceira pessoa \u00e9, nesse sentido, definidora da forma romance e oferece um entendimento \u00fanico que n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel \u00e0 nossa experi\u00eancia fenom\u00eanica comum. Mas de repente, no s\u00e9culo XXI, os romances n\u00e3o s\u00e3o mais escritos na terceira pessoa; a primeira pessoa atingiu um dom\u00ednio sem precedentes. No cap\u00edtulo sobre a escrita como meio, o livro situa essa muta\u00e7\u00e3o radical em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 antimedia\u00e7\u00e3o, \u00e0 antirrepresenta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 determinada pela base do capitalismo muito tardio. A antificcionalidade militante da moda da autofic\u00e7\u00e3o se parece, nesse contexto, menos com algum tipo de radicalismo vanguardista e mais com a mais expl\u00edcita vers\u00e3o de uma muta\u00e7\u00e3o mais ampla na forma liter\u00e1ria: distante das t\u00edpicas media\u00e7\u00f5es das explora\u00e7\u00f5es da consci\u00eancia coletiva e do discurso indireto livre, e tendendo ao personalismo, ao atomismo e \u00e0 mem\u00f3ria. A deliberada rejei\u00e7\u00e3o da ficcionalidade, da personagem, da intriga, e da dura\u00e7\u00e3o temporal por parte da autofic\u00e7\u00e3o deve ser entendida como parte da deslegitima\u00e7\u00e3o da atividade social da representa\u00e7\u00e3o, e esse descr\u00e9dito \u00e9, novamente, um empreendimento economicamente sobredeterminado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Em seu livro, h\u00e1 alguns momentos em que voc\u00ea menciona a crise do trabalho acad\u00eamico como um dos elementos associados ao imediatismo. Do meu ponto de vista, muito do que se configura como imediatismo hoje se deve \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, n\u00e3o apenas na universidade e entre os artistas, mas como um todo, o que impulsiona pessoas a buscar nos aplicativos meios de vida. Voc\u00ea concorda que a crise do trabalho em geral, mas especificamente do trabalho acad\u00eamico e do trabalho art\u00edstico, est\u00e1 na origem do estilo do imediatismo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANNA KORNBLUH<\/strong>: A crise do trabalho cultural \u2013 o trabalho de reprodu\u00e7\u00e3o social, de produzir conhecimento e de produzir sentido, de criar institui\u00e7\u00f5es e de fazer pontes \u2013 \u00e9 claramente uma caracter\u00edstica da crise de estagna\u00e7\u00e3o. A busca desesperada do lucro a qualquer custo por parte da nossa economia, em face do decl\u00ednio de produtividade e da insustentabilidade do crescimento vertiginoso, significa que h\u00e1 um grave desinvestimento no registro interventivo da vida pol\u00edtica e civil, um s\u00e9rio desfinanciamento das escolas p\u00fablicas e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablicos. As condi\u00e7\u00f5es de trabalho delet\u00e9rias no campo da publica\u00e7\u00e3o, da educa\u00e7\u00e3o superior, do jornalismo, s\u00e3o parte da an\u00e1lise da degrada\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de fic\u00e7\u00e3o presente no cap\u00edtulo sobre a escrita, bem como da desespecifica\u00e7\u00e3o da m\u00eddia no mundo da arte contempor\u00e2nea, do triunfo do ensaio pessoal sobre o jornalismo investigativo, e da predomin\u00e2ncia da autoteoria sobre a pesquisa acad\u00eamica. \u00c9 por isso que o livro termina de olho nos movimentos sindicais na ind\u00fastria cultural. Sem professores e trabalhadores da \u00e1rea da sa\u00fade sindicalizados, sem jornalistas e funcion\u00e1rios dos museus sindicalizados, n\u00e3o veremos uma melhora no estilo cultural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Por fim, em algumas passagens do livro, voc\u00ea coloca o imediatismo como um obst\u00e1culo para uma maior consci\u00eancia das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Amitav Ghosh diz que o leitor do futuro n\u00e3o entender\u00e1 por que a literatura do presente ignora o aquecimento global e seus efeitos. De que maneira a literatura e a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica atuais contribuem para isso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANNA KORNBLUH<\/strong>: O livro sugere que o muito tardio \u00e9 uma realidade ecol\u00f3gica \u2013 n\u00e3o num sentido fatalista, uma vez que as coisas ainda podem ser menos piores, mas no sentido de que as piores consequ\u00eancias ainda est\u00e3o em gesta\u00e7\u00e3o \u2013, e que isso \u00e9 uma leitura sintom\u00e1tica compassiva do estilo do imediatismo: os artistas est\u00e3o renunciando \u00e0 criatividade e \u00e0 media\u00e7\u00e3o porque a humanidade est\u00e1 \u00e0 beira da extin\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. Mas a an\u00e1lise prossegue, enfatizando que o sintoma n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico caminho para a est\u00e9tica cultural. Nossa arte tamb\u00e9m pode ser ben\u00e9fica ou intervencionista \u2013 nos ajudando a pensar coletivamente, a pensar em solu\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, a entender a rela\u00e7\u00e3o entre representa\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o. Mas ela s\u00f3 pode fazer isso se n\u00e3o for abertamente antiarte, antimedia\u00e7\u00e3o, antirrepresenta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o parece verdade que a arte e a literatura contempor\u00e2neas ignoram os efeitos do clima; por\u00e9m, me parece que focar somente nos efeitos (e n\u00e3o, digamos, nas causas) n\u00e3o \u00e9 uma forma de pensamento muito ampla nem politicamente mobilizadora. Essas quest\u00f5es continuam a me preocupar, e v\u00e1rios ensaios sobre a \u201ccontraest\u00e9tica do clima\u201d e sobre os usos da arte na crise clim\u00e1tica derivaram do livro <em>Immediacy<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>* * * <\/strong><\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"4be220a7-efb0-4726-a1da-710e88ce6357\"><a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/en-gb\/products\/3031-immediacy-or-the-style-of-too-late-capitalism?srsltid=AfmBOorNsuibMJTyuW0o-inKIglDGrA8rNYstN55dJVyhC8vFvbBkEAi\">KORNBLUH, Anna. <em>Immediacy<\/em>, <em>or, The Style of Too Late Capitalism<\/em>. Londres e Nova York: Verso, 2024. <\/a> <a href=\"#4be220a7-efb0-4726-a1da-710e88ce6357-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 1 &#8211; dezembro de 2024.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A autora do livro &#8220;Immediacy, or, The Style of Too Late Capitalism&#8221; concedeu uma entrevista por escrito ao Carbono<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":66,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"<a href=\\\"https:\/\/www.versobooks.com\/en-gb\/products\/3031-immediacy-or-the-style-of-too-late-capitalism?srsltid=AfmBOorNsuibMJTyuW0o-inKIglDGrA8rNYstN55dJVyhC8vFvbBkEAi\\\">KORNBLUH, Anna. <em>Immediacy<\/em>, <em>or, The Style of Too Late Capitalism<\/em>. 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