{"id":676,"date":"2025-05-09T17:59:17","date_gmt":"2025-05-09T20:59:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=676"},"modified":"2025-06-10T14:55:30","modified_gmt":"2025-06-10T17:55:30","slug":"tornar-visivel-o-que-nao-vemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/05\/09\/tornar-visivel-o-que-nao-vemos\/","title":{"rendered":"Tornar vis\u00edvel o que n\u00e3o vemos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Resenha do livro: <a href=\"https:\/\/www.anagrama-ed.es\/libro\/argumentos\/lo-que-no-vemos-lo-que-el-arte-ve\/9788433964861\/A_575\">SPERANZA, Graciela. <em>Lo que no vemos, lo que el arte ve<\/em>. Barcelona: Editorial Anagrama, 2022<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Claudia Luiza Caimi<sup data-fn=\"e73cebba-1fdf-455f-a405-bafd57679e43\" class=\"fn\"><a href=\"#e73cebba-1fdf-455f-a405-bafd57679e43\" id=\"e73cebba-1fdf-455f-a405-bafd57679e43-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o na abordagem filos\u00f3fica e cient\u00edfica, de Plat\u00e3o \u00e0 Fenomenologia, de que os objetos est\u00e3o \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do sujeito que \u00e9 capaz de ver o mundo claramente, tomando a percep\u00e7\u00e3o como uma capacidade de captar e julgar o mundo sens\u00edvel. No entanto, na contemporaneidade de dif\u00edcil apreens\u00e3o, marcada por uma realidade de desastres clim\u00e1ticos e de objetos tecnol\u00f3gicos, o que poderia dizer\/mostrar a arte no meio de toda cat\u00e1strofe? Esta pergunta Graciela Speranza se prop\u00f5e responder no livro <em>Lo que no vemos, lo que el arte ve.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nele, a autora combina a an\u00e1lise de v\u00e1rias obras de arte em diferentes m\u00eddias, todas as quais compartilham a capacidade de problematizar o presente, combinando mat\u00e9ria, forma, sensibilidade, imagina\u00e7\u00e3o e vis\u00e3o, enquanto constroem possibilidades de traduzir a experi\u00eancia fragmentada do mundo contempor\u00e2neo e lidar com o futuro incerto. O colapso ambiental em que o planeta est\u00e1 imerso e a onipresen\u00e7a do inconsciente digital de nossas vidas por meio das telas que o capitalismo da vigil\u00e2ncia promove s\u00e3o duas amea\u00e7as que se potencializam, se combinam de forma monstruosa e se tornam feitas para a reflex\u00e3o em tempos de pandemia de coronav\u00edrus, sob cuja sombra apocal\u00edptica este livro foi escrito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A autora evidencia, por um lado, como a arte reajusta nossa percep\u00e7\u00e3o do lugar que ocupamos no planeta, sua capacidade de dar entidade material e vis\u00edvel e abrir-se a leituras sem for\u00e7\u00e1-las, possibilitando-nos uma coabita\u00e7\u00e3o multiesp\u00e9cie capaz de intensificar a presen\u00e7a de tudo o que existe. Por outro lado, a arte e as fic\u00e7\u00f5es podem interromper a automatiza\u00e7\u00e3o que os algoritmos digitais imp\u00f5em a partir de imagens inclusivas e exclusivas do humano. Passando por obras de arquitetos, escritores pintores, escultores, o livro nos permite entender a pot\u00eancia pol\u00edtica da arte contempor\u00e2nea, que, segundo a autora, \u00e9 \u201cum modelo alternativo ao produtivismo cego [&#8230;], uma lente privilegiada para mudar a escala e recalibrar nosso lugar no planeta\u201d (p. 11),<sup data-fn=\"c4faedd6-cb77-4eed-ac89-66003eea4267\" class=\"fn\"><a href=\"#c4faedd6-cb77-4eed-ac89-66003eea4267\" id=\"c4faedd6-cb77-4eed-ac89-66003eea4267-link\">2<\/a><\/sup> transformando-se em uma superf\u00edcie de interface est\u00e9tica.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"360\" height=\"565\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/speranza.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-681\" style=\"width:431px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/speranza.jpg 360w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/speranza-191x300.jpg 191w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Capa do livro de Graciela Speranza<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro est\u00e1 dividido em quatro partes: um pr\u00f3logo e tr\u00eas cap\u00edtulos. Cada cap\u00edtulo \u00e9 dedicado a desenvolver o problema da rela\u00e7\u00e3o do homem com o cosmos, por um lado, e de sua rela\u00e7\u00e3o com a tecnologia por outro. Assim, no primeiro cap\u00edtulo, Graciela Speranza se dedica a explorar o que Donna Haraway prop\u00f5e como o \u201cdevir com outros, humanos e n\u00e3o humanos, org\u00e2nicos e maqu\u00ednicos\u201d (p. 18).<sup data-fn=\"eb19bd86-e559-4057-9643-efeb1648316e\" class=\"fn\"><a href=\"#eb19bd86-e559-4057-9643-efeb1648316e\" id=\"eb19bd86-e559-4057-9643-efeb1648316e-link\">3<\/a><\/sup> Come\u00e7ando com uma an\u00e1lise da obra <em>El perro semihundido<\/em>, de Francisco de Goya, na qual o pintor espanhol d\u00e1 a ver um c\u00e3o lutando contra a corrente. Speranza exp\u00f5e como este quadro denota a desraz\u00e3o contempor\u00e2nea, onde n\u00e3o podemos ver com clareza o que nos afunda, mas cuja presen\u00e7a latente est\u00e1 em nossa ang\u00fastia e desamparo. Nessa parte do seu trabalho a quest\u00e3o que se coloca \u00e9 como ver al\u00e9m deste espa\u00e7o incomensur\u00e1vel que se degrada invisivelmente diante de nossos olhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apresentando uma variedade muito grande de autores, Speranza tem como refer\u00eancia Walter Benjamin e te\u00f3ricos mais contempor\u00e2neos, como Agamben, David Wallace-Wells ou Rob Nixon; deste \u00faltimo, extraindo o conceito de \u201cviol\u00eancia lenta\u201d e a discuss\u00e3o em torno do conceito do Antropoceno. A partir deste marco te\u00f3rico, a autora analisa uma s\u00e9rie de obras, colocando-as em di\u00e1logo com os problemas que deseja explorar. \u00c9 o caso, por exemplo, da escultura planet\u00e1ria da artista polonesa Alicja Kwada ou do trabalho com teias do argentino Tom\u00e1s Saraceno. Essas obras pl\u00e1sticas permitem que o observador redimensione seu lugar no planeta e abrem a possibilidade de se moldar com outras esp\u00e9cies em camadas de complexidade rec\u00edprocas. Al\u00e9m dessas, outras obras s\u00e3o analisadas: exposi\u00e7\u00f5es de meteoritos, planta\u00e7\u00f5es de trigo no cora\u00e7\u00e3o de Wall Street, artefatos que nos permitem ouvir as plantas, novelas que apresentam futuros dist\u00f3picos. Em suma, todas estas obras pretendem questionar a rela\u00e7\u00e3o do homem com as esp\u00e9cies, ampliar a escuta, abrir-se a outras formas de vida menos eloquentes e mais abundantes. Trata-se, como diz Speranza, de mostrar processos independentes da percep\u00e7\u00e3o humana, de maneira que o objeto n\u00e3o existe apenas para a mirada do espectador que observa, mas se manifeste como uma abertura para perceber o mundo como vivo, interconectado e codependente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No segundo cap\u00edtulo, \u201cLo que no vemos. Detr\u00e1s de la red\u201d, a autora desenvolve a problematiza\u00e7\u00e3o do ver na era digital. Apesar de ter acesso a tecnologias que nos permitem ter um excesso de vis\u00e3o sobre as coisas, Speranza argumenta que na atualidade n\u00e3o vemos o que vemos. O que na modernidade foi uma fixa\u00e7\u00e3o com o ver, sobretudo com o cinema e a c\u00e2mera fotogr\u00e1fica, hoje se tornou uma impossibilidade de ver; j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 imagens a nossa disposi\u00e7\u00e3o, mas um colossal fluxo de imagens transmitidas por uma intelig\u00eancia artificial atrav\u00e9s da qual podemos ter acesso a elas, s\u00e3o vis\u00f5es criadas por m\u00e1quinas para outras m\u00e1quinas. Imp\u00f5e-se um universo paralelo de observa\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas, produzidas por redes neurais convolucionais, bases de dados, sistemas de reconhecimento facial, gerando uma automatiza\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o e uma taxonomia alternativa da visualidade. A pergunta que a autora tenta responder neste cap\u00edtulo \u00e9 se \u00e9 poss\u00edvel a arte dar a ver essas imagens por defini\u00e7\u00e3o invis\u00edveis, ef\u00eameras e inalcan\u00e7\u00e1veis, se \u00e9 poss\u00edvel desafiar a fenomenologia do nosso regime digital. Artistas como Trevor Paglen, que trabalha com bancos de imagens de intelig\u00eancia artificial, bibliotecas, m\u00e1quinas e imaterialidades nos sistemas digitais, at\u00e9 Thomas Hirschhorn, que exp\u00f4s a ilus\u00e3o da realidade e o contraste perturbador entre os gestos da m\u00e3o e a crueza das imagens, s\u00e3o considerados. Nesse cap\u00edtulo, a autora foca a impossibilidade das intelig\u00eancias artificiais de captar a naturalidade semi\u00f3tica e amb\u00edgua das imagens que nos rodeiam. Destaca-se a obra do escritor Rosarino Patricio Pron, cuja literatura, segundo Speranza, vai a contrapelo do planejamento das redes, tentando devolver a complexidade e a cota de negatividade da palavra. A reflex\u00e3o sobre a nova configura\u00e7\u00e3o de tempo que a tecnologia nos imp\u00f4s na atualidade \u00e9, talvez, o pano de fundo do cap\u00edtulo. A isso, a ensa\u00edsta responde que \u00e9 a partir da arte que podemos transformar o tempo perdido do consumo disciplinado em experi\u00eancia est\u00e9tica do tempo recuperado, para transformar a tecnologia em um est\u00edmulo criativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u201cReconstrucciones\u201d, no \u00faltimo cap\u00edtulo de seu ensaio, Graciela Speranza indaga sobre as possibilidades de uma arte contempor\u00e2nea que recupera o tecido danificado da realidade. Nesta parte se debate principalmente sobre a mediatiza\u00e7\u00e3o do real: quais s\u00e3o os modos de reconstruir este real destru\u00eddo pelos processos de suic\u00eddio ambiental e imediatez tecnol\u00f3gica. Uma vez que o real hoje est\u00e1 parcialmente ou totalmente bloqueado \u00e0 vis\u00e3o, diz a autora, a arte , mais do que desocultar o real, intenta reconstrui-lo mediante processos de materializa\u00e7\u00e3o e mediatiza\u00e7\u00e3o, na busca de \u201ctornar a fazer real o real\u201d (p. 136).<sup data-fn=\"19f86d7b-efb6-436b-80ab-e79b515b6f2b\" class=\"fn\"><a href=\"#19f86d7b-efb6-436b-80ab-e79b515b6f2b\" id=\"19f86d7b-efb6-436b-80ab-e79b515b6f2b-link\">4<\/a><\/sup> A obra fotogr\u00e1fica do artista alem\u00e3o Thomas Demand ilustra a ideia de reconstru\u00e7\u00e3o como artif\u00edcio ativador de encontro com o real, como tamb\u00e9m a obra liter\u00e1ria da escritora mexicana Ver\u00f3nica Gerber Bicecci, que se utiliza de uma vast\u00edssima gama de m\u00eddias e linguagens para reconstruir um dos casos mais devastadores do extrativismo depredador no M\u00e9xico, o Novo Merc\u00fario. Speranza termina seu livro refletindo que se a arte teve como aspira\u00e7\u00e3o dar a ver, estranhar, manifestar a obscuridade deliberada, agora se enfrenta algo como o c\u00e9u ocre com rasgos dourados de Goya, algo que o sacode e nos alerta que h\u00e1 muito em jogo e que o amanh\u00e3 pode ser o ponto de n\u00e3o retorno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"e73cebba-1fdf-455f-a405-bafd57679e43\">Professora de Teoria Liter\u00e1ria do Instituto de Letras da UFRGS. Organizou, juntamente com outros autores, o livro <em><a href=\"https:\/\/www.editorasulina.com.br\/detalhes.php?id=754\">Imagens do fora: um arquivo da loucura<\/a><\/em>. <a href=\"#e73cebba-1fdf-455f-a405-bafd57679e43-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"c4faedd6-cb77-4eed-ac89-66003eea4267\">\u201cun modelo alternativo al productivismo ciego [&#8230;] una lente privilegiada para cambiar la escala y recalibrar nuestro lugar en el planeta\u201d. <a href=\"#c4faedd6-cb77-4eed-ac89-66003eea4267-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"eb19bd86-e559-4057-9643-efeb1648316e\">\u201cdevenir con otros, humanos y no humanos, organicos y maqu\u00ednicos\u201d. <a href=\"#eb19bd86-e559-4057-9643-efeb1648316e-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"19f86d7b-efb6-436b-80ab-e79b515b6f2b\">\u201cvolver a hacer real lo real\u201d. <a href=\"#19f86d7b-efb6-436b-80ab-e79b515b6f2b-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 4 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 6 \u2013 maio de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A arte em tempos de crise clim\u00e1tica e manipula\u00e7\u00e3o da verdade<\/p>\n","protected":false},"author":26,"featured_media":684,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Professora de Teoria Liter\u00e1ria do Instituto de Letras da UFRGS. 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