{"id":759,"date":"2025-06-10T18:19:05","date_gmt":"2025-06-10T21:19:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=759"},"modified":"2025-07-10T16:52:32","modified_gmt":"2025-07-10T19:52:32","slug":"entrevista-com-luiz-marques","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/06\/10\/entrevista-com-luiz-marques\/","title":{"rendered":"Entrevista com Luiz Marques"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2015, Luiz Marques, professor livre-docente aposentado do Departamento de Hist\u00f3ria do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Unicamp, publicou o seminal livro <em>Capitalismo e colapso ambiental<\/em> (Editora da Unicamp), que tirou o primeiro lugar na categoria Ci\u00eancias da Natureza, Meio Ambiente e Matem\u00e1tica do Pr\u00eamio Jabuti de 2016. Alguns anos mais tarde, Luiz Marques aprofundou o diagn\u00f3stico da degrada\u00e7\u00e3o ambiental no livro <em>O Dec\u00eanio decisivo<\/em><sup data-fn=\"22c4e77f-d018-4bdb-a124-5846ba871321\" class=\"fn\"><a href=\"#22c4e77f-d018-4bdb-a124-5846ba871321\" id=\"22c4e77f-d018-4bdb-a124-5846ba871321-link\">1<\/a><\/sup> (Editor Elefante), publicado em 2023. Por meio de uma pesquisa cient\u00edfica rigorosa, amplamente respaldada em dados colhidos entre os principais \u00f3rg\u00e3os de monitoramento ambiental e do clima, o livro escancarou o n\u00edvel de colapso ambiental e seu potencial devastador para o clima e para as sociedades nos \u00faltimos anos. O aceleramento do aquecimento global e o agravamento dos problemas dele decorrentes, potencialmente combinados com al\u00e7as de retroalimenta\u00e7\u00e3o que j\u00e1 podem estar em vigor numa atmosfera superaquecida em fun\u00e7\u00e3o do ac\u00famulo de gases do efeito estufa, imp\u00f5em, segundo o autor, desafios pol\u00edticos e estrat\u00e9gicos sem par na hist\u00f3ria da humanidade na Terra. Luiz Marques alega que n\u00e3o h\u00e1 tempo para hesita\u00e7\u00e3o, e que o futuro da vida na Terra ser\u00e1 decidido no pr\u00f3ximo dec\u00eanio, em que ser\u00e3o tomadas as medidas para o enfrentamento das graves crises que j\u00e1 se instalaram e que se avizinham. Em vista disso, o livro termina com a proposi\u00e7\u00e3o de ideias acerca de como mitigar, dentro do poss\u00edvel, os efeitos nocivos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e da destrui\u00e7\u00e3o dos biomas terrestres. Nesta entrevista, que Luiz Marques t\u00e3o gentilmente concedeu ao <em>Carbono<\/em> em raz\u00e3o de uma nova edi\u00e7\u00e3o do seu livro, esses e outros temas de grande urg\u00eancia s\u00e3o abordados. Confira abaixo! <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: O seu livro&nbsp;<em>O Dec\u00eanio Decisivo<\/em>&nbsp;(2023) lan\u00e7a um importante alerta sobre as consequ\u00eancias da degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica produzida pelo capitalismo em suas diferentes facetas (agroneg\u00f3cio, combust\u00edveis f\u00f3sseis etc.). Muitos desses alertas j\u00e1 haviam soado em seu livro anterior,&nbsp;<em>Capitalismo e colapso&nbsp;ambiental<\/em>, cuja primeira edi\u00e7\u00e3o \u00e9 de 2015. Olhando para o intervalo entre a publica\u00e7\u00e3o dos dois livros, quais processos de degrada\u00e7\u00e3o ambiental voc\u00ea considera que se agravaram? E houve avan\u00e7os em alguma \u00e1rea, no sentido da mitiga\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas nesse \u00ednterim?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LUIZ MARQUES:<\/strong> No \u00faltimo dec\u00eanio, todos os processos da degrada\u00e7\u00e3o ambiental planet\u00e1ria, sem exce\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas se agravaram muito, mas se aceleraram. Tomemos apenas dois casos, entre tantos: o clima e os inc\u00eandios florestais. Em 2015, o aquecimento m\u00e9dio superficial global, terrestre e mar\u00edtimo combinados, atingiu pela primeira vez na hist\u00f3ria dos registros instrumentais 1 <sup>o<\/sup>C acima do per\u00edodo pr\u00e9-industrial (1850-1900). Foi necess\u00e1rio mais de um s\u00e9culo para que o aquecimento atingisse, enfim, essa marca j\u00e1 t\u00e3o alarmante. Mas nos 10 anos sucessivos a 2015, ele saltou de 1 <sup>o<\/sup>C para 1,55 <sup>o<\/sup>C, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial, ou para 1,6 <sup>o<\/sup>C segundo o Copernicus, a ag\u00eancia europeia do clima. Os anos 2023 e 2024 s\u00e3o os mais quentes n\u00e3o apenas dos dois \u00faltimos s\u00e9culos, mas dos \u00faltimos 120 mil anos. Segundo o National Oceanic and Atmospheric administration (NOAA), a taxa de aquecimento nos 30 anos anteriores a 2015 (1986-2015) era de 0,17 <sup>o<\/sup>C por d\u00e9cada. Essa taxa saltou para 0,24 <sup>o<\/sup>C por d\u00e9cada nos \u00faltimos 30 anos (1995-2024). E a partir da\u00ed, entre 2016 e 2024, a taxa de aquecimento deu um salto ainda maior, passando a 0,29 <sup>o<\/sup>C por d\u00e9cada. Trata-se, como se v\u00ea, de uma acelera\u00e7\u00e3o imensa. No ritmo atual de acelera\u00e7\u00e3o do aquecimento (hoje, em torno de 0,3 <sup>o<\/sup>C por d\u00e9cada), o planeta deve atingir um aquecimento m\u00e9dio global de 2 <sup>o<\/sup>C acima do per\u00edodo pr\u00e9-industrial entre 2035 e 2040. E h\u00e1 virtual certeza de que isso ocorrer\u00e1, em todo caso, antes de 2050, haja vista o fracasso espetacular da Conven\u00e7\u00e3o-Quadro do Clima das Na\u00e7\u00f5es Unidas (1992) e do Acordo de Paris de 2015 (COP21), ou seja, dos compromissos nacionais de diminuir as emiss\u00f5es antropog\u00eanicas de gases de efeito estufa. O mesmo ocorre com os inc\u00eandios florestais nas florestas boreais, temperadas e tropicais. No caso do Brasil, o gr\u00e1fico abaixo mostra como, a partir de 2016, os inc\u00eandios, em geral criminosos e causados pelo agroneg\u00f3cio, ganham um peso maior na perda de \u00e1rea nas florestas prim\u00e1rias entre 2002 e 2022.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"535\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/GRAFICO-LUIZ-MARQUES-1024x535.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-761\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/GRAFICO-LUIZ-MARQUES-1024x535.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/GRAFICO-LUIZ-MARQUES-300x157.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/GRAFICO-LUIZ-MARQUES-768x401.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/GRAFICO-LUIZ-MARQUES.jpg 1167w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Perda de floresta prim\u00e1ria no Brasil entre 2002 e 2022 em milh\u00f5es de hectares. O segmento superior de cada coluna mostra a participa\u00e7\u00e3o dos inc\u00eandios florestais nessas perdas anuais, com forte aumento a partir de 2016. A linha cont\u00ednua mostra a m\u00e9dia m\u00f3vel a cada tr\u00eas anos. Fonte: Global Forest Watch. World Resources Institute, 2023.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2024, os inc\u00eandios florestais se alastraram por mais de 300 mil km<sup>2<\/sup>, segundo a plataforma Monitor do Fogo, do MapBiomas, um aumento de 79% em rela\u00e7\u00e3o ao ano de 2023 e tr\u00eas em cada quatro hectares queimados (73%) foram de vegeta\u00e7\u00e3o nativa. Essa participa\u00e7\u00e3o maior dos inc\u00eandios em florestas prim\u00e1rias brasileiras a partir de 2016, em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo 2002-2015, est\u00e1 associada a tr\u00eas fatores que agem em sinergia: (1) o aquecimento global e regional combinado com as secas e a El Ni\u00f1os potencialmente mais fortes, fatores que aumentam a vulnerabilidade e a inflamabilidade das florestas; (2) a degrada\u00e7\u00e3o do tecido florestal que aumenta os efeitos de borda e a insola\u00e7\u00e3o dos solos da floresta e (3) a ofensiva sempre mais destrutiva e impune do agroneg\u00f3cio, protegido pelo desmonte da governan\u00e7a ambiental brasileira, sobretudo durante os governos de Temer e de Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: <em>O Dec\u00eanio Decisivo<\/em>, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 apenas um livro que compila os dados do agravamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas; ele \u00e9 tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de programa de a\u00e7\u00f5es para a pr\u00f3xima d\u00e9cada. Quais s\u00e3o os maiores obst\u00e1culos para a concretiza\u00e7\u00e3o das \u201cPropostas para uma pol\u00edtica de sobreviv\u00eancia\u201d, tal como voc\u00ea as denomina em seu livro? E como a elei\u00e7\u00e3o de Trump e o endosso dos magnatas do Vale do Sil\u00edcio em torno da agenda devastadora do presidente dos EUA podem afetar essas pol\u00edticas de sobreviv\u00eancia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LUIZ MARQUES: <\/strong>Os interesses econ\u00f4micos que controlam os sistemas de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e militar s\u00e3o, obviamente, o primeiro e maior obst\u00e1culo. As corpora\u00e7\u00f5es e os Estados nacionais bloqueiam ideologicamente e, caso necess\u00e1rio, pela for\u00e7a qualquer mudan\u00e7a social que conteste a engrenagem expansiva, extrativa, destrutiva e autodestrutiva que os controla e da qual dependem existencialmente. Os interesses econ\u00f4micos, contudo, jamais poderiam prevalecer a longo prazo sem o concurso de tr\u00eas fatores:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(1) o engano e autoengano de setores dominantes nas redes, na m\u00eddia e na Universidade, que ainda acreditam na fal\u00e1cia da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e, em geral, na compatibilidade entre o capitalismo globalizado de nossos dias e a possiblidade de atenuar o processo atual de colapso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(2) O anacronismo de setores hegem\u00f4nicos da esquerda, que resistem em reconhecer plenamente a urg\u00eancia e a centralidade da quest\u00e3o ambiental em nossos dias. O peso desse anacronismo explica, ao menos em parte, a diminui\u00e7\u00e3o da capacidade mobilizadora da esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(3) A perda de confian\u00e7a das pr\u00f3prias sociedades contempor\u00e2neas em sua capacidade de se desviar de sua trajet\u00f3ria de colapso por meio de uma ruptura civilizacional. \u00c9 preciso, portanto, antes de mais nada, voltarmos a acreditar em n\u00f3s pr\u00f3prios como agentes coletivos de uma transforma\u00e7\u00e3o socioambiental radical.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Em 2023, Lula culpou os pa\u00edses ricos pela crise clim\u00e1tica. Embora seja, de fato, verdade que os pa\u00edses ricos emitem mais gases do efeito estufa per capita, o Brasil tem uma responsabilidade grande na crise clim\u00e1tica, devido ao manejo do solo e desfloresta\u00e7\u00e3o, algo que seu livro mostra em dados. Como voc\u00ea enxerga o gerenciamento da quest\u00e3o clim\u00e1tica do ponto de vista das pol\u00edticas nacionais? Voc\u00ea acha que o Brasil pode exercer um protagonismo maior nesse assunto?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LUIZ MARQUES: <\/strong>A palavra protagonismo n\u00e3o me parece a melhor, j\u00e1 que nenhum pa\u00eds pode se arrogar a pretens\u00e3o de liderar o processo de transforma\u00e7\u00e3o global. Mas, com certeza, o Brasil pode exercer uma fun\u00e7\u00e3o muito mais importante na luta pela atenua\u00e7\u00e3o e desacelera\u00e7\u00e3o do colapso socioambiental. Para isso, \u00e9 preciso, antes de mais nada, que o governo Lula e a sociedade brasileira entendam que o agroneg\u00f3cio \u00e9 o nosso inimigo p\u00fablico n\u00famero 1, em termos econ\u00f4micos, sociais, ambientais, alimentares, sanit\u00e1rios, ideol\u00f3gicos, pol\u00edticos, morais, em suma, em todas as dimens\u00f5es da vida social e da vida de milh\u00f5es de outras esp\u00e9cies. O modelo agroexportador \u00e9 a mais perigosa doen\u00e7a que acomete o Brasil. O agroneg\u00f3cio destr\u00f3i nossa manta vegetal nativa a uma velocidade que caracteriza claramente ecoc\u00eddio. No que se refere ao clima, o Sistema de Estimativas de Gases de Efeito Estufa (SEEG) mostra que cerca de 75% das emiss\u00f5es brasileiras de gases de efeito estufa prov\u00eam do desmatamento e da agropecu\u00e1ria. Muitos s\u00e3o os que j\u00e1 compreenderam essas evid\u00eancias, mas os governantes e a maioria dos governados no Brasil persistem em acreditar que \u00e9 poss\u00edvel um agroneg\u00f3cio \u201csustent\u00e1vel\u201d, o que \u00e9 um absoluto contrassenso, pois toda monocultura \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, ecocida e insustent\u00e1vel. A frente ampla democr\u00e1tica forjada por Lula em 2022 foi capaz de derrotar Bolsonaro, salvando o Brasil de um cen\u00e1rio ainda mais catastr\u00f3fico. Por esse feito, Lula tem a gratid\u00e3o profunda de nosso pa\u00eds. Mas Lula orientou seus dois primeiros mandatos (2003-2010) e continua orientando este terceiro (2023-2026) em fun\u00e7\u00e3o dos interesses do agroneg\u00f3cio e da \u201cmaldi\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo\u201d em que o Brasil est\u00e1 agora afundando, tal como uma v\u00edtima tragicamente arrastada \u00e0 depend\u00eancia de uma droga que mata.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Andreas Malm, em&nbsp;<em>A destrui\u00e7\u00e3o da Palestina \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o do planeta<\/em>, aventa que o genoc\u00eddio palestino na verdade tem origem no projeto sionista do s\u00e9culo XIX, que nada mais era do que um projeto imperialista e de expans\u00e3o comercial que s\u00f3 se tornou poss\u00edvel gra\u00e7as ao uso do carv\u00e3o no motor a vapor. Em sua recente palestra proferida a convite do Instituto de Letras da UFRGS, voc\u00ea esbo\u00e7ou um argumento segundo o qual est\u00e1 em curso, no Brasil e no mundo, um ecoc\u00eddio. Existe uma rela\u00e7\u00e3o direta entre o genoc\u00eddio e a cat\u00e1strofe clim\u00e1tica, na sua opini\u00e3o, correto? Voc\u00ea poderia desenvolver melhor esse argumento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LUIZ MARQUES: <\/strong>O genoc\u00eddio foi formalmente definido e tipificado apenas em 1948 (ONU, Resolu\u00e7\u00e3o 260). J\u00e1 o termo ecoc\u00eddio emerge apenas nos anos 1970 e t\u00e3o somente em 2021 o Painel de Especialistas Independentes para a Defini\u00e7\u00e3o Legal de Ecoc\u00eddio elaborou uma descri\u00e7\u00e3o juridicamente formal do ecoc\u00eddio nestes termos: \u201cecoc\u00eddio significa atos ilegais ou irrespons\u00e1veis cometidos com conhecimento de que h\u00e1 uma probabilidade substancial de danos graves, generalizados ou duradouros, ao meio ambiente, causados \u200b\u200bpor esses atos\u201d. Ocorre que todo ecoc\u00eddio \u00e9 uma forma de genoc\u00eddio, pois um territ\u00f3rio \u00e9 um am\u00e1lgama de sua diversidade civilizacional e biol\u00f3gica, bem como de seus padr\u00f5es clim\u00e1ticos, e nenhuma sociedade pode sobreviver sem a base geof\u00edsica e biol\u00f3gica da qual ela depende existencialmente. De modo geral, ontem e hoje, as guerras que objetivam ou redundam em genoc\u00eddio s\u00e3o tamb\u00e9m guerras de exterm\u00ednio da natureza. E vice-versa. Nos Estados Unidos, o genoc\u00eddio dos ind\u00edgenas por parte dos colonizadores europeus envolveu o quase exterm\u00ednio dos bisontes que povoavam as grandes pradarias (<em>Great Plains<\/em>) desse pa\u00eds e que constitu\u00edam um elemento essencial dos ecossistemas e dos modos de vida de seus habitantes. No Brasil, essa intera\u00e7\u00e3o entre genoc\u00eddio e ecoc\u00eddio se intensificou ainda mais a partir da guerra contra a natureza e contra os povos da floresta desencadeada pelos ditadores, sobretudo, desde 1970, com a abertura da Transamaz\u00f4nica. Enquanto a floresta era devastada a ferro e a fogo, Maur\u00edcio Rangel Reis, Ministro do Interior do General Ernesto Geisel entre 1974 e 1979, declarava em janeiro de 1976: \u201cOs \u00edndios n\u00e3o podem impedir a passagem do progresso. [&#8230;] Dentro de 10 a 20 anos n\u00e3o haver\u00e1 mais \u00edndios no Brasil\u201d. O mesmo ocorre, enfim, no genoc\u00eddio palestino que ocorre agora \u00e0 luz do dia, com a cumplicidade ativa dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europeia. Ao perpetrar esse genoc\u00eddio monstruoso na Faixa de Gaza, as for\u00e7as armadas de Israel est\u00e3o perpetrando ao mesmo tempo um ecoc\u00eddio, pois suas bombas n\u00e3o destroem apenas vidas humanas; elas destroem todas as formas de vida e, sobretudo, criam um territ\u00f3rio inabit\u00e1vel para todos, inclusive para os israelenses. O solo de Gaza est\u00e1 hoje profundamente contaminado pelas bombas incendi\u00e1rias \u00e0 base de f\u00f3sforo branco e por in\u00fameras outras subst\u00e2ncias t\u00f3xicas que emanar\u00e3o para todo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Quando se pensa em aquecimento global, fala-se mais sobre a queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis e menos sobre a agricultura predat\u00f3ria. Por\u00e9m, a seguran\u00e7a alimentar \u00e9 um tema presente em ambos os seus livros. Inclusive, atualmente a alta no pre\u00e7o dos alimentos j\u00e1 suplanta as reposi\u00e7\u00f5es salariais, pressionando a infla\u00e7\u00e3o entre os mais pobres. Como a quest\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de alimentos est\u00e1 diretamente ligada ao aquecimento global?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LUIZ MARQUES: <\/strong>O EDGAR (Emission Database for Global Atmospheric Research) afirma que \u201cum ter\u00e7o das emiss\u00f5es antropog\u00eanicas de GEE prov\u00e9m dos sistemas alimentares\u201d. Francesco Tubiello e colegas publicaram um artigo em 2021 na revista <em>Environmental Research Letters<\/em>, confirmando essa estimativa. O sistema alimentar globalizado \u00e9 o segundo fator mais importante na desestabiliza\u00e7\u00e3o do sistema clim\u00e1tico, atr\u00e1s apenas da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis. Mas, sobretudo, esse sistema, baseado no modelo agroexportador \u00e9, de longe, o principal fator na aniquila\u00e7\u00e3o em curso da biosfera em escala global e em particular no Brasil. E essa aniquila\u00e7\u00e3o representa, em termos morais e mesmo existenciais, um mal ainda maior do que o aquecimento, pois a extin\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie \u00e9 uma perda irrepar\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Por fim, em seu livro, fica absolutamente clara a import\u00e2ncia da Amaz\u00f4nia no regime de chuvas no Brasil central. Contudo, aparentemente os dados cient\u00edficos reunidos n\u00e3o conseguem ainda formar uma consci\u00eancia ativa de preserva\u00e7\u00e3o ambiental que possa bloquear os interesses comerciais do agroneg\u00f3cio e do garimpo na regi\u00e3o. Na sua opini\u00e3o, o que tem impedido a certeza cient\u00edfica de penetrar mais decisivamente na mentalidade das pessoas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>LUIZ MARQUES: <\/strong>\u00c9 importante entender que a passividade da sociedade diante de sua r\u00e1pida inviabiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o reflete um negacionismo coletivo. Diversas e recorrentes pesquisas de opini\u00e3o p\u00fablica, no Brasil e em outros pa\u00edses, mostram que os indagados, em sua maioria, n\u00e3o apenas identificam o car\u00e1ter antropog\u00eanico dos impactos e das amea\u00e7as ambientais que se avolumam, mas demandam a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas efetivas no sentido de mitig\u00e1-las. Retornamos sempre ao mesmo problema levantado acima, qual seja, a incipi\u00eancia de uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica cientificamente informada e engajada na atenua\u00e7\u00e3o e na desacelera\u00e7\u00e3o do processo em curso de colapso socioambiental. Essa \u00e9 a luta central, eu diria mesmo quase exclusiva, de nossos dias. Estamos transitando para um aquecimento m\u00e9dio global de 3 <sup>o<\/sup>C no terceiro quarto do s\u00e9culo XXI, aumentando enormemente os riscos de um aquecimento desenfreado, impulsionado por pontos de n\u00e3o retorno e por diversas al\u00e7as de retroalimenta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio aquecimento. Toda tentativa de tergiversar sobre essa situa\u00e7\u00e3o extremamente grave e sem precedentes na hist\u00f3ria de nossa jovem esp\u00e9cie \u00e9 uma forma de negacionismo, a ser combatido pela demonstra\u00e7\u00e3o da evid\u00eancia, de modo sereno, mas com toda a energia e engenho de que formos capazes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * * <\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"22c4e77f-d018-4bdb-a124-5846ba871321\"><a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/produto\/o-decenio-decisivo\/?srsltid=AfmBOorTa_qv0D-ub2MvR9QbXZz9_UIInxcgMgcePaCqwI2uLVcLT7eS\">MARQUES, Luiz. <em>O Dec\u00eanio decisivo<\/em>. Propostas para uma pol\u00edtica de sobreviv\u00eancia. S\u00e3o Paulo: Elefante, 2023.<\/a> <a href=\"#22c4e77f-d018-4bdb-a124-5846ba871321-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 7 \u2013 junho de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O Dec\u00eanio Decisivo&#8221;, livro de 2023 que abriga as &#8220;propostas para uma pol\u00edtica de sobreviv\u00eancia&#8221;, \u00e9 ao mesmo tempo um diagn\u00f3stico cient\u00edfico das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e um projeto para o futuro. 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