{"id":780,"date":"2025-06-10T18:18:57","date_gmt":"2025-06-10T21:18:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=780"},"modified":"2025-10-22T19:08:31","modified_gmt":"2025-10-22T22:08:31","slug":"dez-coisas-sobre-o-ecossocialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/06\/10\/dez-coisas-sobre-o-ecossocialismo\/","title":{"rendered":"Dez Coisas Sobre o Ecossocialismo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">St\u00e5le Holgersen<sup data-fn=\"72513b1a-17cf-4f58-892b-adf63d0438b9\" class=\"fn\"><a href=\"#72513b1a-17cf-4f58-892b-adf63d0438b9\" id=\"72513b1a-17cf-4f58-892b-adf63d0438b9-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1. O ecossocialismo \u00e9 a pol\u00edtica e a teoria do amanh\u00e3, mas somos assombrados por alguns problemas de ontem<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A atual polariza\u00e7\u00e3o entre o ecomodernismo e o decrescimento, que existe dentro do ecossocialismo, \u00e9 um problema. Para dizer de modo bem franco: para os ecomodernistas, a industrializa\u00e7\u00e3o moderna \u00e9 principalmente progressista, e eles tendem a ter uma vis\u00e3o relativamente positiva do \u201ccrescimento\u201d, enquanto o movimento pelo decrescimento fundamentalmente critica essas ideias. Essas s\u00e3o duas tradi\u00e7\u00f5es heterodoxas, mas elas tamb\u00e9m representam polos distintos no debate, que refletem pontos de partida muito diferentes para se pensar e se fazer pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ecomodernismo sempre foi a posi\u00e7\u00e3o predominante no marxismo. Talvez isso fosse menos \u00f3bvio enquanto o ecomarxismo existiu como uma subdisciplina dentro do marxismo, seguida principalmente por aqueles com um interesse pessoal na ecologia. Com a mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u2013 especialmente nos \u00faltimos dez anos \u2013 isso mudou. Agora, quem quiser ser levado a s\u00e9rio deve ter uma posi\u00e7\u00e3o sobre o clima. Quando as principais tend\u00eancias dentro do marxismo se comprometem com a ecologia, n\u00f3s temos o ecomodernismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2. O gritante binarismo entre o ecomodernismo socialista e o decrescimento obscurece a complexidade necess\u00e1ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O camarada Matt Huber coloca algumas quest\u00f5es interessantes no seu livro <em>Climate Change as Classes War<\/em>: queremos uma \u201cpol\u00edtica do menos\u201d ou uma \u201cpol\u00edtica do mais\u201d? Focamos na produ\u00e7\u00e3o ou no consumo? O sujeito pol\u00edtico que vai deter o aquecimento global \u00e9 a \u201cclasse trabalhadora\u201d ou a \u201cclasse administrativa profissional\u201d? S\u00e3o quest\u00f5es interessantes, mas o enquadramento \u00e9 problem\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s obviamente precisamos de mais de algumas coisas e menos de algumas outras coisas. Eu concordaria que a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 mais importante \u2013 em muitos aspectos \u2013 do que o consumo, mas isso n\u00e3o significa que o consumo n\u00e3o \u00e9 extremamente importante tamb\u00e9m, tanto anal\u00edtica, quanto politicamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dicotomia central diante da qual temos que tomar algum partido \u00e9 a do crescimento. Ela \u00e9 problem\u00e1tica e confusa, ao mesmo tempo. As pessoas ainda se referem a coisas muito diferentes quando falam de crescimento \u2013 e, por conseguinte, decrescimento. O \u201ccrescimento\u201d se refere \u00e0 produtividade biof\u00edsica ou material, ao uso de energia, ao potencial humano, \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o do capital ou ao \u00cdndice de Desenvolvimento Humano? Muito frequentemente se sup\u00f5e que n\u00f3s pensamos em um aumento no PIB, mas como se mede isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>&nbsp;3. \u201cCrescimento\u201d \u2013 entendido, por exemplo, como um PIB sempre crescente ou como a produtividade biof\u00edsica \u2013 sem d\u00favida \u00e9 um problema, mas n\u00e3o podemos come\u00e7ar confrontando o crescimento em si<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Investimentos em novas infraestruturas levar\u00e3o diretamente ao aumento da atividade econ\u00f4mica (PIB crescente) no curto prazo. \u00c9 claro que esse n\u00e3o \u00e9 um argumento v\u00e1lido contra tais pol\u00edticas. Em vez disso, precisamos de discuss\u00f5es importantes sobre quais setores, lugares e ind\u00fastrias deveriam ser mais economicamente ativas \u2013 e quais deveriam ser eliminadas ou desativadas. Essas s\u00e3o quest\u00f5es complexas. Um movimento ecossocialista que almeja mobilizar as pessoas para al\u00e9m do nicho dos c\u00edrculos intelectuais tem que oferecer respostas concretas e espec\u00edficas aos diferentes lugares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por um lado, contrariando o ecomodernismo, n\u00e3o h\u00e1 como termos crescimento infinito da atividade econ\u00f4mica em um planeta limitado. E, certamente, tampouco d\u00e9cadas e s\u00e9culos de aumento na produtividade biof\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, contrariando o decrescimento, n\u00e3o h\u00e1 como mobilizarmos os setores mais baixos da classe trabalhadora ou qualquer movimento amplo fazendo do \u201cmenos crescimento\u201d o ponto central do nosso projeto. Os lemas importam, e eu acho que ser\u00e1 imposs\u00edvel unificar a ampla classe trabalhadora em torno desse lema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>4. Essa discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 somente sobre \u201ccrescimento\u201d \u2013 ela vai mais fundo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As disc\u00f3rdias entre os ecomodernistas e o decrescimento est\u00e3o ligadas a quest\u00f5es mais amplas sobre se a moderniza\u00e7\u00e3o, a industrializa\u00e7\u00e3o ou o pr\u00f3prio capitalismo s\u00e3o inerentemente progressivos ou reacion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu penso que \u00e9 justo dizer que a ind\u00fastria de larga escala, as novas tecnologias, a produtividade crescente e a urbaniza\u00e7\u00e3o criaram possibilidades para o socialismo que n\u00e3o existiam nas sociedades pr\u00e9-capitalistas. Dessa perspectiva, podemos ver como o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e do capitalismo em si mesmo produziu a classe trabalhadora, tamb\u00e9m conhecida como \u201cos coveiros do capitalismo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas at\u00e9 onde podemos levar esse argumento?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se olharmos para o mundo de hoje, algu\u00e9m consegue ver o capitalismo nos levando em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo? Aqueles que defendem o car\u00e1ter progressista do capitalismo certamente leram os textos de Marx; essa n\u00e3o \u00e9 uma conclus\u00e3o que se tira por meio da observa\u00e7\u00e3o da realidade \u2013 mas sim por meio da leitura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O capitalismo n\u00e3o est\u00e1 avan\u00e7ando na dire\u00e7\u00e3o do socialismo; ele est\u00e1 apenas nos levando rumo a uma nova \u00e9poca geol\u00f3gica, a desastres clim\u00e1ticos, a genoc\u00eddios, a guerras e sempre a novas crises. E assim por diante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pensadores ecossocialistas no s\u00e9culo XXI deveriam desenvolver uma cr\u00edtica mais apurada do produtivismo ou da celebra\u00e7\u00e3o acr\u00edtica do crescimento, em vez de simplesmente dizerem que isso \u00e9 ruim. Precisamos de uma cr\u00edtica mais nuan\u00e7ada. Temos que deixar para tr\u00e1s o binarismo que v\u00ea o modernismo, o capitalismo, o \u201cdesenvolvimento\u201d ou o \u201ccrescimento\u201d como inerentemente progressistas ou reacion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>5. Karl Marx<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um aspecto marcante do debate entre ecomodernistas e partid\u00e1rios do decrescimento \u00e9 como ambos os campos ativamente recorrem a Karl Marx para sustentar suas posi\u00e7\u00f5es. Os ecomodernistas podem lan\u00e7ar m\u00e3o de um mar de cita\u00e7\u00f5es, ao passo que os partid\u00e1rios do decrescimento disp\u00f5em de menos material, mas fazem mais com o que t\u00eam. Partindo de novas evid\u00eancias marxistas, Kohei Saito celebremente alegou que o Marx \u201cmaduro\u201d era um comunista do decrescimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s temos que seguir <a href=\"https:\/\/rebelnews.ie\/2020\/10\/20\/marx-engels-metabolic-rift-part-one\/?_ga=2.266590990.1691439446.1749473627-1582890785.1748793826&amp;_gl=1*1o0o7ci*_ga*MTU4Mjg5MDc4NS4xNzQ4NzkzODI2*_ga_29ECQ37YH4*czE3NDk0NzM2MjckbzMkZzAkdDE3NDk0NzM2MjckajYwJGwwJGgw\">lendo Karl Marx<\/a> por v\u00e1rias raz\u00f5es. Sua obra ainda \u00e9 o melhor ponto de partida para entendermos as ra\u00edzes da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. N\u00e3o podemos compreender o aquecimento global sem entendermos as din\u00e2micas do incentivo ao lucro, da acumula\u00e7\u00e3o de capital, das rupturas metab\u00f3licas, da luta de classes e das divis\u00f5es de classe. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por\u00e9m, como marxistas, temos que nos lembrar de que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 porque Marx disse alguma coisa, que ela se torna automaticamente verdade. Temos que ser cautelosos ao p\u00f4r em pr\u00e1tica a ret\u00f3rica que primeiramente alega que Marx \u201cde fato\u201d quis dizer isso ou aquilo para, depois, simplesmente assumir que temos que dizer o mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>6. Ecossocialismo e classe<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O maior problema com a polariza\u00e7\u00e3o entre decrescimento e ecomodernismo \u00e9 que ela impede discuss\u00f5es frut\u00edferas acerca da luta de classes. Alguns ecomodernistas alegam que existe uma rela\u00e7\u00e3o antag\u00f4nica entre a \u201cclasse administrativa profissional\u201d e a \u201cclasse trabalhadora\u201d, na qual aquela ocupou os movimentos ambientalistas, ao passo que esta de fato pode mudar o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O antagonismo entre uma classe trabalhadora progressista e uma \u201cclasse profissional\u201d reacion\u00e1ria \u00e9 espelhado, ou melhor, invertido, pelos partid\u00e1rios do decrescimento. Tadzio M\u00fcller, um excelente ativista alem\u00e3o, afirmou que os oper\u00e1rios da ind\u00fastria no Norte Global n\u00e3o apenas ser\u00e3o nossos inimigos, mas sim \u201cnossos inimigos mais eficientes\u201d. Aqui, a conversa sobre classe come\u00e7a e termina mostrando que os trabalhadores no Norte Global t\u00eam um modo de vida \u201cimperial\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, sim, de fato h\u00e1 tens\u00f5es entre v\u00e1rios sindicatos e movimentos ambientalistas. Mas \u00e9 incorreto cham\u00e1-las de antagonismos. Se fosse o caso, haveria lutas de classe entre a \u201cclasse trabalhadora\u201d e a \u201cclasse\u201d que ocupou o movimento ambientalista? N\u00e3o \u00e9 o que acontece.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ignorar as tens\u00f5es entre os trabalhadores e as pol\u00edticas clim\u00e1ticas \u00e9 intelectualmente desonesto, bem como as quest\u00f5es do racismo e do imperialismo. Mas tamb\u00e9m \u00e9 politicamente in\u00fatil supor que essas tens\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o grandes que a classe trabalhadora \u2013 como quer que se a defina \u2013 n\u00e3o pode ou n\u00e3o deve ser um sujeito da luta contra o aquecimento global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os ecossocialistas, ainda \u00e9 um pr\u00e9-requisito absoluto que o operariado organizado (\u00e0s vezes alienado pelos movimentos a favor do decrescimento) e os movimentos ambientalistas (eventualmente alienados pelos ecomodernistas) sejam n\u00e3o apenas radicalizados e fortalecidos, mas tamb\u00e9m reunidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>7. O ativismo clim\u00e1tico \u00e9 luta de classe<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O movimento pelo clima que vemos em nossas ruas, ocupando minas de carv\u00e3o ou organizando greves escolares, \u00e9 \u2013 eu suponho \u2013 99,9% composto por pessoas que n\u00e3o det\u00eam nenhum meio de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, muitas talvez sejam provenientes de casas com pianos e estantes de livros. N\u00e3o vamos permitir, por\u00e9m, que Pierre Bourdieu nos distraia de uma an\u00e1lise clara da classe social. A classe n\u00e3o \u00e9 determinada pela est\u00e9tica, o gosto, a cultura ou a educa\u00e7\u00e3o. Gosto, est\u00e9tica e cultura certamente importam \u2013 para o bem ou para o mal, quando tentamos mudar o mundo \u2013, mas eles n\u00e3o definem a classe no \u00e2mbito da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s partimos de uma posi\u00e7\u00e3o marxista cl\u00e1ssica: pessoas que n\u00e3o acumulam capital fazem parte da ampla e heterog\u00eanea classe trabalhadora. \u00c9 algo que fica muito mais complexo quando nos enfronhamos nisso, e h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es. Mas \u00e9 de onde partimos. E de onde partimos \u00e9 importante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As pessoas nos sindicatos e nos movimentos ambientalistas pertencem \u00e0 mesma ampla e heterog\u00eanea classe trabalhadora. E, mais do que isso, o principal inimigo identificado pelo movimento em prol do clima \u00e9 a ind\u00fastria de combust\u00edvel f\u00f3ssil \u2013 uma fra\u00e7\u00e3o da classe capitalista. Isso \u00e9 luta de classe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Pensamos na mudan\u00e7a clim\u00e1tica como uma luta de classe indireta. Ela n\u00e3o \u00e9 a confronta\u00e7\u00e3o direta de um trabalhador contra seu patr\u00e3o, mas antes uma luta indireta. Muito parecido com o modo como enxergamos as lutas contra as privatiza\u00e7\u00f5es como lutas de classe.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fato de que a consci\u00eancia de classe \u00e9 pequena \u2013 \u00e0s vezes extremamente pequena \u2013 dentro de parte do movimento ambientalista \u00e9 um problema, sem d\u00favida. Esse problema \u00e9 composto por ecomodernistas e partid\u00e1rios do decrescimento que discursivamente reproduzem e celebram o conflito. N\u00f3s, enquanto ecossocialistas, temos um trabalho a fazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se a luta para deter o aquecimento global vai liberar todo o seu potencial e vai ser articulada e entendida como luta de classe, <a href=\"https:\/\/rebelnews.ie\/2025\/02\/20\/the-ecocide-of-lough-neagh-pollution-profiteering-political-negligence\/?_ga=2.94065565.1691439446.1749473627-1582890785.1748793826&amp;_gl=1*1j23wdf*_ga*MTU4Mjg5MDc4NS4xNzQ4NzkzODI2*_ga_29ECQ37YH4*czE3NDk0OTE5MDkkbzQkZzAkdDE3NDk0OTE5MDkkajYwJGwwJGgw\">isso vai depender das lutas pol\u00edticas dentro dos movimentos<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reunir a ampla classe trabalhadora n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil. Isso n\u00e3o deveria ser surpresa: \u00e9 um fato h\u00e1 dois s\u00e9culos. \u00c9 tentador romantizar o passado e ver a hist\u00f3ria da classe trabalhadora como mais homog\u00eanea do que ela realmente foi. Quest\u00f5es de g\u00eanero, racismo, orienta\u00e7\u00e3o sexual, nacionalismo etc. sempre foram \u2013 e ainda s\u00e3o \u2013 quest\u00f5es usadas pelas for\u00e7as reacion\u00e1rias para dividir a classe trabalhadora. Unir a classe trabalhadora \u00e9 uma tarefa dif\u00edcil \u2013 mas \u00e9 a nossa tarefa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 bons exemplos a se tirar, tais como a iniciativa chamada \u201cterapia de casal\u201d, criada pela <em>think tank<\/em> norueguesa Manifest. Esse projeto reuniu organiza\u00e7\u00f5es ambientalistas progressistas e sindicatos organizados em torno da ind\u00fastria do petr\u00f3leo a fim de sentar e discutir como deveria ser uma pol\u00edtica industrial futura na Noruega.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, quando se trata de unir o operariado e os movimentos pelo clima, \u00e9 fato que a maioria das tentativas fracassaram. Falhamos tantas vezes na \u00faltima d\u00e9cada, que desistir pode ser tentador. Mas n\u00e3o vamos \u2013 porque esse \u00e9 o cerne do ecossocialismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>8. O capitalismo n\u00e3o vai deter a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, e a mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o vai deter o capitalismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Frequentemente se presume que o aquecimento global vai p\u00f4r um fim no capitalismo. Eu acho que o contr\u00e1rio \u00e9 mais prov\u00e1vel: esse \u00e9 justamente o tipo de destrui\u00e7\u00e3o criativa de que o capitalismo precisa para se reproduzir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns alegam que a mudan\u00e7a ecol\u00f3gica historicamente colocou grandes desafios para os sistemas existentes, e, portanto, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica deve fazer o mesmo com o capitalismo. Esse ponto de vista desconsidera um fato importante: diferentemente de outros modos de produ\u00e7\u00e3o, o capitalismo \u00e9 fundamentalmente baseado na mudan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o existe a suposi\u00e7\u00e3o de que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica vai criar problemas t\u00e3o severos \u2013 falta de alimentos, colapso da infraestrutura, mortes em massa \u2013, que o capitalismo simplesmente n\u00e3o vai dar conta. Mas o capitalismo sempre foi adepto de situar a morte em alguns cantos do mundo para que a vida \u2013 e os lucros \u2013 possa seguir em frente em outros lugares. A morte em massa nunca foi um problema fundamental para o capitalismo; o pr\u00f3prio sistema foi constru\u00eddo por sobre o colonialismo, as guerras e os genoc\u00eddios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro argumento \u00e9 o de que, uma vez que h\u00e1 tanto capital fixo investido na infraestrutura f\u00f3ssil, uma r\u00e1pida mudan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o aos renov\u00e1veis vai desencadear uma desvaloriza\u00e7\u00e3o em massa, levando a uma crise econ\u00f4mica que poderia significar o fim do capitalismo. Primeiramente, isso pode ser verdade, mas a desvaloriza\u00e7\u00e3o em massa n\u00e3o leva automaticamente \u00e0 crise econ\u00f4mica. E, em segundo lugar, se uma tal crise ocorrer, temos que nos lembrar de que o capitalismo historicamente se reproduz por meio de crises. O capitalismo existe por causa das crises econ\u00f4micas, e n\u00e3o a despeito delas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nunca subestimemos a flexibilidade do capitalismo. Hoje em dia, n\u00f3s podemos ver o capital f\u00f3ssil e o \u201ccapital verde\u201d operando juntos, ininterruptamente. O capital est\u00e1 destruindo o planeta e tentando salv\u00e1-lo ao mesmo tempo. E isso n\u00e3o \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o em termos \u2013 porque a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o planeta, mas o lucro. O problema \u00e9 que, se voc\u00ea destr\u00f3i o planeta enquanto tenta salv\u00e1-lo, voc\u00ea o destr\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>9. A mudan\u00e7a clim\u00e1tica pode alimentar a ascens\u00e3o do fascismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A crise \u00e9 uma caracter\u00edstica definidora do fascismo do s\u00e9culo XX. Nas discuss\u00f5es acerca das crises que levaram \u00e0 sua ascens\u00e3o, pensadores como Nicos Poulantzas apontaram para as revoltas econ\u00f4micas, ideol\u00f3gicas e pol\u00edticas. O aquecimento global poderia se tornar uma outra crise com o potencial de alimentar o fascismo? H\u00e1 tr\u00eas maneiras de dizer que sim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em primeiro lugar, como uma defesa contra movimentos progressistas. O que aconteceria se a press\u00e3o popular se tornasse forte o suficiente a ponto de os l\u00edderes pol\u00edticos serem for\u00e7ados a fazer o que for preciso para limitar o aquecimento a 1,5 ou 2 graus \u2013 fechando plataformas de petr\u00f3leo e minas de carv\u00e3o, interrompendo a ind\u00fastria a\u00e9rea, impedindo o desflorestamento? Quase certamente isso empurraria os interesses do combust\u00edvel f\u00f3ssil a formar alian\u00e7as com a extrema direita, criando mais tarde o que j\u00e1 podemos identificar como fascismo f\u00f3ssil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em segundo lugar, por meio das pr\u00f3prias crises \u2013 uma doutrina do choque de segundo n\u00edvel. As crises s\u00e3o uma oportunidade para o racismo, e os desastres clim\u00e1ticos v\u00e3o produzir muitas delas. Mais ondas de calor matando as pessoas e destruindo colheitas, escassez de alimentos e milh\u00f5es for\u00e7ados a fugir \u2013 essas condi\u00e7\u00f5es podem incitar pol\u00edticas reacion\u00e1rias. E se um governo socialista propuser que os fardos sejam divididos de forma igualit\u00e1ria? A cientista pol\u00edtica Cara Daggett, em sua obra sobre a petro-masculinidade, pergunta se a crise clim\u00e1tica poderia catalisar os anseios fascistas pela <em>Lebensraum<\/em>.<sup data-fn=\"f8f92a7e-0cae-4c9a-88d1-02a782091b96\" class=\"fn\"><a href=\"#f8f92a7e-0cae-4c9a-88d1-02a782091b96\" id=\"f8f92a7e-0cae-4c9a-88d1-02a782091b96-link\">2<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em terceiro lugar, por meio das variantes do assim chamado ecofascismo. E se a extrema direita fizer um giro de 180 graus e reconhecer integralmente que o aquecimento global tem origem humana? Em quem eles colocariam a culpa? Certamente n\u00e3o nos l\u00edderes de neg\u00f3cios do Norte Global. Ao inv\u00e9s disso, eles tratariam como bodes expiat\u00f3rios os \u201cimigrantes\u201d, mu\u00e7ulmanos, judeus ou chineses, ou at\u00e9 mesmo qualquer grupo que pode ser usado para mobilizar o \u00f3dio e o racismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas isso n\u00e3o precisa acontecer \u2013 porque estamos aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>10. O ecossocialismo vai esmagar o fascismo \u2013 e eles v\u00e3o pagar por isso<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ge\u00f3grafa Laura Pulido e seus colegas identificaram uma interessante diferen\u00e7a, observada na primeira presid\u00eancia de Donald Trump, entre o racismo expl\u00edcito e espetacular de Trump e o sil\u00eancio que sucedeu as suas desregulamenta\u00e7\u00f5es ambientais. Eles alegam que o primeiro \u2013 intencionalmente ou n\u00e3o \u2013 ajudou a obscurecer o \u00faltimo. Isso \u00e9 interessante. O negacionismo clim\u00e1tico deve circular bastante, e as teorias da conspira\u00e7\u00e3o e as <em>fake news<\/em> s\u00e3o sempre ferramentas importantes nas campanhas da direita. Mas em geral a quest\u00e3o clim\u00e1tica tamb\u00e9m permanece um desafio para elas. N\u00e3o \u00e9 algo que elas querem discutir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o como reagimos? N\u00f3s intensificamos a luta contra o aquecimento global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como t\u00e3o eficientemente apontou Samira Ali na sua confer\u00eancia na sexta-feira, a luta antifascista tem que ser tanto defensiva, quanto ofensiva. Temos que defender o que merece ser defendido e, ao mesmo tempo, ir ampliando e intensificando nossas pr\u00f3prias lutas \u2013 especialmente aquelas que a extrema direita n\u00e3o quer encarar. A luta pelo ecossocialismo \u00e9 exatamente isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Unificar a ampla classe trabalhadora deve sempre ser o \u00e2mago de qualquer estrat\u00e9gia socialista. Mas sejamos francos \u2013 muitas vezes, quando sentamos para conversar, nossas desaven\u00e7as se aprofundam em vez de dissolverem. \u00c0s vezes, a press\u00e3o externa unifica mais eficazmente do que as boas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez esse seja o ponto no qual o fascismo sem querer nos ajuda. A extrema direita \u2013 seja no governo ou nas ruas \u2013 vai seguir atacando as institui\u00e7\u00f5es progressistas, os sindicatos dos trabalhadores, os movimentos feministas e antirracistas e, \u00e9 claro, o movimento ambientalista. Aqui n\u00e3o h\u00e1 lugar para o otimismo ing\u00eanuo. Esses ataques, por\u00e9m, tamb\u00e9m podem tornar mais f\u00e1cil enxergar o que une a ampla classe trabalhadora. Se \u00e9 assim, essa \u00e9 uma oportunidade que temos que agarrar. Portanto, vamos unir os sindicatos e os movimentos ambientalistas. Ou melhor \u2013 vamos deixar que os fascistas nos unam. Assim seremos fortes. E, ent\u00e3o, vamos vencer, porra. Obrigado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado no site da <em>Rebel<\/em>, em 4 de abril de 2025. Agradecemos encarecidamente ao autor por ceder os direitos da tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/rebelnews.ie\/2025\/04\/04\/10-things-about-ecosocialism\/\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Barros.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"72513b1a-17cf-4f58-892b-adf63d0438b9\">Professor S\u00eanior de Geografia Humana na Universidade de Estocolmo. Membro do coletivo ecossocialista Zetkin Collective. Autor do livro <em><a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/en-gb\/products\/3130-against-the-crisis?srsltid=AfmBOoo2_l2qDv-eygh0wCDRCBRCnEaB_JqveE6sFQB-YGIHcNg3UPqf\">Against the Crisis: Economy and Ecology in a Burning World<\/a><\/em>. <a href=\"#72513b1a-17cf-4f58-892b-adf63d0438b9-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"f8f92a7e-0cae-4c9a-88d1-02a782091b96\">Trata-se do conceito de \u201cespa\u00e7o vital\u201d, concebido por Friedrich Razel no s\u00e9culo XIX e adotado por Adolf Hitler como argumento para a expans\u00e3o territorial do Terceiro Reich alem\u00e3o sobre a Europa. [N.T.] <a href=\"#f8f92a7e-0cae-4c9a-88d1-02a782091b96-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 7 \u2013 junho de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>St\u00e5le Holgersen, autor de \u201cAgainst the Crisis\u201d, falou na Marxism Conference em Dublin, em mar\u00e7o de 2024. Este \u00e9 o texto da sua palestra, \u201cDez coisas que eu queria dizer sobre o ecossocialismo\u201d, realizada no evento<\/p>\n","protected":false},"author":28,"featured_media":813,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Professor S\u00eanior de Geografia Humana na Universidade de Estocolmo. Membro do coletivo ecossocialista Zetkin Collective. 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