{"id":829,"date":"2025-07-11T11:19:47","date_gmt":"2025-07-11T14:19:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=829"},"modified":"2025-08-10T15:18:37","modified_gmt":"2025-08-10T18:18:37","slug":"os-fios-estendidos-da-distancia-do-resgate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/07\/11\/os-fios-estendidos-da-distancia-do-resgate\/","title":{"rendered":"Os Fios Estendidos da Dist\u00e2ncia do Resgate"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Resenha do livro: <a href=\"https:\/\/www.fosforoeditora.com.br\/produto\/distancia-de-resgate-70163\">SCHWEBLIN, Samanta. <em>Dist\u00e2ncia de resgate<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Joca Reiners Terron. S\u00e3o Paulo: F\u00f3sforo, 2024<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Diego Lock Farina<sup data-fn=\"03af4661-60b9-46a4-b5f5-8e1f6fa4828b\" class=\"fn\"><a href=\"#03af4661-60b9-46a4-b5f5-8e1f6fa4828b\" id=\"03af4661-60b9-46a4-b5f5-8e1f6fa4828b-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Samanta Schweblin \u00e9, de fato, uma autora que minuciosamente sabe escrever por camadas, ou melhor, que aposta ainda na conting\u00eancia liter\u00e1ria, hoje um tanto tangenciada, cuja pertin\u00eancia da forma textual se encontra nas zonas impl\u00edcitas, sobrepostas, alternadas, operando por n\u00edveis n\u00e3o somente sem\u00e2nticos, mas sobretudo sint\u00e1ticos, narrativos; seu primor t\u00e9cnico centra-se em nada entregar numa trama em que o leitor, no entanto, passa do in\u00edcio ao fim envolvido, demovendo-se, passo a passo, do <em>mal<\/em> que cada qual carrega em si. Mal de arquivo, tamb\u00e9m, por tratar-se de um primor tal qual mnem\u00f4nico, ou que se desvela da falha da recomposi\u00e7\u00e3o via mem\u00f3ria, do agravio das m\u00e1quinas. Mais sugest\u00e3o do que referencialidade, mais entorse e con-fus\u00e3o que coes\u00e3o linear e cartilha, <em>Dist\u00e2ncia de resgate<\/em> (2014) implica um itiner\u00e1rio simb\u00f3lico complexo \u00e0 medida que se vale simultaneamente de \u00edndices recorrentes do terror tradicional (lago, cavalos, casa de campo, planta\u00e7\u00e3o, desenhos de crian\u00e7a etc.), no intuito de n\u00e3o se bastar com os enquadramentos do g\u00eanero, mas transbord\u00e1-lo para outras possibilidades de leitura de dimens\u00e3o pol\u00edtica, ecol\u00f3gica, \u00e9tica, embora envoltas com muita sutileza, arquitetadas sob processos oscilantes entre desvelamento e denega\u00e7\u00e3o t\u00edpicos do grande suspense ps\u00edquico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse vi\u00e9s de amputa\u00e7\u00e3o dos excessos (a edi\u00e7\u00e3o brasileira tem apenas 96 p\u00e1ginas), de subtra\u00e7\u00e3o atenta \u00e0 maneira kafkiana, que, assim como na <em>Cachorra<\/em>, de Pilar Quintana, Samanta faz caber no universo que erige uma multiplicidade de temas \u2013 mais condizente seria dizer de fragmentos de temas \u2013 dificilmente bem articulados em espa\u00e7os t\u00e3o ex\u00edguos; ou seja, est\u00e3o abordadas sob a forma do que apelido afetivamente de neorrealismo indici\u00e1rio, aqui m\u00e1gico ou n\u00e3o, fazendo jus \u00e0 familiaridade com Cort\u00e1zar e Bioy: a tens\u00e3o dial\u00e9tica entre campo e cidade;<sup data-fn=\"bf066cc4-6c3c-4149-9cb8-4f6970f9866b\" class=\"fn\"><a href=\"#bf066cc4-6c3c-4149-9cb8-4f6970f9866b\" id=\"bf066cc4-6c3c-4149-9cb8-4f6970f9866b-link\">2<\/a><\/sup> a amea\u00e7a recorrente das intoxica\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xicos e demais venenos n\u00e3o regulados em zonas vulner\u00e1veis obliteradas pelo capitalismo das monoculturas (formando uma alegoria moderna, quase como uma par\u00e1bola dos nossos tempos sombrios, o que na ideia do texto por\u00e9m n\u00e3o soa em nada problem\u00e1tico); as rela\u00e7\u00f5es entre pais e filhos, com enfoque nas redes maternais que se montam provisoriamente em fun\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia dos maridos, do dilema e da ang\u00fastia da cria\u00e7\u00e3o, da seguran\u00e7a e do suposto bem-estar das crian\u00e7as; a explora\u00e7\u00e3o dos eventuais adoecimentos mentais que atravessam de cabo a rabo a sociedade do desempenho em que estamos inseridos; e assim por diante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Creio que existam tr\u00eas maneiras de entrar nesse livro: sob uma leitura fant\u00e1stica propriamente dita (embora Samanta afirme em entrevistas que n\u00e3o se sente uma escritora do fant\u00e1stico), em que as interpela\u00e7\u00f5es sobrenaturais, transcendentes, incluindo a\u00ed a maldi\u00e7\u00e3o e a possess\u00e3o, s\u00e3o leg\u00edtimas e operariam o tom primordial da narrativa; sob o vi\u00e9s, <em>grosso modo<\/em>, <em>realista<\/em>, em que a leitura investe na intoxica\u00e7\u00e3o e seus agravantes, pondo o plano de sugest\u00e3o m\u00e1gica na conta da tentativa de explicar o mundo absurdo pelos personagens, atrav\u00e9s da cren\u00e7a e at\u00e9 de certa ancestralidade cosmog\u00f4nica; e\/ou sob a \u00f3tica da loucura, do aturdimento ps\u00edquico, em que o del\u00edrio tomaria a dianteira do discurso, tornando a manifesta\u00e7\u00e3o desesperada da protagonista com base em alucina\u00e7\u00f5es decorrentes de uma sintomatologia que reuniria a cr\u00edtica social e a enfermidade mental colapsal do presente. Isto \u00e9, ou a voz de David a) autoriza a dimens\u00e3o extramundo invadindo a cabe\u00e7a de Amanda; ou b) ela sequer existe, sendo t\u00e3o-somente um recurso dial\u00f3gico criado pela pr\u00f3pria protagonista para performar seu processo de rememora\u00e7\u00e3o e explica\u00e7\u00e3o dos fatos; ou a voz \u00e9, portanto, c) fruto da conjun\u00e7\u00e3o delirante de Amanda, pouco importando se exterior ou interior. \u00c9 claro que essas tr\u00eas dimens\u00f5es est\u00e3o imbrincadas e funcionam no texto justamente por meio da condi\u00e7\u00e3o de simultaneidade que estende o cord\u00e3o suspensivo at\u00e9 o final em aberto da trama.&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ent\u00e3o essa esp\u00e9cie de atmosfera indecid\u00edvel entre fant\u00e1stico e interpreta\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica (impress\u00f5es delirantes, devaneios de febre, investimentos patol\u00f3gicos, estado de choque) que remete ao estilo de Maupassant \u2013 penso, claro, n\u2019<em>O Horla<\/em>; a recursos de composi\u00e7\u00e3o consagrados por Poe; \u00e0s transposi\u00e7\u00f5es cinem\u00e1ticas e vertiginosas de Hitchcock, por\u00e9m embaralhadas com nuances beckettianas (inevit\u00e1vel n\u00e3o lembrar da <em>voz<\/em> d\u2019 <em>O<\/em> <em>inomin\u00e1vel<\/em>) realocadas no contexto das prov\u00edncias esquecidas da Argentina n\u00e3o-portenha, tamb\u00e9m trazida \u00e0 cena, embora de modo diverso mesmo dentro do pr\u00f3prio <em>horror<\/em>, pela conterr\u00e2nea e contempor\u00e2nea de Samanta, Mariana Enr\u00edquez. Ambas, diga-se de passagem, empreendem verdadeiros monumentos do atual na literatura latino-americana, sob o gesto correlacional que amarra as heran\u00e7as coloniais atualizadas pela explora\u00e7\u00e3o financeira desumanizadora do Capitaloceno \u00e0s express\u00f5es do repulsivo, do ins\u00f3lito e do absurdo na fic\u00e7\u00e3o especulativa. Desse mosaico hipert\u00e9rmico de agenciamentos \u2013 ou da cria\u00e7\u00e3o dos precursores, pra n\u00e3o esquecermos de outro argentino proeminente, Borges \u2013, materializa-se, contudo, uma novela irretocavelmente singular, cheia de armadilhas e, em \u00faltima an\u00e1lise, labir\u00edntica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ritmo e a estrutura que aludem \u00e0 din\u00e2mica do conto neog\u00f3tico s\u00e3o tanto condizentes com a produ\u00e7\u00e3o geral da autora, conhecida mundialmente pelas colet\u00e2neas de narrativas curtas \u2013 <em>El n\u00facleo del disturbio<\/em> (2002), <em>P\u00e1jaros en la boca<\/em> (2009), e o atual <em>El buen mal<\/em> (2025), recentemente lan\u00e7ado no Brasil \u2013 quanto com o fato de <em>Dist\u00e2ncia de resgate<\/em> ter sido pensado de in\u00edcio como um conto para <em>Siete casas vac\u00edas<\/em> (2015), somente depois ganhando dimens\u00f5es de novela e sendo assim publicada. Esse mecanismo interno facilita decerto a constru\u00e7\u00e3o dos efeitos de estranhamento e da inquietude frequente que carregam as personagens e s\u00e3o experimentadas, por uma esp\u00e9cie de transfer\u00eancia, pelo leitor. Sem abusar das escalonadas on\u00edricas (ainda que todo livro possa parecer um tenebroso <em>pesadelo<\/em> de Amanda), tal plano de perturba\u00e7\u00e3o constante parece ser a pr\u00f3pria iman\u00eancia da obra, como num preparo para a inconfund\u00edvel narrativa longa, embora entrecortada e muito ainda herdeira do conto, de <em>Kentukis<\/em> (2018). A sofistica\u00e7\u00e3o do trabalho com a tens\u00e3o dram\u00e1tica acaba por desenvolver at\u00e9 o final certa aura de mist\u00e9rio irresoluto que parece esconder propositalmente a den\u00fancia ao modelo de planta\u00e7\u00e3o de soja transg\u00eanica, movido \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de venenos variados que intoxicam gradualmente a popula\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de um <em>modus operandi<\/em> digno de Chernobyl, silencioso e incompreendido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tratar a obra, portanto, como uma das atuais fic\u00e7\u00f5es acerca do Antropoceno amplia seu perspectivismo ecocr\u00edtico. A amea\u00e7a ecol\u00f3gica est\u00e1 sugerida pela contamina\u00e7\u00e3o ambiental mesmo sem isso em nenhum momento ser confrontado por Amanda. Sequer veremos em seu mon\u00f3logo (levando em considera\u00e7\u00e3o que a voz de David \u00e9 uma voz da sua pr\u00f3pria cabe\u00e7a, impulsionada pelo estado agonizante em que se encontra na enfermaria) qualquer tipo de explana\u00e7\u00e3o did\u00e1tica\/interpretativa sobre o caso, ou seja, temos acesso apenas aos fatos descritos, e \u00e9 desse mergulho que podemos entender o plano de fundo. Sabemos, desse modo, que ocorre no povoado um envenenamento paulatino que traz preju\u00edzos f\u00edsicos e cognitivos a mais de uma gera\u00e7\u00e3o: \u201calguns j\u00e1 nasceram envenenados, por causa de alguma coisa que suas m\u00e3es aspiraram no ar, devido a uma coisa que comeram ou tocaram\u201d.<sup data-fn=\"d14cc815-fa1d-430f-b6b7-ab8c21fffee2\" class=\"fn\"><a href=\"#d14cc815-fa1d-430f-b6b7-ab8c21fffee2\" id=\"d14cc815-fa1d-430f-b6b7-ab8c21fffee2-link\">3<\/a><\/sup><em> Tudo \u00e9 culpa dos vermes<\/em>, como menciona a voz enigm\u00e1tica de David, que n\u00e3o s\u00e3o exatamente vermes, mas s\u00e3o como o fossem. Na chave de leitura realista da trama, a narrativa \u00e9 um vigoroso flashback que, em cenas retroativas, remonta imprecisamente \u00e0 hist\u00f3ria da intoxica\u00e7\u00e3o de Amanda e sua separa\u00e7\u00e3o de Nina, a filha de cinco anos com quem passava f\u00e9rias numa casa de campo colada ao povoado an\u00f4nimo e infectado. Nina, em tese, tamb\u00e9m foi infectada, mas est\u00e1 agora separada da m\u00e3e. Eis o momento da ruptura com a linha imagin\u00e1ria que marca a dist\u00e2ncia de resgate de Amanda para com a filha e a consequente amplia\u00e7\u00e3o do desespero da m\u00e3e por n\u00e3o poder socorr\u00ea-la caso algo aconte\u00e7a. Amanda agoniza febril, sozinha na enfermaria, conduzida pela voz que sup\u00f5e escutar (de David) e que materializa o di\u00e1logo entre eles que ocupa a integralidade do livro. Isto \u00e9, o texto inicia no meio desse di\u00e1logo, pelo qual a voz for\u00e7a Amanda a recompor (j\u00e1 \u00e9 quarta ou quinta vez que tentam) tudo que lhes passou desde a chegada na cidade, com a finalidade de captarem o instante preciso da intoxica\u00e7\u00e3o\/amaldi\u00e7oamento. Al\u00e9m de faz\u00ea-la rememorar todo e qualquer detalhe, a voz assombrosa leva Amanda a percorrer outras salas do hospital provinciano em busca dos desenhos e de uma lista de nomes das demais crian\u00e7as infectadas que por ali passaram.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"405\" height=\"594\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ditancia-resgate.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-837\" style=\"width:449px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ditancia-resgate.png 405w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ditancia-resgate-205x300.png 205w\" sizes=\"auto, (max-width: 405px) 100vw, 405px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Capa do livro de Samanta Schweblin<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sentimento da prote\u00e7\u00e3o maternal em risco se entrela\u00e7a sugestivamente com a contamina\u00e7\u00e3o da terra (da <em>pachamama<\/em>, por extens\u00e3o), desertificando ambas as inst\u00e2ncias. O cen\u00e1rio \u00e9 tomado pela fragilidade, pelo medo e pela imprevisibilidade. Estando tudo fora do controle, assolada pelo pavor da distens\u00e3o m\u00e1xima da dist\u00e2ncia de resgate e pela implac\u00e1vel interven\u00e7\u00e3o invis\u00edvel das tanatol\u00f3gicas leis do capitalismo \u2013 cuja implica\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica \u00e9 a de um envenenamento gradual em todos os \u00e2mbitos da vida \u2013, Amanda se encontra \u00e0 beira da morte sem nenhuma inst\u00e2ncia efetiva de amparo. Como em <em>Zona de Interesse<\/em> (2023), o filme de Jonathan Glazer, o povoado aleg\u00f3rico, dominado pela multinacional Sotomayor, especializada em biotecnologia no campo, torna-se uma \u201czona de sacrif\u00edcio\u201d<sup data-fn=\"3098d27d-190a-4e5a-8be6-126252c12c1d\" class=\"fn\"><a href=\"#3098d27d-190a-4e5a-8be6-126252c12c1d\" id=\"3098d27d-190a-4e5a-8be6-126252c12c1d-link\">4<\/a><\/sup> em que o que eram f\u00e9rias de descanso viram o <em>tropos<\/em> do eco-horror protagonizado pelo adoecimento repentino e a separa\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica de Amanda e Nina. A intensidade que ao longo da trama se amplia em torno da linha estendida e prestes a arrebentar, que permite a dist\u00e2ncia de resgate, adquire contornos de um segundo cord\u00e3o umbilical,<sup data-fn=\"8666c8d4-677e-41b8-baec-cee50e886b9d\" class=\"fn\"><a href=\"#8666c8d4-677e-41b8-baec-cee50e886b9d\" id=\"8666c8d4-677e-41b8-baec-cee50e886b9d-link\">5<\/a><\/sup> por sua vez simb\u00f3lico, que representa a sobreviv\u00eancia, certa forma de nutri\u00e7\u00e3o da vida, dando-lhe supostas garantias de continua\u00e7\u00e3o e cuidado. No desfecho da obra, veremos David, em casa apenas com o pai rec\u00e9m retornado, obcecado por amarrar tudo que v\u00ea, os m\u00f3veis, objetos, unindo-os entre si com fios de linha, ou os amarrando no teto, como num gesto de recostura daquilo que outrora fora violentamente talhado. Os diversos fios \u2013 sempre t\u00e3o estendidos, a confrontar sua resist\u00eancia de flexibilidade \u2013 espalham-se desde as camadas da composi\u00e7\u00e3o textual \u00e0 presen\u00e7a das variadas cordas dentro do enredo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na chegada no povoado, Amanda conhece Carla, m\u00e3e de David, vizinha da casa ao lado da que aluga. Carla lhe conta, portanto, a hist\u00f3ria assombrosa que acometeu sua fam\u00edlia, envolvendo eventos at\u00edpicos que ela cr\u00ea sobrenaturais, desde quando o cavalo Garanh\u00e3o, emprestado ao pai que tinha um pequeno haras, foge at\u00e9 a lagoa e Carla, acompanhada do filho que se infecta com a \u00e1gua contaminada nessa ocasi\u00e3o, parte para resgat\u00e1-lo, at\u00e9 os acontecimentos seguintes como a transmigra\u00e7\u00e3o de corpo que David faz na Casa Verde para diminuir a intoxica\u00e7\u00e3o e mant\u00ea-lo vivo, mesmo recebendo em seu corpo outra entidade e as rec\u00edprocas cat\u00e1strofes que, para Carla, t\u00eam a ver com a suposta maldi\u00e7\u00e3o que o filho passa a carregar. A transmigra\u00e7\u00e3o de corpo, realizada por uma esp\u00e9cie de curandeira da regi\u00e3o, dividiria o envenenamento nos dois corpos, n\u00e3o tendo como saber que corpo seria esse outro. Decerto Amanda n\u00e3o cr\u00ea a princ\u00edpio nas explica\u00e7\u00f5es m\u00edsticas, mas \u00e0 medida em que a trama evolui, passa a n\u00e3o ter mais certeza de nada. As circunst\u00e2ncias estranhas que logo acompanham David refor\u00e7am a ideia de uma possess\u00e3o demon\u00edaca (o desaparecimento dos cavalos do pai; os patos que a crian\u00e7a come\u00e7a a enterrar depois de mortos no p\u00e1tio; passeios noturnos ao l\u00e9u; manchas na pele e h\u00e1bitos irreconhec\u00edveis que coincidem com tra\u00e7os das demais crian\u00e7as infectadas do povoado etc.). A seguir, numa tarde, David ser\u00e1 encontrado na casa alugada brincando com Nina, o que ocasiona uma s\u00e9rie de impasses e pavores cujo \u00e1pice ser\u00e1 a discuss\u00e3o entre as vizinhas. A partir da possess\u00e3o, Carla passa a evitar o filho e trat\u00e1-lo com aspereza, vendo no menino algo que n\u00e3o mais se trata do filho am\u00e1vel de antigamente. Num epis\u00f3dio seguinte \u00e9 a vez ent\u00e3o de Amanda e Nina se infectarem ao visitar Carla na Sotomayor, onde trabalha: ao sentarem-se na grama da propriedade sentem repentinamente as roupas umedecidas, pois o pasto estava ensopado do veneno rec\u00e9m descarregado dos caminh\u00f5es. Todas essas informa\u00e7\u00f5es nos s\u00e3o contadas atrav\u00e9s do di\u00e1logo inebriante entre Amanda agonizante na enfermaria e a voz, em tese, de David que invade sua mente e a for\u00e7a a reconstituir tais paisagens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na travessia febril pela enfermaria, o di\u00e1logo a seguir \u00e9 uma excelente amostra da tens\u00e3o e do estilo do texto, quando Amanda, em meio \u00e0s reminisc\u00eancias e \u00e0s temporalidades atravessadas do relato, finalmente encontra os desenhos na parede:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c<em>Agora \u00e9 um bom come\u00e7a para n\u00f3s<\/em>.<br>Eu adorme\u00e7o. Carla percebe e me deixa um instante, enquanto distrai Nina.<br><em>Por isso \u00e9 um bom momento. Voc\u00ea est\u00e1 vendo<\/em>?<br>Vendo o qu\u00ea?<br><em>Os nomes, na parede da sala de espera<\/em>.<br>S\u00e3o das crian\u00e7as que v\u00eam a esta sala?<br><em>Algumas n\u00e3o s\u00e3o mais crian\u00e7as<\/em>.<br>Mas \u00e9 sempre a mesma letra.<br><em>\u00c9 a letra de uma das enfermeiras. N\u00e3o conseguem escrever, quase nenhuma delas<\/em>.<br>N\u00e3o sabem?<br><em>Algumas sabem, chegaram a aprender, mas n\u00e3o controlam mais seus bra\u00e7os, ou n\u00e3o controlam mais a pr\u00f3pria cabe\u00e7a, ou est\u00e3o com a pele t\u00e3o fina que, se apertam demais os l\u00e1pis, os dedos acabam sangrando<\/em>.<br>Estou cansada, David.<br><em>O que est\u00e1 fazendo? N\u00e3o \u00e9 uma boa ideia parar agora. Ainda n\u00e3o. Aonde voc\u00ea vai? Amanda. Essa porta n\u00e3o pode ser aberta por dentro, nenhuma de nossas portas pode ser aberta por dentro<\/em>.<br>Eu preciso que voc\u00ea pare. Estou esgotada.<br><em>Se voc\u00ea se concentrar, as coisas acontecem mais r\u00e1pido<\/em>.<br>Ent\u00e3o tamb\u00e9m acabam mais r\u00e1pido.<br><em>N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim morrer<\/em>.<br>E Nina?<br><em>\u00c9 isso o que queremos saber agora, n\u00e3o? Sente-se. Por favor, Amanda, sente-se.<\/em>\u201d<sup data-fn=\"70478d12-8d35-4f46-820f-d676fda210c9\" class=\"fn\"><a href=\"#70478d12-8d35-4f46-820f-d676fda210c9\" id=\"70478d12-8d35-4f46-820f-d676fda210c9-link\">6<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que acontece realmente com David ap\u00f3s a <em>transmigra\u00e7\u00e3o<\/em> na Casa Verde \u00e9 o que nunca saberemos. Efetivada pela curandeira local, m\u00e3e r\u00fastica de sete filhos que trabalhavam igualmente nas planta\u00e7\u00f5es de soja e que diz se tratar tudo de <em>energia negativa<\/em>, o procedimento esot\u00e9rico deixa o menino sem d\u00favida traumatizado. A perspectiva do trauma tamb\u00e9m est\u00e1 presente no bloco de sensa\u00e7\u00f5es que a narrativa transp\u00f5e em cena. Ao entrar na pe\u00e7a da casa apenas com a mulher misteriosa que representa os saberes ancestrais da regi\u00e3o, rompe-se tamb\u00e9m o fio da dist\u00e2ncia de resgate entre Carla e David, ainda que o termo n\u00e3o fosse conhecido por ela at\u00e9 ent\u00e3o. \u00c9 este fio rompido que David tenta reestabelecer de alguma forma e \u00e9 sempre ultrajado pela transforma\u00e7\u00e3o da m\u00e3e que passa a v\u00ea-lo como um <em>monstro<\/em>? Um monstro, ali\u00e1s, como constru\u00e7\u00e3o cultural imponder\u00e1vel do Antropoceno.<sup data-fn=\"d1fa43a7-4795-47bf-9e38-7cb2157ce224\" class=\"fn\"><a href=\"#d1fa43a7-4795-47bf-9e38-7cb2157ce224\" id=\"d1fa43a7-4795-47bf-9e38-7cb2157ce224-link\">7<\/a><\/sup> Parece em algum n\u00edvel que tanto o adoecimento de Carla quanto o de Amanda se d\u00e3o por desespero, pela dificuldade de discernimento que h\u00e1 nas s\u00fabitas situa\u00e7\u00f5es de afli\u00e7\u00e3o imponder\u00e1vel, e que gera, em seguida, o sentimento insuport\u00e1vel e ansiog\u00eanico da culpa, frente \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de que a ilus\u00e3o de dom\u00ednio e controle do mundo est\u00e1 desfeita em definitivo. Culpa de Carla em deixar David ir com a curandeira, de entreg\u00e1-lo ao ritual, que \u00e9 cruel, ou antes, de n\u00e3o perceber que o filho entrava em contato com a \u00e1gua infectada do lago; culpa de Amanda de n\u00e3o conseguir proteger Nina do envenenamento, de n\u00e3o poder estar com ela ao ser internada na enfermaria&#8230; Todas essas circunst\u00e2ncias envolvem, enfim, o esfacelamento do fio t\u00eanue que mantinha a dist\u00e2ncia de resgate \u2013 ensinamento de autoprote\u00e7\u00e3o, explicar\u00e1 Amanda, passado de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o na sua fam\u00edlia, desde os tempos irremont\u00e1veis: \u201cisso de se adiantar ao que poderia acontecer\u201d.<sup data-fn=\"36a93e84-42b0-4a2c-be04-01d24518640f\" class=\"fn\"><a href=\"#36a93e84-42b0-4a2c-be04-01d24518640f\" id=\"36a93e84-42b0-4a2c-be04-01d24518640f-link\">8<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No desfecho da narrativa, sinistro, como esperado, fica subentendido que, enquanto Amanda se encontra internada, Carla leva Nina \u00e0 Casa Verde mesmo sem a permiss\u00e3o da m\u00e3e, num ato que mescla outra tentativa desesperada de salva\u00e7\u00e3o com algum tipo de conluio amaldi\u00e7oado em que o papel de Carla \u00e9 encaminhar todas as crian\u00e7as infectadas aos rituais traum\u00e1ticos de transmigra\u00e7\u00e3o que marcam o povoado no corpo e na alma, inserindo-se, assim, tal \u00edndice, como uma das principais pontas da alegoria estimulada pelo texto. Com efeito, \u00e9 somente no vasto campo da fic\u00e7\u00e3o que podemos nos debru\u00e7ar com sobreposi\u00e7\u00f5es significantes t\u00e3o cuidadosamente tecidas e retorcidas, suspendendo quaisquer certezas e nos levando para planos especulativos experimentados na pr\u00f3pria sensibilidade. As associa\u00e7\u00f5es e os agenciamentos em <em>Dist\u00e2ncia de resgate<\/em> tiram o f\u00f4lego e geram vertigens, causando ang\u00fastia, indigna\u00e7\u00e3o, relembrando das nossas limita\u00e7\u00f5es humanas, transformacionais, e pondo em escala a dimens\u00e3o cr\u00edtica que, \u00e0 medida que nos nutre, tamb\u00e9m nos aflige. Creio que seja um dos livros mais desconcertantes, nesse sentido, que reli nos \u00faltimos meses, na busca solit\u00e1ria de como essa estranha institui\u00e7\u00e3o chamada literatura, como se refere Derrida, faz para incessantemente nos tirar do lugar (que lugar afinal?) e nos realocar, pelos fios mais ins\u00f3litos, sob novos desertos fr\u00e1geis que demandam cada vez mais respostas inusitadas e rasgos, imediatos, de intempestividade. At\u00e9 mesmo porque, no capitalismo, \u00e9 como diz ao fim o pai de David: \u201ccomo se pudesse (se) ir para algum lugar&#8230;\u201d.<sup data-fn=\"f882bdb6-58b5-43a5-8fec-4397db482b35\" class=\"fn\"><a href=\"#f882bdb6-58b5-43a5-8fec-4397db482b35\" id=\"f882bdb6-58b5-43a5-8fec-4397db482b35-link\">9<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"03af4661-60b9-46a4-b5f5-8e1f6fa4828b\">Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Autor do livro <em><a href=\"https:\/\/www.editoracontratempo.com.br\/product-page\/o-mar-enquanto\">O mar enquanto<\/a><\/em>. <a href=\"#03af4661-60b9-46a4-b5f5-8e1f6fa4828b-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"bf066cc4-6c3c-4149-9cb8-4f6970f9866b\">Cf. Gabriele Bizzarri. \u201cCuerpos movedizos y narrativas de circulaci\u00f3n: Samanta Schweblin y el fant\u00e1stico neoglobal\u201d. <em>Revista Landa<\/em>, Florian\u00f3polis, v. 8, n. 1, 2019, p. 222-233. <a href=\"#bf066cc4-6c3c-4149-9cb8-4f6970f9866b-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"d14cc815-fa1d-430f-b6b7-ab8c21fffee2\">Samanta Schweblin. <em>Dist\u00e2ncia de resgate<\/em>. Trad. Joca Reiners Terron. S\u00e3o Paulo: F\u00f3sforo, 2024, p. 77. <a href=\"#d14cc815-fa1d-430f-b6b7-ab8c21fffee2-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"3098d27d-190a-4e5a-8be6-126252c12c1d\">Cf. Andr\u00e9 Ara\u00fajo; Maria Petrucci Sperb. \u201cFic\u00e7\u00f5es da zona de sacrif\u00edcio: cronotopos do horror antropoc\u00eanico em <em>Dist\u00e2ncia de resgate<\/em>, de Samanta Schweblin\u201d. <em>Letras de Hoje<\/em>, Porto Alegre, v. 59, n. 1, 2024. <a href=\"#3098d27d-190a-4e5a-8be6-126252c12c1d-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 4 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"8666c8d4-677e-41b8-baec-cee50e886b9d\">Cf. Raquel Riera. <em>M\u00e3es perturbadoras, filhos monstruosos. Uma leitura de <\/em>Dist\u00e2ncia de Resgate<em>, de Samantha Schweblin.<\/em> Campinas: Unicamp\/Publica\u00e7\u00f5es IEL, 2020. <a href=\"#8666c8d4-677e-41b8-baec-cee50e886b9d-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 5 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"70478d12-8d35-4f46-820f-d676fda210c9\">Samanta Schweblin. <em>op. cit.<\/em>, p. 64. <a href=\"#70478d12-8d35-4f46-820f-d676fda210c9-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 6 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"d1fa43a7-4795-47bf-9e38-7cb2157ce224\">Cf. Palacio Riva. \u201cDistancia de rescate: exilio y p\u00e9rdida de identidad ante la contaminaci\u00f3n rural\u201d.\u00a0<em>Nuevas Poligraf\u00edas. Revista De Teor\u00eda Literaria Y Literatura Comparada<\/em>, (10), 2024, p. 63-81. <a href=\"#d1fa43a7-4795-47bf-9e38-7cb2157ce224-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 7 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"36a93e84-42b0-4a2c-be04-01d24518640f\">Samanta Schweblin. <em>op. cit.<\/em>, p. 66. <a href=\"#36a93e84-42b0-4a2c-be04-01d24518640f-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 8 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"f882bdb6-58b5-43a5-8fec-4397db482b35\">Samanta Schweblin. <em>op. cit.<\/em>, p. 91. <a href=\"#f882bdb6-58b5-43a5-8fec-4397db482b35-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 9 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 8 \u2013 julho de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As associa\u00e7\u00f5es e os agenciamentos em &#8220;Dist\u00e2ncia de resgate&#8221; tiram o f\u00f4lego e geram vertigens, causando ang\u00fastia, indigna\u00e7\u00e3o, relembrando das nossas limita\u00e7\u00f5es humanas, transformacionais, e pondo em escala a dimens\u00e3o cr\u00edtica que, \u00e0 medida que nos nutre, tamb\u00e9m nos aflige<\/p>\n","protected":false},"author":32,"featured_media":839,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 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