{"id":851,"date":"2025-07-11T11:20:46","date_gmt":"2025-07-11T14:20:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=851"},"modified":"2025-08-10T15:18:14","modified_gmt":"2025-08-10T18:18:14","slug":"entrevista-com-caroline-levine","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/07\/11\/entrevista-com-caroline-levine\/","title":{"rendered":"Entrevista com Caroline Levine"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A professora do Departamento de Literaturas em Ingl\u00eas da Universidade de Cornell, Caroline Levine, tem uma s\u00f3lida carreira como te\u00f3rica e cr\u00edtica liter\u00e1ria, investigando a forma do romance do s\u00e9culo XIX de uma perspectiva formalista. Seus estudos te\u00f3ricos nessa \u00e1rea se destacam h\u00e1 anos, propiciando aos estudantes de literatura e aos cr\u00edticos liter\u00e1rios um material crucial para o trabalho de interpreta\u00e7\u00e3o do texto liter\u00e1rio. Outra faceta da carreira da professora Levine s\u00e3o os estudos sobre a ecocr\u00edtica, a justi\u00e7a clim\u00e1tica e a infraestrutura. Recentemente, ela tem se dedicado a investigar a import\u00e2ncia das infraestruturas materiais que possibilitam a reprodu\u00e7\u00e3o social da vida no contexto das mudan\u00e7as e das cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas. \u00c9 dessa lavra que surge o livro <em>The Activist Humanist<\/em>,<sup data-fn=\"9b4a3169-ef25-4642-82c5-06069c3eddc0\" class=\"fn\"><a href=\"#9b4a3169-ef25-4642-82c5-06069c3eddc0\" id=\"9b4a3169-ef25-4642-82c5-06069c3eddc0-link\">1<\/a><\/sup> que investiga as formas e os m\u00e9todos envolvidos na consci\u00eancia e na luta contra a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Associando, assim, o seu trabalho te\u00f3rico e cr\u00edtico ao seu ativismo clim\u00e1tico, Caroline Levine nos oferece um livro que destoa bastante das convencionais abordagens cr\u00edticas dedicadas ao estudo das rela\u00e7\u00f5es entre a est\u00e9tica e o Antropoceno. Pondo de lado a predile\u00e7\u00e3o dos estudos liter\u00e1rios pelo que ela chama de abertura e ruptura como valores est\u00e9ticos, Levine mostra, no livro, a import\u00e2ncia de se focar nas formas est\u00e9ticas que, atrav\u00e9s da repeti\u00e7\u00e3o, do ritual, da estabilidade, do fechamento, nos apresentam modos de conserva\u00e7\u00e3o da infraestrutura e de organiza\u00e7\u00e3o social. <em>The Activist Humanist<\/em> \u00e9, al\u00e9m disso, uma esp\u00e9cie de programa por meio do qual a cr\u00edtica liter\u00e1ria, juntamente com o ativismo pol\u00edtico, pode revalorizar o sentido do humanista, relativamente desgastado na sociedade do capitalismo muito tardio. Fique, portanto, com a excelente entrevista que Caroline Levine concedeu ao <em>Carbono<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Seu livro critica as teorias que adotam a abertura e a ruptura como valores est\u00e9ticos que, por um lado, condenam o status quo do sistema social e econ\u00f4mico que engendra o aquecimento global, mas que, por outro lado, n\u00e3o prop\u00f5em solu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para confrontar o problema. Em vez disso, voc\u00ea prop\u00f5e uma concep\u00e7\u00e3o do valor est\u00e9tico que est\u00e1 mais pr\u00f3xima do pragmatismo pol\u00edtico, a qual voc\u00ea chama de instrumentalidade afirmativa. Como isso funciona em termos metodol\u00f3gicos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CAROLINE LEVINE<\/strong>: Todos os principais m\u00e9todos na literatura e nos estudos culturais \u2013 a leitura cerrada (<em>close reading<\/em>), a desconstru\u00e7\u00e3o, o historicismo, a teoria queer, os estudos cr\u00edticos da ra\u00e7a \u2013 prezaram as lacunas e quebras e a abertura. N\u00f3s aprendemos a ler esperando a surpreendente reviravolta em um poema, a subvers\u00e3o da norma social ou a inova\u00e7\u00e3o em um g\u00eanero. Se n\u00f3s deixarmos de lado nosso caso de amor com as rupturas e trabalharmos para revalorizar a cont\u00ednua e muitas vezes repetitiva atividade de manuten\u00e7\u00e3o da vida ao longo do tempo \u2013 as rotinas do trabalho, da comida e do sono, que fazem com que a gente siga em frente \u2013, ent\u00e3o n\u00f3s precisaremos n\u00e3o apenas de um novo c\u00e2none de objetos art\u00edsticos, mas tamb\u00e9m de novas formas de leitura. As obras est\u00e9ticas que nos treinam n\u00e3o para a ruptura revolucion\u00e1ria, mas sim para a \u201ccontinuidade coletiva\u201d incluem muitas formas que foram vistas pela cr\u00edtica como indignas da nossa aten\u00e7\u00e3o: narrativas realistas com finais felizes, uma vez que elas frequentemente s\u00e3o o modelo para as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a manuten\u00e7\u00e3o de um futuro; a poesia que rima, cujos padr\u00f5es possibilitam os prazeres da repeti\u00e7\u00e3o e da memoriza\u00e7\u00e3o; e as s\u00e9ries de TV, que costuram a trama com estruturas e infraestruturas que sobrevivem ao tempo. Quanto \u00e0 nova forma de leitura, esta envolve se afastar do nosso foco comum de aten\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, que \u00e9 a <em>surpresa<\/em> \u2013 como, por exemplo, o s\u00fabito desvio de um padr\u00e3o estabelecido, ou a subvers\u00e3o das expectativas gen\u00e9ricas \u2013, em dire\u00e7\u00e3o aos cont\u00ednuos padr\u00f5es e conven\u00e7\u00f5es que tornam poss\u00edveis a percep\u00e7\u00e3o dos desvios, para come\u00e7o de conversa. No fim das contas, os padr\u00f5es repetitivos sempre foram o pano de fundo do trabalho realizado pelos estudos liter\u00e1rios \u2013 n\u00e3o se pode obter o inesperado a menos que se tenha expectativas. Ao inv\u00e9s de me direcionar imediatamente para os \u201cdetalhes luminosos\u201d que geralmente atraem nosso interesse, eu paro para estudar os padr\u00f5es que permitem antes de tudo o surgimento dessas expectativas. Onde encontramos as conven\u00e7\u00f5es? Como podemos conhec\u00ea-las? Isso implica se deter por um bom tempo no caminho da inova\u00e7\u00e3o excitante, da abertura revolucion\u00e1ria, da exce\u00e7\u00e3o estranha, a fim de reconhecer as m\u00faltiplas formas de restri\u00e7\u00e3o e estabilidade e o modo como elas moldam os mundos textual e social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Em seu livro, voc\u00ea enfatiza a import\u00e2ncia das infraestruturas que possibilitam a reprodu\u00e7\u00e3o social da vida, especialmente no contexto das cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas. No entanto, parece que a literatura do Antropoceno est\u00e1 mais interessada em representar os eventos extremos como forma de criar consci\u00eancia acerca da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, em vez de abordar essas infraestruturas. Como essa mudan\u00e7a na perspectiva te\u00f3rica ajuda a criar uma consci\u00eancia social e pol\u00edtica mais efetiva?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CAROLINE LEVINE<\/strong>: Eu tenho me sentido frustrada pelo fato de que muita da literatura e muitos dos filmes sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica optaram pela distopia, pela fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e pela fantasia, todos eles imaginando um futuro que representa uma ruptura radical com o presente. H\u00e1 poucas exce\u00e7\u00f5es, tais como <em>Ministry for the Future<\/em>, de Kim Stanley Robinson, e <em>A Par\u00e1bola do Semeador<\/em>, de Octavia Butler, que esbo\u00e7am meios de se chegar daqui at\u00e9 l\u00e1. Por\u00e9m, a maioria das tecnologias que s\u00e3o imaginadas na fic\u00e7\u00e3o especulativa n\u00e3o pode ser criada hoje, e obviamente n\u00e3o podemos convocar os alien\u00edgenas para nos ajudar a construir um mundo novo. Se um leitor como voc\u00ea ou eu quiser entender como agir diante da crise clim\u00e1tica, esses textos n\u00e3o nos oferecem nada no sentido de um guia ou um mapa. Ent\u00e3o, onde est\u00e3o os modelos culturais para prevenir o desastre clim\u00e1tico e criar alternativas melhores? O que podemos fazer agora para evitar que o pior aconte\u00e7a? No meu trabalho de ativismo clim\u00e1tico, eu percebo que muitas pessoas est\u00e3o conscientes da mudan\u00e7a clim\u00e1tica antropog\u00eanica, mas elas n\u00e3o fazem nada porque elas veem a crise clim\u00e1tica como muito complexa e esmagadora. Na verdade, um punhado de empresas est\u00e1 produzindo a vasta maioria das emiss\u00f5es de gases do efeito estufa, e poder\u00edamos facilmente derrub\u00e1-las se as expus\u00e9ssemos como as vil\u00e3s desonestas e destruidoras que elas s\u00e3o. N\u00e3o seria dif\u00edcil fazer um filme cl\u00e1ssico de Hollywood tendo a Exxon como os vil\u00f5es! Diferentemente de muitos outros problemas do mundo, esse \u00e9 na verdade <em>mais simples<\/em> do que o tornamos. Eu gostaria que tamb\u00e9m cont\u00e1ssemos mais hist\u00f3rias sobre as lutas bem-sucedidas de ativistas \u2013 como a ACT UP nos anos 1990<sup data-fn=\"83a9d856-5a0b-4e77-951d-b77f34a5f8c0\" class=\"fn\"><a href=\"#83a9d856-5a0b-4e77-951d-b77f34a5f8c0\" id=\"83a9d856-5a0b-4e77-951d-b77f34a5f8c0-link\">2<\/a><\/sup> e os protestos contra os oleodutos que funcionaram recentemente ao redor do mundo \u2013, a fim de nos dar inspira\u00e7\u00e3o sobre como nos organizar e vencer, em vez de aquiescer com o ecoc\u00eddio como se ele fosse inevit\u00e1vel. As empresas de combust\u00edvel f\u00f3ssil n\u00e3o s\u00e3o deuses!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: A ideia de ruptura e abertura como valores est\u00e9ticos tamb\u00e9m decorre de uma dial\u00e9tica entre inova\u00e7\u00e3o e conservadorismo que alguns te\u00f3ricos \u2013 Theodor Adorno, mas tamb\u00e9m Peter B\u00fcrger e Umberto Eco \u2013 enxergaram como uma renova\u00e7\u00e3o do aparato cognitivo por meio do qual podemos conceber e imaginar o mundo. Ao adotar formas mais convencionais, voc\u00ea n\u00e3o tem receio de que a literatura do Antropoceno possa reproduzir as ideologias do capitalismo e, ao faz\u00ea-lo, agravar os problemas estruturais que geram a mudan\u00e7a clim\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CAROLINE LEVINE<\/strong>: Essa \u00e9 uma quest\u00e3o muito importante. Ao longo da minha obra, eu afirmei que as formas t\u00eam <em>m\u00faltiplas<\/em> funcionalidades, de modo que elas n\u00e3o podem simplesmente ser classificadas como politicamente boas ou m\u00e1s, pr\u00f3-capitalistas ou anticapitalistas. Tomemos como exemplo a interrup\u00e7\u00e3o como forma. A maioria dos radicais alegaria que devemos interromper o status quo para inaugurar um mundo novo. Mas o capitalismo em si tem tudo a ver com as interrup\u00e7\u00f5es \u2013 a nov\u00edssima tecnologia de efici\u00eancia, a demiss\u00e3o de trabalhadores. E Virginia Woolf salienta que \u00e9 dif\u00edcil para as mulheres arrumar tempo e espa\u00e7o para escrever, porque os outros as interrompem constantemente. Por essa raz\u00e3o, as mulheres precisam de um quarto todo seu e 500 libras por ano \u2013 isto \u00e9, um espa\u00e7o fechado e uma renda b\u00e1sica constante, duas formas bem est\u00e1ticas e est\u00e1veis que nos protegem das quebras e interrup\u00e7\u00f5es \u2013 para que as mulheres possam participar da escrita e do debate na esfera p\u00fablica. Com a repeti\u00e7\u00e3o acontece algo parecido: por um lado, as formas culturais repetitivas podem nos enganar e nos fazer aceitar o status quo; por outro lado, rotinas como a alimenta\u00e7\u00e3o e o sono s\u00e3o o que literalmente asseguram a vida ao longo do tempo. (E o capitalismo \u00e9 \u00f3timo quando se trata de disruptura; como afirmou S\u00f8ren Mau, \u201co capitalismo \u00e9 a institucionaliza\u00e7\u00e3o da inseguran\u00e7a\u201d.) Portanto eu acredito que \u00e9 um erro pol\u00edtico prender uma determinada pol\u00edtica a uma forma qualquer. E, desde que eu venho revalorizando a estabilidade e a previsibilidade, eu tenho descoberto as v\u00e1rias funcionalidades afirmativas da conserva\u00e7\u00e3o \u2013 que \u00e9, por um lado, conservadora do ponto da defini\u00e7\u00e3o, e, por outro lado, \u00e9 uma precondi\u00e7\u00e3o para qualquer florescimento humano e animal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Seu livro apresenta alguns exemplos de formas liter\u00e1rias que, por meio do ritmo, da estabilidade, do ritual, do fechamento, do encerramento e das dobradi\u00e7as, nos permitem valorizar aspectos da vida que podem se tornar plataformas pol\u00edticas nas quais os movimentos sociais podem se apoiar. Em outras palavras, diferentemente do que Amitav Ghosh pensa, voc\u00ea parece afirmar que as formas liter\u00e1rias j\u00e1 est\u00e3o adaptadas \u00e0 tarefa de instrumentalizar o humanista. \u00c9 isso mesmo? Voc\u00ea \u00e9 otimista a respeito do que a literatura ainda pode realizar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CAROLINE LEVINE<\/strong>: Eu n\u00e3o acho que a literatura consegue alcan\u00e7ar sozinha qualquer mudan\u00e7a pol\u00edtica. Ela tem que trabalhar dentro e junto com os movimentos sociais em que um grande n\u00famero de pessoas se junta e exerce press\u00e3o durante longos per\u00edodos, com planos espec\u00edficos para construir alternativas ao status quo. Eu vejo o romance, a pra\u00e7a p\u00fablica e o objetivo todos como formas \u2013 e nenhum deles sozinho pode mudar o mundo. Temos que descobrir como juntar as formas para que a esquerda possa vencer. Ent\u00e3o, quais formas liter\u00e1rias v\u00e3o nos ajudar nesse trabalho? Eu acho que a maior parte da literatura que ensinamos hoje nas escolas e nas universidades nos entrega muito pouco no sentido de modelos para a a\u00e7\u00e3o coletiva. Quase todas as obras can\u00f4nicas prezam a complexidade e a ambiguidade, o que nos encoraja a sentar e pensar em vez de agir. Que tipos de obras est\u00e9ticas de fato ajudar\u00e3o os movimentos sociais a tomar forma, adquirir coes\u00e3o e perdurar? Historicamente, algumas das formas mais eficientes para os movimentos sociais s\u00e3o as can\u00e7\u00f5es \u2013 e especialmente aquelas com refr\u00f5es repetitivos, que grudam na mente \u2013 e cantos de protesto, que s\u00e3o f\u00e1ceis de memorizar e repetir. Ambos agrupam corpos e vozes. E, por conta de sua extens\u00e3o, o romance n\u00e3o promove a mesma reuni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Para finalizar, eu gostaria de falar do romance realista, seu campo de estudo. Existe uma percep\u00e7\u00e3o de que o romance cria comunidades imaginadas que n\u00e3o conseguem englobar a escala dos problemas clim\u00e1ticos. Voc\u00ea acha que o romance, enquanto forma, precisa se adaptar a essa escala a fim de melhor responder \u00e0 instrumentalidade afirmativa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CAROLINE LEVINE<\/strong>: Com o seu foco duradouro em um pequeno punhado de protagonistas, o romance \u00e9 \u00f3timo em nos fazer entender o que \u00e9 viver na pobreza ou experienciar a marginaliza\u00e7\u00e3o ou a viol\u00eancia, e o romance realista \u00e9 bem adequado para organizar um plano exequ\u00edvel para nos tirar deste mundo rumo a um mundo melhor, mas o romance <em>realmente<\/em> luta para dar conta de grupos ou multid\u00f5es. Alguns romances fazem experimenta\u00e7\u00f5es em larga escala \u2013 um protagonista pode tipificar todo um grupo social, ou a narrativa pode se movimentar ao longo de um n\u00famero de personagens maior do que o habitual (assim como <em>A Casa Soturna<\/em>, de Charles Dickens, ou <em>Their Dogs Came with Them<\/em>, de Helena Mar\u00eda Viramontes), mas mesmo nesses experimentos a escala do romance \u00e9 sempre restrita. Como formalista, eu quero reconhecer tanto as capacidades quanto as limita\u00e7\u00f5es de uma forma qualquer, e eu penso que a escala do indiv\u00edduo ou do pequeno grupo \u00e9 uma das limita\u00e7\u00f5es do romance <em>enquanto forma<\/em>. Ao mesmo tempo, a poesia pode ser surpreendentemente boa quando se trata de grupos e multid\u00f5es. Peguemos, por exemplo, o poema de Schiller, <em>An Die Freude<\/em>, musicado na Nona Sinfonia de Beethoven. Esse chamado \u00e0 solidariedade inspirou os protestantes do Chile, que cantaram a \u201cOde \u00e0 Alegria\u201d durante as manifesta\u00e7\u00f5es contra Augusto Pinochet. Mais tarde, estudantes chineses instalaram autofalantes para reproduzir a m\u00fasica no volume m\u00e1ximo enquanto os militares desciam a Pra\u00e7a Tiananmen. A m\u00fasica \u201cAlright\u201d, de Kendrick Lamar, com o seu enunciador coletivo \u201cn\u00f3s\u201d, \u00e9 outro exemplo; ela se tornou o hino informal do movimento Black Lives Matter. Em outras palavras, eu estou \u00e0 procura de formas est\u00e9ticas que prontamente permitem uma aten\u00e7\u00e3o \u00e0s grandes escalas, em vez de tentar for\u00e7ar uma forma como a do romance a realizar algo que para ela \u00e9 dif\u00edcil. Dito isso, eu mencionei antes que seria maravilhoso contar hist\u00f3rias sobre o pequeno n\u00famero de vil\u00f5es que administram as empresas de combust\u00edveis f\u00f3sseis, porque as causas da mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o s\u00e3o vastas e dispersas, mas sim chocantemente pequenas e conhec\u00edveis. Portanto, eu adoraria ver romance ap\u00f3s romance sobre como os bar\u00f5es dos combust\u00edveis f\u00f3sseis tomam as decis\u00f5es bem conscientes de mentir para n\u00f3s sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Revis\u00e3o de Giulia Santos Menegaz.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"9b4a3169-ef25-4642-82c5-06069c3eddc0\"><a href=\"https:\/\/press.princeton.edu\/books\/hardcover\/9780691250816\/the-activist-humanist?srsltid=AfmBOooOKcA1WKYHp4hdTuNV_0n0M49SRqnZbY0pFptytFo0e4uUdxPA\">LEVINE, Caroline. <em>The Activist Humanist: Form and Method in the Climate Crisis<\/em>. Princeton e Oxford: Princeton University Press, 2023<\/a>. <a href=\"#9b4a3169-ef25-4642-82c5-06069c3eddc0-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"83a9d856-5a0b-4e77-951d-b77f34a5f8c0\">AIDS Coalition to Unleash Power (ACT UP), um grupo pol\u00edtico formado em 1987, cuja principal bandeira era a luta contra a pandemia de AIDS. <a href=\"#83a9d856-5a0b-4e77-951d-b77f34a5f8c0-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 8 \u2013 julho de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado em 2023, o livro &#8220;The Activist Humanist&#8221;, de Caroline Levine, professora da Universidade de Cornell, prop\u00f5e uma forma renovada para a abordagem das quest\u00f5es clim\u00e1ticas<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":859,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"<a href=\\\"https:\/\/press.princeton.edu\/books\/hardcover\/9780691250816\/the-activist-humanist?srsltid=AfmBOooOKcA1WKYHp4hdTuNV_0n0M49SRqnZbY0pFptytFo0e4uUdxPA\\\">LEVINE, Caroline. <em>The Activist Humanist: Form and Method in the Climate Crisis<\/em>. 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