{"id":885,"date":"2025-08-10T20:13:30","date_gmt":"2025-08-10T23:13:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=885"},"modified":"2025-09-10T18:35:56","modified_gmt":"2025-09-10T21:35:56","slug":"entrevista-com-mariana-salomao-carrara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/08\/10\/entrevista-com-mariana-salomao-carrara\/","title":{"rendered":"Entrevista com Mariana Salom\u00e3o Carrara"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carlos, Guerlinda, Elvira, Alice, Maria e Pedro formam a fam\u00edlia que protagoniza o \u00faltimo romance de Mariana Salom\u00e3o Carrara, <em>A \u00e1rvore mais sozinha do mundo<\/em>.<sup data-fn=\"9d4839c9-ef43-4eda-a302-d7d9b72eaa48\" class=\"fn\"><a href=\"#9d4839c9-ef43-4eda-a302-d7d9b72eaa48\" id=\"9d4839c9-ef43-4eda-a302-d7d9b72eaa48-link\">1<\/a><\/sup> Na zona rural do Sul do Brasil, eles plantam tabaco como forma de subsist\u00eancia, em terras arrendadas de fazendeiros da regi\u00e3o, que n\u00e3o se constrangem ao cobrar um alto pre\u00e7o pela produ\u00e7\u00e3o e pelos insumos. Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 a fam\u00edlia que narra a hist\u00f3ria, sen\u00e3o os objetos da casa e, especialmente, a \u00e1rvore solit\u00e1ria que se ergue no quintal da resid\u00eancia onde os personagens residem. S\u00e3o esses objetos que, de suas perspectivas pr\u00f3prias, e com estilos peculiares, narram os tr\u00e1gicos acontecimentos que cercam a vida das mulheres e de Carlos. Ao redor de tudo isso, eventos clim\u00e1ticos extremos perturbam a ordem do trabalho e das rela\u00e7\u00f5es familiares. \u00c9, no entanto, um objeto silencioso que atua mais decididamente para o desdobramento da narrativa: o agrot\u00f3xico usado na planta\u00e7\u00e3o de tabaco devasta a sa\u00fade f\u00edsica e mental do patriarca, levando a mais d\u00edvidas, ao empobrecimento e, fatalmente, \u00e0 di\u00e1spora do campo. Nesse livro, que coloca o Antropoceno, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e as condi\u00e7\u00f5es materiais de reprodu\u00e7\u00e3o da vida no campo num Brasil assolado pelo agroneg\u00f3cio, Mariana Salom\u00e3o Carrara apresenta elementos de uma consci\u00eancia ambiental, mesclados com a sensibilidade liter\u00e1ria que marca a sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Acompanhe, abaixo, a conversa que o Carbono teve com a autora.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: No seu livro, a hist\u00f3ria \u00e9 constru\u00edda a partir de objetos que narram o cotidiano da fam\u00edlia. Com isso, voc\u00ea traz uma maior riqueza de perspectivas, que se manifesta tamb\u00e9m na varia\u00e7\u00e3o dialetal dos narradores e, at\u00e9 mesmo, na forma como cada objeto v\u00ea o cotidiano dos humanos. De que modo essa escolha pelos objetos-narradores traz, para os leitores, uma maior compreens\u00e3o dessa interrela\u00e7\u00e3o entre o humano e o vegetal, o humano e o material?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>MARIANA SALOM\u00c3O CARRARA: <\/strong>Vejo esses narradores n\u00e3o-humanos como espi\u00f5es dom\u00e9sticos, que t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o afetiva com a hist\u00f3ria da fam\u00edlia. A fam\u00edlia n\u00e3o enxerga neles a consci\u00eancia que t\u00eam, mas, ainda assim, ama-os de volta, j\u00e1 que tamb\u00e9m os objetos e a \u00e1rvore s\u00e3o registros materiais da hist\u00f3ria deles, dos tempos antes do casamento, dos tempos antes das d\u00edvidas, da \u00e9poca das filhas pequenas. Ao acompanharmos os sentimentos e a trag\u00e9dia da fam\u00edlia pelo olhar afetivo desses que vivem ali em sil\u00eancio com eles, ganhamos tamb\u00e9m essa camada de carinho que eles j\u00e1 trazem ao relato, e, \u00e0 medida que os humanizamos, vai ficando mais emba\u00e7ada e t\u00eanue a fronteira que separa humanos da natureza ao redor e dos objetos. Talvez essa mistura seja uma forma mais ambientalmente adequada de enxergarmos nossa exist\u00eancia. Pode ser que lidemos melhor com as coisas do mundo se formos tamb\u00e9m essas coisas; somos nossa caminhonete, somos a \u00e1rvore, somos o nosso lixo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Me parece que esse recurso dos objetos-narradores torna o seu livro ainda mais especial. A antropomorfiza\u00e7\u00e3o da \u00e1rvore, do espelho, da Rural e do equipamento de prote\u00e7\u00e3o casa perfeitamente com a ideia de que, num contexto de maior aten\u00e7\u00e3o ao clima, humanos e objetos vivem em correla\u00e7\u00f5es m\u00fatuas. Por\u00e9m, o principal objeto do livro \u2013 o agrot\u00f3xico \u2013 n\u00e3o ganha voz, ainda que seja determinante para o desenrolar da trama. A que se deve esse sil\u00eancio? Voc\u00ea considerou colocar o agrot\u00f3xico como narrador em algum momento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>MARIANA SALOM\u00c3O CARRARA: <\/strong>N\u00e3o me ocorreu essa ideia, talvez porque n\u00e3o me parecesse positivo humanizar o veneno. Os agrot\u00f3xicos pesad\u00edssimos do tabaco s\u00e3o uma coisa morta e que mata. Por outro lado, j\u00e1 me fazia sentido dar voz ao equipamento de seguran\u00e7a individual, a roupinha, e coloc\u00e1-la como a \u00fanica roupa mais \u201cjovem\u201d, com oito anos, o que trazia o contraste da narra\u00e7\u00e3o ing\u00eanua, infantil, justo no momento mais grave do contato da fam\u00edlia com o agrot\u00f3xico. Isso reflete um pouco tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o deles com o veneno, como mais uma das tarefas implac\u00e1veis da lavoura, obedecendo \u00e0s regras da \u201cfirma\u201d e do \u201corientador\u201d, sem grande problematiza\u00e7\u00e3o e sem que haja espa\u00e7o tamb\u00e9m para contestar o uso de cada defensivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Na verdade, a ideia do veneno, da toxina, perpassa todo o romance. Maria constantemente se envenena com a nicotina do tabaco. Carlos sofre as consequ\u00eancias diretas da lida com o agrot\u00f3xico. A mudez de Pedro pode tamb\u00e9m ter sido causada pelo defensivo agr\u00edcola durante a gravidez de Guerlinda. Parece que tudo o que acontece no livro tem como origem o veneno, desde a mudan\u00e7a no comportamento de Carlos at\u00e9, por consequ\u00eancia disso, o inc\u00eandio no final. Voc\u00ea pretendia que o livro fosse lido como uma alegoria do presente clim\u00e1tico, em que estamos sendo envenenados por g\u00e1s carb\u00f4nico, micropl\u00e1sticos e outros res\u00edduos qu\u00edmicos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>MARIANA SALOM\u00c3O CARRARA:<\/strong> \u00c9 interessante a leitura como alegoria do nosso apocalipse clim\u00e1tico, nossos envenenamentos. Mas tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o bastante literal, inspirada nas reportagens sobre a epidemia de suic\u00eddios&nbsp;no Rio Grande do Sul, associada aos agrot\u00f3xicos pesados do fumo. Tamb\u00e9m as estufas mais simples, com a falta de dinheiro para manuten\u00e7\u00e3o, comumente se incendeiam. Ent\u00e3o esses retratos s\u00e3o bastante inspirados na realidade do plantio de tabaco no Brasil.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Al\u00e9m disso, outra presen\u00e7a constante, embora esquiva, \u00e9 o clima. Enchentes e ondas de calor se alternam, prejudicando a produ\u00e7\u00e3o na lavoura. A sazonalidade previs\u00edvel dos romances rurais do passado d\u00e1 lugar \u00e0 imprevisibilidade e \u00e0 impetuosidade do clima. E, no entanto, a fam\u00edlia de Carlos e Guerlinda parece lidar com isso com resigna\u00e7\u00e3o, o que torna o clima ainda mais elusivo. Voc\u00ea diria que ainda \u00e9 dif\u00edcil dar mais destaque ao clima dentro da forma romanesca? Ou a resigna\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia \u00e9, no fundo, uma alegoria da apatia contempor\u00e2nea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>MARIANA SALOM\u00c3O CARRARA: <\/strong>Acredito que a rela\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia com as intemp\u00e9ries \u00e9 mais de resigna\u00e7\u00e3o, no sentido de n\u00e3o verem tamb\u00e9m nenhuma escapat\u00f3ria \u2013 como a \u00e1rvore gosta de dizer, parece que eles t\u00eam mais ra\u00edzes fincadas ali do que ela \u2013 e tamb\u00e9m de esperan\u00e7a \u2013 que \u00e9 um sentimento que a \u00e1rvore n\u00e3o compreende, parece descabido. Tamb\u00e9m se pode pensar que, ao mesmo tempo que a humanidade est\u00e1 implicada e \u00e9 respons\u00e1vel pelas cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas, h\u00e1 humanos que as sentir\u00e3o primeiro e mais violentamente, e s\u00e3o os mais vulner\u00e1veis, perdendo ali toda a sua planta\u00e7\u00e3o a cada oscila\u00e7\u00e3o fora do previsto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Outro elemento que me parece determinante \u00e9 a d\u00edvida, que, por sua vez, gera a pobreza. Seu livro n\u00e3o narra uma fam\u00edlia totalmente pobre, mas sim uma fam\u00edlia que vai empobrecendo por meio da despossess\u00e3o e do endividamento. At\u00e9 o veneno utilizado na planta\u00e7\u00e3o \u00e9 comprado por meio da d\u00edvida, que vai minando os sonhos e as rela\u00e7\u00f5es familiares. Como voc\u00ea chegou a essa ideia de equiparar a d\u00edvida e o agrot\u00f3xico como duas coisas que corroem as rela\u00e7\u00f5es humanas e ecol\u00f3gicas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>MARIANA SALOM\u00c3O CARRARA:<\/strong> Essa ideia veio de uma <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-37491144#:~:text=Agrot%C3%B3xicos%20e%20depress%C3%A3o&amp;text=O%20mesmo%20estudo%20mostrava%20aumento,chances%20de%20depress%C3%A3o%20dos%20agricultores\">reportagem da BBC<\/a> que expunha exatamente essas duas situa\u00e7\u00f5es, o hiperendividamento e a depress\u00e3o por agrot\u00f3xicos, no contexto de algumas fam\u00edlias plantadoras de tabaco no Sul do Brasil. Ent\u00e3o, essa \u00e9 a parte bem literal do livro, que me motivou a mergulhar nas pesquisas pra entender bem a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Por fim, o romance recupera outros t\u00f3picos que j\u00e1 estavam presentes em&nbsp;<em>N\u00e3o fossem as s\u00edlabas do s\u00e1bado<\/em>: a maternidade e o cuidado feminino do lar. Por\u00e9m, diferentemente da trag\u00e9dia pessoal de Ana, a trag\u00e9dia de Guerlinda, Elvira, Alice e Maria \u00e9 de cunho socioambiental e econ\u00f4mico. Em rela\u00e7\u00e3o a esses t\u00f3picos, que diferen\u00e7as existem entre um romance e outro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>MARIANA SALOM\u00c3O CARRARA:<\/strong> Os dois romances mantiveram as minhas tend\u00eancias a tratar do dom\u00e9stico, \u00edntimo, na primeira \u201cpessoa\u201d (ainda que dessa vez fora dos humanos), e tamb\u00e9m o tema da maternidade (nesse caso tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es envolvidas) e a rela\u00e7\u00e3o entre as mulheres. Acredito que o contexto social e a mudan\u00e7a radical das cidades para o campo sejam as grandes diferen\u00e7as. Fazia tempo que eu queria mergulhar em algum of\u00edcio muito espec\u00edfico e retrat\u00e1-lo minuciosamente, e acabei fazendo isso com a lavoura de tabaco e essa fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * * <\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"9d4839c9-ef43-4eda-a302-d7d9b72eaa48\"><a href=\"https:\/\/todavialivros.com.br\/livros\/a-arvore-mais-sozinha-do-mundo\">CARRARA, Mariana Salom\u00e3o. <em>A \u00e1rvore mais sozinha do mundo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Todavia, 2024<\/a>. <a href=\"#9d4839c9-ef43-4eda-a302-d7d9b72eaa48-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 9 \u2013 agosto de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nessa conversa com a autora vencedora do Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo de Literatura de 2023, tratamos de como a literatura aborda as quest\u00f5es sociais e ambientais no presente marcado, entre outras coisas, pelos agrot\u00f3xicos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":894,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"<a href=\\\"https:\/\/todavialivros.com.br\/livros\/a-arvore-mais-sozinha-do-mundo\\\">CARRARA, Mariana Salom\u00e3o. <em>A \u00e1rvore mais sozinha do mundo<\/em>. 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